domingo, 17 de julho de 2016

VÍDEO = Quinteto Violado


CONTO = Arthur Azevedo



Um Don Juan de Província

  Quando fui pela primeira vez àquela patriarcal cidade de província, o Linhares, que eu chamava primo, por ser filho da primeira mulher de meu pai, não quis que eu ficasse no hotel, e levou-me para sua casa, onde havia um quarto de hóspedes.
Durante os dias que ali me demorei fui carinhosamente tratado, e ainda hoje sou reconhecido aos favores do primo Linhares e de sua família, senhora e cinco senhoritas casadeiras.
Eu não fazia outra coisa todos os dias senão passear pela cidade, e à tarde, depois de jantar, o primo Linhares mandava colocar sete cadeiras no passeio, à porta da rua, e ele, a senhora, as senhoritas e eu sentavam-nos ao ar livre, e conversávamos até ao escurecer. Era muito divertido.
Numa das tardes em que estávamos assim, perambulando sobre os mais variados assuntos, surgiu de uma esquina, a cem passos do lugar em que nos achávamos, o vulto esguio de um rapaz moreno, de grandes bigodes, envolto numa capa espanhola e com a cabeça coberta por um grande chapéu desabado.
O primo Linhares, mal que o viu, ergueu-se e disse imperiosamente às senhoritas:
- Meninas, vão para dentro: vem ali o Flávio Antunes!...
As cinco senhoritas levantaram-se e desapareceram, correndo no interior da casa.
E o primo Linhares explicou-me:
- Aquele Flávio Antunes é um patife, um sedutor de senhoras casadas, um Don Juan!... Não consinto que as pequenas olhem para ele!... Não há nesta cidade sujeito mais desmoralizado! Nenhum pai de família honrado o recebe em casa!
E como o tal Flávio Antunes se aproximasse:
- Olhe para aquele todo! Veja! - o tipo completo do conquistador!...
E o transeunte, que era, efetivamente, um rapagão, passou fazendo ao primo Linhares um cumprimento, que não foi correspondido.

* * *
Um ano depois, o primo veio ao Rio de Janeiro. Fui recebê-lo na estação da Estrada de Ferro, e tratei logo de perguntar pela família.
- Estão todos bons. A minha pequena mais velha foi pedida à semana passada.
- Por quem?
- Por um excelente rapaz - o Flávio Antunes.
- Perdão... mas o Flávio Antunes não era...
- Era sim! mas que quer você? Com aquela coisa de mandar as meninas para dentro todas as vezes que ele passava lá por casa, fiz-lhe um extraordinário reclame! Todas elas gostavam dele, e ele gostou da mais velha!
- Ora! Hão de ser muito felizes.
- Sim, mesmo porque, melhor informado, me convenci de que a má reputação do pobre rapaz era unicamente devida àquela capa espanhola e aquele chapéu desabado!
- Deveras?
- Eram mais as nozes que as vozes, e se algumas falcatruas fez ele, coitado, foi em conseqüência do reclame que lhe fazíamos, eu e outros pais de família.

 ARTHUR AZEVEDO
SÃO LUÍS-MA  =  1855-1908

POESIA-IMAGEM = Diversas




HUMOR











PIADA



As Mulheres E O Álcool

A mulher vai buscar o resultado de uns exames do marido no hospital e a doutora alerta:
— O seu marido está com cirrose, gastrite, tuberculose, pneumonia... A senhora não acha que ele anda bebendo demais?
— Ai, nem me fale, Doutora! Aquele homem só pensa em beber, beber, beber!
— Mas isso tem solução! — consola a médica — Sabia que o meu ex-marido era igualzinho?
— Não me diga...
— Digo sim! — continuou ela — Ele tinha um teor altíssimo de álcool no sangue! Mas eu descobri que o maior problema dele era falta de fósforo!
— Que interessante! — exclamou a mulher — Então a senhora usou vitaminas para curá-lo?
— Não! Eu só risquei um fósforo perto dele!

POESIA = Tobias Barreto



A Escravidão


Se Deus é quem deixa o mundo
Sob o peso que o oprime,
Se ele consente esse crime,
Que se chama a escravidão,
Para fazer homens livres,
Para arrancá-los do abismo,
Existe um patriotismo
Maior que a religião.

Se não lhe importa o escravo
Que a seus pés queixas deponha,
Cobrindo assim de vergonha
A face dos anjos seus,
Em seu delírio inefável,
Praticando a caridade,
Nesta hora a mocidade
Corrige o erro de Deus!...

TOBIAS BARRETO
VILA DE CAMPOS-SE = 1839-1889

GRANDES PINTORES

 ILYA REPIN = Rússia, 1844-1930
 ILYA REPIN
 ILYA REPIN
 ILYA REPIN
 ILYA REPIN
 ILYA REPIN
 ILYA REPIN
 ILYA REPIN
ILYA REPIN = Rússia, 1844-1930

CRÔNICA = Machado de Assis




A Superioridade Da Aranha
Em “A Sereníssima República"


“Senhores, cumpre vencer os preconceitos. A aranha parece-vos inferior, justamente porque não a conheceis. Amais o cão, prezais o gato e a galinha, e não advertis que a aranha não pula nem ladra como o cão, não mia como o gato, não cacareja como a galinha, não zune nem morde como o mosquito, não nos leva o sangue e o sono como a pulga. Todos esses bichos são o modelo acabado da vadiação e do parasitismo. A mesma formiga, tão gabada por certas qualidades boas, dá no nosso açúcar e nas nossas plantações, e funda a sua propriedade roubando a alheia. A aranha, senhores, não nos aflige nem defrauda; apanha as moscas, nossas inimigas, fia, tece, trabalha e morre. Que melhor exemplo de paciência, de ordem, de previsão, de respeito e de humanidade? Quanto aos seus talentos, não há duas opiniões. Desde Plínio até Darwin, os naturalistas do mundo inteiro formam um só coro de admiração em torno desse bichinho, cuja maravilhosa teia a vassoura inconsciente do vosso criado destrói em menos de um minuto. Eu repetiria agora esses juízos, se me sobrasse tempo; a matéria, porém, excede o prazo, sou constrangido a abreviá-la. Tenho-os aqui, não todos, mas quase todos; tenho, entre eles, esta excelente monografia de Büchner, que com tanta subtileza estudou a vida psíquica dos animais. Citando Darwin e Büchner, é claro que me restrinjo à homenagem cabida a dois sábios de primeira ordem, sem de nenhum modo absolver (e as minhas vestes o proclamam) as teorias gratuitas e errôneas do materialismo.”

MACHADO DE ASSIS
RIO DE JANEIRO-RJ, 1839-1908