domingo, 9 de julho de 2017

Briga Na Procissão

 
Quando Palmeira das Antas pertencia ao Capitão Bento Justino da Cruz
Nunca faltou diversão:
Vaquejada, cantoria, procissão e romaria sexta-feira da paixão
Na quinta-feira maior, Dona Maria das Dores
No salão paroquial reunia os moradores
E ao lado do Capitão fazia a seleção de atrizes e atores
O papel de cada um o Capitão que escolhia
A roupa e a maquilagem eram com Dona Maria
O resto era discutido, aprovado e resolvido na sala da sacristia.
 
Todo ano era um Jesus, um Caifaz e um Pilatos
Só não faltavam a cruz, o verdugo e os maus-tratos
O Cristo daquele ano foi o Quincas Beija-Flor
Caifaz foi Cipriano, Pilatos foi Nicanor.
 
Duas cordas paralelas separavam a multidão
Pra que pudesse entre elas caminhar a procissão
Cristo conduzindo a cruz foi não foi advertia
Pro centurião perverso que com força lhe batia
Era pra bater maneiro mas ele não entendia
Devido a um grande pifão que bebeu naquele dia
Do vinho que o capelão guardava na sacristia.
 
Cristo dizia: ôh, rapaz, vê se bate devagar
Já estou todo encalombado, assim não vou aguentar
Tá com a gota pra doer,
Ou tu pára de bater ou a gente vai brigar.
 
O pior é que o malvado fingia que não ouvia
E além de bater com força ainda se divertia,
Espiava pra Jesus fazia pouco e dizia
Que Cristo frouxo é você, que chora na procissão
Jesus pelo que eu saiba não era mole assim não.
 
Eu tô batendo com pena, Tu vai ver o que é bom
Na subida da ladeira da venda de Fenelon
O couro vai ser dobrado
Daqui até o mercado a cuíca muda o som.
 
Naquele momento ouviu-se um grito na multidão
Era Quincas que com raiva sacudia a cruz no chão
E partia feito um maluco pra cima de Bastião
Se travaram no tabefe, ponta-pé e cabeçada
Madalena levou queda, Pilatos levou pancada
Deram um bofete em Caifaz
Que até hoje não faz nem sente gosto de nada.
 
Desmancharam a procissão, o cacete foi pesado
São Tomé levou um tranco que ficou desacordado
Deram um cocorote na careca de Timóti que até hoje é aluado
Até mesmo São José, que não é de confusão
Na ânsia de defender o filho de criação
Aproveitou a garapa pra dar um monte de tapa na cara do bom ladrão.
 
A briga só terminou quando o Doutor Delegado,
Interviu e separou: cada Santo pro seu lado
E desde que o mundo se fez,
Foi essa a primeira vez
Que Cristo foi pro xadrez,
Mas não foi crucificado
 

CHICO PEDROSA
GUARABIRA-PB = 1936




POESIA = Gilberto Freyre


Jangada Triste

(1911)


Ao longe, mui longe, no horizonte,
além, muito além daquele monte,
como ave que voa desdenhada,
flutua tristemente uma jangada.

Nos zangados soluços do oceano,
quase desaparece o canto humano
de quem no mar e céu inda confia
porque em terra tudo lhe é melancolia.

Isso de terra firme e mar traiçoeiro
nem sempre é certo para o jangadeiro
mais preso ao fiel sal que à incerta areia.

Mistura ao grande azul as suas mágoas
e encontra no vaivém das verdes águas
consolo às negras dores cá da terra.



GILBERTO FREYRE

RECIFE-PE = 1900-1987







POESIA = Everardo Norões

A Construção


Por detrás da poeira, a solidão.
E os andaimes que descem na memória:
um espaço desnudo, sem história.
E as sombras do Mestre pelo chão.

O ferrolho a ranger, a porta aberta;
as pequenas lições de geometria.
Os passos das escadas. Sobre a pia,
a mão lavando o pó da descoberta.

Os planos que se cruzam. O batente
do portão a se abrir ao Oriente:
o fantasma de mim dentro da sala.

O reboco caiado dos abismos.
Sobre as plantas, segredos e algarismos.
E o som da tua voz na minha fala.

EVERARDO NORÕES
CRATO-CE = 1944


Grandes Pintores = SALVADOR DALI (Espanha 1904 - 1989)

Pintor surrealista














POESIA = Raimundo Correia

Último Porto

Este o país ideal que em sonhos douro;
Aqui o estro das aves me arrebata,
E em flores, cachos e festões, desata
A Natureza o virginal tesouro;

Aqui, perpétuo dia ardente e louro
Fulgura; e, na torrente e na cascata,
A água alardeia toda a sua prata,
E os laranjais e o sol todo o seu ouro...

Aqui, de rosas e de luz tecida,
Leve mortalha envolva estes destroços
Do extinto amor, que inda me pesam tanto;

E a terra, a mãe comum, no fim da vida,
Para a nudeza me cobrir os ossos,
Rasgue alguns palmos do seu verde manto.

RAIMUNDO CORREIA
MARANHÃO, 1859-1911


PENSAMENTOS










HUMOR















POESIA = Adelmar Tavares

Corpo E Sombra
MANTIDA A ORTOGRAFIA ORIGINAL

“O corpo que hoje viste, ao fim do dia,
Seguir para uma cova que o esperava
Oitenta annos viveu... E não cansava!
Quem cansou foi a sombra que o seguia...

Oitenta annos em sua companhia,
Arrastada por terra como escrava!
Só quando elle no escuro repousava,
Ella no escuro repousar podia.

Oitenta annos! Liberta, finalmente,
Agora que o meteram n’um jazigo,
Sae lésta e leve, a espairecer contente...

E parece que em jubilo profundo,
Diz: - Emfim, só! Depois de haver comtigo
Errado, quase um seculo no mundo!...”

ADELMAR TAVARES

RECIFE-PE  =  1888-1963

CONTO = Humberto de Campos

Incredulidade

O deputado Belarmino Guedes e o capitão-tenente Correa Jorge haviam descido de um bonde de Botafogo na Galeria Cruzeiro, quando o primeiro apontou um vulto feminino que caminhava diante deles, o passinho apressado.
- Bonita pequena! - disse.
O outro concordou:
- É muito linda. É mesmo, uma das mulheres mais bonitas do Rio.
Enquanto os dois conversavam, a figurinha fugia, na frente, ganhando distância, como se compreendesse os comentários que despertava. Era um tipo miúdo de brasileirinha elegante. Cabelo cortado, boquita vermelha, pele de seda naturalmente colorida, vestia a moça, nessa tarde, um costume de inverno azul-marinho, bordado de vermelho e verde na bainha da saia e da jaqueta frouxa. O chapéu azul, com flores de cor dos enfeites do vestido, parecia, na sua cabecita graciosa, mais um brinquedo de criança do que uma coquetaria de mulher. E quando caminhava, ligeira, ágil, fugitiva, era como se fizesse malabarismos para sustentar sobre a cabeça gentil aquela pequenina pétala de rosa encantada.
- É realmente, muito linda, - tornou Belarmino Guedes.
- E o marido é um belo homem.
- Que marido, nada! - protestou o primeiro, voltando-se. - Ela não é casada; é solteira, ainda.
- Ora, deixa-te disso! - objetou Correa Jorge. - Eu a conheço muito. ''É mulher do Batista Carvalho, que advoga com o Paulo Simpson!
A discussão animou-se. Correa Jorge entendia que a dama era, já, esposa. Belarmino Guedes achava que não: era uma menina solteira, filha do comendador Lopes Aires.
- Olha, filho - acabou por dizer Correa Jorge; - podes afirmar o que quiseres: mas eu não creio que aquela menina já esteja casada. Eu sou como São Tomé.
E parando no passeio, para acender o cigarro:
- São Tomé só acreditou depois que pôs o dedo na chaga.

HUMBERTO DE CAMPOS

MIRITIBA-MA  =  1886 / 1934

domingo, 18 de junho de 2017

Conto = Stanislaw Ponte Preta

Paraíba


    Azevedo e Peçanha vestiram o paletó e desceram para a rua, na disposição de fazer uma farrinha.  Ainda no elevador, Azevedo fez ver a Peçanha que o laço de sua gravata estava um pouco frouxo. Peçanha agradeceu e ajeitou o laço.  Afinal, iam em demanda de uma aventura amorosa e a elegância era detalhe importante.
    Caminharam pela Avenida N. S. de Copacabana e foram subindo em direção ao Lido, conversando animadamente e só interrompiam a conversa quando passava uma moça.  Sozinha ou acompanhada, todas as moças que passavam por Azevedo e Peçanha ganhavam olhares pidões, tão comuns aos conquistadores baratos, de beira de calçada.
    Era sábado, dia em que se definem os que andam pela aí, caçando o amor.  Azevedo parou na esquina do Lido e perguntou para Peçanha:
    - Que tal se nós fôssemos até o “Alfredão”?
    Peçanha achou que lá havia sempre muita concorrência. As mulheres supostamente fáceis, quando há muita gente em volta, dando em cima, tornam-se superiores e esquivas, fazendo-se mais preciosas pela disputa de seus carinhos. Mas como Azevedo ponderasse que muito dos homens que vão ao “Alfredão” não chegam a ser propriamente homens. Peçanha concordou.
    Entraram no bar, Azevedo acendeu um charuto, ofereceu outro a Peçanha, que recusou com um gesto másculo.  Preferia cachimbo, que tirou do bolso e começou a encher de fumo, enquanto pediam algo para beber.  O garçom acabou partindo para ir buscar uísque puro, só com gelo e olhe lá.
    Uma garota de olheiras profundas passou pela mesa e Peçanha mexeu com ela.  A garota sorriu.  Então Azevedo convidou-a para tomar alguma coisa.  E como as demais pequenas que estavam no bar pareciam todas acompanhadas, ficou só aquela para ser dividida entre Azevedo e Peçanha.
    No fim de algum tempo, tanto Peçanha como Azevedo estavam caindo de tanta bebida.  Pagaram a conta.  Azevedo apagou o resto do charuto no cinzeiro e quis partir só, rebocando a pequena.  Peçanha estranhou a atitude de Azevedo, acabaram discutindo e começou o clássico festival de bolacha.  Entrou a turma do deixa-disso, veio o guarda e o resultado da farra ali estava: além da garota disputada a tapa, também foram parar no xadrez as duas brigonas.
    Sim, porque o nome todo de Azevedo é Maria Tereza Azevedo.  Quanto a Peçanha: Walquíria.  Walquíria Peçanha.

STANISLAW PONTE PRETA
PSEUDÔNIMO DE SÉRGIO PORTO

RIO DE JANEIRO-RJ,1923-1968

PRAIAS DE PERNAMBUCO = BRASIL