domingo, 14 de agosto de 2016
POESIA = Carlos Pena Filho
Soneto Do Recanto
Num recanto sem data e sem
ternura,
e mais, sem pretensão a ser
recanto,
descobri em teu corpo o amargo
canto
de quem despenca para a
desventura.
Há nos recantos sempre uma
segura
desvantagem de unir o desencanto
e é por isto talvez que não
me espanto
de ali perder teu corpo e a
ventura
de viver entre atento e
descuidado,
mirando o pardo tédio que
descansa
nos subúrbios do amor
desmantelado.
E só para ganhar mais espessura
eu resolvi fazer esta lembrança
de um recanto sem data e sem
ternura.
CARLOS PENA FILHO
RECIFE-PE = 1929-1960
CRÔNICA = José Lins do Rego
O Rio
O rio Paraíba corria bem próximo ao cercado. Chamavam-no "o rio". E era tudo. Em tempos antigos fora muito mais estreito. Os marizeiros e as ingazeiras apertavam as duas margens e as águas corriam em leito mais fundo. Agora era largo e, quando descia nas grandes enchentes, fazia medo. Contava-se o tempo pelas eras das cheias. Isto se deu na cheia de 93, aquilo se fez depois da cheia de 68. Para nós meninos, o rio era mesmo a nossa serventia nos tempos de verão, quando as águas partiam e se retinham nos poços. Os moleques saíam para lavar os cavalos e íamos com eles. Havia o Poço das Pedras, lá para as bandas da Paciência. Punham-se os animais dentro d'água e ficávamos nos banhos, nos cangapés. Os aruás cobriam os lajedos, botando gosma pelo casco. Nas grandes secas o povo comia aruá que tinha gosto de lama. O leito do rio cobria-se de junco e faziam-se plantações de batata-doce pelas vazantes. Era o bom rio da seca a pagar o que fizera de mau nas cheias devastadoras. E quando ainda não partia a corrente, o povo grande do engenho armava banheiros de palha para o banho das moças. As minhas tias desciam para a água fria do Paraíba que ainda não cortava sabão.
O rio para
mim seria um ponto de contato com o mundo. Quando estava ele de barreira a
barreira, no marizeiro maior, amarravam a canoa que Zé Guedes manobrava.
Vinham
cargueiros do outro lado pedindo passagem. Tiravam as cangalhas dos cavalos e,
enquanto os canoeiros remavam a toda a força, os animais, com as cabeças
agarradas pelo cabresto, seguiam nadando ao lado da embarcação. Ouvia então a
conversa dos estranhos. Quase sempre eram aguardenteiros contrabandistas que
atravessavam, vindos dos engenhos de Itambé com destino ao sertão. Falavam do
outro lado do mundo, de terras que não eram de meu avô. Os grandes do engenho
não gostavam de me ver metido com aquela gente. Às vezes o meu avô aparecia
para dar gritos. Escondia-me no fundo da canoa até que ele fosse para longe.
Uma vez eu e o moleque Ricardo chegamos na beira do rio e não havia ninguém. O
Paraíba dava somente um nado e corria no manso, sem correnteza forte. Ricardo
desatou a corda, meteu-se na canoa comigo, e quando procurou manobrar era
impossível. A canoa foi descendo de rio abaixo aos arrancos da água. Não havia
força que pudesse contê-la. Pus-me a chorar alto, senti-me arrastado para o fim
da terra. Mas Zé Guedes, vendo a canoa solta, correu pela beira do rio e foi
nos pegar quase que no Poço das Pedras. Ricardo nem tomara conhecimento do
desastre. Estava sentado na popa. Zé Guedes porém deu-lhe umas lapadas de
cinturão e gritou para mim:
- Vou
dizer ao velho!
Não disse
nada. Apenas a viagem malograda me deixou alarmado. Fiquei com medo da canoa e
apavorado com o rio. Só mais tarde é que voltaria ele a ser para mim mestre de
vida.
JOSÉ LINS DO REGO
PILAR-PB
= 1901-1957
POESIA = Fernando Pessoa
O
Cego E A Guitarra
O ruído vário da rua
Passa alto por mim que sigo.
Vejo: cada coisa é sua
Oiço: cada som é consigo.
Sou como a praia a que invade
Um mar que torna a descer.
Ah, nisto tudo a verdade
É só eu ter que morrer.
Depois de eu cessar, o ruído.
Não, não ajusto nada
Ao meu conceito perdido
Como uma flor na estrada.
Cheguei à janela
Porque ouvi cantar.
É um cego e a guitarra
Que estão a chorar.
Ambos fazem pena,
São uma coisa só
Que anda pelo mundo
A fazer ter dó.
Eu também sou um cego
Cantando na estrada,
A estrada é maior
E não peço nada.
FERNANDO
PESSOA
PORTUGAL, 1888-1935
CRÔNICA = Affonso Romano de Sant'Anna
Mineiro
Diante Do Mar
Me lembro dessa cena: um
adolescente chegando ao Rio e o irmão lhe prevenindo: "Amanhã vou te
apresentar o mar". Isto soava assim: amanhã vou te levar ao outro lado do
mundo, amanhã te ofereço a Lua. Amanhã você já não será o mesmo homem.
E a cena continuou: resguardado
pelo irmão mais velho, que se assentou no banco do calçadão, o adolescente,
ousado e indefeso, caminha na areia para o primeiro encontro com o mar. Ele não
pisava na areia. Era um oásis a caminhar. Ele não estava mais em Minas, mas
andava num campo de tulipas na Holanda. O mar, a primeira vez, não é um rito
que deixe um homem impune. Algo nele vai-se aprofundar.
E o irmão lá atrás, respeitoso,
era a sentinela, o sacerdote que deixa o iniciante no limiar do sagrado,
sabendo que dali para a frente o outro terá que, sozinho, enfrentar o dragão. E
o dragão lá vinha soltando pelas narinas as ondas verdes de verão. E o pequeno
cavaleiro, destemido e intimidado, tomou de uma espada ou pedaço de pau
qualquer para enfrentar a hidra que ondeava mil cabeças, e convertendo a arma
em caneta ou lápis, começou a escrever na areia um texto que não terminará
jamais. Que é assim o ato de escrever: mais que um modo de se postar diante do
mar, é uma forma de domar as vagas do presente convertendo-o num cristal passado.
Não, não enchi a garrafinha de
água salgada para mostrar aos vizinhos tímidos retidos nas montanhas, e fiz
mal, porque muitos morreram sem jamais terem visto o mar que eu lhes trazia.
Mas levei as conchas, é verdade, que na mesa interior marulhavam lembranças de
um luminoso encontro de amor com o mar.
Certa vez um missionário branco
pregava a negros africanos, e ao convertê-los dizendo que Cristo havia morrido
por eles há dois mil anos, ouviu do chefe da tribo a seguinte recriminação:
"Então, ele morreu há dois mil anos e só agora o senhor vem nos
contar?" É a mesma coisa com o mar, encontrá-lo assim numa tarde como numa
tarde se encontra o amor, é pensar: "Como pude viver até hoje sem esse
amor, como pude viver na ausência do mar?".
Certa vez, adolescente ainda nas
montanhas, li uma crônica onde um leitor de Goiás pedia à cronista que lhe
explicasse, enfim, o que era o mar. Fiquei perplexo. Não sabia que o mar fosse
algo que se explicasse. Nem me lembro da descrição. Me lembro apenas da
pergunta. Evidentemente eu não estava pronto para a resposta. A resposta era o
mar. E o mar eu o conheci, quando pela primeira vez aprendi que a vida não é a
arte de responder, mas a possibilidade de perguntar.
Os cariocas vão achar estranho,
mas devo lhes revelar: carioca , com esse modo natural de ir à praia,
desvaloriza o mar. Ele vai ao mar com a sem-cerimônia que o mineiro vai ao
quintal. E o mar é mais que horta e quintal. É quando atrás do verde-azul do
instante o desejo se alucina num cardume de flores no jardim. O mar é isso: é
quando os vagalhões das noites se arrebentam na aurora do sim.
Ver o mar a primeira vez, eu lhes
digo, é quando Guimarães Rosa pela primeira vez, por nós, viu o sertão. Olhar o
mar, a primeira vez, foi aquele dia em que Daniel entrou na jaula dos leões e eles lhe
lamberam os pés. Ver o mar a primeira vez é quase abrir o primeiro consultório,
fazer a primeira operação. Ver o mar a primeira vez é comprar pela primeira vez
uma casa nas montanhas: que surpresas ondearão entre a lareira e a mesa de
vinhos e queijos! Ver o mar a primeira vez é assistir ao parto do primeiro
filho ou filha, quando a mulher se abre em ondas e gemidos de amor e vida.
O mar é o mestre da primeira vez
e não pára de ondear suas lições. Nenhuma onda é a mesma onda. Nenhum peixe o
mesmo peixe. Nenhuma tarde a mesma tarde. O mar é um morrer sucessivo e um
viver permanente. Ele se desfolha em ondas e não para de brotar. A
contemplá-lo, ao mesmo tempo sou jovem e envelheço.
O mar é recomeço.
AFFONSO
ROMANO DE SANT'ANNA
BELO
HORIZONTE-MG = 1937
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