domingo, 1 de maio de 2016

CRÔNICA = Gouveia Marinho



A Promessa De Manuel

   A notícia chegou cedo. Era um domingo. O menino passara no vestibular. Acabava de ler no “Diário de Pernambuco”.
Por pouco não caiu de alegria.
   Lembrou-se, então da promessa, feita em segredo. Urgia cumprí-la. Ia fazê-lo naquele instante mesmo. E não era sem uma imensa satisfação.
   Realizado, enfim, o seu mais ardente desejo. Tão ardente e  tão dominador que, a despeito de protestante, prometeu à Senhora do Rosário, a padroeira, prometeu... Não o impossível, que o impossível não se promete a santa daquela alta hierarquia celeste. Não o impossível, mas o burlesco a que vamos assistir.
Despiu o paletó, descalçou os sapatos e as meias e, pés no chão, sem gravata, saiu rua fora, com grande espanto de Lúcia, a esposa, a qual, se não fosse o temperamento fleugmático com que nascera, teria corrido atrás dele, e apenas lhe perguntou:
   - Para onde vai você, Manuel?
Pergunta essa que não mereceu resposta de quem ia como um sonâmbulo, levado do afã de – homem de palavra, que sempre fora – ainda uma vez zelá-la...
   Dessarte, transpôs a Rua do Amparo, onde morava perto da velha e inestética igreja; saiu na Praça João Pessoa ao pé do obelisco; enfiou pela Travessa do Fonseca; varou transversalmente a Rua Direita; avançou pelo Beco das Pedras; dobrou na Rua do Meio à esquerda, e foi parar na Rua da Ponte, onde outrora tivera armazém de côcos, sal e albardas.
   Aí penetrou na bodega de Valdomiro, pediu aguardente e tomou um gole, dispensando o tira-gosto. Como dos estilos, deitou fora o resto da cachaça; pagou, e ia a sair, quando foi visto por velho e bisbilhoteiro conhecido seu, que entrava na tasca.
   - Oxente, sô Manel, que é isso! Tava bebendo?
   Manuel não deu trela. Descalço, em mangas de camisa, o peito desabotoado pondo-lhe à mostra o tórax cabeludo, fez-se de volta à casa, duplamente satisfeito: por te o filho vencido a maratona que já era o vestibular de todo e qualquer curso universitário, e por haver cumprido a promessa feita para que fosse o descendente bem sucedido. Promessa, como se vê, das mais duras de cumprir, em se tratando de um sujeito de compostura e nisso de posto abstêmio.
   No trajeto ia suscitando a curiosidade de quantos com ele cruzavam. De notar que era a hora em que nas ruas se apinhavam os fiéis saídos do santo sacrifício da missa.
   Ensandeceu, pensavam talvez. E era nada mais que a promessa votiva de um dissidente do credo católico, o qual obtivera a graça almejada. Um missa-seca, segundo a gíria da terra.
   De que não é capaz o amor paterno, o amor de um pai pelo filho, ou simplesmente o amor, que assim como no aspecto carnal pode arrancar-nos a vergonha, nesse outro aspecto espiritual conduz-nos à prática de atos como esse, em cujo burlesco irresistível descobre-se de mistura o patético!

GOUVEIA  MARINHO
LUÍS TAVARES DE GOUVEIA MARINHO
GOIANA-PE  =  1901-1983

HUMOR












GRANDES PINTORES

EDGAR DEGAS = França, 1834-1917
 EDGAR DEGAS
 EDGAR DEGAS
 EDGAR DEGAS
 EDGAR DEGAS
 EDGAR DEGAS
 EDGAR DEGAS
 EDGAR DEGAS
 EDGAR DEGAS
 EDGAR DEGAS
 EDGAR DEGAS
 EDGAR DEGAS
EDGAR DEGAS = França, 1834-1917

POESIA = Carlos Pena Filho





Navegador de bruma e de incerteza,
Humilde me convoco e visto audácia
E te procuro em mares de silêncio
Onde, precisa e límpida, resides.

Frágil, sempre me perco, pois retenho
Em minhas mãos desconcertados rumos
E vagos instrumentos de procura
Que, de longínquos, pouco me auxiliam.

Por ver que és claridade e superfície,
Desprendo-me do ouro do meu sangue
E da ferrugem simples dos meus ossos,
E te aguardo com loucos estandartes
Coloridos por festas e batalhas.

Aí, reúno a argúcia dos meus dedos
E a precisão astuta dos meus olhos
E fabrico estas rosas de alumínio
Que, por serem metal, negam-se flores
Mas, por não serem rosas, são mais belas
Por conta do artifício que as inventa.

Às vezes permaneces insolúvel
Além da chuva que reveste o tempo
E que alimenta o musgo das paredes
Onde, serena e lúcida, te inscreves.

Inútil procurar-te neste instante,
Pois muito mais que um peixe és arredia
Em cardumes escapas pelos dedos
Deixando apenas uma promessa leve
De que a manhã não tarda e que na vida
Vale mais o sabor de reconquista.

Então, te vejo como sempre foste,
Além de peixe e mais que saltimbanco,
Forma imprecisa que ninguém distingue
Mas que a tudo resiste e se apresenta
Tanto mais pura quanto mais esquiva.

De longe, olho teu sonho inusitado
E dividido em faces, mais te cerco
E se não te domino então contemplo
Teus pés de visgo, tua vogal de espuma,
E sei que és mais que astúcia e movimento,
Aérea estátua de silêncio e bruma.

CARLOS PENA FILHO
RECIFE-PE = 1929-1960

CRÔNICA = Aluísio Azevedo



Colaboração
Rio, 24 de dezembro de 1883

Há uma cousa verdadeiramente horrorosa para todo o desgraçado em cujos dedos a triste sorte enfiou uma pena, ainda mesmo quando essa pena seja tão desatilada e tão romba como a minha - é a obrigação de concorrer com algum produto de sua lavra sempre que os amigos se lembram de realizar qualquer empresa ou empreender qualquer negócio.
Essa pequenina obrigação, que vista isoladamente não tem o mínimo valor, transforma-se todavia em um compromisso grave, em um martírio implacável, desde que ela representa a promessa de vinte, trinta, cem, mil artigos, destinados aos fins mais diversos e mais desencontrados.
E a graça é que não se pode a gente recusar a nenhum dos amigos, porque todos eles querem muito pouco: "Duas palavrinhas! Apenas duas palavrinhas, com o nosso nome por baixo!..." Ou então querem uma simples carta, uma simples notícia, um ligeiro pensamento, uma frase, um verso, uma palavra.
Este deseja que lhe escrevamos um anúncio de gosto, com que ele possa chamar a atenção do público sobre os seus queijos ou sobre os seus chapéus de pêlo: aquele quer apenas que lhe façamos uma boa resposta a uma certa carta que lhe enviou certa e determinada pessoa; estoutro não exige de nós senão uma página no seu álbum; aqueloutro contenta-se com um discurso que ele tem de pronunciar por ocasião do aniversário natalício de seu sócio; aqui é uma reclamaçãozinha pela imprensa a respeito dos escândalos que se dão em tal rua; ali uma introdução para o livro de um amigo e colega que vai estrear; mais adiante um artiguinho para encher o número do jornal, que nesse dia está fraco. Hoje - a poliantéia do senhor fulano; amanhã - o número especial da folha do Dr. Beltrano; depois - folhetim sobre os trabalhos de cicrano, rodapé pr'a cá, artigo de fundo p'ra lá, crônica para acolá.
Uf! É um nunca terminar de pequeninas maçadas que, reunidas são o bastante para nos amargurar a existência.
Chega-se a perder o gosto de sair de casa, de procurar os amigos de fazer a sua palestra; porque a cada passo surge-nos um dos tais credores de artiguinhos e pensamentos filosóficos.
"Então, fulano, aquilo!..."
"Aposto que ainda não fizeste o que te pedi!..."
"Trouxeste o artigo que prometeste?... "
"Quando estarás disposto a dar um passeio pelas nossas colunas?..."
"Queres ou não queres aprontar a correspondência?..."
E cada um, por que pede muito pouco, entende que não merecemos ser desculpados pela demora.
- Oh! Duas linhas! Duas linhas escrevem-se em três minutos!
- Mas filho! é que me falta a idéia! Estou seco, não sei o que te escreva!
- Qualquer cousa, homem!
- Enche aí duas tiras. Seja o que for.
- Seja o que for?... Pois bem, ora espera! Vais ver como te ensino!


ALUÍSIO AZEVEDO
SÃO LUÍS-MA = 1857-1913

PENSAMENTOS = Diversos