NESTOR DE
HOLLANDA
VITÓRIA DE SANTO ANTÃO-PE = 1921-1970
O Lindo
Anel
No salão de jogo de luxuoso hotel europeu, o fino cavalheiro ostentava riquíssimo anel, tão suntuoso que chamava atenção. Distinta milionária, à sua frente, não resistindo mais, elogiou a jóia. O fino cavalheiro passou o lindo anel as suas mãos e a distinta milionária, depois de examiná-lo:
- Deve valer mais de dois milhões
de cruzeiros.
(Claro que o cálculo não foi em
cruzeiros; foi em dólares. Mas vou narrar o caso assim mesmo, dando os valores,
por conta própria.)
Depois de todos os presentes concordarem com o valor da jóia, a tecer novos louvores, o fino cavalheiro foi leal com a distinta milionária:
- Bem, minha cara senhora, trata-se de uma imitação. De fato, é imitação valiosa, que me custou cinqüenta mil cruzeiros, mas as pedras não são reais.
Depois de todos os presentes concordarem com o valor da jóia, a tecer novos louvores, o fino cavalheiro foi leal com a distinta milionária:
- Bem, minha cara senhora, trata-se de uma imitação. De fato, é imitação valiosa, que me custou cinqüenta mil cruzeiros, mas as pedras não são reais.
Houve espécie de indignação geral.
Todos protestaram, porque entendiam de jóias, principalmente a distinta
milionária, que se sentia profunda conhecedora do assunto:
- Essa não!... Garanto como é
real!...
Por mais que o fino cavalheiro
insistisse em que se tratava de imitação, ninguém quis acreditar. E a distinta
milionária acabou por lhe fazer desafio:
- Nesse caso, compro sua imitação
por um milhão de cruzeiros.
- Eu não aceitaria, minha cara
senhora. Seria desonestidade vender-lhe um anel que me custou cinqüenta mil
cruzeiros, pelo preço que me propõe.
- Mas eu aceito.
- De modo algum, recusou-se o fino
cavalheiro. Mas a distinta milionária teimou demais. Ele, então, fez proposta
que ela aceitou:
- A senhora leva este anel a seu joalheiro de confiança. Amanhã, a esperarei aqui na presença de todos. Se seu joalheiro disse que vale um milhão, eu lhe venderei o anel.
- A senhora leva este anel a seu joalheiro de confiança. Amanhã, a esperarei aqui na presença de todos. Se seu joalheiro disse que vale um milhão, eu lhe venderei o anel.
A distinta milionária, no dia
seguinte, estava na joalharia de sua maior fé e amizade. O perito olhou o anel
e não teve dúvida:
- Vale mais de dois milhões.
- Vale mais de dois milhões.
- Mas o dono pensa que é imitação
e me vende por um milhão.
- Pode comprar, madama, sem o
menor receio. Ele é bobo.
Na noite do mesmo dia, todos
estavam no salão do luxuoso hotel, ansiosos pelo resultado. A distinta
milionária devolveu o anel ao fino cavalheiro e manteve a oferta, já então
grandemente interessada:
- Meu joalheiro disse que posso
fazer o negócio.
- Mesmo assim - insistiu o fino
cavalheiro - só lhe venderei o anel se a senhora assinar documento, afirmando
que comprou uma imitação, que me custou cinqüenta mil cruzeiros, por um milhão.
- Assino.
O fino cavalheiro virou-se para os
presentes:
- Os senhores, como testemunhas,
assinarão o mesmo documento, atestando que avisei tratar-se de imitação?
Todos concordaram. Ali mesmo os
documentos foram elaborados. A distinta milionária pagou o milhão. E o anel lhe
foi entregue pelo fino cavalheiro.
No dia imediato, a distinta
milionária meteu o lindo anel no dedo e passou pela joalheria:
- Comprei o anel.
O joalheiro, ao ver a peça em seu
dedo, alarmou-se:
- Perdão, madama, mas não foi este
que a senhora trouxe aqui ontem. O de ontem era verdadeiro. Este é uma imitação
boa, bem-feita, que deve valer uns cinqüenta mil cruzeiros. É outro!
O fino cavalheiro ainda ficou
algum tempo no luxuoso hotel. A polícia quis prendê-lo, mas nada pode fazer,
pois não encontrou a jóia verdadeira. E ele, ofendido, acabou processando a
distinta milionária por injúria, cobrando-lhe a indenização de cinco milhões
por danos morais...
(Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 31
de março de 1964)
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