domingo, 8 de outubro de 2017
POESIA = CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Soneto Da Perdida
Esperança
Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto
passaria sobre meu corpo.
Vou subir a ladeira lenta
Vou subir a ladeira lenta
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.
Não sei se estou sofrendo
Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
por que não? Na noite escassa
com um insolúvel flautim.
com um insolúvel flautim.
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! Ao eterno.
CARLOS DRUMOND DE
ANDRADE
ITABIRA-MG
= 1902-1987
Temendo A Manhã
Não corras da manhã:
enquanto vivas,
ela te alcança
com sua ameaça
ou sua promessa;
enquanto vivas,
a manhã te persegue
com dedos de luz
invadindo teu quarto
por baixo da porta,
feito carta acesa,
gritos de crianças
ou buzinas da pressa,
que já te acordaram
para sua ameaça
ou sua promessa.
enquanto vivas,
ela te alcança
com sua ameaça
ou sua promessa;
enquanto vivas,
a manhã te persegue
com dedos de luz
invadindo teu quarto
por baixo da porta,
feito carta acesa,
gritos de crianças
ou buzinas da pressa,
que já te acordaram
para sua ameaça
ou sua promessa.
ALBERTO
CUNHA MELO
JABOATÃO DOS GURARAPES-PE,
1942-2007
CRÔNICA = Mário Prata
Quem Tem Culpa No Cartório?
O texto acima foi extraído do jornal
“O Estado de São Paulo”, edição de 03 de junho de 1998.
Vender um carro não é tão difícil assim. O problema é que
agora inventaram que a gente tem de ir ao cartório. Assinar lá aquele papelzinho
e o sujeito reconhecer a firma da gente. Não adianta mandar ninguém. Tem de ser
a gente.
Pois é. Vendi o meu carro e lá fui eu, na quarta passada,
reconhecer a minha firma, palavra pomposa para a nossa humilde assinatura.
Assinei na cara do sujeito e entreguei. Me pediu a carteira de identidade. Meu
Deus, esqueci. Tento quebrar o galho.
— Sem a carteira de identidade não tem possibilidade.
— Meu amigo, está chovendo, foi uma luta estacionar o carro
e…
— Impossível. O senhor não viu escrito ali?
Foi quando eu me lembrei do Estadão que estava debaixo do
braço. Minha coluna, minha foto. Mostro para ele.
— Está vendo? Sou eu.
Olhou para a foto, olhou para mim.
— Reconheceu?
— É, reconheci. Mas, para reconhecer a firma, só com a
identidade. É lei, olha a fila, meu senhor.
— Meu amigo, a carteira de identidade é para provar que eu
sou eu, não é? Pois eu acabo de provar que eu sou eu. Ou não?
— Eu sei que o senhor é o senhor, mas não adianta. Olha a
fila.
— Posso falar com o seu chefe?
— Não vai adiantar. É aquele. O de peruca. Seu Wilson.
Caminho na direção do seu Wilson. De longe, já começo a
analisar a peruca dele. Peruca de homem, não sei por que, sempre me fascina. Me
dá uma vontade quase incontrolável de arrancar, de fazer com que todo mundo em
volta ria.
Vou olhando em volta. O cartório evoluiu muito. Agora está
cheio de computadores. Tá “muderno”. Numa mesa a Dulce, a Dudu e o Ferreira
(gripadíssimo) dominam o computador para, logo em seguida, bater o carimbo. O
carimbo! Céus, quando é que o burocrata vai livrar-se do carimbo? Fico olhando
o trabalho da Dulce enquanto o da peruca atende uma senhora de laquê, muito
nervosa. Conto: a Dulce bateu 93 vezes o carimbo em um minuto. Isso é que é
funcionária! Mais ou menos uma e meia carimbada por segundo. Está noiva, a
Dulce.
Seu Wilson era inteirinho cinza. Ia do cinza claro do terno
até o cinza escuro da olheira. Seu Wilson estava conversando com a de laquê, me
olhando de lado. Chega a minha vez. Ele:
— Conheço o senhor de algum lugar. O senhor já não foi no
programa do Jô?
— Meu nome é Mário Prata e…
— Claro, do Estadão. Reconheci o senhor assim que vi o
senhor entrando. Qual é o problema, Marinho?
Odeio que me chamem de Marinho. Mas como havia sido
reconhecido, tudo bem.
— É o seguinte, seu Wilson. Vim reconhecer a assinatura da
venda do carro e não trouxe a carteira de identidade e…
— lh…
— Mas como o senhor me reconheceu, pode reconhecer também a
minha assinatura.
— É, mas só que, pra reconhecer a assinatura, eu preciso da
sua carteira de identidade. É uma questão legal.
— Legal, né?
Sentei.
— Seu Wilson, acompanhe o meu raciocínio.
— Pois não.
— O senhor precisa da minha carteira de identidade para ter
certeza de que eu sou eu, não é isso?
— Exatamente, Marinho.
— Mário, por favor. Mário Alberto Campos de Morais Prata.
Então, continuando, se o senhor sabe que eu sou eu, acho que a gente podia
deixar a carteira de identidade pra lá.
— Veja, Mário Alberto (piorou!), quando o decreto saiu no
Diário Oficial…
— Tudo bem, tudo bem. Mas me diga, seu Wilson: quem sou eu
(aliás uma pergunta que me tenho feito muito: quem sou eu)?
— O senhor é o Mário Prata.
— O senhor reconhece isso?
— O senhor está querendo me pegar, não é? Olha, Campos,
agora não posso mais. O meu funcionário, entende? Eu não posso passar por cima
dele, tirar a autoridade dele. Se o senhor tivesse me procurado antes, aí sim,
talvez…
Fiquei me segurando para não arrancar a peruca dele e
colocar fogo. Estava com o isqueiro aceso. Acendi o cigarro, pensei no meu avô
Mario que tinha cartório em Uberaba. Pensei em Jesus pensando nos pobres de
espírito, pensei no Brasil, pensei na mãe do seu Wilson, pensei que eu não era
mais eu.
Liguei para a Isabela, que ia comprar o meu carro.
— Isabela, desisti. Descobri que eu não existo, Isabela.
E fui para o divã do dr. Leonardo Ramos, que tem de
carimbar a receita para que eu possa comprar Lexotan.
MÁRIO PRATA
UBERABA-MG, 1946
POESIA = Nei Leandro de Castro
O
Potengi
Esse rio é uma loucura,
esse rio é um assombro,
já fiz amor no seu leito,
com água pelos meus ombros,
tendo ao lado doze botos
me fazendo companhia,
rindo seus risos de boto
sob o sol do meio-dia.
Esse rio não existe,
é ilusão, pura magia.
Um dia levei num barco
a paixão de Margarida,
o Potengi ficou doido,
lambeu a mulher querida
e quase que ele me afoga
em treze redemoinhos,
cuspiu lodo nos meus olhos,
fez ondas, fez burburinho.
Esse rio é tão bonito
que perdôo sua loucura.
Afoga meu pôr-do-sol
e corre à minha procura.
esse rio é um assombro,
já fiz amor no seu leito,
com água pelos meus ombros,
tendo ao lado doze botos
me fazendo companhia,
rindo seus risos de boto
sob o sol do meio-dia.
Esse rio não existe,
é ilusão, pura magia.
Um dia levei num barco
a paixão de Margarida,
o Potengi ficou doido,
lambeu a mulher querida
e quase que ele me afoga
em treze redemoinhos,
cuspiu lodo nos meus olhos,
fez ondas, fez burburinho.
Esse rio é tão bonito
que perdôo sua loucura.
Afoga meu pôr-do-sol
e corre à minha procura.
CAICÓ-RN = 1940
Assinar:
Postagens (Atom)























