segunda-feira, 22 de outubro de 2012
HUMBERTO DE CAMPOS
MIRITIBA-MA = 1886 / 1934
A Queda De Abraão
Abraão Machalon, filho de Samuel Machalon, era um tipo legítimo da sua raça. O povo de Israel jamais tivera varão mais apegado às tradições; e foi por isso, talvez, que Jeová, na sua alta sabedoria, que lhe deu por esposa a Raquel, filha mais velha de Jacó Benoliel.
No dia da união, após a solenidade, resolveu o casal Machalon festejar esse acontecimento indo ao Municipal, onde se realizava, naquela noite, um espetáculo da Companhia Lírica.
Na bilheteria, Abraão indagou:
- Quanto custa uma cadeira, cavalheiro?
- Vinte mil réis, em baixo, na platéia, - informou, seco, o bilheteiro.
Abraão pensou um instante, e insistiu:
- Cada cadeira dá para duas pessoas?
- Não, senhor; cada pessoa ocupa uma cadeira.
- E não há lugares mais baratos?
- Há, como não? Nas galerias, lá em cima. Cada galeria custa cinco mil réis.
Abraão meditou um instante, lembrando-se que não se casaria duas vezes, e que poderia, perfeitamente, fazer aquela loucura, gastando dez mil réis. Comprou, assim, duas galerias, e, meia hora depois, estava em cima, no "paraíso" do teatro, aplaudindo, ao lado de Raquel, a voz poderosa do tenor que cantava a "Tosca".
Pouco a pouco, foi o honrado descendente dos patriarcas tomando gosto pelo drama cantado. Aplaudia com prazer, com alma, com entusiasmo. E na sua exaltação, dobrava-se todo para a frente, em termo de virar pelo parapeito, e tombar lá em baixo, na platéia, espatifando-se no chão.
Olhos pregados na cena, Raquel sorria, beatificante. E sorria, deliciada, quando o marido, a aplaudir Cavaradossi no fim do segundo ato, se entusiasmou tanto, que pendeu para a frente, escapulindo da galeria, para rebentar o crânio lá embaixo, nas cadeiras. Por uma felicidade, porém, enganchou os pés nos frisos de um camarote de segunda ordem, ficando ali pendurado, a cabeça para baixo, o paletó cobrindo o pescoço.
O rebuliço no teatro foi enorme. Correrias, atropelos, gritos, palavras de terror. E no meio de tudo isso, só se ouvia a voz de Raquel, debruçada no parapeito:
- Abraão?... Abraão?... Não caias, Abraão!
E para animá-lo a salvar-se:
- Lá em baixo custa vinte mil réis, Abraão!
PIADA = Na Farmácia
Na farmácia, o garoto chega para a mãe e pergunta:
- Mamãe, pra que servem as camisinhas?
- É para usar na hora de fazer amor – responde ela baixinho.
Pouco depois, o garoto vem com outra:
- Por que é que vem em pacote de três?
- É para os garotos do colégio: uma para a sexta, outra para o sábado e outra para o domingo.
Pouco depois:
- E esses pacotes com seis?
- É para os rapazes da faculdade: duas para a sexta, duas para o sábado e as outras duas para o domingo.
Já na saída:
- E esse pacotão com doze?
- Esse é para os homens casados… uma para janeiro, outra para fevereiro…
POESIAS = Fernando Pessoa
FERNANDO PESSOA
PORTUGAL = 1888 / 1935
Se Alguém Bater Um Dia À Tua Porta...
Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.
Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!
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Sossega, Coração! Não desesperes!
Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
CLÓVIS CAMPÊLO
RECIFE-PE = 1951
Delírio Azul
Entre os rios e o mar, Recife é um delírio azul. Dos sonhos dos homens, fez-se a cidade que sempre encantou poetas e imperadores. Dos sonhos dos homens e dos aluviões, matéria orgânica semeando o futuro sobre as águas.
Entre risos e bares, Recife é um transe etílico. Do porre dos poetas, fez-se a literatura nem sempre bem comportada que alicerçou a sua fama de reduto de bardos e bêbados. Em bandos ou solitários, a margear as águas nem sempre límpidas do mangue.
Sobre rios, pontes e overdrives, Recife é sinuosidade, é extravagância, superação de limites. Na sua concepção, em nada, porém, difere de todas as outras cidades do mundo. É equívoco, prisão, neuroses, contenção. Recria-se sempre sob a ótica do pragmatismo capitalista, a grana erguendo e destruindo coisas belas, sequelas.
Entre o passado e o futuro, Recife é o presente nem sempre bem compreendido. Onde estarão os botos do Capibaribe, espantados pelo vinhoto das suas usinas de açúcar e pelo murmúrio incessante das suas máquinas modernas? Recife perde-se na sua própria contemporaneidade. Que cidade é essa? Deitada para sempre no berço esplêndido da planície aluvional, a esperar com paciência o beijo libertador do cavaleiro do futuro.
Quantas vezes nos renderemos à luz do luar secular? Quantas paredes se ergueram entre ela e o seu solo úmido? Quantos séculos ainda esperaremos pelo que nunca existiu, pela essência para sempre perdida do passado, dos casarões malassombrados, do vento morno do verão que nunca nos açoitou as faces?
A gente precisa ver o luar!
domingo, 21 de outubro de 2012
PIADA = Passeio de Charrete
Estavam a passear numa charrete a Rainha da Inglaterra e um famoso
Conde da região. De repente, um dos cavalos soltou um estrondoso peido. A Rainha, muito constrangida,
apressou-se em se desculpar:
— Perdoe-me, senhor Conde! Mas assim é a natureza!
O Conde logo respondeu:
— Ora, não precisa ficar envergonhada! Eu até pensei que tivesse sido um dos cavalos!
FRASES DE CAMIONEIROS
Não passe tempo demais pensando em sua vida.
Você não deve perder tempo com bobagens!
Não perca o bom humor, pois quem achar não devolverá.
Não sou baton, mas vivo nas bocas.
Não sou detetive mas só ando na pista.
Não sou notícia ruim mas ando muito e depressa.
Não sou rei, mas gosto da coroa.
Não tenho tudo na vida, mas amo tudo que tenho.
Não tenho vícios. Só bebo e fumo quando jogo.
Não ultrapasse em local proibido, para não deixar
mais uma viúva a procura de marido.
Nasci careca, pelado e sem dente. O que vier é lucro!
Na subida, paciência; na descida, dá licença.
Nem todos os homens são idiotas, alguns são solteiros.
No baralho da vida encontrei apenas uma dama.
ANEDOTÁRIO DE EMÍLIO DE MENEZES
EMÍLIO DE MENEZES
CURITIBA-PR = 1866-1918
Anedotário
Emílio de Menezes deixou um rastro de anedotas, ainda não recolhidas com o devido cuidado histórico. É possível que algumas nem tenha sido criadas ou vividas pelo poeta e a comunicação oral já tenha aumentado mais alguns pontos nas sucessivas narrações. Mas as que aqui transcrevemos têm o sabor do humor emiliano.
I
Emílio de Menezes estava em um bonde, no Rio de Janeiro, quando entrou uma conhecida atriz que não lhe erra muito simpática, mas que sempre o assediava, quando se encontravam. Ela procurou sentar no lugar vago a seu lado, mas o poeta lhe desencorajou com uma pronta observação, após verificar que havia lugares disponíveis mais atrás:
— Atriz atroz, atrás há três!
II
Em um de seus prediletos pontos de observação – a mesa de um bar – Emílio bebia com amigos quando vê passar uma pessoa com fama de conquistador, de nome Penha. Os amigos comentaram que Penha estava, no momento, sofrendo de males de amor não correspondido por uma mulher de duvidosa reputação. O poeta saiu-se com esta:
— Um homem que se diz Penha sofrendo por uma mulher que se disputa…
III
Manhã de sexta-feira santa. As famílias de Curitiba saem das missas de rememoração da morte de Cristo. Algumas passam pela Praça Osório e encontram Emílio embriagado, amparando-se em uma das palmeiras do logradouro. Imediatamente reconhecido, vão até ele e o censuram.
— Emílio, mas nem o dia de hoje, em que todos se recolhem para lembrar a morte de Nosso Senhor, você respeita?
Nem sua visível embriaguez não o impede de uma tirada inteligente:
— Não foi no dia de hoje que se cometeu o maior crime da humanidade, em que mataram o Filho de Deus feito homem?
— Foi, é claro!… — responderam os piedosos conhecidos. E ele completou:
— Pois quando a divindade sucumbe, a humanidade cambaleia…
IV
Mesmo cenário: Praça Osório, no centro de Curitiba. Postado em sua mesa, em um bar, com vista para a praça, Emílio vê uma senhora bastante obesa a tentar acomodar sua massa corporal em um banco de madeira. Mas o assento não suporta o peso e cede, para susto da untuosa dama. Emilio não demora a fazer sua observação:
— É a primeira vez que vejo um banco quebrar por excesso de fundos…
V
Perguntam-lhe:
— Emílio, sabes qual a parte mais bonita do corpo da mulher?
— Sei-o!
VI
O poeta visitava uma exposição agrícola e deteve-se a examinar alguns exemplares de espigas de milho, no pavilhão de cereais. Aparece a seu lado um amigo espirituoso que, sabendo das qualidades de Emílio como trocadilhista, quis antecipar-se e disse:
— É milho!…
Emílio nem sequer sorriu pela blague a ele dirigida e logo respondeu:
— Hum, estás com a veia, hoje?
O humorista improvisado percebeu que não poderia concorrer com a veia cômica de Emílio e fez menção de despedir-se e sair de fininho. Mas o poeta o interceptou:
— Não, não se evada.
E puxou-o até uma cadeia próxima, colocando-o sobre o assento.
— Pronto: sentei-o. Mas não te preocupes. A ti não intrigo, somente humilho.
VII
Apertado para aliviar a bexiga, correu até um terreno baldio. Muito gordo, estava terminando de desafogar-se quando um menino grita:
— Ih, eu vi seu negócio!
Emílio recompõe-se, chama o pirralho e lhe dá uma moeda:
— Tome, você merece! Há anos não o vejo…
VIII
Certo médico. muito conceituado na profissão, há muito se candidatara a uma vaga na Academia Brasileira de Letras.. Em uma roda, comentava-se sobre se ele conquistaria a cadeira.
— É mais que certo, — opinou Emílio; — Vocês compreendem: há muito tempo, que F. está fazendo uma cabala única para entrar para a Academia! Não há acadêmico que adoeça, mesmo levemente, que ele não se ofereça para ser seu médico assistente e de graça…
— Cavando o voto!… — interrompe um dos circunstantes.
E Emílio explica:
— Qual voto! Cavando a vaga…
IX
Ainda estudante, Emílio se aborrecia com os discursos certo Professor Saboya, na sala de aula. Percebendo seu desinteresse, o mestre lhe pergunta:
— Senhor Emílio, defina a Sabedoria!
Resposta rápida:
— A sabedoria, professor, é algo que tem efetivamente muito peso… se colocada n’água, ela afunda.
— E a ignorância, então?
— A ignorância? Ora, essa bóia!
X
Já velho, com sua bengala, passeava com um amigo pela Avenida Nª. Sª. de Copacabana quando, ao longe, caminhando em direção a ambos, se aproximava uma jovem rebolando acintosamente seu belo corpinho. O amigo provocou Emílio e este, apontando a bengala à garota que passava, exclamou: bem galinha.
Mais adiante cruzaram com uma mulher grávida, que ao passar, novamente Emílio apontou sua bengala dizendo: bem galada.
XI
Conta-se que uma vez, ao tomar o trem em São Paulo para voltar ao Rio de Janeiro, um amigo literato levou-o a estação e na despedida disse a Emílio: Adeus, insígne partinte. Ao que o poeta respondeu: Adeus, insígne ficante.
POESIA = Carlos Pena Filho
CARLOS PENA FILHO
RECIFE-PE = 1929-1960
Testamento Do Homem Sensato
Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: “Ele era assim... "
Mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.
Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
Foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.
Porém, se um dia, só, na tarde em queda,
surgir uma lembrança desgarrada,
ave que nasce e em vôo se arremeda,
Deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada,
como uma luz, mais que distante, breve.
CONTO = Artur Azevedo
ARTUR AZEVEDO
SÃO LUÍS-MA = 1855-1908
O Sonho Do Conselheiro
O conselheiro Lapa era o chefe de família mais austero que naquele tempo havia no Rio de Janeiro. Funcionário de elevada categoria, nunca ninguém o viu por essas ruas senão de sobre-casaca preta e chapéu alto. Creio que foi por isso, e pelos óculos, uns óculos de aro de ouro, terrivelmente solenes, que o imperador lhe deu a carta de conselho, pois ninguém lhe conhecia outros méritos.
O conselheiro Lapa era casado e tinha uma filha, que passara dos vinte anos sem que nenhum rapaz a namorasse, não porque fosse feia ou antipática, vaidosa ou mal educada, mas porque ninguém se atrevia a levantar os olhos para a filha de um conselheiro tão grave e tão conspícuo.
Entretanto, um simples escriturário do Tesouro teve um dia a ventura de fazer falar o coração da moça.
Animado pelas intenções mais puras, e competentemente autorizado pela sua bela, o escriturário um dia fez provisão de coragem, subiu a escada do conselheiro, pediu para falar a sua excelência, e quando se viu diante daqueles óculos, sabe Deus como formulou, ou antes, balbuciou um pedido de casamento.
O conselheiro não se dignou responder; limitou-se a medir o insolente de alto a baixo, e a apontar-lhe a porta, dizendo-lhe secamente: - Não admito esses gracejos em minha casa! Rua!.
* * *
Este procedimento afligiu bastante os dois namorados, e fez naturalmente com que eles se apaixonassem deveras um pelo outro.
A menina teve tal desgosto, e deixou de alimentar-se durante tantos dias consecutivos que adoeceu gravemente.
A esposa do conselheiro, boa senhora, mas muito fraca, muito achacada de asma, esgotou diante do implacável marido todos os argumentos que acudiram ao seu coração de mãe; mas a melhor e mais eloqüente advogada de Rosalina e Alberto, que assim se chamavam os namorados, foi a Teresa, uma bonita mulata que, em pequena, aos doze anos, tinha sido contratada para ama-seca de Rosalina, e ali se fizera mulher, sem ter querido nunca abandonar a casa, recusando até o casamento que lhe oferecera um português apatacado, dono da casa de pasto da esquina.
A Teresa tinha trinta e três anos, mas ninguém lhe daria mais de vinte e cinco.
* * *
Apesar de toda a sua austeridade, o nosso conselheiro há quinze anos que não perdia ocasião de fazer declarações de amor à agregada, e não perdia a esperança de que ela um dia cedesse.
A mulata resistia a todas as investidas libidinosas do amo; dizia-lhe que tomasse juízo, que respeitasse o seu lar doméstico, que a senhora e a menina podiam reparar, etc., e, naturalmente, o conselheiro andava em tudo isso com tanta manha e hipocrisia que ninguém suspeitava daquele trabalhinho de quinze anos.
* * *
A Teresa, que estimava deveras a Rosalina, lembrou-se (de que não se lembram as mulheres!) de utilizar em beneficio da menina os maus sentimentos do pai, e, um dia, fingindo-se cansada de tanta perseguição, concedeu ao conselheiro a entrevista que há tanto tempo solicitava.
Na madrugada seguinte, o austero pai de família, de robe de chambre e chinelos, mas sem óculos, entrou devagarinho no quarto da mulata, e esta, mal que o apanhou lá dentro, começou a gritar com todas as forças dos seus pulmões:
- Sinhazinha! Sinhazinha! Parabéns! Parabéns!...
A velha, apesar de sua asma, e Rosalina saltaram imediatamente das camas, envolveram-se nas colchas, e foram ter, assustadas, ao quarto da Teresa, onde encontraram o conselheiro sem pinga de sangue.
- Parabéns, sinhazinha! - continuou a gritar a boa mulata. - O patrão teve um sonho tão esquisito, e ficou tão impressionado, que resolveu consentir no seu casamento com o Sr. Alberto! Ele veio acordar-me para eu levar a notícia à sinhazinha.
O conselheiro não teve o que dizer.
sábado, 13 de outubro de 2012
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