GOUVEIA MARINHO
LUÍS TAVARES DE GOUVEIA MARINHO
GOIANA-PE = 1901 / 1983
Cuspir
Não se cospe mais hoje em dia. No entanto, já se cuspiu muito. Não faz longos anos, não. Aí pela década de vinte ainda se viam escarradeiras nas salas de gente bem. Nas salas pobres, onde não as havia, assim nas calçadas de qualquer rua, o solo apresentava, a cada passo, manchas de saliva.
Todos cuspiam. Havia um modo plebeu de cuspir no chão, como havia um modo aristocrático de fazê-lo. Jovem escritor paraibano, referindo-se a certo sujeito refinado de sua fantasia, e que com outros mantinha conversação erudita, escreveu: “Chegando até a janela, cuspiu elegantemente”.
Ao mesmo tempo, li em almanaque da época uma anedota em que um garoto de rua, ao encontrar-se com outro badameco de seu tope, dizia-lhe:
- Sabes? Achei um cigarro. Vamos fumá-lo de sociedade?
- ?
- Eu fumo e tu cospes.
Cuspir fazia parte do ritual dos fumantes. As suas glândulas salivares exerciam atividades das mais duras.
Havia cusparadas que, projetando-se do canto da boca, iam cair a distância. Era uma forma grosseira de cuspir.
Baldadamente se exibiam letreiros que rezavam: A bem de sua saúde e higiene, evite cuspir no chão. Ninguém tomava o conselho. Ninguém levava a sério a recomendação rudimentar da Saúde Pública.
Repentina e inexplicavelmente, cessou o vício coletivo, ou que melhor nome haja, de cuspir. As escarradeiras foram banidas das salas de visitas. São agora objetos de museu. Algumas delas, as de porcelana, são postas sobre determinados móveis integrantes do mobiliário doméstico, como simples peças de decoração, esvaziadas da antiga finalidade, bem assim, é claro, do nauseante conteúdo.
Todavia, raros ainda existem que cospem. De eminente homem público ouço dizer que, tendo assumido, em momento excepcional, em razão do cargo que ocupava, a chefia do poder executivo, à míngua de escarradeiras no edifício-sede do governo, cuspia nos valiosos tapetes do palácio governamental.
Conta-se, por sinal, que, diante do seu retrato, espantosamente fiel, prestes a ser aposto na galeria de um estabelecimento público, funcionário graduado da repartição teria exclamado: “Só falta cuspir!”
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