sexta-feira, 7 de setembro de 2012
CRÔNICA = José Calvino
JOSÉ CALVINO
Pontos De Encontro Do Recife De Antigamente
Os pontos de encontro da cidade do Recife tinham muito a ver com a vida noturna do bairro do Recife, área popularmente conhecida como Zona (baixo meretrício), assim chamada por se tratar de uma zona portuária (Vide p. 27 do livro de minha autoria: “Miscelânea Recife”- ed. 2001 e Boemia do Recife de antigamente, publicado no Literário na coluna “Observações e reminiscências”, 01/06/2010).
Era no Recife onde se viam cadeiras nas calçadas e as famílias a conversarem até tarde da noite. Recife do “Quem me quer?”, onde os jovens iam namorar, a Festa da Mocidade, freqüentada pela nata da sociedade. O Tobogã funcionava como grande atração, destinada à recreação das crianças, o Parque Xangai, com auto-pista, Tira Prosa, Roda Gigante, Trem Fantasma, Stands de Tiro ao Alvo, etc. O alto-falante rodando antigos sucessos como: “Conceição”, na voz de Cauby e “De Cigarro em Cigarro”, na voz de Nora Ney, também nos cabarés e nos parques de diversões eram cantadas por Nelson Gonçalves, Ângela Maria, Silvio Caldas, Dalva de Oliveira, Bienvenido Granda “El Bigote que Canta”, este último cantando “Señora”, eram os mais favoritos da época. Nos bairros periféricos o então tradicional “de alguém para alguém”, o qual transcrevo um trecho da cena do diálogo teatral, p. 56 do teatro Trem & Trens: “ GLÓRIA (Calçada, recordativa) – Meu velho, eu não me esqueço quando você mandava anunciar ‘na festa’, para mim, aquela poesia, que o locutor (com sua linguagem própria) dizia (rindo) ‘pétlas’, em vez de pétalas e ‘ovário’, no lugar de orvalho.
CARLOS (Calçada, imitando o locutor) – “Atenção, atenção, Glorinha. Abra o seu coração, como as pétlas de rosa para receber as gotas de ovário, que caem nesta noite linda, em que nos amamos para sempre, e escuta esta página musical...”
A FECIM no Parque da Jaqueira, trazia as novidades internacionais e nacionais na área do Comércio e das Indústrias.
Na Zona e alhures do grande Recife, a boemia tinha outros locais, outros pontos de encontro, alguns bares no centro da cidade fizeram a história, destacavam-se: Savoy, Botijinha e Uirapuru, na Matias de Albuquerque; Cabana e Torre de Londres, no Parque 13 de Maio; o Lero-Lero ao lado direito do Diário de Pernambuco; Brahma Chope, O Flutuante, O Buraco de Otília, funcionava num casebre na Rua da Aurora, o casebre foi demolido, o Restaurante/Bar ficou funcionando na mesma rua numa casa que já foi residência de um espanhol.
Nos bairros do Pina e Boa Viagem da orla marítima, tinha o Maximes, o Pra Vocês, o Cassino Americano (anos 40), viveu os seus melhores momentos no auge da II Guerra Mundial, era freqüentado por militares norte-americanos. Quando terminou o conflito, continuou com o jogo proibido e alugava quartos as prostitutas da Rua do Jaú (então baixo meretrício do Pina). No Hotel Boa Viagem, o seu restaurante era freqüentado por altas figuras da sociedade. Existia o bar e restaurante Veleiro, um point na época, situado no bairro de Boa Viagem, Zona Sul do Recife. Casa Navio, construída pelo empresário Adelmar da Costa Carvalho, em 1940. Era cartão postal, motivo de ter sido filmado pela Metro Golden Meyer de Hollywood para figurar em um filme.
ois com toda pompa na história do Recife, em nome da especulação imobiliária e do descaso com o passado histórico, foi demolida em 1981 para dar lugar a mais um espigão da Avenida Boa Viagem. Boa Viagem nos anos 50/60 deu o seu primeiro impulso com a construção dos edifícios Califórnia, Acaiaca e do famoso Holliday.
Nos bairros distantes da orla marítima tinha também alguns que ficaram na história: O Caldinho de Água Fria, que ficava no bairro do mesmo nome cujo dono era seu João (falecido). Ele colava nas paredes inúmeros cartões de visita dos freqüentadores e servia pessoalmente a cana e o caldinho (Ele & Ela) colocando no caldinho de feijão o que ele chamava o barro da transamazônica (Patê de galinha), Pirauira (raiz que tira o cheiro da aguardente ingerida) e sangue da mulher amada (Ketchup).
Existia também o Baependi, um boteco de madeira, localizado na rua da Harmonia em Casa Amarela. O nome muitos acreditavam que era em homenagem ao Marquês de Baependi. Outros achavam que se originou do navio Baependi, que segundo a história foi torpedeado por submarinos alemães em 18 de agosto de 1942. Era no “Baependi”, onde os falecidos poetas Godoy e Adalto recitavam “A Flor do Maracujá”. Godoy declamava dramatizando a lenda sertaneja. Adalto também recitava a de Fagundes Varela.
O Cantinho da Dalva, esse foi muito freqüentado por jovens no início da década de 70. Ficava na Avenida Beberibe. O dono era Mário, fã da cantora Dalva de Oliveira e lá havia tudo que lembrasse a cantora (fotos, recortes de jornais das reportagens, etc). O travesti conhecido como Elza Show, travestido de Elza Soares, cantava músicas com uma voz bem feminina. Hoje Elza Show sempre é convidado a cantar nas festas patrocinado não sei por quem!
É bom lembrar que existiam outros pontos de encontro, os cafés como a Sertã, localizada na esquina da Rua da Palma com a Av. Guararapes, no térreo do edifício do mesmo nome, onde era o Cinema Trianon. Lá se discutia mais política, com opiniões diversas nos debates políticos de fins de tarde. O Nicola, este último próximo ao bar Savoy, lá discutia-se qual o time bom, time ruim, jogador bom, jogador ruim; gols e perde gols, gol da vitória, gol do empate. Apostas e mais apostas, revoltas e mais revoltas... A Galeria do Maltado, fundada em 1928 pelo imigrante cubano Edélio Lago, pai de Antônio Gomes, que administrou-a até fechar. Era o leite maltado mais famoso do Recife. A Galeria não tinha portas e era aberta 24 horas. Nos anos 50/60, após uma bebedeira, tirava-se a ressaca com gasosa conhecida por “Koch” e, finalmente, as Sorveterias ( Vide “Recife das sorveterias”, publicado no Literário em, 01/05/2010).
O Recife sempre é retratado nos meus livros, os leitores encontrarão com mais detalhes sobre a cidade, lendo-os, principalmente o “Miscelânea Recife” (Mistura do que existe para presente e futuro). Muito obrigado.
PIADA = No Motel
Dois advogados se encontram no estacionamento de um motel e reparam que um está com a mulher do outro.
Logo após alguns instantes de "saia justa", um diz ao outro, em tom solene e respeitoso:
- Caro colega, creio eu que o correto seria que a minha mulher voltasse comigo, no meu carro, e a sua mulher voltasse com vossa senhoria, no seu automóvel.
- Concordo, preclaro colega, - retruca o outro - que isso seria o correto. Mas não seria justo, levando-se em consideração que vocês estão saindo e nós estamos apenas chegando...
FRASES DE CAMINHONEIROS
Duas coisas que eu gosto: cerveja gelada e mulher quente.
É mais fácil fazer uma menina do que consertar uma mulher.
É mais fácil uma mulher aceitar envelhecer
do que um político sair de cena.
Em casa, de dia ela manda, à noite eu obedeço.
Em casa, Maria reza. Na estrada, Mercedes Benze.
Enquanto não encontro a mulher certa... me
divirto com as erradas.
Escola enriquece, veja o dono dela.
Estepe e mulher é sempre bom ter de reserva.
Este veículo é rastreado por Deus.
Estrada e mulher sem curvas só dão sono.
Eu sou imortal, pois não tenho onde cair morto!
Farol alto na cara é como mulher gritando no ouvido.
Felicidade é uma viagem, e não um destino.
Filho de rico é Playboy, de pobre é office-boy.
POESIA = O Dinheiro De São Pedro
GUERRA JUNQUEIRO
PORTUGAL = 1850 / 1923
O Dinheiro De S. Pedro
De tal modo imitou o Papa a singeleza
Do mártir do Calvário,
Que à força de gastar os bens com a pobreza
Tornou-se milionário.
Tu hoje podes ver, ó filho de Maria,
O teu vigário humilde
Conversando na Bolsa em fundos da Turquia
Com o Barão Rothschild.
A cruz da redenção, que deu ao mundo a vida
Por te haver dado a morte,
Tem-na no seu bureau o padre-santo erguida
Sobre uma caixa forte.
E toda essa riqueza imensa, acumulada
Por tantos financeiros,
O que é a economia, ó Deus! foi começada
Só com trinta dinheiros!
POESIA = Vida
GOUVEIA MARINHO
LUIZ TAVARES DE GOUVEIA MARINHO
GOIANA-PE = 1901-1983
Vida
A vida humana é mística e sombria,
à minha concepção de sonhador:
alcandorada torre da Alegria,
calabouço da Lágrima e da Dor.
Esfíngico problema, desafia
a acuidade do Sábio escrutador.
O próprio Édipo não desvendaria
o seu mistério eterno, aterrador
É luz às vezes: outras vezes – trevas:
tem o láteo fulgor de estrela flórea
e de triste penumbra a imprecisão.
Inferno, que apavora, e céu, que enleva.
Intérmina batalha pela Glória!
Mentira ultriz de Sonho e de Ilusão!
PIADA = No Consultório Médico
Um senhor de 80 anos entra na sala de espera superlotada de um consultório médico.
Quando ele se aproxima da mesa da recepção, a mocinha indaga:
- Pois não, senhor, qual é o seu problema?
- Bem, tem alguma coisa errada com meu pênis...
A recepcionista se irrita:
- O senhor não devia dizer uma coisa dessas numa sala de espera tão cheia!
- Por quê não? Você me perguntou o que havia de errado e eu respondi!
- Mas desse jeito o senhor causa embaraço aos presentes! O senhor devia ter dito que está com um problema na orelha ou qualquer coisa assim e depois explicar para o médico, lá dentro do consultório.
O homem se retira da sala, espera alguns instantes e entra de novo.
A recepcionista sorri e pergunta:
- Qual é o seu problema?
- Tem alguma coisa errada com a minha orelha...
A recepcionista faz um aceno de aprovação e sorri triunfante, saboreando o momento:
- E o que está errado com a sua orelha, senhor?
- Não consigo mijar!
PENSAMENTOS
A finalidade da arte é, simplesmente, criar um estudo da alma.
(Oscar Wilde)
A vida esconde nos lugares mais simples sua grande beleza que revela qual
o significado de porque persistimos em continuar vivendo.
(Pablo Neruda)
O adultério é o verdadeiro, puro, singular sentimento de amor do ser
humano frente à ganância, mesquinharia do capitalismo.
(Roberto Shinyashiki)
Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas
jamais conseguirão deter a primavera inteira.
(Che Guevara)
A beleza provoca o ladrão mais do que o ouro.
(Shakespeare)
Os avarentos amealham como se fossem viver para sempre,
os pródigos dissipam,como se fossem morrer.
(Aristóteles)
O sucesso é um professor perverso. Ele seduz as pessoas
inteligentes e as faz pensar que jamais vão cair.
(Bill Gates)
A razão é a inteligência em exercício; a imaginação é a inteligência em ereção.
(Victor Hugo)
É difícil ser religioso quando certas pessoas nunca são incineradas por relâmpagos.
(Bill Gates)
A criança é boa por natureza a sociedade é que a corrompe
(Rousseau)
As ilusões sustentam a alma como as asas sustentam o pássaro.
(Victor Hugo)
EDGAR ALAN POE
Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como os outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar das fontes igual à deles;
e era outro o canto, que acordava
o coração de alegria
Tudo o que amei, amei sozinho
EDGAR ALLAN POE
POESIA = Alberto da Cunha Melo
ALBERTO DA CUNHA MELO
JABOATÃO DOS GUARARAPES-PE = 1942-2007
Formas De Abençoar
Fique aqui mesmo, morra antes
de mim, mas não vá para o mundo.
Repito: não vá para o mundo,
que o mundo tem gente, meu filho.
Por mais calado que você
seja, será crucificado.
Por mais sozinho que você
seja, será crucificado.
Há uma mentira por aí
chamada infância, você tem?
Mesmo sem a ter, vai pagar
essa viagem que não fez.
Grande, muito grande é a força
desta noite que vem de longe.
Somos treva, a vida é apenas
puro lampejo do carvão.
No início, todos o perdoam,
esperando que você cresça,
esperando que você cresça
para nunca mais perdoá-lo.
CONTO = Artur Azevedo
ARTUR AZEVEDO
SÃO LUÍS-MA = 1855 – 1908
Denúncia Involuntária
O Lustosa era muito boa pessoa, mas tinha um defeito: gostava de intrometer-se na vida alheia, e bisbilhotar o que se passava em casa dos outros.
Ele observou que uma bonita senhora, que morava defronte da casa dele, na Rua São Francisco Xavier, era regularmente visitada por dois amantes - um, já de meia-idade, gordo, calvo, pesado, feio, e outro, muito novo ainda, bonito e elegante.
O Lustosa imaginou logo, e imaginou muito bem, que o primeiro era o pagador e o segundo o amant de coeur.
O primeiro, além de ser mais velho, tinha uns ares de dono de casa que não enganava a ninguém; as suas visitas eram mais demoradas, duravam às vezes toda a noite; ao passo que o outro aparecia de fugida, e não saía para a rua sem primeiro examinar se não passava alguém.
Ora, aconteceu que certa noite, achando-se numa soirée familiar em casa de um amigo que fazia anos, o Lustosa foi apresentado ao rapaz, que também lá estava.
A pessoa que fez a apresentação afastou-se, e o nosso indiscreto disse logo ao Peixoto que já o conhecia. O moço chamava-se Peixoto.
- Já me conhecia? De onde? - perguntou este muito intrigado.
- Da Rua São Francisco Xavier. .
- Cale-se! Por amor de Deus, não me comprometa! Eu tenho família, sou casado, e minha mulher está aqui! Olhe, é aquela senhora vestida de azul.
- Pois eu supunha-o solteiro; mas descanse; por mim ninguém saberá.
- Aquilo é um contrabando. São destas coisas em que a gente se mete não sabe como, e de que é muito difícil livrar-se.
- Ora! O amigo ainda está na idade, não acabou ainda de pagar o seu tributo; mas tenha cuidado: sexta-feira passada, quando o senhor entrou, o outro mal tinha acabado de sair! Por mais dois ou três minutos encontravam-se à porta.
Eu moro defronte, e vi tudo por trás da veneziana.
- O senhor disse "o outro". Que outro?
- O dono.
- Como o dono? O dono sou eu!
- Quero dizer: o "marchante".
- Não há outro marchante senão este seu criado! Dar-se-á caso que aquela mulher receba um homem quando eu lá não estou? Dar-se-á que me engane?
- Não! Não creio que ela o engane com um homem feio, que podia ser pai do senhor... um sujeito barrigudo... careca...
O Lustosa reconheceu a asneira que tinha feito, mas era tarde.
- Meu caro senhor, disse o Peixoto, as mulheres são capazes de tudo. Tenho aí um carro à porta. Vou até lá. Quero verificar agora mesmo se sou traído por aquele diabo. A ocasião é excelente. Ela não me espera, porque sabe que vim a esta reunião... minha mulher está distraída... Até logo!
O Peixoto saiu, e pouco depois ouvia-se rodar o carro.
O Lustosa ficou perguntando a si mesmo quando se corrigiria daquele mau costume de intrometer-se na vida alheia.
O Peixoto voltou ao cabo de uma hora, e foi logo ter com ele.
- Obrigado pelo serviço que me prestou. Surpreendi lá dentro o careca em ceroulas. Ela quis me convencer que era um tio.
Desavergonhada! Estou livre daquela péla!
- Pois, senhores, disse o Lustosa, dei rata, dei: mas quem podia supor que o senhor, com essa mocidade e com esses olhos, era o marchante, e o outro, com aquela cara, o coió! Decididamente, em se tratando de mulheres, devemos sempre contar com o absurdo e o inverossímil!
PIADA = Canibais
Dois canibais estavam numa lanchonete da África tomando uma cervejinha, quando de repente passa uma negrinha sem um seio, um pedaço da bunda, braço esquerdo.
E um cochicha para o outro:
- É essa aí que eu tô comendo.
POESIA = Olavo Bilac
O L A V O B I L A C
RIO DE JANEIRO-RJ = 1865-1918
Tédio
Sobre minh'alma, como sobre um trono,
Senhor brutal, pesa o aborrecimento.
Como tardas em vir, último outono,
Lançar-me as folhas últimas ao vento!
Oh! dormir no silêncio e no abandono,
Só, sem um sonho, sem um pensamento,
E, no letargo do aniquilamento,
Ter, ó pedra, a quietude do teu sono!
Oh! deixar de sonhar o que não vejo!
Ter o sangue gelado, e a carne fria!
E, de uma luz crepuscular velada,
Deixar a alma dormir sem um desejo,
Ampla, fúnebre, lúgubre, vazia
Como uma catedral abandonada!...
sábado, 1 de setembro de 2012
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