R U B E M B R A G A
CACHOEIRO DO
ITAPEMIRIM-ES = 1913-1990
Madrugada
Todos
tinham-se ido, e eu dormi. Mesmo no sonho, me picava, como um inseto venenoso,
a presença daquela mulher. Via os seus joelhos dobrados; sentada sobre as
pernas, na poltrona, descalça, ela ria e falava alguma coisa que não podia
perceber, mas era a meu respeito. Eu queria me aproximar; ela e a poltrona
recuavam, passavam sob outras luzes que brilhavam em seus cabelos e em seus
olhos.
E havia
muitas vozes, de homens e de outras mulheres, ruídos de copos, música. Mas isso
tudo era vago: eu fixava a jovem mulher na poltrona, atento ao jogo de sombra e
luz em sua testa, em sua garganta, nos braços: seus lábios moviam-se, eu via os
dentes brancos, ela falava alegremente. Talvez fosse alguma coisa dolorosa para
mim, eu ouvia trechos de frases, mas ela estava tão linda assim, sentada sobre
as pernas, os joelhos dobrados parecendo maiores sob o vestido leve, que o
prazer de sua visão me bastava; uma luz vermelha corou seu ombro esquerdo,
desceu pelo braço como uma carícia, depois chegou até o joelho. Eu tinha a
ideia que ela zombava de mim, mas ao mesmo tempo isso não me doía; sua imagem
tão viva era toda minha, de meus dois olhos, e isso ela não me negava, antes
parecia ter prazer em ser vista, como se meu olhar lhe desse mais vida e
beleza, uma secreta palpitação.
FEVEREIRO, 1953
Nenhum comentário:
Postar um comentário