WALCYR CARRASCO
BERNARDINO DE
CAMPOS-SP = 1951
Vou a um encontro formal. Boto paletó e
gravata. E começo a encher os bolsos: chaves, celular, caneta, cartões de
crédito e de visita, carteira, documentos pessoais e do carro, talão, óculos de
sol, lenço, iPod — ninguém é de ferro. Em minutos meu terno estufa. O botão do
paletó não fecha por causa do celular. Meu traseiro fica quadrado devido aos
documentos acomodados nos bolsos de trás. A calça, por causa do peso, escorrega
pela barriga, que salta sobre o cinto! E minha elegância desaparece! Pior: dali
a pouco tudo se confunde. Para achar algum desses itens, vasculho o interior de
minhas roupas com os dedos. Vou pegar a caneta e retiro as chaves.
O vestuário masculino tornou-se obsoleto,
essa é a verdade. As sortudas das mulheres têm as bolsas. A bolsa feminina
equivale à caixa-preta do avião. Só se sabe o que há lá dentro após uma
investigação minuciosa. São itens variados, que vão de maquiagem a tíquetes de
passagens antigas e fotos de entes queridos amassadas. Mas é confortável. A
proprietária de uma bolsa enfia o que quiser lá dentro. Resgata quando houver
necessidade. Mesmo se for preciso espalhar o conteúdo no sofá. E, em casos
extremos, chamar o Corpo de Bombeiros!
A bolsa masculina já esteve em moda. Não
me refiro à época dos hippies barbudões com horrendos artefatos de couro cru e
sandálias nos pés. Houve um tempo em que homens usavam bolsas elegantes.
Recheadas de inutilidades, mas, apesar dessa contradição, úteis. Grandes grifes
ainda produzem bolsas masculinas. Poucos as usam.
As pochetes são práticas, mas ganharam
fama de cafonas. Confesso: tenho horror! Existe imagem mais brega do que a de
um barrigudo com o botão aberto no umbigo e uma pochete estufada no cinto?
Os executivos preferem as pastas. Elas
costumam oferecer compartimentos para laptop, documentos variados, bloco de
notas, remédios, três ou quatro celulares, enfim... tudo! Tais quais as bolsas
femininas, abrigam mistérios. Só são esvaziadas de tempos em tempos, diante de
uma ameaça de divórcio, por exemplo. Com frequência, moscas, vespas e até
aranhas secas são encontradas entre a papelada.
Pastas são sérias demais. Não combinam
com um jeans informal, uma camiseta leve e tênis. E o pior: é muito fácil
esquecê-las. Ou vê-las arrebatadas pelas mãos de um larápio. Hoje em dia,
perder um laptop ou celular pode se transformar em prejuízo irremediável. Vão
embora os contatos comerciais, endereços, enfim... a vida toda!
Alguns preferem mochilas. Executivo de
terno e gravata com mochilinha de lona nas costas é uó. Livros, laptop,
documentos, perfumes, desodorantes, cuecas limpas e até sujas no caso de
viagens rápidas lutam para se acomodar dentro da lona. Eu já imagino: o
executivo marca uma reunião com o presidente de um banco para pedir um
empréstimo. Vai pegar o laptop para mostrar o projeto. E retira uma cueca, a
escova e a pasta de dentes!
Os papas da moda masculina vivem
discutindo o número de botões de paletós, a largura das lapelas, se as barras
são para dentro ou fora. Redesenham relógios que se tornam cada vez mais
inúteis em um mundo onde se veem as horas no celular. Mas ninguém propõe uma
solução radical para a roupa do homem.
A volta da bolsa é apenas um item.
Enquanto a moda feminina evolui e se transforma a cada ano, a masculina marca
passo. Olho as vitrines dos shoppings e tudo é semelhante ao ano passado. Fico
pensando: quando algum estilista oferecerá uma mudança radical, capaz de fazer
a cabeça de todos nós e tornar o traje masculino realmente prático e
confortável?
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