GOUVEIA MARINHO
LUIZ TAVARES DE GOUVEIA MARINHO
GOIANA-PE = 1901-1983
Entidade Desaparecida
Uma entidade que desapareceu: a ama de leite. Não se fala mais nela em nossos dias. A que vem isso? Não vão dizer, por favor, que a minha lembrança é esquecimento dos outros. Ela é, no entanto, provocada por um anúncio estampado, há cem anos, no “Diário de Pernambuco” e ontem recordado na sua seção “Há um século”. Dizia-se necessitar de uma ama de leite, forra ou cativa, mas sem filho e com “bom e abundante leite”. Era num tempo em que a nossa tradicional Faculdade de Direito, então única em todo o norte brasileiro, matriculava apenas duzentos e oitenta e três alunos, como também, no mesmo dia, se fez constar naquela mesma evocatória seção do velho quotidiano.
A ama de leite sobreviveu até algumas décadas passadas, quando encontrou sucedâneo nos leites enlatados... Recordo-me de que, na era de trinta, ao nascer – sob o signo da revolução que encarapitou no poder, pelo “curto período” de quinze anos, com retorno pouco depois até o autocídio, a Getúlio Vargas – meu filho Juarez (pôs-lhe minha mulher o nome de um dos heróis do dia), contratei para amamentá-lo a afro-brasileira Francisca de Assis egressa do Engenho Novo, no município de Goiana, e que ainda hoje, quarenta e três anos volvidos, pertence ao meu serviço doméstico.
Quem não se lembra de Guilhermina, aquela que Augusto dos Anjos imortalizou no bronze do soneto “Ricordanza della mia gioventù”? Soneto que aqui está:
A minha ama de leite Guilhermina
furtava as moedas que o Doutor me dava.
Sinhá-Mocinha, minha Mãe, ralhava...
Via naquilo a minha própria ruína!
Minha ama, então, hipócrita, afetava
Susceptibilidades de menina:
- “Não, não fora ela!” – E maldizia a sina,
Que ela absolutamente não furtava.
Vejo, entretanto, agora, em minha cama,
que a mim somente cabe o furto feito...
Tu só furtaste a moeda, o ouro que brilha...
Furtaste a moeda só, mas eu, minha ama,
eu furtei mais, porque furtei o peito
que dava leite para tua filha!
É um dos mais lindos poemas do “Eu”. Não é, todavia, um dos que goza da preferência dos leitores do estranho aedo paraibano, os quais em geral gostam mais das suas composições carregadas do palavroso e áspero cientismo dos fins do século XIX e começos do atual.
Mudaram demasiado os tempos do ano da referida revolução para cá, perdendo os nossos costumes bastante do seu pitoresco.
Com o progresso acelerado dos dias presentes, outros costumes se lhe substituíram. É assim que li, não faz muito, a notícia da fundação de um banco diferente na Guanabara, ou seja nada menos que um banco de leite humano. Ali já existia um de olhos. Bancos de sangue, onde se deposita o líquido vital que é transfundido em nosso organismo, há-os por toda parte.
Ainda há pouco, eu relia n”Os simples”, de Guerra Junqueiro, a poesia “Regresso ao lar”, em que o luso genial evoca a sua velha ama, pedindo-lhe cantigas..
Mas não somente cantigas, cantigas de ninar – também estórias, estórias do Trancoso, com que nos excitava a imaginação de crianças, nos dava, paralelamente à nutritiva secreção de suas glândulas mamárias, aquela doce criatura humana integrante do elenco das instituições que nos herdou o pequenino e grandioso Portugal dos nossos avós.
Talvez deva-se a tanto a prodigiosa riqueza de imaginação de algumas dezenas de pessoas que temos tratado ao longo da existência...
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