sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

POESIA = Ledo Ivo

O LADRÃO

Quando deixei Maceió, fechei a porta do mar

E enxotei os navios que insistiam em seguir-me.

Tive de aninhar o vento nos corredores

Das casas brancas que guardam lacraias.

Mas o mar me acompanhou até nos sonhos,

Igual ao sol azul que sustenta o mormaço.

O vento veio voando e era um bando de pássaros.

A chuva da minha infância continua caindo

Com o seu séquito de tanajuras e caranguejos.

Até as dunas caminham ao meu encontro

E me rodeiam, exigindo que eu devolva

A chave de areia e o oceano roubado.


LEDO IVO

MACEI[Ó-AL, 1924-2012

domingo, 21 de janeiro de 2018

PENSADORES = Diversos










PENSA

POESIA = Gregório de Matos


Senhora Dona Bahia


"Ninguém vê, ninguém fala, nem impugna,
e é que, quem o dinheiro nos arranca,
nos arranca as mãos, a língua, os olhos."

"Esta mãe universal,
esta célebre Bahia,
que a seus peitos toma, e cria,
os que enjeita Portugal"

"Cansado de vos pregar
cultíssimas profecias,
quero das culteranias
hoje o hábito enforcar:
de que serve arrebentar
por quem de mim não tem mágoa?
verdades direi como água
porque todos entendais,
os ladinos e os boçais,
a Musa praguejadora.
Entendeis-me agora?"

GREGÓRIO DE MATOS

Salvador-Ba = 1636-1696 

H U M O R

P I A D A S

Cena rápida. Conversa entre mulher e marido:
Mulher:
- Amor, você quer me fazer feliz?
Marido:
- Sim, sempre!
Mulher:
- Então me beija em três lugares diferentes!
Marido:
- Claro! Onde, meu bem?
Mulher:
- Em Miami, Paris e Veneza...
===
Um homem assistia a um jogo futebol pela TV, mas
mudava de canal a toda hora: de esporte para um filme pornô que
mostrava um casal em plena ação.
- Não sei se assisto ao filme, ou se vejo o jogo, disse para a mulher.
- Pelo amor de Deus, assista ao filme, ela respondeu.
- Futebol você já sabe jogar...
===
A esposa se despede do marido que vai ficar 90 dias no exterior.
- Não se esqueça de me mandar notícias todas as semanas, meu amor!
- Você prefere por carta ou telegrama?
- Por cheque!
===
A mulher olha-se no espelho e diz ao marido:
- Estou tão feia, gorda e acabada! Preciso de um elogio...
E o marido responde:
- Sua visão está ótima!
===
O sujeito estava andando pela rua quando viu um casal brigando.
A moça correu em sua direção e gritou:
- Me ajude, meu marido já me jogou duas pedras.
O sujeito conseguiu segurar o homem nervoso e perguntou:
- Meu amigo, por que você jogou duas pedras na sua mulher?
- Porque a primeira eu errei! Respondeu o maridão.


POESIA = Gouveia Marinho

TROVAS


Saudade é flor que na jarra
do peito rasga o botão,
é soluço de guitarra,
é gemido de violão

Ama a vida intensamente,
mesmo que te seja má,
desse amor que abrasa a gente,
ama-a que ela te amará.

Não é por mera vaidade,
que fabrico trovas a esmo;
mas porque tenho saudade
de um tempo em que fui eu mesmo.

Terra que foste o meu berço
de criança, a me embalar,
na morte em sentido inverso.
Vê meu leito tumular!

O meu ser nasceu formado,
de uma complexa ironia
lá fora um ri simulado
cá dentro melancolia.


GOUVEIA NARINHO
LUIZ TAVARES DE GOUVEIA MARINHO
GOIANA-PE, 1901-1983


CRÔNICA = Rubem Braga

Cafezinho
Rio, 1939.


Leio a reclamação de um repórter irritado que precisava falar com um delegado e lhe disseram que o homem havia ido tomar um cafezinho. Ele esperou longamente, e chegou à conclusão de que o funcionário passou o dia inteiro tomando café. 
Tinha razão o rapaz de ficar zangado. Mas com um pouco de imaginação e bom humor podemos pensar que uma das delícias do gênio carioca é exatamente esta frase: 
- Ele foi tomar café.
A vida é triste e complicada. Diariamente é preciso falar com um número excessivo de pessoas. O remédio é ir tomar um "cafezinho". Para quem espera nervosamente, esse "cafezinho" é qualquer coisa infinita e torturante. Depois de esperar duas ou três horas dá vontade de dizer:
- Bem cavaleiro, eu me retiro. Naturalmente o Sr. Bonifácio morreu afogado no cafezinho.
Ah, sim, mergulhemos de corpo e alma no cafezinho. Sim, deixemos em todos os lugares este recado simples e vago:
- Ele saiu para tomar um café e disse que volta já.
Quando a Bem-amada vier com seus olhos tristes e perguntar:
- Ele está? - alguém dará o nosso recado sem endereço. Quando vier o amigo e quando vier o credor, e quando vier o parente, e quando vier a tristeza, e quando a morte vier, o recado será o mesmo:
- Ele disse que ia tomar um cafezinho...
Podemos, ainda, deixar o chapéu. Devemos até comprar um chapéu especialmente para deixá-lo. Assim dirão:
- Ele foi tomar um café. Com certeza volta logo. O chapéu dele está aí...
Ah! fujamos assim, sem drama, sem tristeza, fujamos assim. A vida é complicada demais. Gastamos muito pensamento, muito sentimento, muita palavra. O melhor é não estar.
Quando vier a grande hora de nosso destino nós teremos saído há uns cinco minutos para tomar um café. Vamos, vamos tomar um cafezinho.

R UB E M  B R A G A

CACHOEIRO DE ITAPEMIRIM-ES =  1913-1990

GRANDES PINTORES = Hans Zatska

 HANS ZATSKA = Áustria, 1859-1945









HANS ZATSKA = Áustria, 1859-1945

HUMOR













Ontem e Hoje
 Dentes ao Sol, Editora Codecri, 1980, pág. 288)

Ontem
Nas noites de verão, depois do jantar, as pessoas saíam para as calçadas, cadeiras na mão. Os velhos, ou os donos da casa, sentavam-se junto à porta. Os outros, em volta. Primeiro, os mais chegados, parentes ou não. Depois, amigos, conhecidos, visitas ocasionais, numa hierarquia da qual as crianças estavam excluídas. Quando as pessoas chegavam, os donos da casa estavam à porta, à espera. Não que fosse praxe. Simplesmente costume. Mas se os donos ali não estivessem, as conversas começava na sala, junto com o café. Transferindo-se para a calçada à medida que chegavam mais gente. O que interessava eram os casos de família, a educação dos filhos, a política, a escola, os casamentos das viúvas, as árvores genealógicas, quem fez e não fez, o filme com Tyrone Power, a Igreja condenando os ciganos que tinham acampado na cidade, os pracinhas que iam voltar da guerra. As rodas na calçada, às vezes se estendiam pela rua. Sem perigo. Em toda a cidade existiam dois ônibus, trinta caminhões que transportavam leite, lenhadores e sacos de café, oito carros de aluguel e cinquenta veículos particulares. As crianças corriam, rodavam na roda, atravessavam a rua num pé só, brincavam de pique. Os homens fumavam, as mulheres tomavam refresco, licor de jabuticabas ou figo. O café era servido à chegada e quase no fim, quando o apito da fábrica soava, dez e meia. As visitas começavam a se levantar. Ficavam um pouco de pé, costurando rabos de assuntos, enquanto os pais recolhiam os filhos e as mães buscavam os bebês que dormiam, cobrindo com mantas, por causa de um golpe de ar. Em quinze minutos a rua se esvaziava.

Hoje
Nas noites de verão, ou todas as noites, depois do jantar, o pai abandona a mesa. Ainda com a xícara de café na mão, ele se dirige à caixa quadrada. A deusa dos raios azulados espera o toque. Para emitir som e luz, imagem e movimento. Todos se ajeitam. O lugar principal é para o pai. Ninguém conversa. Não há o que falar. O pai não traz nada da rua, do dia-a-dia, do escritório. Os filhos não perguntam, estão proibidos de interromper. A mulher mergulha na telenovela, no filme. Todos sabem que não virá visita. E se vier alguma, vai chegar antes da telenovela. Conversas esparsas durante os comerciais. A sensação é que basta estar junto. Nada mais. Silenciosa, a família contempla a caixa azulada. Os olhos excitados, cabeças inflamadas. Recebendo, recebendo. Enquanto o corpo suportar, estarão ali. Depois, tocarão o botão e a deusa descansará. Então, as pessoas vão para as camas, deitam e sonham. Com as coisas vistas. Sempre vistas através da caixa. Nunca sentidas ou vividas. Imunizadas que estão contra a própria vida.


IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

ARARAQUARA-SP, 1936

POESIA = ARTUR AZEVEDO

Miserável

O noivo, como noivo, é repugnante:
Materialão, estúpido, chorudo,
Arrotando, a propósito de tudo,
O ser comendador e negociante.

Tem viuvinha, a noite interessante,
Todo o arsenal de um poeta guedelhudo:
Alabastro, marfim, coral, veludo,
Azeviche, safira e tutti quanti.

Da misteriosa alcova a porta geme,
O noivo dorme n’um lençol envolto ...
Entra a viuvinha, a noiva... Oh, céu, contem-me!

Ela deita-se... espera... Qual! Revolto,
O leito estala... Ela suspira... freme ...,
E o miserável dorme a sono solto! ...

ARTUR AZEVEDO
SÃO LUÌS-MA  =  1855-1908


POESIA-IMAGEM = Bocage


segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

POESIA = Fernando Pessoa

Natal


O sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

FERNANDO PESSOA
PORTUGAL, 1888-1935


PENSAMENTOS = Diversos