segunda-feira, 1 de janeiro de 2018
POESIA = Machado de Assis
Relíquia íntima
Ilustríssimo, caro e velho amigo,
Saberás que, por um motivo urgente,
Na quinta-feira, nove do corrente,
Preciso muito de falar contigo.
E aproveitando o portador te digo,
Que nessa ocasião terás presente,
A esperada gravura de patente
Em que o Dante regressa do Inimigo.
Manda-me pois dizer pelo bombeiro
Se às três e meia te acharás postado
Junto à porta do Garnier livreiro:
Senão, escolhe outro lugar azado;
Mas dá logo a resposta ao mensageiro,
E continua a crer no teu Machado.
RIO DE
JANEIRO-RJ = 1839-1908
CRÔNICA = Rubem Braga
A Viajante
(Rubem Braga, in “A
Borboleta Amarela”)
Com
franqueza, não me animo a dizer que você não vá.
Eu, que
sempre andei no rumo de minhas venetas, e tantas vezes troquei o sossego de uma
casa pelo assanhamento triste dos ventos da vagabundagem, eu não direi que
fique.
Em minhas
andanças, eu quase nunca soube se estava fugindo de alguma coisa ou caçando
outra. Você talvez esteja fugindo de si mesma, e a si mesma caçando; nesta
brincadeira boba passamos todos, os inquietos, a maior parte da vida — e às
vezes reparamos que é ela que se vai, está sempre indo, e nós (às vezes)
estamos apenas quietos, vazios, parados, ficando. Assim estou eu. E não é sem
melancolia que me preparo para ver você sumir na curva do rio — você que não
chegou a entrar na minha vida, que não pisou na minha barranca, mas, por um
instante, deu um movimento mais alegre à corrente, mais brilho às espumas e
mais doçura ao murmúrio das águas. Foi um belo momento, que resultou triste,
mas passou.
Apenas
quero que dentro de si mesma haja, na hora de partir, uma determinação austera
e suave de não esperar muito; de não pedir à viagem alegrias muito maiores que
a de alguns momentos. Como este, sempre maravilhoso, em que no bojo da noite,
na poltrona de um avião ou de um trem, ou no convés de um navio, a gente sente
que não está deixando apenas uma cidade, mas uma parte da vida, uma pequena
multidão de caras e problemas e inquietações que pareciam eternas e fatais e,
de repente, somem como a nuvem que fica para trás. Esse instante de libertação
é a grande recompensa do vagabundo; só mais tarde ele sente que uma pessoa é
feita de muitas almas, e que várias, dele, ficaram penando na cidade
abandonada. E há também instantes bons, em terra estrangeira, melhores que os
das excitações e descobertas, e as súbitas visões de belezas sonhadas. São
aqueles momentos mansos em que, de uma janela ou da mesa de um bar, ele vê, de
repente, a cidade estranha, no palor do crepúsculo, respirar suavemente como
velha amiga, e reconhece que aquele perfil de casas e chaminés já é um pouco, e
docemente, coisa sua.
Mas há
também, e não vale a pena esconder nem esquecer isso, aqueles momentos de
solidão e de morno desespero; aquela surda saudade que não é de terra nem de
gente, e é de tudo, é de um ar em que se fica mais distraído, é de um cheiro
antigo de chuva na terra da infância, é de qualquer coisa esquecida e humilde –
torresmo, moleque passando na bicicleta assobiando samba, goiabeira, conversa
mole, peteca, qualquer bobagem. Mas então as bobagens do estrangeiro não rimam
com a gente, as ruas são hostis e as casas se fecham com egoísmo, e a alegria
dos outros que passam rindo e falando alto em sua língua dói no exilado como
bofetadas injustas. Há o momento em que você defronta o telefone na mesa da
cabeceira e não tem com quem falar, e olha a imensa lista de nomes
desconhecidos com um tédio cruel.
Boa
viagem, e passe bem. Minha ternura vagabunda e inútil, que se distribui por
tanto lado, acompanha, pode estar certa, você.
RUBEM BRAGA
CACHOEIRO
DO ITAPEMIRIM-ES = 1913-1990
domingo, 10 de dezembro de 2017
POESIA = Fernando Pessoa
Natal
O sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.
E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.
Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.
A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
FERNANDO PESSOA
PORTUGAL,
1888-1935
CONTO = Ivan Turgueniev
O
Cachorro
Nós
dois no quarto: meu cachorro e eu. Lá fora, a tempestade uiva, desenfreada,
assustadora. O cachorro está sentado à minha frente -e me olha direto nos
olhos. Eu também olho para os olhos dele. Parece que quer me dizer alguma
coisa. É mudo, sem fala, nem entende a si mesmo -mas eu o entendo. Entendo que
neste instante, nele e em mim, vive o mesmo sentimento e entre nós não existe a
menor diferença. Somos idênticos; em cada um, arde e brilha a mesma chama,
pequena e trêmula. A morte virá voando, vai abanar sobre essa chama suas asas
frias e largas...
E fim! Depois, quem
poderá distinguir que chama ardeu em cada um de nós? Não! Não são um animal e
um homem que se olham...
São dois pares de
olhos idênticos, concentrados um no outro. E em cada ar de olhos, no animal e
no homem, a mesma vida assustada tenta se agarrar no outro.
RÚSSIA, 1818-1883
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