domingo, 16 de abril de 2017

POESIA = Alberto da Cunha Melo



Temendo A Manhã
 
Não corras da manhã:
enquanto vivas,
ela te alcança
com sua ameaça
ou sua promessa;
enquanto vivas,
a manhã te persegue
com dedos de luz
invadindo teu quarto
por baixo da porta,
feito carta acesa,
gritos de crianças
ou buzinas da pressa,
que já te acordaram
para sua ameaça
ou sua promessa.

ALBERTO CUNHA MELO
JABOATÃO DOS GURARAPES-PE, 1942-2007

CONTO = Humberto de Campos



Solução

Curvado sobre a mesa onde redigia penosamente um bilhete à amante, o bacharel Anastácio não ouvia as passadas da mulher, que, no andar superior, se vestia para sair. Estavam em divergência há dois dias. De vez em quando a discussão estalava, trocando-se palavras, que atingiam o alvo e ricocheteavam com a mesma violência.
De repente, um perfume doce, de Royal Begonia, espalha-se pelo gabinete. E enquadrando-se na moldura da porta, abotoando nervosamente as luvas, a figura mundana, acentuadamente chic, de Dona Vivi.
Não é alta, nem baixa. Clara, olhos negros, boca rasgada, de dentes magníficos, é o tipo comum da raça. Os braços finos e brancos, descem, nus, como duas hastes de lírio, desde a confluência do corpo. Calça, no máximo, 34, e os sapatinhos, bicando as flores vermelhas do tapete azul, são como dois beija-flores sugando a mesma roseira.
De pijama, a cabeça curvada, Anastácio parece mais uma trouxa sobre uma cadeira do que um animal vivo. Não se move. Se se erguesse, toda a gente lhe veria a altura incomum, o nariz cumprido, o rosto longo e estúpido, os defeitos, em suma, que ele, como as serpentes, disfarça quando se enrodilha.
Fisionomia de indignação, as narinas batendo como as asas de uma pequena borboleta, Dona Vivi estaca, a dois passos do marido.
- Pronto; vou sair, - informa, sem delicadeza.
- Boa viagem, - responde o rapaz, sem voltar-se.
Dona Vivi morde, nervosa, o beiço vermelho.
- Preciso de duzentos mil réis, - adianta.
Um risinho canalha do marido dá-lhe um tremor de indignação.
- Se você não me der - explode, - terei de pedir a outro homem!
A essas palavras Anastácio volta-se, de súbito, na cadeira. A tempestade vai, com certeza, estalar. Vivi encolhe-se, como se já estivesse sentindo na cabeça, esmigalhando-lhe o chapéu, os punhos de ferro do marido. Enroscaram-se os dois: ela apavorada, ele, indeciso.
- Queres saber de uma coisa, Etelvina? - diz, ao fim de um instante.
E adoçando a voz: - Arranja quatrocentos. Eu também preciso de duzentos...

HUMBERTO DE CAMPOS
MIRITIBA-MA  =  1886-1934

domingo, 2 de abril de 2017

PENSAMENTOS = Diversos







POESIA = Gouveia Marinho



Eu E O Século
(no meu aniversário)


Partimos juntos
e, juntos,
vamos correndo, infrenes, para o mar,
infinito e traiçoeiro,
que nos há de tragar
- o mesmo oceano que é nossa sina comum.
De nós dois, um
primeiro irá dormir no leito dos defuntos:
não serás tu que vais primeiro;
não serei eu que hei de ficar...
Sim, chegarei primeiro,
vencido-vencedor no
páreo singular.


GOUVEIA MARINHO
LUÍZ TAVARES DE GOUVEIA MARINHO
GOIANA-PE  =  1901-1983

HUMOR












GRANDES PINTORES

 NICOLAS POUSSIN = França, 1594-1665
 NICOLAS POUSSIN
 NICOLAS POUSSIN
 NICOLAS POUSSIN
 NICOLAS POUSSIN
 NICOLAS POUSSIN
 NICOLAS POUSSIN
 NICOLAS POUSSIN
NICOLAS POUSSIN
NICOLAS POUSSIN = França, 1594-1665

POESIA = Carlos Drumond de Andrade




Soneto Da Perdida Esperança


Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto
passaria sobre meu corpo.

Vou subir a ladeira lenta
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.

Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
por que não? Na noite escassa

com um insolúvel flautim.
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! Ao eterno.


CARLOS DRUMOND DE ANDRADE
ITABIRA-MG = 1902-1987