domingo, 13 de novembro de 2016
POESIA = Gilberto Freyre
Jangada Triste
Ao
longe, mui longe, no horizonte,
além, muito além daquele monte,
como ave que voa desdenhada,
flutua tristemente uma jangada.
além, muito além daquele monte,
como ave que voa desdenhada,
flutua tristemente uma jangada.
Nos
zangados soluços do oceano,
quase desaparece o canto humano
de quem no mar e céu inda confia
porque em terra tudo lhe é melancolia.
Isso de terra firme e mar traiçoeiro
nem sempre é certo para o jangadeiro
mais preso ao fiel sal que à incerta areia.
Mistura ao grande azul as suas mágoas
e encontra no vaivém das verdes águas
consolo às negras dores cá da terra.
quase desaparece o canto humano
de quem no mar e céu inda confia
porque em terra tudo lhe é melancolia.
Isso de terra firme e mar traiçoeiro
nem sempre é certo para o jangadeiro
mais preso ao fiel sal que à incerta areia.
Mistura ao grande azul as suas mágoas
e encontra no vaivém das verdes águas
consolo às negras dores cá da terra.
GILBERTO FREYRE
RECIFE-PE = 1900-1987
CRÔNICA = Rubem Braga
O Mato
(Novembro,
1952)
Veio o vento frio, e depois o temporal noturno, e
depois da lenta chuva que passou toda a manhã caindo e ainda voltou algumas
vezes durante o dia, a cidade entardeceu em brumas. Então o homem esqueceu o
trabalho e as promissórias, esqueceu a condução e o telefone e o asfalto, e
saiu andando lentamente por aquele morro coberto de um mato viçoso, perto de
sua casa. O capim cheio de água molhava seu sapato e as pernas da calça; o mato
escurecia sem vagalumes nem grilos. Pôs a mão no tronco de uma
árvore pequena, sacudiu um pouco, e recebeu nos cabelos e na cara as gotas de
água como se fosse uma bênção. Ali perto mesmo a cidade murmurava, estalava com
seus ruídos vespertinos, ranger de bondes, buzinar impaciente de carros, vozes
indistintas; mas ele via apenas algumas árvores, um canto de mato, uma pedra
escura. Ali perto, dentro de uma casa fechada, um telefone batia, silenciava,
batia outra vez, interminável, paciente, melancólico. Alguém com certeza já sem
esperança, insistia em querer falar com alguém.
Por um instante, o homem voltou seu pensamento para
a cidade e sua vida. Aquele telefone tocando em vão era um dos milhões de atos
falhados da vida urbana. Pensou no desgaste nervoso dessa vida, nos
desencontros, nas incertezas, no jogo de ambições e vaidades, na procura de
amor e de importância, na caça ao dinheiro e aos prazeres. Ainda bem que de
todas as grandes cidades do mundo o Rio é a única a permitir a evasão fácil
para o mar e a floresta. Ele estava ali num desses limites entre a cidade dos
homens e a natureza pura; ainda pensava em seus problemas urbanos — mas um
camaleão correu de súbito, um passarinho piou triste em algum ramo, e o homem
ficou atento àquela humilde vida animal e também à vida silenciosa e úmida das
árvores, e à pedra escura, com sua pele de musgo e seu misterioso coração
mineral.
E pouco a pouco ele foi sentindo uma paz naquele
começo de escuridão, sentiu vontade de deitar e dormir entre a erva úmida, de
se tornar um confuso ser vegetal, num grande sossego, farto de terra e de água;
ficaria verde, emitiria raízes e folhas, seu tronco seria um tronco escuro,
grosso, seus ramos formariam copa densa, e ele seria, sem angústia nem amor,
sem desejo nem tristeza, forte, quieto, imóvel, feliz.
CACHOEIRO DE
ITAPEMIRIM-ES,1913-1990
POESIA - Pablo Neruda
LUA
Quando
eu nasci a minha mãe morria
com
uma santidade de alma em pena.
Seu
corpo era translúcido.
Ela
tinha sob sua carne
um
luminar de estrelas.
Morreu.
Mas eu nasci.
Por
isso levo
um
invisível rio em minhas veias,
um
invencível canto de crepúsculo
que
me estimula o riso e me congela.
Ela
ajuntou á vida que nascia
o
estéril ramalhar de vida enferma.
A
palidez das mãos de moribunda
amarelou
em mim a lua cheia.
Por
isso, irmão,
está
tão triste o campo
atrás
dessas
vidraças
transparentes...
...
Esta lua amarela em minha vida
faz
com que eu seja um germinar da morte...
PABLO NERUDA
CHILE,
1904-1973
CONTO = Humberto de Campos
A Dívida De Abraão
Não era de hoje, nem de ontem, que Abraão
Efraim, o conhecido proprietário da casa de penhores Efraim & Irmão, nutria
profundas simpatias pela esposa do seu amigo Isaac Fernandes. A sua fortuna, as
suas lábias, as suas declarações pessoais e pelo telefone público, jamais
haviam, no entanto, adiantado um passo no caminho da sua pretensão desonesta.
Com as mulheres, porém, não convém
desesperar. Por trás de cada anjo da guarda há um demônio de atalaia, de modo
que, à menor distração do anjo, o demônio toma conta do lugar. E a vez da
substituição na casa de Isaac Fernandes chegou, naquela tarde cariciosa de
maio, pouco depois do meio-dia.
Na véspera, havia a formosa senhora visto
no mostruário de uma chapelaria, na Avenida, um chapéu, com o qual sonhara toda
a noite. E pensava ainda nele, quando Abraão, o bigode retorcido e negro, o
nariz israelita espiando para dentro da boca, subiu a escada, com a intimidade
que tinha na casa.
A presença daquele pretendente iluminou, de
súbito, o espírito da formosa judia. Um beijo em Abraão, se ele lh'o pedisse, e
teria o chapéu.
- Bom dia, Raquel!
- Bom dia, Abraão!
- Então, já está resolvida a salvar
minh'alma?
- Depende, Abraão. Se salvares a minha
situação, eu salvarei a tu'alma.
E sentando-se ao lado.
- Olha, eu preciso, hoje, de quinhentos mil
réis. É um caso urgente. Arranja-m'os, que tereis o que quiseres.
- É para já?
- Para já!
De um salto, Abraão Efraim estava na rua
tomando direção. A casa comercial mais próxima, onde poderia arranjar o
dinheiro, era a de Isaac Fernandes, marido de Rachel. Entrou lá.
- Isaac, empresta-me quinhentos mil réis
por algumas horas? Pago-te hoje mesmo.
Vinte minutos depois, estava Raquel com os
quinhentos mil réis, e Abraão, contente da vida, nos braços da mulher mais formosa
produzida pelo povo de Israel. E descia, um a um, duas horas depois, as escadas
da casa em que passara um dos momentos inolvidáveis da sua existência, quando,
em baixo, nos últimos degraus, deu de cara com Isaac, que subia.
- Tu, por aqui, Abraão?
- É verdade, Isaac. Vim à tua procura.
Muito obrigado, meu velho.
E apertando a mão do amigo:
- Vim pagar-te os quinhentos mil réis que
me emprestaste... Deixei-os com a tua mulher...
HUMBERTO DE CAMPOS
MIRITIBA-MA =
1886-1934
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