domingo, 15 de maio de 2016

VÍDEO = Mozart


POESIA-IMAGEM = Diversas





PENSAMENTOS = Diversos






POESIA = Manuel Bandeira



A Estrela 


Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alto luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.

RECIFE-PE =  1886-1968

CONTO = Leon Eliachar



Um Nome Qualquer


Encontraram-se depois de mais de dez anos:
-- Afonso!
-- Hermenegildo!
Abraçaram-se três vezes seguidas, como fazem todos os que não se vêem há muito tempo:
-- Lembra-se do Rogério?
-- Lembro.
-- Morreu a semana passada.
-- Coitado.
Conversaram a mesma conversa que conversam os que não se vêem há muito tempo:
-- Que tens feito?
-- Lutando.  E você?
-- Levando a vida.
Quando deram por si, estavam tomando cafezinho em pé, como fazem sempre os que não se vêem há muito tempo:
-- Você está mais gordo.
-- E você, mais magro.
Foram andando, parando, relembrando incidentes pitorescos, como fazem todos os que não se vêem há muito tempo:
-- E aquele mergulho no rio, atrás do internato, lembra-se?
-- Se me lembro, quase você morre afogado.
-- E foi você quem me salvou, nunca esqueci.
Pararam num ponto de ônibus pra se despedir, ficaram batendo papo mais de meia-hora, como fazem todos os que não se vêem há muito tempo:
-- Você casou?
-- Casei. E você?
-- Mais ou menos. Estou com uma zinha aí mas ela é casada.
-- Você nunca quis nada com o casamento, hein, malandro?
-- Com essa até que eu casava.
-- Como ela é?
-- Baixotinha, gordota, tem um sinalzinho no rosto, mas eu gosto dela assim mesmo.
Afonso ficou apreensivo:
-- Como é o nome dela?
-- Cláudia.
Afonso ficou mais curioso:
-- Ela tem filhos?
-- Dois. Um menino de quatro e uma menina de três.
Afonso só faltou pedir o retrato pra ver, mas não teve coragem. Apressou a despedida:
-- Bem, tenho de ir andando, estou atrasadíssimo.
Tomou o ônibus, foi direto para casa. No caminho, foi pensando: "Cláudia... dois filhos... um menino de quatro... uma menina de três... baixotinha... gordota... um sinalzinho no rosto..." era muita coincidência. Quando entrou em casa, só faltou arrancar a porta. Lá estava a mulher no meio da sala, com os dois filhos, baixotinha, gordota, com um sorriso na cara deste tamanho:
-- Chegou cedo hoje, hein, Afonso?
Ele estava tremendo de ponta a ponta, quando perguntou:
-- Diz depressa o nome de um homem.
-- Como?
-- Depressa, diz um nome de homem. Um nome qualquer.
Ela nem teve tempo de pensar:
-- Hermenegildo.
Ele chegou a cambalear, foi preciso segurar no vão da porta:
-- Quem diria, hein?
Sua mulher não entendia nada:
-- Mas o que foi, Afonso?  Está sentindo alguma coisa?
Ele foi categórico:
-- Estou sim.
-- Está sentindo o quê?
Ele arreganhou os dentes:
-- Estou sentindo ódio de mim mesmo, por ter salvo aquele desgraçado. Devia ter deixado ele morrer afogado.
Cláudia caiu de bruços e como caiu, ficou, inteiramente desacordada.
O médico disse que era normal.
Estava esperando o terceiro filho.

  LEON   ELIACHAR
* CAIRO (Egito), 1922  =  U RIO-RJ, 1987

HUMOR











VÍDEO = Franz Liszt


POESIA-IMAGEM = Diversas






GRANDES PINTORES

 CARL SPITZWEG = Alemanha, 1808-1885
 CARL SPITZWEG
 CARL SPITZWEG
 CARL SPITZWEG
 CARL SPITZWG
 CARL SPITZWEG
 CARL SPITZWEG
 CARL SPITZWEG
 CARL SPITZWEG
 CARL SPITZWEG
CARL SPITZWEG = Alemanha, 1808-1885

CONTO = Monteiro Lobato



Burrice


Caminhavam dois burros, um com carga de açúcar, outro com carga de esponjas.
Dizia o primeiro:
— Caminhemos com cuidado, porque a estrada é perigosa.
O outro redargüiu:
— Onde está o perigo? Basta andarmos pelo rastro dos que hoje passaram por aqui.
— Nem sempre é assim. Onde passa um, pode não passar outro.
— Que burrice! Eu sei viver, gabo-me disso, e minha ciência toda se resume em só imitar o que os outros fazem.
— Nem sempre é assim, nem sempre é assim… continuou a filosofar o primeiro.
Nisto alcançaram o rio, cuja ponte caíra na véspera.
— E agora?
— Agora é passar a vau.
O burro do açúcar meteu-se na correnteza e, como a carga se ia dissolvendo ao contato da água, conseguiu sem dificuldade pôr pé na margem oposta.
O burro da esponja, fiel às suas idéias, pensou consigo:
— Se ele passou, passarei também — e lançou-se ao rio.
Mas sua carga, em vez de esvair-se como a do primeiro, cresceu de peso a tal ponto que o pobre tolo foi ao fundo.
— Bem dizia eu! Não basta querer imitar, é preciso poder imitar — comentou o outro.
MONTEIRO LOBATO
TAUBATÉ-SP, 1882-1948