domingo, 17 de janeiro de 2016
POESIA = Adelmar Tavares
Do Banho
Manhã. Verão. Um sol rútilo, e quente.
Gritos das andorinhas no telhado.
Há no dia uma festa de noivado.
No ar, - um perfume que entontece a gente...
Do gabinete, no silêncio amado,
leio, e medito preguiçosamente.
Ouço cantar... És tu, meu lírio doente,
que vens do banho morno e perfumado.
Rumor de chita nova se quebrando...
Aromas de jasmins sobem revoltos,
enchendo a sala onde tu vais passando
e deixando uma música de avenas,
gorjeios claros de canários soltos,
frou-frou de cisnes sacudindo as
pernas...
ADELMAR
TAVARES
RECIFE-PE = 1888-1962
domingo, 3 de janeiro de 2016
POESIA = Manuel Bandeira
Cartas De Meu Avô
A tarde cai, por demais
Erma, úmida e silente…
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.
E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.
Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.
Cartas de antes do noivado…
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.
Temendo a cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala…
A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também.
RECIFE-PE, 1886-1968
CONTO = Lima Barreto
Este Sujeito
Careta, Rio,
9-9-1922
Como ele nasceu sem nenhum desenvolvimento mental e
não pôde por sua falta de vontade adquirir qualquer espécie de instrução, o
Nicomedes tomou a resolução de se fazer literato. Porque não há nada mais fácil
para um sujeito analfabeto do que se fazer escritor, poeta e literato.
O governo pede carta para cocheiro, mas não pede
para literato. Sendo assim todo o sujeito que não dá pra nada se julga no
direito de escrever para os jornais, embora não saiba direitamente letras.
Nicomedes – quem não conhece este sujeito? – é
invejoso e pulha; mas disse um dia que havia de ser célebre, para isso devia
descompor todos os rapazes que lhe faziam sombra. Viu, entretanto, que isso não
era bastante. Era preciso aprender a ler e a escrever. Como havia de ser?
Nicomedes nunca foi dado à resolução de problemas, graças à sua visceral
ignorância. Procurou um amigo mais sábio, a quem lhe pediu um conselho:
– Marques, você me ensina como eu devo aprender a
ler e a escrever?
– Homessa! É fácil!
– Como?
– Você se casa com uma professora pública.
Ele arranjou o casamento e sabe, hoje, ler por
cima.
LIMA BARRETO
RIO DE
JANEIRO-RJ = 1881–1922
POESIA = António Botto
Discurso
O homem não nasce livre,
Torna-se livre, é diferente.
Abandoná-lo à sua sorte,
É um crime, - não convém.
Torna-se livre, é diferente.
Abandoná-lo à sua sorte,
É um crime, - não convém.
O Estado, a Escola, a Família,
São necessários à vida
Do que souber ser alguém.
São necessários à vida
Do que souber ser alguém.
Não partir da liberdade,
Mas caminhar para ela.
Só assim o homem de hoje
Pode vir a merecê-la.
Pode vir a merecê-la.
ANTÓNIO BOTTO
PORTUGAL = 1897-1959
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