domingo, 8 de novembro de 2015
POESIA = Carlos Pena Filho
Retrato Na Praia
Ei-la ao
sol, como um claro desafio
ao tenuíssimo azul predominante.
Debruçada na areia e assim, diante
do mar, é um animal rude e bravio.
Bem perto, há um comentário sobre estio,
mormaço e sonolência. Lá, distante,
muito vagos indícios de um navio
que ela talvez contemple nesse instante.
Mas o importante mesmo é o sol, que esse desliza
por seu corpo salgado, enxuto e belo,
como se nuvem fosse, ou quase brisa.
E desce pelos seus braços, e rodeia
seu brevíssimo e branco tornozelo,
onde se aquece e cresce, e se incendeia.
ao tenuíssimo azul predominante.
Debruçada na areia e assim, diante
do mar, é um animal rude e bravio.
Bem perto, há um comentário sobre estio,
mormaço e sonolência. Lá, distante,
muito vagos indícios de um navio
que ela talvez contemple nesse instante.
Mas o importante mesmo é o sol, que esse desliza
por seu corpo salgado, enxuto e belo,
como se nuvem fosse, ou quase brisa.
E desce pelos seus braços, e rodeia
seu brevíssimo e branco tornozelo,
onde se aquece e cresce, e se incendeia.
CARLOS PENA FILHO
RECIFE-PE = 1929-1960
CRÔNICA = Rubem Braga
Cafezinho
Rio, 1939.
Leio a reclamação de um repórter irritado que precisava
falar com um delegado e lhe disseram que o homem havia ido tomar um cafezinho.
Ele esperou longamente, e chegou à conclusão de que o funcionário passou o dia
inteiro tomando café.
Tinha razão o rapaz de ficar zangado. Mas com um pouco de
imaginação e bom humor podemos pensar que uma das delícias do gênio carioca é
exatamente esta frase:
- Ele foi tomar café.
A vida é triste e complicada. Diariamente é preciso falar
com um número excessivo de pessoas. O remédio é ir tomar um
"cafezinho". Para quem espera nervosamente, esse
"cafezinho" é qualquer coisa infinita e torturante. Depois de esperar
duas ou três horas dá vontade de dizer:
- Bem cavaleiro, eu me retiro. Naturalmente o Sr. Bonifácio
morreu afogado no cafezinho.
Ah, sim, mergulhemos de corpo e alma no cafezinho. Sim,
deixemos em todos os lugares este recado simples e vago:
- Ele saiu para tomar um café e disse que volta já.
Quando a Bem-amada vier com seus olhos tristes e perguntar:
- Ele está? - alguém dará o nosso recado sem endereço.
Quando vier o amigo e quando vier o credor, e quando vier o parente, e quando
vier a tristeza, e quando a morte vier, o recado será o mesmo:
- Ele disse que ia tomar um cafezinho...
Podemos, ainda, deixar o chapéu. Devemos até comprar um
chapéu especialmente para deixá-lo. Assim dirão:
- Ele foi tomar um café. Com certeza volta logo. O chapéu
dele está aí...
Ah! fujamos assim, sem drama, sem tristeza, fujamos assim.
A vida é complicada demais. Gastamos muito pensamento, muito sentimento, muita
palavra. O melhor é não estar.
Quando vier a grande hora de nosso destino nós teremos
saído há uns cinco minutos para tomar um café. Vamos, vamos tomar um cafezinho.
R U B E M B R A G A
CACHOEIRO DE ITAPEMIRIM-ES =
1913-1990
POESIA - Cesário Verde
De
Tarde
Naquele pequenique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aquarela.
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aquarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampamos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.
Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papulas!
CESÁRIO VERDE
PORTUGAL, 1855-1886
CARLOS EDUARDO NOVAES
Sem dinheiro, trabalhei como um pé-de-boi,
fiz meu pé de meia, tirei o pé da lama e botei o pé na estrada.
Voltei com a certeza que, no extremo Sul do corpo feminino, nenhuma mulher chega
aos pés das brasileiras, é fato não raro tal fixação, que me faz sofrer
mais do que pé de cego.
Recordo de uma festa em Petrópolis,
era verão, caía um daqueles pé-d’água que quase nos obriga a usar pé
de pato. Percebi um par de pés esculturais evoluindo no salão, eles
sofriam atropelados por um pé de cana, que mal se aguentava em pé.
Aguardei o intervalo e, rápido como um busca-pé, tirei-a para dançar,
mesmo não sendo um pé de valsa. De cara, tive ímpeto de implorar dá o
pé, loura, mas preferi perguntar se era casada ao pé do ouvido,
tinha que tomar pé da situação. Ela respondeu que era solteira, e isso
nos deixava em pé de igualdade. Emocionado, passei a dizer coisas sem
pé nem cabeça e creio que meti os pés pelas mãos, porque ela disse
que minha conversa estava um pé no saco. Por um momento perdi o pé,
quando ela se afastou. Súbito, mas recomposto, fui atrás, decidido a ficar no
pé dela, que me disse que precisava ir para casa, seu pai estava mal, com o
pé na cova. Não acreditei, ela jurou de pé junto, não
resisti e declarei o meu amor aos seus pés. Ela me olhou com o pé
atrás, então disfarcei disse que ela não precisa levar a declaração ao
pé da letra, disse que não era louco, que tinha os pés na terra e
sugeri levá-la em casa, iríamos num pé e voltaríamos no outro. Ela,
delicada, pediu para eu largar do seu pé, mas insisti sem arredar o
pé, se tivesse que cair cairia de pé. Ela saiu apressada, apertando
o pé poderia alcançá-la com o pé nas costas, mas preferi não
assustá-la e a segui pé ante pé. Ela morava numa casa antiga dessas de pé-direito
alto, depois que entrou, toquei a campainha e, como não apareceu
ninguém, pensei em usar um pé-de-cabra. Resolvi enfiar o pé na porta,
ela surgiu no alto da escada numa expressão de mulher em pé de guerra, e
apontou-me o olho da rua. Bati o pé, disse que não saia, que não era um
pé-frio, ela não poderia me tratar como um pé de chinelo e que
gostaria de tê-la ao meu lado ao pé do altar. Tomando pé das
minhas intenções, ela sorriu e foi descendo, sedutora, degrau por degrau, parou
quase ao pé da escada, estendeu-me o pé direito, peguei-o
carinhoso com as duas mãos, e quando ia começar a beijá-lo, percebi a presença
daquela micose conhecida como pé de atleta. Recuei, olhei nos seus olhos
e observei seus pés-de-galinha e, sem saber o que fazer, ofereci-lhe um pé
de moleque. Girei meus calcanhares, dei no pé, mas disse antes: seja
feliz!
CARLOS
EDUARDO NOVAES
RIO DE
JANEIRO-RJ, 1940
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