domingo, 28 de junho de 2015

CRÔNICA = Luís Fernando Veríssimo



A Mulher Feia De Cada Um


Estamos vivendo preâmbulo de golpe, em que causas se misturam, fronteira entre oportunismo político e moralismo exacerbado se dilui, e as definições são impossíveis
Para-choques de caminhão têm sempre o que dizer, e algumas das suas frases tornaram-se clássicas. Há declarações religiosas, num tom de catequese ressentida (“Deus é maior do que você merece”). Há as frases que tratam das agruras do casamento (“Se casamento fosse coisa boa, não precisava de testemunha”) e das suas consequências indesejáveis (“Deus fez a mãe e o Diabo fez a sogra”). Algumas são sobre o sexo (“Bom é mulher carinhosa e embreagem macia”) e sobre as armadilhas do sexo (“Casamento que começa em motel termina em pensão”), outras são exemplos de sabedoria prática (“Devagar se vai ao longe… mas leva muito tempo”, “Cana dá pinga, pinga demais dá cana”, “Em terra de sapo mosquito não dá rasante” etc) e outras apenas confessionais (“Devo tudo à minha mãe, mas estamos negociando”).
A minha frase de para-choque preferida é “Se me virem abraçado com mulher feia, podem apartar que é briga”. Uma frase preconceituosa, é claro. Se você for examiná-la de perto — o que é sempre desaconselhável com qualquer piada — a frase é cruel. A mulher tem muitas maneiras de ser bonita sem, necessariamente, ser vistosa. E há muitas razões para estar abraçado com uma mulher feia sem que seja briga. O importante na frase é o que a mulher feia significa para cada um. A mulher da frase, além de feia, é simbólica. Representa todos os mal-entendidos que queremos evitar a nosso respeito. Ela é a causa que nunca abraçaríamos, embora pareça que sim. Por exemplo: se me virem participando de uma manifestação de rua de que também participe o Jair Bolsonaro ou similar, com faixas pedindo a volta da ditadura militar, podem ter certeza que, ou não sou eu ou entrei na manifestação errada. Os outros manifestantes podem não se incomodar com a companhia, e sua decisão é respeitável. Mas eu sei bem que mulher feia não quero do meu lado.
Acho que todo mundo deveria se preocupar com a mulher feia que aparecerá na sua biografia, quando contarem a história destes tempos. Estamos vivendo um preâmbulo de golpe, em que as causas se misturam, a fronteira entre o oportunismo político e moralismo exacerbado se dilui, e as definições são impossíveis — pelo menos definições claras e precisas como as de um para-choque. Mas no futuro cada um terá de dizer se estava dançando ou brigando com mulher feia.

 LUIS FERNANDO VERÍSSIMO
PORTO ALEGRE-RS = 1936

domingo, 14 de junho de 2015

VÍDEO = Billy Vaughn


PIADA



Presentes


Arnaldo, de 92 anos, e Maria, de 89 anos, estão super animados sobre a sua decisão de se casar. Enquanto passeiam, discutindo o casamento, eles passam por uma farmácia. Arnaldo resolve entrar.
 Ele explica ao farmacêutico que ele e Maria estão prestes a se casar, e pergunta:
 - Vocês vendem medicamento para o coração?
 - Claro que sim, responde o farmacêutico.
 - Remédio para reumatismo?
 - Claro, diz ele.
 - E Viagra?
 - Claro.
 - Remédio para problemas de memória, artrite, icterícia?
 - Sim, tudo.
 - E vitaminas, pílulas para dormir, antiácidos?
 - Lógico.
 - Vocês vendem cadeiras de rodas e andadores?
 - Sim, de todas as velocidades e tamanhos.
 - Ótimo!, Arnaldo diz ao farmacêutico.
 "Nós gostaríamos de fazer nossa lista de presentes aqui".

POESIA = Olegário Mariano



A Mania Do Antiquário

 Gosta de trastes velhos o antiquário.
Tem um museu em casa. A vida toda
Ficou sendo o feliz depositário
De tudo aquilo que passou de moda.

Enquanto gira o tempo e a vida roda,
Ele, a quem chamam de retardatário,
Vê na mania que a outros incomoda
A alegria de um gozo extraordinário.

Casou.se. Foi seu ultimo castigo.
Apezar da mulher ser bem bonita,
Ele contou sorrindo a certo amigo

O fim da derradeira transação:
—Procurei uma viúva... Era da escrita:
Gosto dos moveis de segunda mão...


OLEGÁRIO MARIANO
RECIFE-PE = 1889-1958

PENSAMENTOS = Diversos





VÍDEO = Mantovani


HUMOR





 





GRANDES PINTORES

 JULIO GONZÁLES = Espanha, 1876-1942
 JULIO GONZÁLES
 JULIO GONZÁLES
 JULIO GONZÁLES
 JULIO GONZÁLES
 JULIO GONZÁLES
 JULIO GONZÁLES
 JULIO GONZÁLES
 JULIO GONZÁLES
 
 JULIO GONZÁLES
 JULIO GONZÁLES = Espanha, 1876-1942

CONTO = Humberto de Campos



O Ladrão Arrependido

O delegado acabava de entrar, pendurando a bengala, o chapéu e o "cachenez", no cabide da repartição, quando o "prontidão" avisou estar no xadrez, à espera de interrogatório, um indivíduo preso na praça Tiradentes duas horas após o furto de um relógio.
— Manda-o subir... — ordenou a autoridade.
Ao fim de dois minutos, entrou na sala, custodiado por dois policiais, o autor do furto. Era um rapaz claro, de cabelo de fogo, rosto semeado de sardas, vestindo calça de casimira preta, paletó escuro, camisa sem gravata. A autoridade fechou a cara, improvisando uma fisionomia severa, e inquiriu:
— Foi o senhor que furtou este relógio?
— Foi, sim, senhor, - continuou, calmo, o rapaz.
— Sabe quem é o dono?
— Certo, certo, não sei, não, senhor. Só me lembro que era um sujeito de preto, que ia com uns embrulhos na mão.
— E ele não deu por falta do objeto?
— Parece que não. Quando o guarda me prendeu, eu estava junto do lampião, dando corda.
O delegado deixou passar um instante, e tornou:
— E o senhor não está arrependido de ter furtado esse relógio?
— Eu? Arrependidíssimo! — confirmou, com força, o ladrão.
E com ar de desprezo, o beiço torcido:
— Isso lá é relógio, "seu" doutor?! Em duas horas tive de dar corda nele três vezes!... Se o senhor ficar com ele vai se arrepender!
E encostou-se à parede, familiar.

HUMBERTO DE CAMPOS
MIRITIBA-MA  =  1886-1934