sábado, 23 de agosto de 2014
CONTO = Artur Azevedo
Um Desastre
Meteu-se em cabeça do pobre Raposo que havia de ser o marido da
senhorita Ernestina Soares, e verdade, verdade, ele tinha por si os pais da
moça, que o sabiam possuidor de um bom número de prédios e apólices e viam na
sua pessoa o ideal dos genros.
A senhorita não era da mesma opinião, em primeiro lugar porque gostava
muito do primo Enéias, que não tinha apólices nem prédios, mas era um bonito
rapaz e um mimoso poeta e, em segundo lugar, porque o Raposo, coitado!, pesava
nada menos de cento e vinte quilogramas, isto é, tinha uma pança que o
incompatibilizava absolutamente com um ideal de moça.
O Soares - honra lhe seja! - não era homem que obrigasse a filha a
casar-se contra a vontade; entretanto, procurou convencê-la de que a
corpulência do Raposo não era um pecado nem um delito, nem uma vergonha, e
melhor vida teria ela em companhia dele que na do primo Enéias, um troca-tintas
que não valia dois caracóis.
- Não, papai! mil vezes não! Exija de mim tudo quanto quiser, menos que
eu me case com uma barriga daquelas!
O Soares, que tinha as suas leituras, apontou à filha o exemplo de
muitos homens ilustres que foram grande barrigudos, mas tudo em vão:
decididamente a pequena estava enrabichada pelo primo Enéias.
O mais que o velho obteve foi fazer com que a filha recebesse, em
companhia dos pais, a visita do Raposo.
- Tu não o conheces! Olha que é um homem de espírito e um cavalheiro de
fina educação! Isso de mais barriga ou menos barriga não quer dizer nada! Vou
convidá-lo para vir tomar uma noite dessas uma xícara de chá em nossa casa.
Durante a sua visita examiná-lo-ás de perto. Quem sabe? Talvez se
modifiquem as tuas impressões. Se não se modificarem, paciência - casa-te com
quem quiseres e sê pobre à tua vontade!
Na noite aprazada o landau do Raposo conduziu-lhe a pança até à casa do
Soares, e o capitalista foi recebido com muita amabilidade por toda a família.
Ele sentou-se em uma delicada cadeira de braços em que parecia não
caber, e durante uma hora falou da sua vida, das suas viagens, das suas
aventuras por esse mundo a fora com tanta loquacidade, com tanta graça, com
tanta verve, que efetivamente a senhorita esqueceu-se de
que ele era gordo e começou a achá-lo simpático.
No fim daquela hora o primo Enéias estava quase esquecido; mas vejam os
leitores de que depende, às vezes, o destino de um homem: quando, convidado a
passar à sala de jantar, onde estava servido o chá, Raposo se ergueu, ergueu
consigo a cadeira que ficou apertada entre os seus quadris, extraordinariamente
dilatados por um largo repouso.
O desgraçado forcejou para arrancar a cadeira e não conseguiu. O Soares
aproximou-se dele e começou a puxá-la com toda a força, enquanto o Raposo,
curvado, agarrava-se ao umbral de uma porta como a um ponto de apoio.
Também o Soares não conseguiu tirar o pobre Raposo daquela prisão.
- Não puxe! não puxe mais! - gritou ele. - Olhe que quebra!...
E, agachado, esgueirou-se pela escada abaixo, sem se despedir de
ninguém, levando consigo a cadeira.
A porta esperava-o o landau onde ele entrou, calculem com que
dificuldade, gritando ao cocheiro que o levasse à casa, enquanto alguns
transeuntes, espantados, riam às gargalhadas vendo aquele barrigudo, no carro,
de gatinhas, com os largos quadris comprimidos entre os braços de uma cadeira.
A senhorita, desde que o Raposo se ergueu até que o viu entrar no
landau, riu tanto, tanto, que foi preciso desapertar-lhe o colete.
Uma hora depois um criado restituía ao Soares a maldita cadeira.
Naquela casa nunca mais se falou no Raposo.
A senhorita continua a namorar o primo Enéias, que está à espera de um
emprego no Povoamento do Solo para se poder casar.
ARTUR AZEVEDO
SÃO LUÍS-MA = 1855-1908
HUMOR
PIADAS DIVERSAS
A FILA
DO CAIXA DA PADARIA
O inglês começou:
- Quando fazemos sexo, a minha mulher grita tão
alto que a minha sogra, que mora no andar de baixo, escuta!
E o alemão:
- Isso não é nada, a minha mulher grita tão alto,
mas tão alto, que a minha sogra, que mora na casa ao lado, escuta!
O português, do outro lado do balcão, dá uma
gargalhada e diz:
- Ora pois, a minha mulher grita tanto, tanto, que
eu escuto cá da padaria!
LOJA DE
SAPATOS
O Manuel foi, na segunda-feira, a uma loja de
sapatos. Escolheu, escolheu e acabou se decidindo por um par de sapatos de
cromo alemão. O vendedor entregou o sapato, mas foi logo advertindo-o: - Sr.,
estes sapatos costumam apertar os pés nos primeiros cinco dias. - Não tem
problema. Eu só vou usá-los no domingo que vem.
NO
CHUVEIRO
Manuel está tomando banho e grita para Maria: - Ô
Maria, me traz um shampoo. E Maria lhe entrega o shampoo. Logo em seguida,
grita novamente: - Ô Maria, me traz outro shampoo. - Mas eu já te dei um
agorinha mesmo, homem!!! - É que aqui está dizendo que é para cabelos secos e
eu já molhei os meus.
MUDAR DE
PROFISSÃO NEM SEMPRE É FÁCIL
Uma senhora pega um táxi e indica a direção do
hotel onde está hospedada. O taxista, por incrível que pareça, não disse nada
durante todo o percurso, até que a senhora resolveu fazer-lhe uma pergunta e
tocou levemente em seu ombro. Ele gritou, perdeu o controle do carro e, por
pouco, não provocou um grave acidente!
Com o carro sobre a calçada, a senhora,
assustadíssima, virou-se para o taxista e disse: - Você estava dirigindo tão
bem! Como é que pôde quase ter um treco por conta de um simples toque no ombro?
- Não me leve a mal, senhora, mas... É que esse é
o meu primeiro dia como taxista.
- E o que o senhor fazia antes disso? - perguntou
ela.
- Eu fui, por 25 anos, motorista de carro
funerário.
POESIA = Adelmar Tavares
Prima Amparo
Ela não viu a imagem na corrente,
quando ao rio, em S. João, se foi
banhar,
e voltou para casa, descontente,
com os lindos olhos baixos, a
chorar...
"Morrerei o outro Junho,
certamente...
Como as "sortes"
enganam ! ... "Vais casar" .
— Prima Amparo, não creia.. .
Pode a gente
nessas superstições acreditar ?
...
O outro Junho chegou... E ela
partia
morta, no seu caixão, magoado o
rosto,
o meu primeiro amor, a flor de um
dia! ...
Por isso, quando Junho vem
chegando,
choro esse esquife azul, pelo sol
posto,
com seis moças de branco,
carregando...
ADELMAR TAVARES
RECIFE-PE =
1888-1963
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