sábado, 26 de julho de 2014

CRÔNICA = Ivan Ângelo



IVAN ÂNGELO
BARBACENA-MG,1936

Assombrações


Existem uns amores que já morreram há muito tempo mas de vez em quando aparecem, como uma assombração. Não, não falo de assombrações que voltam para seduzir, como a moça-fantasma de Belo Horizonte poetizada por Carlos Drummond de Andrade; ou voltam para apimentar uma vida que ficou insossa, como o Vadinho de Jorge Amado faz com dona Flô. Não. Estas, diz o ditado, sabem para quem devem aparecer, ou seja: só aparecem com a ajuda daqueles para quem aparecem. Falo de outras, que fazem uma visita breve, uma aparição, e somem, de improviso, sem arrepiar ninguém.
Às vezes esses amores nem se mostram inteiros. Surge uma boca, um seio, uma pele, um andar, uma risada. Quando se presta atenção, a figura desaparece: era assombração. O fantasma antigo pode aparecer de repente no meio de uma leitura, ao escovarmos os dentes, e até na hora do amor. A gente pode estar conversando, discutindo um negócio, um filme, uma jogada, e se intromete aquele olhar. Pode estar dirigindo um carro e a mão que repousa hoje na nossa perna tem o mesmo peso de alguma do passado e aí vem o fantasma sem-que-fazer e puxa conversa.
Não é saudade, não é nada: é intromissão. A figura surge concreta, sensível, do mesmo modo como nos vem um gosto de doce de abacaxi ou uma chinelada de mãe. Quem governa fantasma? Quem chama? Ninguém, é ele mesmo quem se convida.
Não tem nada a ver com aquela coisa de telenovela, aqueles dramas de folhetim em que se comenta: ele ainda gosta dela, não tira essa mulher da cabeça, até hoje é apaixonado por ela etc. Nada disso. É pura farra de assombração, que irrompe de repente na hora própria ou imprópria, independentemente de convite ou convite. Ora uma, ora outra, faz sua visita-relâmpago, muda ou falante, e some.
Que dizem? Cada visitado recebe seu recado conforme gravou. Uma confessa trêmula, temerosa de desamor: "Não sou mais virgem" - quando isso tinha importância. Outra, cobrando: "Você não assume." Outra, no escuro: "Quem é você?" Amores de outro mundo não se sentem obrigados a diálogo, dão seu recado e vão. Ou nem dão, só se entremostram.
Alguns perdem a viagem, e nos assaltam só com uma sensação, um nome, umas covinhas, tranças negras. Não têm mais aparência corpórea. Será que morreram na vida real? Desvaneceram-se no tempo, frágeis como velhas cartas que se esfarelam, como madeira sem lei. Nem por isso menos reais em suas fantasmice, menos carentes de sentido que não a própria visita inesperada.
De maneira nenhuma perturbam o amor em curso, nem é essa sua intenção, se é que aparições têm algum propósito. O amor em curso é feito de beijo e resposta - e segue intocado por essas intromissões. Também não se pode dizer: são desejos, frustações. Não. Tiveram, no seu tempo, beijo e resposta. Nada ficou por explorar, quando seus corpos eram matéria propícia. Nada ficou por explorar, quando seus corpos eram matéria propícia. Foram generosas no dar, alegres no receber: tiveram fartura. Não vagam por aí à procura, estão satisfeitas no seu canto.
Nem se pode dizer: são visitas malfazejas. Pelo contrário, são cordiais! São borboletas: passam, enfeitam com algumas cores, vocejam e partem. Se deixam alguma coisa, é um sorriso na alma do visitado.

PENSAMENTO IMAGEm = Diversos



sábado, 12 de julho de 2014

VÍDEO = Pierre Dumont


PENSAMENTO-IMAGEM = Ruy Barbosa


POESIA = Patativa do Assaré





Reforma Agrária


Pobre agregado, força de gigante
Escuta, amigo, o que te digo agora
Depois da treva vem a linda aurora
E a tua estrela surgirá brilhante

Pensando em ti eu vivo a todo instante
Minha alma triste desolada chora
Quando te vejo pelo mundo afora
Vagando incerto, qual judeu errante



Para saíres da fatal fadiga
Do horrível jugo que cruel te obriga
A padecer situação precária

Lutai altivo, corajoso e esperto
Pois só verás o teu país liberto
Se conseguires a reforma agrária



PATATIVA DO ASSARÉ
ASSARÉ-CE  =  1909 – 2002

POESIA = Tobias Barreto



A Escravidão
1868


Se Deus é quem deixa o mundo
Sob o peso que o oprime,
Se ele consente esse crime,
Que se chama a escravidão,
Para fazer homens livres,
Para arrancá-los do abismo,
Existe um patriotismo
Maior que a religião.

Se não lhe importa o escravo
Que a seus pés queixas deponha,
Cobrindo assim de vergonha
A face dos anjos seus,
Em seu delírio inefável,
Praticando a caridade,
Nesta hora a mocidade
Corrige o erro de Deus!...


TOBIAS BARRETO
CAMPOS-SE = 1839-1889



HUMOR











PENSAMENTOS-IMAGENS = Diversos




GRANDES PINTORES

 LULA CARDOSO AYRES = Rio Formoso-PE, 1910-1987
 LULA CARDOSO AYRES
 LULA CARDOSO AYRES
 LULA CARDOSO AYRES
 LULA CARDOSO AYRES
 LULA CARDOSO AYRES
 LULA CARDOSO AYRES
 LULA CARDOSO AYRES
LULA CARDOSO AYRES = Rio Formoso-PE, 1910-1987

VÍDEO = Franz Lehar


PENSAMENTO-IMAGEM = Vinícius de Moraes


POESIA-IMAGEM = Fernando Pessoa


HUMOR (Clique nas Imagens para Aumentá-las)











POESIA = Teresa Tenório


 Noturno Do Recife


Sou a Cidade de sombra. Fui o sonho
desse invasor Maurício e adormeci
sob a língua do mar junto aos medonhos
fantasmas de afogados e teci



dentro da noite cânticos estranhos
para além dos portais dos arrecifes
Quando a Paixão acende meus demônios
meu coração de loba é fogo líquido



Cigana iluminada hoje renasço
à luz crepuscular da lua fria
Nas raízes das pontes olvidadas
eu sorvo a lama podre desses rios



Sobrevoando praças e mercados
destaco o que me causa dor sem nome
Aos esgotos precários que lhe cabe
reúno ao lixo o hom
em e sua fome


TERESA TENÓRIO

RECIFE-PE  = 1949