sábado, 30 de março de 2013

POESIA = Joaquim Cardoso


JOAQUIM CARDOZO
RECIFE-PE  =

  

Tarde No Recife




Tarde no Recife.
Da ponta Maurício o céu e a cidade.
Fachada verde do Café Máxime.
Cais do Abacaxi. Gameleiras.
Da torre do Telégrafo Ótico
A voz colorida das bandeiras anuncia
Que vapores entraram no horizonte.


Tanta gente apressada, tanta mulher bonita.
A tagarelice dos bondes e dos automóveis.
Um carreto gritando — alerta!
Algazarra, Seis horas. Os sinos.


Recife romântico dos crepúsculos das pontes.
Dos longos crepúsculos que assistiram à passagem
[dos fidalgos holandeses.
Que assistem agora ao mar, inerte das ruas tumultuosas,
Que assistirão mais tarde à passagem de aviões para as costas
[do Pacífico.
Recife romântico dos crepúsculos das pontes.
E da beleza católica do rio.

 

PENSAMENTOS


 

"O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética... O que me preocupa é o silêncio dos bons." = MARTIN LUTHER KING

 

O homem mergulha na multidão para afogar o grito do seu próprio silêncio = RABINDRANATH TAGORE

 

Pecar pelo silêncio, quando se deveria protestar, transforma homens em covardes. = ABRAHAM LINCOLN

 

Que importa onde a morte nos irá surpreender! Que ela seja benvinda, desde que nosso grito de guerra seja ouvido, que uma outra mão se estenda para empunhar nossas armas e que outros homens se levantem para entoar cantos fúnebres em meio ao crepitar das metralhadoras e novos gritos de guerra e de vitória!


 

 

VÍDEO = Praias de Pernambuco


FRASES DE DIVERSOS


"Não haverá borboletas se a vida não passar por
Longas e silenciosas metamorfoses."
RUBEM ALVES

"A leitura é uma fonte inesgotável de prazer mas por incrível
que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede."
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Se a tranquilidade da água permite refletir as coisas,
o que não poderá a tranquilidade do espírito?
CHUANG TZU

"O amor é uma bela flor à beira de um precipício. É
necessário ter muita coragem para a ir colher."
STENDHAL

As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas
sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.
CLARICE LISPECTOR

"Há várias maneiras sérias de não dizer
nada, mas só a poesia é verdadeira."
MANOEL DE BARROS

“O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente
sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso
que servem os caminhos, para nos
fazerem parentes do futuro”
MIA COUTO

"Viver é um rasgar-se e remendar-se"
JOÃO DOS GUIMARÃES ROSA

“Você  pode  descobrir mais  sobre  uma  pessoa  em  uma
hora de brincadeira do que em um ano de conversa.”
PLATÃO



 

POESIA = João Cabral de Melo Neto


JOÃO CABRAL DE MELO NETO
RECIFE-PE  =  1920 / 1999

 

Cemitério Toritama

 

Para que todo esse muro?
Por que isolar estas tumbas
do outro ossário mais geral
que é a paisagem defunta?

A morte nesta região
gera dos mesmos cadáveres?
Já não os gera de caliça?
Terão alguma umidade?

Para que a alta defesa,
alta quase para os pássaros,
e as grades de tanto ferro,
tanto ferro nos cadeados?

— Deve ser a sementeira
o defendido hectare,
onde se guardam as cinzas
para o tempo de semear.

 

 

FILOSOFIA DE BOTECO

 

 
SE VOCÊ AINDA NÃO ENCONTROU A PESSOA CERTA,
VAI COMENDO A ERRADA MESMO..."
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"HOMEM É IGUAL A CAIXA DE ISOPOR: É SÓ ENCHER DE
CERVEJA QUE VOCÊ LEVA PRA QUALQUER LUGAR." 
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"A DIFERENÇA ENTRE A MULHER E O HOMEM????
A MULHER ESTÁ SEMPRE PRONTA PARA O QUE DER E VIER E O HOMEM ESTÁ SEMPRE PRONTO PARA QUEM VIER E DER." 
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"EU BEBO POUCO, MAS O POUCO QUE BEBO ME TRANSFORMA EM OUTRA PESSOA , E ESSA OUTRA PESSOA SIM, BEBE PRA CACETE" 
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"QUAL É A PRINCIPAL DIFERENÇA ENTRE FRUSTRAÇÃO E DESESPERO? FRUSTRAÇÃO É QUANDO VOCÊ PELA
PRIMEIRA VEZ NÃO CONSEGUE DAR A
SEGUNDA... DESESPERO É QUANDO
VOCÊ PELA SEGUNDA VEZ NÃO
CONSEGUE DAR A PRIMEIRA..." 
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"DEVO TANTO QUE, SE EU CHAMAR MINHA
MULHER DE BEM, O BANCO TOMA!!" 
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"O MELHOR NEGÓCIO DO MUNDO É ABRIR UM PUTEIRO,
SE VOCE FALIR, AINDA PODE COMER O ESTOQUE!" 
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"PASSADO DE MULHER É IGUAL A COZINHA DE
RESTAURANTE: MELHOR NÃO CONHECER
SENÃO VOCÊ NÃO COME." 
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NÃO BEBA DIRIGINDO! VOCÊ PODE DERRUBAR A CERVEJA. 
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"APRENDA UMA COISA: O MUNDO NÃO GIRA EM TORNO
DE VOCÊ...SÓ QUANDO VOCÊ BEBE DEMAIS." 
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" EM DIA DE TEMPESTADES E TROVOADAS O LOCAL
MAIS SEGURO É PERTO DA SOGRA, POIS
NÃO HÁ RAIO QUE A PARTA."

CONTO = Dinah Silveira de Queiroz


DINAH SILVEIRA DE QUEIROZ
SÃO PAULO-SP  =  1917 / 1982


O Homem Que Se Evadiu

 

 Ele costumava olhar a cidade como quem passa de trem, e não pode possuir a paisagem. Que belas mulheres, que admiráveis lugares de diversões, e que restaurantes... e que bebidas! Feliz era o turista que chupava a cidade por um canudo. Mas ele — ele era o seu escravo! De casa para o trabalho, do trabalho para casa. Quando chegava o dia de folga — a mulher, que estava dia a dia ficando mais feia e ácida, se agarrava com ele. Ela era quem escolhia o cinema, ou a visita...
Numa segunda-feira, em que o homem sentia a vida como um nó na garganta, um companheiro de trabalho deu certa notícia: — "Sabe? O chefe vai mandar-me a Buenos Aires por quinze dias!"
— "Mas você é um homem de sorte! Eu que sempre quis conhecer aquela terra!" A viagem do colega a Buenos Aires deu ao nosso conhecido um complexo: o da liberdade! A inveja nele doía. E então, pediu ao felizardo:

— "Tive uma idéia. Vou tomar férias. E como não tenho dinheiro para viajar... fico por aqui mesmo. Mas quero que minha mulher pense que estou fora. Meu amigo — eu vou é me acabar! Vou-me divertir para o resto da minha vida. Você vai para Buenos Aires, mas a gente rica de lá vem passear aqui. Quer dizer que isto é bom. O de que se precisa é liberdade, para gozar o Rio." Como o amigo concordasse com sua fantasia -- o carioca que queria gozar o Rio como turista disse à mulher: — "Meu bem, tenho uma novidade para contar.

O chefe me despachou para Buenos Aires por duas semanas! Vou ter muitas saudades de você. Nós que não nos separamos nunca!" E ele não quis que a mulher o acompanhasse ao Aeroporto:

— " Vou ficar muito emocionado."

Nesse dia em que deveria embarcar, ele madrugou e foi levar o amigo, entregando-lhe meia dúzia de telegramas que deveria passar... E caiu na orgia. À noite, depois de um dia de companhia alegre, de passeio de lancha, de teatro ao lado de uma loira, à noite, lá pelas onze horas, uns conhecidos que chegavam a uma boate deram com nosso personagem num pileque terrível. Daí a meia hora estava dormindo sobre a mesa: ninguém sabia que ele tomara um quarto em hotel... nem conhecia sua trama inventada. Os amigos, penalizados, o puseram num automóvel e sabendo do seu endereço, o deixaram em casa, onde a mulher o recebeu com espanto, que se transformou em cólera tremenda. Quando, de manhãzinha, o homem acordou em seu quarto — mediu toda a extensão da sua — desgraça:

— " Meu bem, os amigos, lá no aeroporto... O avião atrasara quatro horas... me deram uma festinha de despedida... e eu perdi a hora... Mas não foi minha culpa. Você me perdoe. Isso aconteceu, porque eu não tenho hábito dessas coisas... Mas eu me arranjarei com o chefe... Até foi bom. Ele manda outro funcionário, e eu não me separo mais da minha mulherzinha."

A senhora estava furiosa. Foi preciso muito juramento e muita declaração de amor para que amansasse um pouquinho. À tarde, quando estava já querendo fazer as pazes tocou a campainha da porta. Era um telegrama. Ela o abriu:

— " Viagem ótima. Morrendo saudades querida mulherzinha."

Foi a tempestade. A senhora arrumou a bagagem. Ia para a casa do pai, pois não era uma abandonada. O marido se arrojou ao chão, inventou histórias, disse que se mataria. Ela ficou. Mas quando se recolhiam ao quarto de pazes feitas, chegou novo telegrama:

— " Buenos Aires sem ti não vale nada."

E os quinze dias do homem que quis quebrar sua rotina foram tremendos. Mesmo porque o amigo que levara os telegramas mudara de hotel, em Buenos Aires, e se desincumbiu religiosamente da sua missão. O último despacho que mandou foi assim:

— " Volto amanhã teus braços." E estava gentilmente assinado: " Maridinho."

 

FEIRA DE SANTANA-BA
FEIRA DE SANTANA-BA
FEIRA DE SANTA-BA
FEIRA DE SANTANA-BA
GUARABIRA-PB
GUARABIRA-PB
GUARABIRA-PB
ITABUNA-BA
ITABUNA-BA
ITABUNA-BA
ITABUNA-BA
JABOATÃO DOS GURARAPES-PE
JABOATÃO DOS GUARARAPES-PE
JABOATÃO DOS GUARARAPES-PE
JABOATÃO DOS GUARARAPES-PE
 

PIADA


Passarinhos Musicais

 

Um rapaz tinha dois passarinhos: um que cantava muito e outro que não cantava nada.

Um dia, resolveu vendê-los em uma feira. Colocou-os expostos para que todos os vissem e então um dos passarinhos começou a cantar sem parar umas músicas lindas, enquanto o outro ficava calado o tempo todo.

Um senhor chegou para o rapaz e perguntou:

— Quanto custa cada pássaro, meu jovem?

O rapaz respondeu:

 Esse que está cantando custa 50 reais e o calado custa 200...

O senhor estranha:

— Ué! Por que o que está calado custa mais do que o que está cantando?
— Porque ele é o compositor.

VÍDEO = Valsa Da Meia Noite


FOLHA DA MANHÃ


FOLHA  DA  MANHÃ

São Paulo, domingo, 27 de dezembro de 1953


NORMAS DE CORTESIA EM PÚBLICO

Neste texto foi mantida a grafia original




 
Um cavalheiro não deixa de cumprimentar, embora sempre discretamente, as pessoas que encontra em escada. Em companhia de senhoras os homens sobem precedendo-as e descem seguindo-as.
- O costume de dar o braço às senhoras subsiste hoje apenas para banquetes e cerimonias de casamento.
- Quando se aproxima de uma porta, quando há uma senhora perto, o cavalheiro deve dar um passo atrás e inclinar-se ligeiramente ou então dizer: "Tenha a bondade, minha senhora" ou, simplesmente: "Tenha a bondade".


Em um restaurante, porem, o cavalheiro entra na frente para indicar o caminho e escolher os lugares para depois então dar caminho às senhoras que o acompanham.

O mesmo caso, entre duas senhoras, leva a mais velha a ter primazia, mas como quase nunca a mulher "é mais velha", convem não insistir.

- Quando tivermos um lugar numerado ou pago em teatro, restaurante, cada um deve guardar o seu, mas em se tratando de conferencia, concerto, clubes ou sociedades, o fato de ter-se pago uma cadeira não nós desobriga das atenções ditadas pelas boas maneiras.

- Nos grandes centros devemos pedir informações, na rua, em primeiro lugar aos policiais, mas na ausencia destes podemos interromper um transeunte para pedir-lhe a informação que desejamos. De qualquer forma, porem, e em qualquer posição social, o interrogado deve ser polido e responder da forma mais honesta possivel, com uma afirmação ou negação que seja, mas nunca com uma dúvida.

- Guarda-chuva, guarda-sol ou sombrinha, devemos sempre deixá-la no vestibulo e não carregarmos conosco esse acessorio pelas salas ou salões a dentro.

- Um cavalheiro nunca deve convidar uma senhora estranha para abrigar-se sob seu guarda-chuva.
- Sempre que carregarmos um guarda-chuva, devemos, aberto ou fechado, desviá-lo convenientemente para não esbarrarmos ou ferirmos outras pessoas na rua ou em qualquer publico.
- Ao entrarmos em uma loja, não devemos cumprimentar o empregado ao qual nos dirigimos, mas simplesmente dizer "faça-me o favor", "por gentileza", "por obsequio". À saida, agradece-se. Devemos chamar um caixeiro de senhor e uma caixeira de senhorita ou senhora, no caso de estar à vista a aliança na mão esquerda.

- Quando em uma loja, não devemos nunca interferir na compra de uma terceira pessoa, dando opinião - que é sempre pessoal - sobre cor, qualidade, preço e etc. É um gesto sempre incorreto.
- Nos grandes estabelecimentos comerciais o cavalheiro não precisa, de forma alguma, tirar o chapéu, mesmo que seja o unico homem no local.

- Quando um pedinte nos estender a mão e não quisermos dar auxilio, podemos passar sem nada dizer; se aquele insistir, devemos responder com um delicado "Não tenho agora" ou qualquer coisa parecida e se estivermos prevenidos ou quisermos dar a esmola, devemos fazê-lo sem dizer absolutamente nada.

- Durante a execução do hino de qualquer país e à passagem de um enterro, o cavalheiro deve tirar o chapéu.

- Na rua, a forma mais facil de andar é seguindo a lei do transito: "Conserve a sua direita" que é, alem disso, a forma mais correta de procedimento social.

- Um cavalheiro, na rua, deve ceder o lado do passeio junto às casas quando vier em sentido contrario uma senhora, um superior, um velho, uma criança ou um carregador.
- Como norma geral, o cavalheiro deve acompanhar os passos das senhoras que estejam em sua companhia e deve ceder-lhes o lado da calçada junto às casas.

- Quando estiverem juntos dois homens e um senhora, esta deve permanecer no centro. Mas, se o caso for de duas senhoras e um homem, este deve ficar do lado de fora, isto é, deixar que as senhoras tomem o lado dos predios e casas.

- No campo ao atravessar um riacho ou um trecho ruim de estrada ou rua, ao passar sobre uma ponte o cavalheiro deve oferecer o braço às senhoras, como apoio.

- Se uma senhora deixa cair algum objeto devemos nos apressar a erguê-lo. Mas, se for um cavalheiro, as mulheres devem apenas avisá-lo.

- Quando quisermos falar a alguem, na rua, devemos chegar bem perto, e não chamá-la em voz alta pelo nome ou apontá-la com o dedo.

- Em locais publicos não devemos nunca chamar a atenção sobre nós mesmos; não devemos voltar a cabeça para todos os lados; não devemos acompanhar ninguem com olhar insistente; não devemos chamar por gestos uma pessoa que passa; não devemos falar ou rir em voz alta.

POESIA =Janice Japiassu


JANICE JAPIASSU
MONTEIRO-PB  =  1939

Revoada

 


Vou-me embora pro Recife
Jogar meu sonho no mar
Dar de beber à esperança
Aprender a navegar

Levo os arreios de prata
Para o cavalo marinho
Vou me queixar à mãe d’água
Da minha safra de espinhos

Vou fugindo desvairada
Dos desmantelos do sol
Eu quero a pátria das águas
Com o seu líquido lençol

Vou-me embora pro Recife
Vou tomar banho de rio
D’um rio que nunca seca
Que nunca perde pro estio

Dou de comer ao meu gado
De beber, aos passarinhos
Depois eu canto encantada
Um canto de muitas rimas

Vou-me embora pro Recife
Vestida de colombina

CONTO = Humberto de Campos


HUMBERTO DE CAMPOS
MIRITIBA-MA  =  1886 / 1934



Razão Poderosa



 

Não obstante as suas barbas hirsutas, e aquele nariz aquilino, que parecia espiar, curioso, para o abismo da boca dissimulada sob os bigodes, Abraão Salazar não era um homem triste. Na Sinagoga, nas reuniões religiosas, era, mesmo, dos menos soturnos, a ponto de ter sido censurado uma vez, com os olhos, pelo rabino Melchisedec.

Foi, por isso, motivo para estranheza o modo porque aquele honrado descendente de Israel entrou, naquela noite, no pequeno prédio da rua da Alfândega, onde se iam erguer novas preces pela felicidade dos judeus espalhados por todo o mundo. E como ninguém tivesse mais intimidades com ele do que o velho Isaac Labbareff, foi a este que coube o direito de aproximar-se de Abraão, para uma pergunta fraternal.

— Estás doente? — indagou, com os olhos muito pequenos, muito vivos, faiscando entre as sobrancelhas revoltas, como dois diamantes escondidos na relva.

— Não. Uma desgraça.

Os olhos de Isaac refulgiram, ainda mais.

— Deixaram de pagar-te algum empréstimo? — indagou?

— Não — informou, seco, Abraão Salazar.

E cerrando o cenho:

— Imagina tu, que, ao entrar em casa, encontrei o Daniel, Daniel Shakaroff, aos abraços com minha mulher!

— E não o mataste? — indagou, recuando, o velho judeu.

— Não. E é isso que me revolta. Eu não podia matá-lo.

— Não podias? — rugiu o ancião.

A Abraão, os punhos contraídos, os dentes cerrados, na raiva de quem se sentiu manietado:

— Não sabes, então, que ele me deve duzentos mil réis?

 

 

POESIA = Manuel Bandeira


MANUEL BANDEIRA
RECIFE-PE  = 1886-1968



 Vou-Me Embora Pra Pasárgada
 

 

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
 

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
 

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
 

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

 
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

A FOME


A FOME


Não há como negar que a nossa sociedade apresenta muitas desigualdades. Uma parte dela tem os seus direitos garantidos: tem acesso à saúde, à educação, à habitação e vive em condições dignas. Outra parte, porém, vive na sombra, na miséria e não tem acesso aos direitos fundamentais do homem. Contra essa situação de exclusão, muitos textos são produzidos. Leia a poesia abaixo e repare nas marcas de protesto que ela traz.

 
O Bicho

(MANUEL BANDEIRA)


Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre detritos.

 Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

 O bicho não era um cão.
Não era uma gato,
Não era um rato.

 O bicho, meu Deus, era um homem.


O poema de Manuel Bandeira não deixa dúvidas. Ele nos descreve uma pessoa reduzida à condição de bicho. Ele nos apresenta a fome em estado bruto. O homem - bicho do poema de Bandeira age como um animal, porque está excluído da cidadania, está faminto e sem dinheiro. Ao incluir no seu poema uma cena tão perversa da exclusão social, o poeta nos alerta para os absurdos da miséria e faz assim uma crítica aberta às injustiças e desigualdades.
Leia o texto abaixo.

A  ALMA DA FOME

"A fome é exclusão. Da terra, da renda, do desemprego, do salário, da educação, da economia, da vida e da cidadania. Quando uma pessoa chega a não ter o que comer, é porque tudo o mais já lhe foi negado. É uma espécie de cerceamento moderno ou de exílio. A morte em vida. E exílio da terra.

A alma da fome é política.

É gente que começa o dia buscando o que comer que chega à noite sem nada. Pode-se imaginar o quadro porque é o de todo dia para milhões de seres humanos: a fome da comida e de tudo. A essa altura da vida da humanidade é incrível que isso aconteça." (HERBERT DE SOUZA - Ética e Cidadania)

O texto acima diz, a seu modo, o mesmo que disse o poema de Bandeira. Ele nos revela também um quadro perverso de exclusão "da renda, do emprego, do salário, da educação, da economia, da vida e da cidadania."

Além disso, o texto nos dá também indicações sobre as causas da fome. Ao afirmar que "a alma da fome é política", o texto sugere que a solução do problema da exclusão social passa pelas decisões políticas.

 

FRASES BEM HUMORADAS


FRASES BEM HUMORADAS

 
 
Você descobre que está ficando velho quando os
filmes que você viu no cinema começam
a passar na Sessão da Tarde. 

O Batman é tão gay que até sua principal arma,
o cinto de utilidades, é um acessório. 

Era tão saudosista que sentia saudades
do tempo que sentia saudade. 

Bons tempos que a Garota de Ipanema era um
avião e o Tom Jobim não era um aeroporto.
 
Pela lógica, meu sogro devia me dar
parabéns pelo Dia do Consumidor.
 
Minha conta é corrente. O Dinheiro entra e sai correndo.
 
Cuidado com a gula, a porta do céu é estreita.

 Não tenho medo de fantasmas. Só inveja mesmo, por
eles terem cargos públicos bem remunerados.

 O trocador de onibus é um cara que fica o dia inteiro
na roleta mas quem ganha nunca é ele.

 Sou uma pessoa que corre atrás dos sonhos. Por isso vou dormir.

 Se tua vida é um drama, faça do personagem
principal o alívio cômico do roteiro.

 Se baixarem o preço do ingresso, paro de baixar filmes.

 Pelo menos em um aspecto o Brasil é mais adiantado
que os Estados Unidos: fuso horário.