sábado, 25 de agosto de 2012

CONTO = Humberto De Campos

HUMBERTO DE CAMPOS
MIRITIBA-MA = 1886 / 1934


A Geografia



Foi em um negócio de ferros velhos, durante a guerra mundial, que o Procópio Viana passou de modesto vendedor da casa Portela & Gomes a honrado capitalista da nossa praça. Com a bolsa repleta de amostras de arroz, de feijão, de milho, de farinha, anda acima e abaixo a vender nos retalhistas, quando um deles o incumbiu de negociar os maquinismos de uma velha fábrica desmantelada. O rapaz ganhou no negócio quinze contos, e não mais saber de outro comércio. E, em breve, comprava até navios velhos, vendendo-os a estrangeiros, conseguindo reunir, com essas transações, os seus quatro milhares de contos.
Rico, pôs-se o Procópio a viajar. E era de regresso desse passeio através dos continentes, que contava, no Fluminense, a um grupo de senhoras, as suas impressões de turista.- Visitei Paris, Londres, Madri... - dizia ele, com ênfase, sacudindo a perna direita, o charuto ao canto da boca, a mão no bolso da calça. - Fui ao Cairo, a Roma, a Berlim, a Viena...
E após um instante:
- Estive em Tóquio, em Pequim, em Singapura...
A essas palavras, que punham reflexos de admiração e de inveja nos olhos das moças que o ouviam, mlle. Lili Peixoto aparteou, encantada:
- O senhor deve conhecer muito a Geografia... Não é?
- Ah! não, senhora! - interveio, logo, superior, o antigo caixeiro de Portela & Gomes. - A Geografia, eu quase não conheço.
E atirando para o espaço uma baforada do seu charuto cheiroso:
- Eu passei por lá de noite...







CLARICE LISPECTOR

"E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu."


CLARICE LISPECTOR

POESIA = Alberto Da Cunha Melo

ALBERTO DA CUNHA MELO
JABOATÃO DOS GUARARAPES-PE = 1942 / 2007


Um Crtão De Visita



Moro tão longe, que as serpentes
morrem no meio do caminho.
Moro bem longe: quem me alcança
para sempre me alcançará.

Não há estradas coletivas
com seus vetores, suas setas
indicando o lugar perdido
onde meu sonho se instalou.

Há tão somente o mesmo túnel
de brasas que antes percorri,
e que à medida que avançava
foi-se fechando atrás de mim.

É preciso ser companheiro
do Tempo e mergulhar na Terra,
e segurar a minha mão
e não ter medo de perder.

Nada será fácil: as escadas
não serão o fim da viagem:
mas darão o duro direito
de, subindo-as, permanecermos.



VÍDEO = Praias de Pernambuco

PRAIAS DO NORDESTE

Pedra da Galé-PB
Ponta de Pedras-PE
Gaibu-PE
Gaibu-PE
Guadalupe-PE
Itapuama-PE
Muro Alto-PE
Muro Alto-PE
Praia do Paiva-PE

CAPITAIS DO NORDESTE

TERESINA-PI
TERESINA-PI
TERESINA-PI
TERESINA-PI
TERESINA-PI
TERESINA-PI
TERESINA-PI

CIDADES DO NORDESTE

ARACATI-CE
ARACATI-CE
ARACATI-CE
ARACATI-CE
MILAGRES-CE
MILAGRES-CE

PIADA


O Luís parou o caminhão na frente da loja do seu Hamed e falou:


- Seu Hamed, tem aqui um caminhão de farinha de trigo sem nota pela metade do preço, o senhor aceita?

- Claro que Hamed aceita! Ele vira-se para o filho e diz.

- Hamedinho, vai bra esquina e se abarecer fiscal vem correndo avisar babai.

Começam a descarregar e, no meio do serviço apareceu o Hamedinho gritando:

- Babai!... Babai! ... o Fiscal vem vindo.

- Bára tudo! Voltem a carregar! Grita Hamed.

Chega o fiscal:

- Hummm! Venda grande não é seu Hamed?

- Ôh! Oh!, Melhor venda do ano que Hamed feiz. É din din no caixa. Respondeu todo feliz o Hamed.

- E isso aí tem nota? Perguntou o fiscal.

- Ainda num tem nota borquê Hamed está esberando carega bra ver quanto mercadoria cabe na caminhon... Daí, Hamed tira nota.

- Não pode! Diz o fiscal. A nota fiscal tem de ser emitida antes de carregar!

- Ah é!... Bará!...Bará tudo!...Hamed non qué brobrema com leon!...

- Volta! Volta! Descarega tudo caminhón e guarda lá dentro do lujinha vamos besar....



FRASES DE CAMINHONEIROS




Beijo é cultura! Por isto que conheço várias línguas.

Beijo é igual cigarro: vicia, mas não sustenta.

Beijo é igual ferro elétrico, liga em cima e esquenta embaixo.

Beijo não mata a fome, mas abre o apetite.

Buraco e pedágio só dão prejuízo.

Cabelo ruim é igual a bandido... ou tá preso ou tá armado!!!

Cada ovo comido é um pinto perdido.

Caminhoneiro que tem mulher feia, viaja sempre tranquilo.

Cana na fazenda dá pinga; pinga na cidade dá cana.

Carrego o progresso e levo humilhação.

Casamento não é bom e isto é fato verdadeiro, pois o diabo
não se casou e Jesus morreu solteiro.

Casar é trocar a admiração de várias mulheres, pela crítica de uma só!!!

Casei-me com a cunhada para economizar sogra.

69. Chifre é como dentadura: No começo, incomoda...mas depois a gente se acostuma!

Chifre é igual dente, só dói enquanto tá nascendo.

Chifre não existe ... isto é coisa que puseram na sua cabeça.

Coceira de rico é alergia, de pobre é sarna!

Coceira na mão de pobre é sarna, na mão de rico é dinheiro.

Como é difícil se livrar de uma mulher fácil!

Como é triste sonhar com teu carinho e acordar no Mercedinho.

Comprar caminhão e usar sutiã só quem tem peito!

Costurar é para modista! Permaneça na sua faixa!

Cuide bem do seu filho, antes que um traficante o adote.

Dê férias para a língua, trabalhe com a cabeça!

ADELMAR TAVARES

ADELMAR TAVARES
RECIFE-PE = 1888-1963


T R O V A



Ora, a Vida! Deixa-a andar...
Não queiras da Vida ter
o que ela não possa dar,
nem tu possas merecer...

GRANDES PINTORES

LULA CARDOSO AYRES = Rio Formoso-PE, 1910-1987
LULA CARDOSO AYRES = Rio Formoso-PE, 1910-1987

LULA CARDOSO AYRES = Rio Formoso-PE, 1910-1987

LULA CARDOSO AYRES = Rio Formoso-PE, 1910-1987

LULA CARDOSO AYRES = Rio Formoso-PE, 1910-1987

LULA CARDOSO AYRES = Rio Formoso-PE, 1910-1987


sábado, 18 de agosto de 2012

VÍDEO = Recife Cidade Lendária


GRANDES PINTORES

REYNALDO FONSECA = Recife-PE, 1944
REYNALDO FONSECA = Recife-PE, 1944
REYNALDO FONSECA = Recife-PE, 1944
REYNALDO FONSECA = Recife-PE, 1944
REYNALDO FONSECA = Recife-PE, 1944
REYNALDO FONSECA = Recife-PE, 1944
REYNALDO FONSECA = Recife-PE, 1944
REYNALDO FONSECA = Recife-PE, 1944

POESIA = Joaquim Cardoso


JOAQUIM CARDOZO
RECIFE-PE  =  1897 / 1978


Velhas Ruas


Velhas ruas!
Cúmplices da treva e dos ladrões,
Escuras e estreitas, humildes pardieiros
Quanta gente esquecida e abandonada!

As varandas se alongam
Num gesto atento e imóvel de quem espreita
Rumor, sombra de passos que passaram,
Tato de mãos ligeiras invisíveis.
Velhas ruas!
Cúmplices da treva e dos ladrões,
Refúgio do valor desviado e da coragem anônima,
Sombra indulgente para os malfeitores,
De quem ocultais os crimes
E a quem dais generosas
Nos momentos de paz um conselho materno.
Comovida e cristã sabedoria,
Espírito coletivo das gerações passadas,
Estes muros que a ferrugem da noite rói sugerem
O velado esplendor espiritual dos conventos,
O ritmo das coisas imperfeitas,
A volúpia da humildade.

Trêmula, dos lampiões
Desce uma luz de pecado e remorso,
E o Cais do Apolo acende os círios
Para velar de noite o cadáver do rio.


1925

CONTO = Humberto de Campos


HUMBERTO DE CAMPOS
MIRITIBA-MA  =  1886 = 1934


A Galinha



A maior tristeza que Dona Hortência levaria deste mundo, seria a de morrer sem acalentar um netinho. Mãe de uma filha única, tratou, logo, de casá-la, quando a menina não tinha, ainda, dezesseis anos. E como sucede sempre a toda mãe que se apressa, casou-a mal, de modo a ter como genro o Eusébio Duarte, "almofadinha" sem reputação, sem dinheiro e sem saúde, para quem o casamento foi mais um encosto do que, mesmo, um caso de coração.
Casada a menina, a pobre senhora declarou, após o jantar, na presença da filha e de alguns convidados:
- Eu tenho aí no quintal uma galinha carijó, que é, mesmo, uma beleza; mas, essa, eu só a mato no dia em que tiver certeza de que meu primeiro neto já está em caminho para este mundo!
A noite de núpcias da filha foi para Dona Hortência o que é, sempre, para as mães amorosas: um tormento. Coração alarmado, ouvido à escuta, olhos escancarados na treva, não dormiu um instante. Manhãzinha, levantou-se, e, antes, mesmo, de preparar-se para descer, foi bater à porta do quarto dos noivos.
- Mariazinha? - chamou, - Mariazinha?
- Que é, mamãe? - respondeu, de dentro, estranhando, a voz da filha.
E a velha, muito terna, muito branda, muito doce:
- Posso matar a galinha?


FRASES SOBRE O HUMOR



"Todo o humorismo sublime começa com a renúncia
de se levar a sério a própria pessoa. " 
 HERMANN HESSE

"Procuro dar meu recado através do humor. Humor pelo humor é
sofisticação, é frescura. E nessa eu não tou: meu negócio
é pé na cara. E levo o humorismo a sério. "
 HENFIL

"Os humoristas dizem coisas sensatas revestidas de
loucura, e loucuras revestidas de sensatez."
 CARLO DOSSI 

"O humorismo é a única criação completa da vida. "
 FRIEDRICH HEBBEL 

"O humorismo alivia-nos das vicissitudes da vida, ativando o
nosso senso de proporção e revelando-nos que a
seriedade exagerada tende ao absurdo."  
CHARLES CHAPLIN 

"O bom humor tem algo de generoso: dá mais do que recebe."
 ÉMILE HENRIOT 

"O bom humor espalha mais felicidade que todas as riquezas
do mundo. Vem do hábito de olhar para as coisas com
esperança e de esperar o melhor e não o pior."
 ALFRED ARMAND MONTAPERT 

"O bom humor é a única qualidade divina do homem. "
 ARTHUR SCHOPENHAUER

"Humorismo é a arte de fazer cócegas no raciocínio dos outros.
Há duas espécies de humorismo: o trágico e o cômico.
O trágico é o que não consegue fazer rir; o cômico é o
que é verdadeiramente trágico para se fazer."  
LEON ELIACHAR 

"Através do humor nós vemos no que parece racional, o irracional;
 no que parece importante, o insignificante. Ele também
desperta o nosso sentido de sobrevivência e
preserva a nossa saúde mental."
 CHARLES CHAPLIN  

POESIA = Florbela Espanca


FLORBELA ESPANCA
PORTUGAL  = 1894 / 1930


À Guerra!


Fala o canhão. Estala o riso da metralha
Os clarins muito ao longe tocam a reunir.
O Deus da guerra ri nos campos de batalha
E tu, ó Pátria, ergues-te a sorrir!

Vestes alva cota bordada e rosicleres
Desfraldas a bandeira rubra dos combates,
Levas no heróico seio a alma das mulheres
E ergue-se contigo a alma de teus vates!

Levanta-se do túmulo a voz dos teus heróis,
Cintila em tua fronte o brilho desses sóis,
Até o próprio mar t’incita a combater!

Nun’Alvares arranca a espada de glória
E diz-te em voz serena: «Em busca da vitória
Meu belo Portugal, combate até morrer!»


Trocando olhares - 20/06/1916

 


VÍDEO = Perfídia


BIOGRAFIA = Manuel Bandeira



MANUEL BANDEIRA


O recifense Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho mudou-se ainda jovem para o Rio de Janeiro. Em 1903, transferiu-se para São Paulo, onde iniciou o curso de engenharia na Escola Politécnica. No ano seguinte, abandonou os estudos por causa da tuberculose e retornou para o Rio, onde escreveu poesia e prosa, fez crítica literária e deu aulas na Faculdade Nacional de Filosofia. Por causa da doença, passou longos períodos em estações climáticas no Brasil e na Europa. Entre 1916 e 1920, perdeu a mãe, a irmã e o pai.

Em 1917, publicou "A Cinza das Horas", de nítida influência parnasiana e simbolista. Dois anos depois, lançou "Carnaval", fazendo uso do verso livre. Já se mostrava um dos precursores da linha modernista, e Mário de Andrade o chamaria de "São João Batista do modernismo brasileiro". Apesar disso, em 1922, por não concordar com a intensidade dos ataques feitos aos parnasianos e simbolistas, não participou diretamente da Semana de Arte Moderna (nem sequer viajou para São Paulo).

No entanto, seu poema "Os Sapos", lido por Ronald de Carvalho na segunda noite do acontecimento, provocou muitas reações. Nele, Bandeira se vale mais uma vez do verso livre, principal característica de sua obra:

"Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
'Meu pai foi à guerra!'
'Não foi!' - 'Foi!' - 'Não foi!'"

Com "O Ritmo Dissoluto" (1924) e "Libertinagem" (1930), temos um poeta totalmente integrado no espírito modernista. "Libertinagem" apresenta alguns poemas fundamentais para entender a poesia de Bandeira: "Vou-me embora pra Pasárgada", "Poética", "Evocação do Recife" e outros. Aparecem ali seus grandes temas: a família, a morte, a infância no Recife, os indivíduos que compõem as camadas mais baixas da sociedade.

Apesar dos amigos e das reuniões na Academia Brasileira de Letras (para a qual foi eleito em 1940), Bandeira viveu solitariamente. Mesmo sendo um apaixonado pelas mulheres, nunca casou: dizia que "perdeu a vez".

Morreu aos 82 anos, de parada cardíaca -e não de tuberculose, a doença que o acompanhara durante parte tão grande de sua vida.

FERNANDO DE NORONHA