domingo, 20 de março de 2016
POESIA = Olegário Mariano
A Mania Do
Antiquário
Gosta de
trastes velhos o antiquário.
Tem um
museu em casa. A vida toda
Ficou
sendo o feliz depositário
De tudo
aquilo que passou de moda.
Enquanto
gira o tempo e a vida roda,
Ele, a quem
chamam de retardatário,
Vê na
mania que a outros incomoda
A alegria
de um gozo extraordinário.
Casou-se.
Foi seu ultimo castigo.
Apesar da
mulher ser bem bonita,
Ele contou
sorrindo a certo amigo
O fim da
derradeira transação:
—Procurei
uma viúva... Era da escrita:
Gosto dos
moveis de segunda mão...
OLEGÁRIO
MARIANO
RECIFE-PE
= 1889-1958
CONTO = Fernando sabino
O Homem Nu
Ao acordar, disse para a mulher:
-- Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar
a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa. Mas
acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.
-- Explique isso ao homem -- ponderou a
mulher.
-- Não gosto dessas coisas. Dá
um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações.
Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para
ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar -- amanhã eu
pago.
Pouco depois, tendo despido o pijama,
dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá
dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a
ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão. Como estivesse
completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de
arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o
mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém.
Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com
estrondo, impulsionada pelo vento.
Aterrorizado, precipitou-se até a campainha
e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor.
Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas
ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da
televisão. Bateu com o nó dos dedos:
-- Maria! Abre aí,
Maria. Sou eu -- chamou, em voz baixa.
Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá
dentro.
Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do
elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares... Desta
vez, era o homem da televisão!
Não era. Refugiado no
lanço da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou
para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho
de pão:
-- Maria, por favor! Sou eu!
Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu
passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo... Tomado de
pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão,
parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada
se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador,
apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada
passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele
respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão.
Mas eis que a porta interna do elevador se
fecha e ele começa a descer.
-- Ah, isso é que não! -- fez o homem
nu, sobressaltado.
E agora? Alguém lá embaixo
abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo ser algum
vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez
para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de
Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do
Terror!
-- Isso é que não -- repetiu, furioso.
Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com
força entre os andares, obrigando-o a parar. Respirou fundo,
fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava.
Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá embaixo continuavam
a chamar o elevador. Antes de mais nada: "Emergência:
parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou
descer? Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta,
enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.
-- Maria! Abre esta porta! -- gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si. Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:
-- Maria! Abre esta porta! -- gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si. Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:
-- Bom dia, minha senhora -- disse ele, confuso.
-- Imagine que eu...
A velha, estarrecida, atirou os braços para
cima, soltou um grito:
-- Valha-me Deus! O padeiro está nu!
E correu ao telefone para chamar a
radiopatrulha:
-- Tem um homem pelado aqui na porta!
Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram
ver o que se passava:
-- É um tarado!
-- Olha, que horror!
-- Não olha não! Já pra dentro, minha
filha!
Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente
a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se
precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois,
restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.
-- Deve ser a polícia -- disse ele, ainda
ofegante, indo abrir.
Não era: era o cobrador da televisão.
FERNANDO SABINO
BELO
HORIZONTE-MG = 1923-2004
PIADA
O Papa E O Motorista
Depois de arrumar
toda a bagagem do Papa, o motorista reparou que este ainda se encontrava no
exterior da limusine.
-
"Desculpe-me Vossa Santidade", disse o motorista, "Não se
importa de ocupar o seu lugar para que possamos seguir?".
-
"Bem, para dizer a verdade", diz o Papa, "no Vaticano nunca me
deixavam dirigir quando era Cardeal, como Papa ainda menos, e eu queria ver
como é dirigir uma limusine!".
-
"Desculpe-me Santidade, mas não posso fazer isso. Perderia o meu emprego!
E se acontecesse alguma coisa?" protestou o motorista, desejando não ter
ido trabalhar naquela manhã.
- "E
quem é que vai contar?, diz o Papa com um sorriso.
Relutantemente, o
motorista senta-se atrás, enquanto o Papa ocupa o lugar ao volante.
O motorista
imediatamente se arrepende pois, mal deixam o aeroporto e o Papa pisa fundo,
acelerando a limusine e alcançando 200km/h.
- "Por
favor, Santidade!", implora o preocupado motorista; mas o Papa continua
empolgado na direção, com o pé no acelerador, até que se ouvem sirenes.
- "Oh,
meu Deus, vou perder a minha habilitação e o emprego!", soluçava o
motorista.
O Papa
encosta a limusine e abaixa o vidro quando o polícia se aproxima;
Quando este
olha para ele, regressa à moto e faz contato pelo rádio com a Central.
- "Preciso
de falar com o Chefe", informa ao operador.
O Chefe responde
e o guarda diz-lhe que mandou parar uma limusine que seguia a 200km/h.
-"Então
aplique-lhe a multa", diz o Chefe.
-"Acho que
não vai dar pra fazer isso, o cara é muito importante", diz o polícia.
O Chefe exclama,
"Por isso mesmo, multa o sacana!"
- "Não, é
que é MESMO importante", insiste o guarda.
Então o Chefe
pergunta, "Quem você tem aí, o Presidente da Câmara?"
E o polícia:
"Mais importante".
O Chefe: "Um
deputado?"
Polícia:
"Mais importante".
Chefe: "Um
senador?".
Polícia:
"Muito mais!".
Chefe: "Mas
então quem é?!".
O polícia:
"Acho que é Deus!".
O Chefe fica
atrapalhado, "E o que te leva a pensar que seja Deus?".
Polícia: "É que o
motorista dele ... é o Papa!".
Assinar:
Postagens (Atom)



























