domingo, 9 de julho de 2017
POESIA = Adelmar Tavares
Corpo E
Sombra
MANTIDA A ORTOGRAFIA ORIGINAL
“O corpo que hoje viste,
ao fim do dia,
Seguir para uma cova que
o esperava
Oitenta annos viveu... E
não cansava!
Quem cansou foi a sombra
que o seguia...
Oitenta annos em sua
companhia,
Arrastada por terra como
escrava!
Só quando elle no escuro
repousava,
Ella no escuro repousar
podia.
Oitenta annos! Liberta,
finalmente,
Agora que o meteram n’um
jazigo,
Sae lésta e leve, a
espairecer contente...
E parece que em jubilo
profundo,
Diz: - Emfim, só! Depois
de haver comtigo
Errado, quase um seculo
no mundo!...”
ADELMAR
TAVARES
RECIFE-PE =
1888-1963
CONTO = Humberto de Campos
Incredulidade
O
deputado Belarmino Guedes e o capitão-tenente Correa Jorge haviam descido de um
bonde de Botafogo na Galeria Cruzeiro, quando o primeiro apontou um vulto
feminino que caminhava diante deles, o passinho apressado.
-
Bonita pequena! - disse.
O
outro concordou:
-
É muito linda. É mesmo, uma das mulheres mais bonitas do Rio.
Enquanto
os dois conversavam, a figurinha fugia, na frente, ganhando distância, como se
compreendesse os comentários que despertava. Era um tipo miúdo de brasileirinha
elegante. Cabelo cortado, boquita vermelha, pele de seda naturalmente colorida,
vestia a moça, nessa tarde, um costume de inverno azul-marinho, bordado de
vermelho e verde na bainha da saia e da jaqueta frouxa. O chapéu azul, com
flores de cor dos enfeites do vestido, parecia, na sua cabecita graciosa, mais
um brinquedo de criança do que uma coquetaria de mulher. E quando caminhava,
ligeira, ágil, fugitiva, era como se fizesse malabarismos para sustentar sobre a
cabeça gentil aquela pequenina pétala de rosa encantada.
-
É realmente, muito linda, - tornou Belarmino Guedes.
-
E o marido é um belo homem.
-
Que marido, nada! - protestou o primeiro, voltando-se. - Ela não é casada; é
solteira, ainda.
-
Ora, deixa-te disso! - objetou Correa Jorge. - Eu a conheço muito. ''É mulher
do Batista Carvalho, que advoga com o Paulo Simpson!
A
discussão animou-se. Correa Jorge entendia que a dama era, já, esposa.
Belarmino Guedes achava que não: era uma menina solteira, filha do comendador
Lopes Aires.
-
Olha, filho - acabou por dizer Correa Jorge; - podes afirmar o que quiseres:
mas eu não creio que aquela menina já esteja casada. Eu sou como São Tomé.
E
parando no passeio, para acender o cigarro:
-
São Tomé só acreditou depois que pôs o dedo na chaga.
HUMBERTO DE CAMPOS
MIRITIBA-MA = 1886
/ 1934
domingo, 18 de junho de 2017
Conto = Stanislaw Ponte Preta
Paraíba
Azevedo e Peçanha vestiram o paletó e desceram
para a rua, na disposição de fazer uma farrinha. Ainda no elevador,
Azevedo fez ver a Peçanha que o laço de sua gravata estava um pouco frouxo.
Peçanha agradeceu e ajeitou o laço. Afinal, iam em demanda de uma
aventura amorosa e a elegância era detalhe importante.
Caminharam pela Avenida N. S. de Copacabana e
foram subindo em direção ao Lido, conversando animadamente e só interrompiam a
conversa quando passava uma moça. Sozinha ou acompanhada, todas as moças
que passavam por Azevedo e Peçanha ganhavam olhares pidões, tão comuns aos
conquistadores baratos, de beira de calçada.
Era sábado, dia em que se definem os que andam
pela aí, caçando o amor. Azevedo parou na esquina do Lido e perguntou
para Peçanha:
- Que tal se nós fôssemos até o “Alfredão”?
Peçanha achou que lá havia sempre muita
concorrência. As mulheres supostamente fáceis, quando há muita gente em volta,
dando em cima, tornam-se superiores e esquivas, fazendo-se mais preciosas pela
disputa de seus carinhos. Mas como Azevedo ponderasse que muito dos homens que
vão ao “Alfredão” não chegam a ser propriamente homens. Peçanha concordou.
Entraram no bar, Azevedo acendeu um charuto, ofereceu outro a Peçanha, que recusou com um gesto másculo. Preferia cachimbo, que tirou do bolso e começou a encher de fumo, enquanto pediam algo para beber. O garçom acabou partindo para ir buscar uísque puro, só com gelo e olhe lá.
Entraram no bar, Azevedo acendeu um charuto, ofereceu outro a Peçanha, que recusou com um gesto másculo. Preferia cachimbo, que tirou do bolso e começou a encher de fumo, enquanto pediam algo para beber. O garçom acabou partindo para ir buscar uísque puro, só com gelo e olhe lá.
Uma garota de olheiras profundas passou pela
mesa e Peçanha mexeu com ela. A garota sorriu. Então Azevedo
convidou-a para tomar alguma coisa. E como as demais pequenas que estavam
no bar pareciam todas acompanhadas, ficou só aquela para ser dividida entre
Azevedo e Peçanha.
No fim de algum tempo, tanto Peçanha como
Azevedo estavam caindo de tanta bebida. Pagaram a conta. Azevedo
apagou o resto do charuto no cinzeiro e quis partir só, rebocando a
pequena. Peçanha estranhou a atitude de Azevedo, acabaram discutindo e
começou o clássico festival de bolacha. Entrou a turma do deixa-disso,
veio o guarda e o resultado da farra ali estava: além da garota disputada a
tapa, também foram parar no xadrez as duas brigonas.
Sim, porque o nome todo de Azevedo é Maria
Tereza Azevedo. Quanto a Peçanha: Walquíria. Walquíria Peçanha.
STANISLAW
PONTE PRETA
PSEUDÔNIMO
DE SÉRGIO PORTO
RIO
DE JANEIRO-RJ,1923-1968
CONTO = Artur de Azevedo
As Paradas
O Norberto, que a princípio
aceitou com entusiasmo as paradas dos bondes de Botafogo, é hoje o maior
inimigo delas. Querem saber por quê? Eu lhes conto:
O pobre rapaz encontrou uma
noite, na Exposição, a mulher mais bela e mais fascinante que os seus olhos
ainda viram, e essa mulher - oh, felicidade!... oh, ventura!... -, essa mulher
sorriu-lhe meigamente e com um doce olhar convidou-o a acompanhá-la.
O Norberto não esperou repetição
do convite: acompanhou-a.
Ela desceu a Avenida dos
Pavilhões, encaminhou-se para o portão, e saiu como quem ia tomar o bonde; ele
seguiu-a, mas estava tanto povo a sair, que a perdeu de vista.
Desesperado, correu para os
bondes, que uns seis ou sete havia prontos a partir, e subiu a todos os
estribos, procurando em vão com os olhos esbugalhados a formosa desconhecida.
- Provavelmente foi de carro,
pensou o Norberto, que logo se pôs a caminho de casa.
Deitou-se mas não pôde conciliar
o sono: a imagem daquela mulher não lhe saía da mente. Rompia a aurora quando
conseguiu adormecer para sonhar com ela, e no dia seguinte não se passou um
minuto sem que pensasse naquele feliz encontro.
Daí por diante foi um martírio. O
desditoso namorado começou a emagrecer, muito admirado de que lhe causassem
tais efeitos um simples olhar e um simples sorriso.
Passaram-se alguns dias e cada
vez mais crescia aquele amor singular, quando uma tarde - oh, que ventura!...
oh, que felicidade!... -, uma tarde passeando no Catete, o Norberto vê, num
bonde das Laranjeiras, a dama da Exposição. Ela não o viu.
O pobre-diabo fez sinal ao
condutor para parar, mas por fatalidade o poste da parada estava muito longe e
o bonde não parou. E não haver ali à mão um tílburi, uma caleça, um
automóvel!...
O Norberto deitou a correr atrás
do bonde, mas só conseguiu esfalfar-se. Que pernas humanas haverá tão rápidas
como a eletricidade?
Esse novo encontro acendeu mais
viva chama no peito do Norberto, e não tiveram conta os passeios que ele deu do
Largo do Machado às Águas Férreas, na esperança de ver a sua amada e falar-lhe.
Oito dias depois, o Norberto
percorria de bonde, pela centésima vez, as Laranjeiras, quando, nas alturas do
Instituto Pasteur, viu passar - oh, felicidade!... oh, ventura!... -, viu
passar na rua a mulher que tanto o sobressaltava.
- Pare! pare!... gritou ele ao
condutor.
- Aqui não posso; vamos ao poste
de parada!
O Norberto quis descer, mas a
rapidez com que o bonde rodava era tamanha, que não se atreveu.
Chegando ao poste de parada, ele
atirou-se à rua, e deitou a correr para o lugar onde vira a mulher, mas, onde
estava ela? Tinha desaparecido!.
Aí está por que o Norberto é hoje
o maior inimigo das paradas.
ARTUR DE AZEVEDO
SÃO LUÍS-MA = 1855
/ 1908
POESIA = Bastos Tigre
O
Beijo
A
namorada do Mário,
Lia - um anjo de inocência,
Para um caso de consciência
Vai consultar o vigário.
E, a face rubra de pejo,
Lhe pergunta se é pecado
Dar um beijo ao namorado,
Ou dele levar um beijo.
Lia - um anjo de inocência,
Para um caso de consciência
Vai consultar o vigário.
E, a face rubra de pejo,
Lhe pergunta se é pecado
Dar um beijo ao namorado,
Ou dele levar um beijo.
Diz o padre: - Um beijo apenas
É pecado, dos veniais,
Mas sendo dois, três ou mais
Merecem do inferno as penas.
Lia está de causar dó!
Pavor do inferno, bem vejo,
Ela bem sabe que o beijo
Não se dá nem leva um só...
BASTOS TIGRE
RECIFE-PE = 1882
/ 1957
POESIA = Alberto da Cunha Melo
Temendo A Manhã
Não corras da manhã:
enquanto vivas,
ela te alcança
com sua ameaça
ou sua promessa;
enquanto vivas,
a manhã te persegue
com dedos de luz
invadindo teu quarto
por baixo da porta,
feito carta acesa,
gritos de crianças
ou buzinas da pressa,
que já te acordaram
para sua ameaça
ou sua promessa.
enquanto vivas,
ela te alcança
com sua ameaça
ou sua promessa;
enquanto vivas,
a manhã te persegue
com dedos de luz
invadindo teu quarto
por baixo da porta,
feito carta acesa,
gritos de crianças
ou buzinas da pressa,
que já te acordaram
para sua ameaça
ou sua promessa.
ALBERTO CUNHA MELO
JABOATÃO DOS
GURARAPES-PE, 1942-2007
CONTO = Fernando Sabino
Conversinha
Mineira
--
É bom mesmo o cafezinho daqui, meu amigo?
-- Sei dizer não senhor: não tomo café.
-- Você é dono do café, não sabe dizer?
-- Ninguém tem reclamado dele não senhor.
-- Então me dá café com leite, pão e manteiga.
-- Café com leite só se for sem leite.
-- Não tem leite?
-- Hoje, não senhor.
-- Por que hoje não?
-- Porque hoje o leiteiro não veio.
-- Ontem ele veio?
-- Ontem não.
-- Quando é que ele vem?
-- Sei dizer não senhor: não tomo café.
-- Você é dono do café, não sabe dizer?
-- Ninguém tem reclamado dele não senhor.
-- Então me dá café com leite, pão e manteiga.
-- Café com leite só se for sem leite.
-- Não tem leite?
-- Hoje, não senhor.
-- Por que hoje não?
-- Porque hoje o leiteiro não veio.
-- Ontem ele veio?
-- Ontem não.
-- Quando é que ele vem?
-- Tem dia certo não senhor. Às vezes vem, às vezes não vem. Só que no dia que
devia vir em geral não vem.
-- Mas ali fora está escrito "Leiteria"!
-- Ah, isso está, sim senhor.
-- Quando é que tem leite?
-- Quando o leiteiro vem.
-- Tem ali um sujeito comendo coalhada. É feita de quê?
-- O quê: coalhada? Então o senhor não sabe de que é feita a coalhada?
-- Está bem, você ganhou. Me traz um café com leite sem leite. Escuta uma coisa: como é que vai indo a política aqui na sua cidade?
-- Sei dizer não senhor: eu não sou daqui.
-- E há quanto tempo o senhor mora aqui?
-- Vai para uns quinze anos. Isto é, não posso agarantir com certeza: um pouco mais, um pouco menos.
-- Já dava para saber como vai indo a situação, não acha?
-- Ah, o senhor fala da situação? Dizem que vai bem.
-- Para que Partido?
-- Para todos os Partidos, parece.
-- Eu gostaria de saber quem é que vai ganhar a eleição aqui.
-- Eu também gostaria. Uns falam que é um, outros falam que outro. Nessa mexida...
-- E o Prefeito?
-- Que é que tem o Prefeito?
-- Que tal o Prefeito daqui?
-- O Prefeito? É tal e qual eles falam dele.
-- Que é que falam dele?
-- Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo quanto é Prefeito.
-- Você, certamente, já tem candidato.
-- Quem, eu? Estou esperando as plataformas.
-- Mas tem ali o retrato de um candidato dependurado na parede, que história é essa?
-- Aonde, ali? Uê, gente: penduraram isso aí...
-- Mas ali fora está escrito "Leiteria"!
-- Ah, isso está, sim senhor.
-- Quando é que tem leite?
-- Quando o leiteiro vem.
-- Tem ali um sujeito comendo coalhada. É feita de quê?
-- O quê: coalhada? Então o senhor não sabe de que é feita a coalhada?
-- Está bem, você ganhou. Me traz um café com leite sem leite. Escuta uma coisa: como é que vai indo a política aqui na sua cidade?
-- Sei dizer não senhor: eu não sou daqui.
-- E há quanto tempo o senhor mora aqui?
-- Vai para uns quinze anos. Isto é, não posso agarantir com certeza: um pouco mais, um pouco menos.
-- Já dava para saber como vai indo a situação, não acha?
-- Ah, o senhor fala da situação? Dizem que vai bem.
-- Para que Partido?
-- Para todos os Partidos, parece.
-- Eu gostaria de saber quem é que vai ganhar a eleição aqui.
-- Eu também gostaria. Uns falam que é um, outros falam que outro. Nessa mexida...
-- E o Prefeito?
-- Que é que tem o Prefeito?
-- Que tal o Prefeito daqui?
-- O Prefeito? É tal e qual eles falam dele.
-- Que é que falam dele?
-- Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo quanto é Prefeito.
-- Você, certamente, já tem candidato.
-- Quem, eu? Estou esperando as plataformas.
-- Mas tem ali o retrato de um candidato dependurado na parede, que história é essa?
-- Aonde, ali? Uê, gente: penduraram isso aí...
Texto
extraído do livro "A Mulher do Vizinho",
Editora
Sabiá - Rio de Janeiro, 1962, pág. 144.
FERNANDO SABINO
BELO HORIZONTE = 1923-2004
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