domingo, 11 de dezembro de 2016

CONTO = Clarice Lispector



A Criada

Seu nome era Eremita. Tinha dezenove anos. Rosto confiante, algumas espinhas. Onde estava a sua beleza? Havia beleza nesse corpo que não era feio nem bonito, nesse rosto onde um doçura ansiosa de doçuras maiores era o sinal da vida.
Beleza, não sei. Possivelmente não havia, se bem que os traços indecisos atraíssem como água atrai. Havia, sim, substância viva, unhas, carnes, dentes, mistura de resistências e fraquezas, constituindo vaga presença que se concretizava porém imediatamente numa cabeça interrogativa e já prestimosa, mal se pronunciava um nome: Eremita. Os olhos castanhos eram intraduzíveis, sem correspondência com o conjunto do rosto. Tão independentes como se fossem plantados na carne de um braço, e de lá nos olhassem - abertos, úmidos. Ela toda era de uma doçura próxima a lágrimas.
Às vezes respondia com má-criação de criada mesmo. Desde pequena fora assim, explicou. Sem que isso viesse de seu caráter. Pois não havia no seu espírito nenhum endurecimento, nenhuma lei perceptível. "Eu tive medo", dizia com naturalidade. "Me deu uma fome", dizia, e era sempre incontestável o que dizia, não se sabe por quê. "Ele me respeita muito", dizia do noivo e, apesar da expressão emprestada e convencional, a pessoa que ouvia entrava num mundo delicado de bichos e aves, onde todos se respeitam. "Eu tenho vergonha", dizia, e sorria enredada nas próprias sombras. Se a fome era de pão - que ela comia depressa como se pudessem tirá-lo - o medo era de trovoadas, a vergonha era de falar. Ela era gentil, honesta. "Deus me livre, não é?", dizia ausente.
Porque tinha suas ausências. O rosto se perdia numa tristeza impessoal e sem rugas. Um tristeza mais antiga que o seu espírito. Os olhos paravam vazios; diria mesmo um pouco ásperos. A pessoa que estivesse a seu lado sofria e nada podia fazer. Só esperar.
Pois ela estava entregue a alguma coisa, a misteriosa infante. Ninguém ousaria tocá-la nesse momento. Esperava-se um pouco grave, de coração apertado, velando-a. Nada se podia fazer por ela senão desejar que o perigo passasse. Até que num movimento sem pressa, quase um suspiro, ela acordava como um cabrito recém-nascido se ergue sobre as pernas. Voltara de seu repouso na tristeza.
Voltava, não se pode dizer mais rica, porém mais garantida depois de ter bebido em não se sabe que fonte. O que se sabe é que a fonte devia ser muito antiga e pura. Sim, havia profundeza nela. Mas ninguém encontraria nada se descesse nas suas profundezas - senão a própria profundeza, como na escuridão se acha a escuridão. É possível que, se alguém prosseguisse mais, encontrasse, depois de andar léguas nas trevas, um indício de caminho, guiado talvez por um bater de asas, por algum rastro de bicho. E - de repente - a floresta.
Ah, então devia ser esse o seu mistério: ela descobrira um atalho para a floresta. Decerto nas suas ausências era para lá que ia. Regressando com os olhos cheios de brandura e ignorância, olhos completos. Ignorância tão vasta que nela caberia e se perderia toda a sabedoria do mundo.
Assim era Eremita. Que se subisse à tona com tudo o que encontrara na floresta seria queimada em fogueira. Mas o que vira - em que raízes mordera, com que espinhos sangrara, em que águas banhara os pés, que escuridão de ouro fora a luz que a envolvera - tudo isso ela não contava porque ignorava: fora percebido num só olhar, rápido demais para não ser senão um mistério.
Assim, quando emergia, era uma criada. A quem chamavam constantemente da escuridão de seu atalho para funções menores, para lavar roupa, enxugar o chão, servir a uns e outros.
Mas serviria mesmo? Pois se alguém prestasse atenção veria que ela lavava roupa - ao sol; que enxugava o chão - molhado pela chuva; que estendia lençóis - ao vento. Ela se arranjava para servir muito mais remotamente, e a outros deuses. Sempre com a inteireza de espírito que trouxera da floresta. Sem um pensamento: apenas corpo se movimentando calmo, rosto pleno de uma suave esperança que ninguém dá e ninguém tira.
A única marca do perigo por que passara era o seu modo fugitivo de comer pão. No resto era serena. Mesmo quando tirava o dinheiro que a patroa esquecera sobre a mesa, mesmo quando levava para o noivo em embrulho discreto alguns gêneros da despensa. A roubar de leve ela também aprendera em suas florestas.
CLARICE LISPECTOR
UCRÂNIA, 1920 = BRASIL, 1977

PENSAMENTOS = Diversos







 EDGAR DEGAS = França, 1834-1917
 EDGAR DEGAS
 EDGAR DEGAS
 EDGAR DEGAS
 EDGAR DEGAS
 EDGAR DEGAS
 EDGAR DEGAS
 EDGAR DEGAS
 EDGAR DEGAS
 EDGAR DEGAS
 EDGAR DEGAS
EDGAR DEGAS = França, 1834-1917

POESIA = Albérgio Maia de Farias



POEMA II

Por onde o Galo, hoje, passa
passaram galos de briga
cocorocando outros frevos
nas Sertãs da avenida
eram cantigas do peito
que queriam o bem da vida
um amor quase perfeito
que suava o corpo todo
de sonho, alegria e medo

Era porrada na cara
do Trianon à Pracinha
eram fuzis eram balas
não conseguiram ser minhas
nem conseguiram calar
o frevo de nossas falas.

Hoje, quando o Galo passa
sou tentado a compreender
que o sonho adolescente
continuou a ferver
nos clarins de outra memória
no frevo canção da História,
embora as graves lembranças
impossíveis de esquecer.

ALBÉRGIO MAIA DE FARIAS
RECIFE-PE, 1947

HUMOR












POESIA = Jorge de Lima



Foste Na Vida...


Foste na vida luz de lâmpada única,
ogiva a orar na sombra desvairada.
Foste mais do que tudo, lírio ardido,
senda de elevação e vida minha.

Estrela de viajor e minha túnica
sonora como página escutada,
roseira grave e chama consentida,
foste na minha vida, vida minha.

No descampado pórtico descansas,
as mãos unidas em ogiva amada,
dedos dormindo como dois irmãos.

Laguna quieta sob luas mansas,
ensimesmada musa conjurada,
toma teus versos, dá-me tuas mãos.


JORGE  DE  LIMA
UNIÃO DOS PALMARES-AL, 1893-1953

CONTO = Érico Verissimo



Chico

Chamava-se Chico. De quê? Ele mesmo não sabia...
- Gente pobre não tem nome... - costumava dizer.
Tinha sete anos. De dia vendia jornais, de noite apanhava bordoada do irmão mais velho, o Zico, que vivia embriagado.
A mãe havia muitos anos que estava atirada sobre um colchão velho, paralítica, cadavérica, tendo a todas as horas do dia, diante dos olhos baços e sem expressão, o mesmo quadro de miséria e desalento: as paredes sórdidas do quarto, donde pendiam molambos, o teto carcomido e cheio de teias de aranha, a janela sem batentes, eternamente escancarada, mostrando uma nesga de céu em que nas noites claras se vislumbrava, como uma esmola luminosa, a claridade fugidia de estrelas...
O pai - Chico mal se lembrava disto - morrera por um dia triste de inverno, de peste, e se fora, quase nu, dentro duma carroça velha que ia fazendo tóc-tóc-tóc-tóc..., aos solavancos, pela estrada barrenta e sinuosa que ia dar no cemitério.
Chico ouvia sempre dizer que havia lá em cima, no céu, um Deus muito bom e muito severo que não queria que as crianças dissessem nomes feios nem desobedecessem aos mais velhos. Era um homem muito poderoso, que punha empenho em que todas as cousas na terra andassem direitas e bem feitas.
Surgia, então, na cabecinha do garoto um problema intrincado e insolúvel.
Chico via no mundo (mundo era a cidade em que ele, Chico, morava) gente feliz, rica, alegre; crianças que andavam bem vestidas, que tinham brinquedos surpreendentes e que comiam os doces mais saborosos desta vida. Via, ao mesmo tempo, de Outro lado, os infelizes, os desprotegidos da fortuna, os que rolam pão duro e andavam a ferir os pés descalços no pedregulho das ruas. E o pequeno não podia compreender a razão de tanta desigualdade de sorte no mundo. Como era que Deus, tão bom e tão justo, consentia em que existissem crianças felizes e protegidas, ao mesmo passo que existiam outras, desgraçadas e sós, que, pra ganhar alguns tostões, - magríssimos tostões -, tinham de andar vendendo jornais pelas ruas, à luz adustiva do sol?...
E Chico não compreendia... Não compreendia e ficava pensando, pensando...
Mas não se detinha por muito tempo em tais cogitações, que adivinhava inúteis. A vida ensinara-o a ser prático. Bem sabia que com sonhos e lucubrações não ganharia o seu salário. Por isso se atirava ao trabalho.
- O'ia o Correio da Manhã! O Correeeeio! E assim ia vivendo...

ÉRICO VERÍSSIMO

CRUZ ALTA-RS = 1905-1975