domingo, 2 de outubro de 2016

POESIA = Patativa do Assaré



(In Revista Nova  Escola)

Na seca inclemente no nosso Nordeste
O sol é mais quente e  o céu, mais azul
E o povo se achando sem chão e sem veste
Viaja à procura das terras do Sul

Porém quando chove tudo é riso e festa
O campo e a floresta prometem fartura
Escutam-se as notas alegres e graves
Dos cantos das aves louvando a natura

Alegre esvoaça e gargalha o jacu
Apita a nambu e geme a juriti
E a brisa farfalha por entre os verdores
Beijando os primores do meu Cariri

De noite notamos as graças eternas
Nas lindas lanternas de mil vaga-lumes
Na copa da mata os ramos embalam
E as flores exalam suaves perfumes

Se o dia desponta vem nova alegria
A gente aprecia o mais lindo compasso
Além do balido das lindas ovelhas
Enxames de abelhas zumbindo no espaço

E o forte caboclo da sua palhoça
No rumo da roça de marcha apressada
Vai cheio de vida sorrindo e contente
Lançar a semente na terra molhada

Das mãos deste bravo caboclo roceiro
Fiel prazenteiro modesto e feliz
É que o ouro branco sai para o processo
Fazer o progresso do nosso país.


PATATIVA DO ASSARÉ
ASSARÉ-CE = 1909-2002



CONTO = Carlos Drummond de Andrade



Caso De Ceguinho


 - Não viu o letreiro: "É expressamente proibida a entrada"?
- Desculpe, mas... O senhor não está percebendo?
A bengala branca palpava terreno. Era cego. Um rapaz tão bem apanhado! Duas ou três funcionárias aproximaram-se, enquanto o servidor que fizera a pergunta, encabulado, ia dando o fora.
Os óculos pretos do ceguinho, (todo cego é ceguinho, no coração da gente) ocultavam-lhe pudicamente o mal.
Cercado de moças, pareceu mais à vontade, e dirigiu-se a uma delas, por acaso a mais bonita:
- Sei que não é permitido, peço mil desculpas... A necessidade me obriga a isso. Não, não é auxílio. Eu vendo blusas, outiens, essas coisinhas, compreende?
As moças entreolharam-se, o regulamento não admite comércio em repartição, ainda mais repartição da Fazenda. Mas, pode haver regulamento para ceguinhos? E aquele era tão bem apanhado. E há sempre necessidade, desejo ou curiosidade de uma blusa nova, um baby-doll.
Todas estavam precisadas de alguma coisa, todas estavam, por assim dizer, nuas.
Então a moça a que ele recorrera tomou a iniciativa de comprar. Os homens fingiram não perceber a infração.
O ceguinho abriu a valise de avião e foi tirando seus artigos. Gabava-lhes a renda finíssima, a qualidade da espuma de látex, o elástico substituível.
Pedia licença para estender a blusa no peito das moças, para que vissem o efeito. Compraram tudo de que precisavam ou não, ele agradeceu à madrinha - porque a essa altura já se considerava madrinha:
- A senhorita me deu sorte. Santa Luzia que a faça muito feliz! E, apertando-lhe o braço, com efusão:
- Posso pedir-lhe mais uma caridade? Podia. Era acompanhá-lo a outras salas. Ele temia ser mal recebido outra vez.
Como seu anjo-da-guarda não haveria perigo. E lá se foram, ela guiando, ele vendendo. Que confiança adquirida rapidamente na moça! Ia amparado a seu braço, talvez com um pouco de exagero.
Ela ia pensar isso - mas arrependeu-se antes de pensar. Um pobre ceguinho! Quando extirparás de teu coração, Adelaide, a erva má da suspeita? Pois com tanto cuidado, ainda assim ele tropeçou em alguém no corredor, e teve de agarrar-se a ela, com expressão ansiosa no rosto.
Sua respiração era apressada, tinha as mãos quentes. Que susto! Ficou assim algum tempo, como aninhado em sua benfeitora.
Não seria tempo demais? Ela ia de novo achar esquisito. Seria mesmo cego o rapaz? Aqueles óculos indevassáveis... Conteve-se, antes de sentir-se mais uma vez uma infame pecadora:
- Não é melhor o senhor ir embora? Deve estar cansado, Já vendeu bastante... Ele entendia que não, estava disposto a vender até o fim do expediente, com uma fada a protegê-lo, não é todos os dias que se encontra uma fada no caminho.
Ela o foi encaminhando para perto do elevador, dizendo-lhe que não era fada coisa nenhuma, era uma simples datilógrafa-mensalista, ele protestava, queria de novo sentir-se aconchegado, defendido, gabava-lhe o perfume. ..
O elevador abriu-se. Com suavidade e firmeza ela o impeliu para dentro, pediu ao cabineiro que tivesse cuidado com o ceguinho - se é que ele era mesmo ceguinho.

FIM

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
ITABIRA-MG = 1902-1987

GRANDES PINTORES

 CARL LARSSON = Suécia, 1872-1919
 CARL LARSSON
 CARL LARSSON
 CARL LARSSON
 CARL LARSSON
 CARL LARSSON
 CARL LARSSON
 CARL LARSSON
CARL LARSSON
 CARL LARSSON
 
 CARL LARSSON
 
 CARL LARSSON = Suécia, 1872-1919





HUMOR











POESIA = Gouveia Marinho



Evangelho Da Sabedoria Vulgar


Não é de um sábio, não, mas sim de um velho,
tocado de sutil sabedoria
da vivência trivial de todo dia,
o judicioso e lúcido evangelho.

Com os olhos cerrados, eu lho ouvia,
sem notar de anacrônico e revelho
esse atual e realístico evangelho
que eu, na idade pueril, desconhecia.

- Condena o crime, disse, sem dureza;
mas sê austero e ríspido contigo
quando do erro tiveres a alma presa.

Imola a vida pelo teu amigo,
e dá teu pão, tirando-o à tua mesa,
para saciar a fome do mendigo.


GOUVEIA  MARINHO
LUÍS TAVARES DE GOUVEIA MARINHO
GOIANA-PE  1901 / 1983

CONTO = Humberto de Campos



A Cavalo
(George Auriol)


No tempo em que era apenas noivo da sua esposa de hoje, o capitão Lundstrteon residia na cidade de Kungsback (onde, diz ele, há uma velha fortaleza magnífica) e costumava ir visitar a sua futura, que morava três ou quatro milhas mais longe, em uma povoação denominada Jonsered. Quando fazia bom tempo, o velho pai de Elsa, a moça, lhe dizia:
— Lundstreon, meu amigo, o dia está convidando a gente a dar um passeio ao lado de quem se quer bem; não é
verdade? Beba comigo um copo de vinho...
Sko!... Sko!... (à nossa saúde!) e vá! Você é um excelente rapaz!
Lundstreon alugava então uma pequena carriola, e saía a passeio com a rapariga, contente um, e contente outro, porque, assim, se podiam beijar à vontade.
Certo dia, tomou ele a carruagem, mas o dono dos cavalos explicou-lhe:
— Eu não posso dar hoje o pônei de costume. Está doente. Vou atrelar, porém, meu cavalo castanho. É um animal roceiro mas, no resto, um bom animal.
— Não há dúvida, — concordou Lundstreon; — desde que ele ande, vai tudo bem.
E partiu, imediatamente, com a sua Elsa, pelas campinas floridas.
A certa altura, porém, o maldito cavalo castanho começou a fazer barulho por trás. Os senhores compreendem o que quero dizer; não? É um vocábulo difícil de proferir; uma expressão vil; um termo de se lhe torcer o nariz. Primeiro... segundo... terceiro... décimo... E Lundstreon cada vez mais aborrecido com esse inconveniente, que, com franqueza, tirava
toda a poesia do ­­passeio.
A princípio, pensou que fosse apenas por um momento; mas, quanto mais o cavalo corria, mais estalava. Parecia ter na barriga uma metralhadora.
Lundestreon não sabia o que dissesse, não ousando, mesmo, olhar a noiva, até que teve uma idéia: parar num albergue. Desceu, apeou também a moça e, tomando-lhe do braço, começou, visivelmente confuso:
— Minha querida, eu estou envergonhadíssimo... Perdoa-me todo esse inconveniente... esses rumores que tu vinhas escutando...
Elsa tornou-se vermelha como um galo.
— Ora, para que você me disse isso?!... — gemeu, irritada.
E como quem sente uma desilusão:
— Eu pensei que era o cavalo...

­­HUMBERTO DE CAMPOS
MIRITIBA-MA  =  1886-1934