domingo, 3 de abril de 2016
POESIA = Ângelo Monteiro
O
Recife Oculto
Há o Recife que viveu em mim
E não o que eu vivi.
Há o Recife que acendeu minhas perplexidades
Quando ao passar abstraído em suas pontes
Atrás de mim deixei correndo as águas
Ao seu destino numero e só.
Há o Recife enflorado de presenças
Sem história. E há outro anfíbio e oculto
Plasmado pelas ânsias de uma fé intensa
À redondez das coisas óbvias.
Uma cidade é mais que uma cidade
Para todo o que foge às superfícies
E, atrás de encontros mais irmãos
Que a silhueta fria dos seus edificiios,
Busca descer às paragens mais secretas
Onde lateja o sangue das correntezas
E a alma viscosa dos seus pobres mangues
Ao seu cruzamento de ontens e amanhãs.
Por isso, para mim,
Que celebrei a falácia das auroras
E desprezei a dor velada dos crepúsculos
Fala mais alto o recife que eu não vi.
Aquele que está sempre de passagem
Como a rua passeada há muitos anos
Ou o reflexo distante da paisagem
Dos meus enganos e meus desenganos.
O Recife suspenso sobre as águas
Em memória dos sonhos desfolhados
Na lápide dos dias.
ÂNGELO
MONTEIRO
PENEDO-AL = 1942
POESIA = Manuel Bandeira
Cartas De Meu Avô
A tarde
cai, por demais
Erma, úmida e silente…
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.
Erma, úmida e silente…
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.
E
enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.
Enternecido
sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.
Cartas de
antes do noivado…
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.
Temendo a
cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala…
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala…
A mão
pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também.
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também.
MANUEL BANDEIRA
RECIFE-PE = 1886-1968
CONTO = Marcelino Freire
Totonha
Capim sabe ler? Escrever? Já viu cachorro
letrado, científico? Já viu juízo de valor? Em quê? Não quero aprender,
dispenso.
Deixa pra gente que é moço. Gente que tem
ainda vontade de doutorar. De falar bonito. De salvar vida de pobre. O pobre só
precisa ser pobre. E mais nada precisa. Deixa eu, aqui no meu canto. Na boca do
fogão é que fico. Tô bem. Já viu fogo ir atrás de sílaba?
O governo me dê o dinheiro da feira. O dente
o presidente. E o vale-doce e o vale-lingüiça. Quero ser bem ignorante.
Aprender com o vento, ta me entendendo? Demente como um mosquito. Na bosta ali,
da cabrita. Que ninguém respeita mais a bosta do que eu. A química.
Tem coisa mais bonita? A geografia do rio
mesmo seco, mesmo esculhambado? O risco da poeira? O pó da água? Hein? O que eu
vou fazer com essa cartilha? Número?
Só para o prefeito dizer que valeu a pena o
esforço? Tem esforço mais esforço que o meu esforço? Todo dia, há tanto tempo,
nesse esquecimento. Acordando com o sol. Tem melhor bê-á-bá? Assoletrar se a
chuva vem? Se não vem?
Morrer, já sei. Comer, também. De vez em
quando, ir atrás de preá, caruá. Roer osso de tatu. Adivinhar quando a coceira
é só uma coceira, não uma doença. Tenha santa paciência!
Será que eu preciso mesmo garranchear meu
nome? Desenhar só pra mocinha aí ficar contente? Dona professora, que valia tem
o meu nome numa folha de papel, me diga honestamente. Coisa mais sem vida é um
nome assim, sem gente. Quem está atrás do nome não conta?
No papel, sou menos ninguém do que aqui, no
Vale do Jequitinhonha. Pelo menos aqui todo mundo me conhece. Grita, apelida.
Vem me chamar de Totonha. Quase não mudo de roupa, quase não mudo de lugar. Sou
sempre a mesma pessoa. Que voa.
Para mim, a melhor sabedoria é olhar na cara
da pessoa. No focinho de quem for. Não tenho medo de linguagem superior. Deus
que me ensinou. Só quero que me deixem sozinha. Eu e minha língua, sim, que só
passarinho entende, entende?
Não preciso ler, moça. A mocinha que
aprenda. O doutor. O presidente é que precisa saber o que assinou. Eu é que não
vou baixar minha cabeça para escrever.
Ah, não vou.
MARCELINO FREIRE
SERTÂNIA-PE = 1944
CRÔNICA = Antônio Maria
A Mesa Do Café
(Antônio Maria, in “Crônicas”,
26/09/1961)
Menino só sabe que é feio, no colégio, quando o padre
escolhe os que vão ajudar à missa, os que vão sair de anjo, na procissão, e os
que vão constituir a diretoria do Grêmio Mariano.
Eu soube que não era bonito em 1928, no Colégio Marista de
Recife. Nunca fui escolhido. Mas sem a menor tristeza, sem concordar até.
Aquele julgamento era precipitado, pois (estava convencido) ainda não havia
nada de definitivo sobre o bonito e o feio, a beleza e a fealdade. Quais seriam
as demarcações? A exata limítrofe, quem seria capaz de determinar? Se não
existia a explicação lógica do feio e do bonito, a notícia da minha feiura não
me causava mal nenhum. Ao contrário, livrava-me dos tributos que teria que
pagar se fosse bonito, ajudando missa e saindo de anjo, à frente das
procissões.
Na mesa do café, éramos cinco irmãos. Havia bolo de
mandioca, requeijão, bananas fritas, pão torrado e bolacha d’água. Éramos cinco
irmãos e, dos cinco, quatro eram bonitos. Vá lá, eu era o feio. Então, por que
minha mãe gostava mais de mim? Ela, que nos zelava a todos, que nos conhecia
pelo avesso e pelo direito, por que gostava mais de mim? De pena não era,
porque pena é uma coisa e amor é outra. Menino conhece. O gesto complacente,
por mais carinhoso, é sempre vacilante e triste. O gesto de amor chega a ser
bruto, de tão livre, alegre e descuidado.
Minha mãe gostava mais de mim. Eu sabia, e ela sabia que eu
sabia. Em tudo a nossa cumplicidade. Na fatia do bolo, na talhada de requeijão
e no sobejo do seu copo d’água. Nossa cumplicidade até hoje existe, quando de
raro em raro nos encontramos.
Da mesa do café víamos pela vidraça os canteiros de terra
negra e as rosas de maio. Vinha o cheiro úmido da terra molhada, mais que o das
pálidas rosas da minha infância.
Minha mãe e eu. Nossos olhos tão parecidos.
Minha mãe só tem um defeito. Não ser minha filha. Sempre
foi metida a saber mais que eu.
Só soube que era feio quando amei pela primeira vez. Vi-me,
então, corajosamente… e não era como gostaria de ser. No coração, um amor tão
bonito. Ninguém iria acreditar, mesmo dizendo, mesmo eu explicando, mesmo eu
jurando.
Apaguei a luz, tocava o concerto nro. 3 de Beethoven e, no
final, apesar do tom ser menor, o lirismo era tão ardente que tudo ficou
entendido, entre mim e a minha feiúra: eu a amava e não a abandonaria até a
morte.
ANTÔNIO MARIA
RECIFE-PE = 1921-1964
POESIA = Pablo Neruda
A Morte
Renasci muitas vezes, da profundeza
de estrelas derrotadas, reconstruindo o fio
das eternidades que povoei com minhas mãos,
e agora vou morrer, sem nada mais, com a terra.
Não comprei um sítio no céu que vendiam
os sacerdotes, nem aceitei as trevas
que o metafísico manufaturava
para despreocupados poderosos.
Quero estar na morte com os pobres
que não tiveram tempo de estudá-la,
vivendo sob açoites dos que têm
o céu dividido e arrumado.
Tenho pronta minha morte, como uma roupa
que me espera, da cor que eu gosto,
da extensão que inutilmente procurei,
da profundidade que necessito.
Quando o amor gastou sua matéria evidente
e a lua consome seus martelos
em outras mãos de acrescentada força,
vem a morte apagar os sinais
que foram construindo tuas fronteiras.
PABLO NERUDA
de estrelas derrotadas, reconstruindo o fio
das eternidades que povoei com minhas mãos,
e agora vou morrer, sem nada mais, com a terra.
Não comprei um sítio no céu que vendiam
os sacerdotes, nem aceitei as trevas
que o metafísico manufaturava
para despreocupados poderosos.
Quero estar na morte com os pobres
que não tiveram tempo de estudá-la,
vivendo sob açoites dos que têm
o céu dividido e arrumado.
Tenho pronta minha morte, como uma roupa
que me espera, da cor que eu gosto,
da extensão que inutilmente procurei,
da profundidade que necessito.
Quando o amor gastou sua matéria evidente
e a lua consome seus martelos
em outras mãos de acrescentada força,
vem a morte apagar os sinais
que foram construindo tuas fronteiras.
PABLO NERUDA
CHILE, 1904-1973
POESIA = Olavo Bilac
Os Pobres
Aí vêm pelos caminhos,
Descalços, e pés no chão,
Os pobres que andam sozinhos,
Implorando compaixão.
Vivem sem cama e sem teto,
Na fome e na solidão:
Pedem um pouco de afeto,
Pedem um pouco de pão.
São tímidos? São covardes?
Têm pejo? Têm confusão?
Parai para os encontrardes,
E dai-lhes a vossa mão!
Guiai-lhes os tristes passos!
Dai-lhes, sem hesitação,
O apoio de vossos braços,
Metade de vosso pão!
Não receeis que, algum dia,
Vos assalte a ingratidão:
O prêmio está na alegria
Que tereis no coração.
Protegei os desgraçados,
Órfãos de toda a afeição:
E sereis abençoados
Por um pedaço de pão...
OLAVO BILAC
Descalços, e pés no chão,
Os pobres que andam sozinhos,
Implorando compaixão.
Vivem sem cama e sem teto,
Na fome e na solidão:
Pedem um pouco de afeto,
Pedem um pouco de pão.
São tímidos? São covardes?
Têm pejo? Têm confusão?
Parai para os encontrardes,
E dai-lhes a vossa mão!
Guiai-lhes os tristes passos!
Dai-lhes, sem hesitação,
O apoio de vossos braços,
Metade de vosso pão!
Não receeis que, algum dia,
Vos assalte a ingratidão:
O prêmio está na alegria
Que tereis no coração.
Protegei os desgraçados,
Órfãos de toda a afeição:
E sereis abençoados
Por um pedaço de pão...
OLAVO BILAC
RIO DE JANEIEO-RJ = 1865-1918
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