domingo, 21 de fevereiro de 2016

PENSAMENTOS = Diversos






CONTO = Artur Azevedo



A Nota De Cem Mil-Réis

O Cavalcânti era um marido incorreto, para não empregar um adjetivo mais forte; imaginem que os seus recursos não davam para acudir a todas as necessidades da família e, no entanto, era ele um dos amantes da Josephine Leveau, uma cocotte francesa, cujo nome era muito conhecido nas rodas alegres, e se prestava aos trocadilhos mais interessantes, quer em francês, quer em português.
Como a esposa do Cavalcanti era uma hábil costureira, recorreu à sua habilidade para ajudar nas despesas de casa. Um dia fez um vestido para uma amiga, e, tão bem feito, tão elegante, que a sua fama correu de boca em boca, e valeu-lhe uma freguesia certa, que lhe dava algum dinheiro a ganhar. Havia meses em que ela fazia trezentos mil-réis.
O Cavalcanti não protestou, pelo contrário aprovou. Fez mais, como vão ver.
Uma bela manhã, a Josephine mandou-lhe pedir cem mil-réis para uma necessidade urgente, e ele não os tinha, nem sabia onde ir buscá-los. Hesitou durante algum tempo em cometer uma baixeza, mas acabou cometendo-a. Já o leitor adivinhou que o miserável pediu à esposa o dinheiro que devia mandar à amante.
A pobre senhora não manifestou a menor contrariedade: foi ao seu quarto, abriu uma gaveta onde guardava o fruto do seu trabalho, e tirou uma nota de cem mil-réis, ainda nova. Antes de levá-la ao marido, que esperava na sala de jantar, contemplou-a durante algum tempo como para despedir-se dela para sempre, e então notou que alguém escrevera num canto estas palavras com letra miúda: "Nunca mais te verei, querida nota!" E como D. Margarida - ela chamava-se Margarida - tivesse um lápis à mão, escreveu por baixo daquelas palavras "Nem eu!".
O Cavalcanti empalmou os cem mil-réis com um estremeção de alegria.
- Este dinheiro faz-te muita falta? - perguntou ele.
- Não - respondeu ela - hoje mesmo espero receber igual quantia.
Meia hora depois, o Cavalcânti entregava a nota, dentro de um envelope, a Josephine Leveau.
Nesse mesmo dia D. Margarida recebeu os outros cem mil-réis que esperava. Contra o seu costume, o Cavalcânti estava em casa.
- Olha, disse-lhe ela, aqui estão os cem mil-réis que eu contava receber. A freguesa é boa.
- Quem ela é? perguntou o marido.
- Não a conheço; veio ter comigo e pediu-me que lhe fizesse um vestido de seda, riquíssimo. Tinham-lhe dito que eu trabalhava bem e barato.
- Mas é senhora séria?
- Parece. É francesa, e casada com um banqueiro, disse-me ela. Naturalmente o marido é também francês, porque ela chama-se Madame Leveau.
- Leveau! repetiu o Cavalcânti empalidecendo.
- Conheces?
- Não.
- Então, por que fizeste essa cara espantada? Boa freguesa! O vestido foi hoje de manhã cedo, e hoje mesmo veio o dinheiro.
- Onde mora essa Madame Leveau?
- Na Rua do Catete.
Dizendo isto D. Margarida abriu o envelope e retirou os cem mil-réis.
- Que coincidência! disse ela; a nota é da mesma estampa da qual te dei hoje de manhã! Por sinal que a outra tinha no canto... Oh!...
Este grito quer dizer que D. Margarida tinha lido a frase "Nunca mais te verei", e o seu acréscimo: "Nem eu!".
- Que foi? perguntou o Cavalcanti.
- A nota é a mesma!...
- A mesma? repetiu o marido gaguejando.
- A mesmíssima! Reconheço-a por causa destas palavras... Vê! a minha letra!...
O Cavalcanti arranjou uma desculpa esfarrapada: disse que tinha pago os cem mil-réis ao banqueiro Leveau, a quem os pedira emprestados; mas D. Margarida não engoliu a pílula, e foi à casa de Josephine certificar-se de que esta era uma cocotte freqüentada por seu marido.
A pobre senhora separou-se do desgraçado, e abriu casa de modista. Ganha muito dinheiro.

ARTUR DE AZEVEDO
SÃO LUÍS-MA = 1855-1908

domingo, 31 de janeiro de 2016

GRANDES PINTORES = Pissarro

 PISSARRO = França, 1830-1903
 PISSARRO
 PISSARRO
 PISSARRO
 PISSARRO
 PISSARRO
 PISSARRO
 PISSARRO
 PISSARRO
 PISSARRO
 PISSARRO
PISSARRO = França, 1830-1903
P

POESIA = LEDO iVO


O Ladrão


Quando deixei Maceió, fechei a porta do mar
E enxotei os navios que insistiam em seguir-me.
Tive de aninhar o vento nos corredores
Das casas brancas que guardam lacraias.
Mas o mar me acompanhou até nos sonhos,
Igual ao sol azul que sustenta o mormaço.
O vento veio voando e era um bando de pássaros.
A chuva da minha infância continua caindo
Com o seu séquito de tanajuras e caranguejos.
Até as dunas caminham ao meu encontro
E me rodeiam, exigindo que eu devolva
A chave de areia e o oceano roubado.

LEDO IVO

MACEIÓ-AL = 1924-2013

CRÔNICA = HUMBERTO DE CAMPOS

A Mulata


26 de janeiro
Aumentados com a descoberta do Brasil os limites civilizáveis do mundo, compreendeu Jeová, do seu trono de nuvens, a necessidade de multiplicar o homem, para povoar, em nome da sua gloria, as novas regiões desbravadas. De que espécie devia ele encher, porém, a terra maravilhosa, que se mostrava tão promissora? A raça branca, que ele tanto amava e protegia, dominava, já, na Europa tumultuosa. A Ásia, berço da humanidade e dos grandes mistérios eternos, fervilhava de homens amarelos, que a enchiam toda, e que se haviam derramado, aventureiros, pelas ilhas circunvizinhas. À própria raça negra, que tanto se lamentava da sua condição e do seu destino, coubera a África inteira, de que se tornara senhora. Fazia-se mister, pois, criar um tipo novo, uma raça nova e bendita, que se apropriasse com autoridade e com orgulho, da nova terra exumada das ondas.
Resolvido isso, tomou o Senhor do seu camartelo, do seu buril, da sua verruma, do material, em suma, com que trabalhava na fabricação meticulosa dos seres vivos, e, misturando um pouco da pasta com que fizera o negro, com outra, absolutamente igual na dosagem, de que fabricara o branco, formou com as duas, uma pasta morena e macia, em que se pôs a modelar, cuidadoso, uma figura de mulher.
Concluída a obra, o estatuário quedou fascinado. Última flor do jardim humano em que pusera toda a sua experiência de escultor inexcedível, a nova Afrodita resumia, com os seus olhos negros, os seus cabelos crespos, as suas linhas voluptuosas e a sua pele acentuadamente castanha, todos os encantos e todas as graças da criação. Deslumbrado, encantado, embevecido, Jeová mirou-a, remirou-a, examinou-a, banhou-a com a luz dos seus olhos, e, de repente, com um sorriso, teve uma idéia. Foi ao laboratório, tomou nas mãos uma folha de cebola, um dente de alho, amassou-os, triturou-os, diluiu-os e, voltando à estatua, friccionou-lhe pausadamente os ombros, as espáduas e a parte superior e interna dos braços. Em seguida, ordenou-lhe, recuando: - "Surge et ambula!"
A estatua moveu-se, preguiçosa, e com um andar lúbrico, remexido, sensual, desceu do solo em que fora polida.
Jeová sorriu, de novo, e, com orgulho paternal, apontou-lhe para debaixo do braço, dizendo-lhe, como dissera a Constantino, na legenda sagrada: - "In hoc signo vinces!"
A mulata abriu os lábios num sorriso dengoso, e, como o Criador lhe indicasse, com um gesto, o caminho da terra, através das estrelas, rumou, enamorada de si própria, em direção ao Brasil. Vinte e quatro horas depois, porém, batia, de novo, à porta da oficina celeste.
- Você por aqui, ainda? - estranhou Jeová, espantado.
A mulata baixou os olhos, procurando justificar-se:
- Foi impossível chegar ao meu destino, meu Senhor; e eu, então, regressei, ali, das nuvens.
- Por que? - trovejou o Criador, indignado.
E ela, corando, envergonhada: - As almas dos portugueses não me deixaram passar...

HUMBERTO DE CAMPOS
MIRITIBA-MA  =  1886 / 1934


VÍDEO = Glen Miller


POESIA = Altair Leal


Rua Que Impera A Dor

Passeando no centro do Recife, turismo? passagem?
Paisagem da Rua do Imperador,
Deparo com crianças pobres; magras não. Ossulentas.
Dormindo e sonhando em chão cuspido.
O que será, santos? miragem?
O homem, o transeunte ausente,
Pedestre em pensamentos do trabalho,
Caminha sem culpas, pisando em sonhos,
Calçadas, restos de vida (carente).
Amanhã será outro dia. Será?
Não, é o mesmo dia!
Só muda o tempo, as chances de sonhar.
Não há chances, não há sonhos (bobagem)
Suponho. A realidade é outra história.
Pego um ônibus de cabeças cheias,
E fecho o ciclo da viagem.

ALTAIR LEAL

LIMOEIRO-PE  =  1960

CRÔNICA = Antônio Maria




A Mesa Do Café
(Antônio Maria, in “Crônicas”, 26/09/1961)

Menino só sabe que é feio, no colégio, quando o padre escolhe os que vão ajudar à missa, os que vão sair de anjo, na procissão, e os que vão constituir a diretoria do Grêmio Mariano.
Eu soube que não era bonito em 1928, no Colégio Marista de Recife. Nunca fui escolhido. Mas sem a menor tristeza, sem concordar até. Aquele julgamento era precipitado, pois (estava convencido) ainda não havia nada de definitivo sobre o bonito e o feio, a beleza e a fealdade. Quais seriam as demarcações? A exata limítrofe, quem seria capaz de determinar? Se não existia a explicação lógica do feio e do bonito, a notícia da minha feiura não me causava mal nenhum. Ao contrário, livrava-me dos tributos que teria que pagar se fosse bonito, ajudando missa e saindo de anjo, à frente das procissões.
Na mesa do café, eramos cinco irmãos. Havia bolo de mandioca, requeijão, bananas fritas, pão torrado e bolacha d’água. Eramos cinco irmãos e, dos cinco, quatro eram bonitos. Vá lá, eu era o feio. Então, por que minha mãe gostava mais de mim? Ela, que nos zelava a todos, que nos conhecia pelo avesso e pelo direito, por que gostava mais de mim? De pena não era, porque pena é uma coisa e amor é outra. Menino conhece. O gesto complacente, por mais carinhoso, é sempre vacilante e triste. O gesto de amor chega a ser bruto, de tão livre, alegre e descuidado.
Minha mãe gostava mais de mim. Eu sabia, e ela sabia que eu sabia. Em tudo a nossa cumplicidade. Na fatia do bolo, na talhada de requeijão e no sobejo do seu copo d’água. Nossa cumplicidade até hoje existe, quando de raro em raro nos encontramos.
Da mesa do café víamos pela vidraça os canteiros de terra negra e as rosas de maio. Vinha o cheiro úmido da terra molhada, mais que o das pálidas rosas da minha infância.
Minha mãe e eu. Nossos olhos tão parecidos.
Minha mãe só tem um defeito. Não ser minha filha. Sempre foi metida a saber mais que eu.
Só soube que era feio quando amei pela primeira vez. Vi-me, então, corajosamente… e não era como gostaria de ser. No coração, um amor tão bonito. Ninguém iria acreditar, mesmo dizendo, mesmo eu explicando, mesmo eu jurando.
Apaguei a luz, tocava o concerto nro. 3 de Beethoven e, no fnal, apesar do tom ser menor, o lirismo era tão ardente que tudo ficou entendido, entre mim e a minha feiúra: eu a amava e não a abandonaria até a morte.

ANTÔNIO MARIA
RECIFE-PE = 1921-1964

HUMOR













PENSAMENTOS = Diversos







GRANDES PINTORES


 CÂNDIDO PORINARI =  Brodowski-SP, 1903-1962
 
 CÂNDIDO PORTINARI
 CÂNDIDO PORTINARI
 CÂDIDO PORTINARI
 CÂNDIDO PORTINARI
 CÂNDIDO PORTINARI
 CÂNDIDO PORTINARI
 CÂNDIDO PORTINARI
 CÂNDIDO PORTINARI
 CÂNDIDO PORTINARI
 CÂNDIDO PORTINARI
CÂNDIDO PORTINARI = Brodowski-SP, 1903-1962