domingo, 3 de janeiro de 2016

POESIA = Manuel Bandeira




Cartas De Meu Avô


A tarde cai, por demais
Erma, úmida e silente…
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.

Cartas de antes do noivado…
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.

Temendo a cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala…

A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também.


RECIFE-PE, 1886-1968

CONTO = Lima Barreto




 Este Sujeito
Careta, Rio, 9-9-1922
 
Como ele nasceu sem nenhum desenvolvimento mental e não pôde por sua falta de vontade adquirir qualquer espécie de instrução, o Nicomedes tomou a resolução de se fazer literato. Porque não há nada mais fácil para um sujeito analfabeto do que se fazer escritor, poeta e literato.
O governo pede carta para cocheiro, mas não pede para literato. Sendo assim todo o sujeito que não dá pra nada se julga no direito de escrever para os jornais, embora não saiba direitamente letras.
Nicomedes – quem não conhece este sujeito? – é invejoso e pulha; mas disse um dia que havia de ser célebre, para isso devia descompor todos os rapazes que lhe faziam sombra. Viu, entretanto, que isso não era bastante. Era preciso aprender a ler e a escrever. Como havia de ser? Nicomedes nunca foi dado à resolução de problemas, graças à sua visceral ignorância. Procurou um amigo mais sábio, a quem lhe pediu um conselho:
– Marques, você me ensina como eu devo aprender a ler e a escrever?
– Homessa! É fácil!
– Como?
– Você se casa com uma professora pública.
Ele arranjou o casamento e sabe, hoje, ler por cima.

LIMA BARRETO
RIO DE JANEIRO-RJ = 1881–1922

VÍDEO = Gustavo Montesano


HUMOR












POESIA = António Botto



Discurso

O homem não nasce livre,
Torna-se livre, é diferente.

Abandoná-lo à sua sorte,
É um crime, - não convém.

O Estado, a Escola, a Família,
São necessários à vida
Do que souber ser alguém.

Não partir da liberdade,
Mas caminhar para ela.

Só assim o homem de hoje
Pode vir a merecê-la.

ANTÓNIO BOTTO
PORTUGAL  =  1897-1959

GRANDES PINTORES

 CLAUDE THÉBERGE = Canadá, 1934-2008
 CLAUDE THÉBERGE
 CLAUDE THÉBERGE
 CLAUDE THÉBERGE
 CLAUDE THÉBERGE
 CLAUDE THÉBERGE
 CLAUDE THÉBERGE
 CLAUDE THÉBERGE
 CLAUDE THÉBERGE
 CLAUDE THÉBERGE
 CLAUDE THÉBERGE
 CLAUDE THÉBERGE
CLAUDE THÉBERGE = Canadá, 1939-2008

CRÔNICA = Leon Eliachar




O Segredo Da Propaganda É
A Propaganda Do Segredo


Depois de tantos anos vendo televisão diariamente, chego a uma conclusão definitiva: é muito mais divertido e mais prático ver os anúncios. Enquanto as outras pessoas ficam aflitas tentando decorar os horários das novelas, das paradas de sucesso e dos chamados programas humorísticos, eu não tenho problema: ligo a televisão em qualquer canal e vejo os anúncios sem preocupação de horário. Vocês talvez achem que é loucura ver os mesmos anúncios diversas vezes, mas posso garantir que os anúncios variam muito mais que as piadas e as músicas que são servidas todos os dias. Pelo menos os anúncios são bem bolados, alguns até inteligentes. A técnica é chatear tanto até ficarem em nosso subconsciente — se é que alguém consegue ter subconsciente assistindo televisão.
Os refrigerantes, por exemplo: quase todos fazem as garrafas dançar na nossa frente e tocam uma musiquinha que chega a dar sede. Aí a gente não resiste: vai à geladeira e bebe um copo de água.
Mas bom mesmo é anúncio de sabonete: aparece cada moça bonita que vou te contar. E com uma grande vantagem, as moças não falam, só aparecem, ligam o chuveiro e ficam noivas dentro da espuma. Por mais que a gente saiba que aquilo é anúncio de sabonete, fica sempre aquela dúvida se um dia eles não vão resolver dar o nome daquele chuveiro ou, quem sabe, o telefone da moça.
Geniais mesmo são as geladeiras que duram toda a vida. Mas muito mais geniais são os textos garantindo que cabe tudinho dentro delas, mas acho que não têm tanta certeza, pois fazem questão de botar uma moça bem bonita pra mostrar a geladeira — e a gente tem é vontade de comprar a moça, mesmo sem o "certificado de garantia".
E as televisões, baratíssimas, cada vez mais vendidas, dentro dos novos planos de venda. Ao invés de bolarem uma televisão mais perfeita, ficam é bolando planos de venda. No dia em que inventarem uma televisão que focalize a cara de um sujeito com menos de três orelhas, não precisam nem fazer anúncio: é só exibir, que esgota no mesmo dia.
Existe anúncio de todo tipo: tecidos que não amarrotam, tecidos que dão prêmios, tecidos que dão desconto, tecidos coloridos que são apresentados em preto-e-branco, tecidos brancos que ficam cada vez mais brancos à medida que vai surgindo um novo sabão em pó. Mas é o que eles pensam: o branco deles, lá em casa, todo mundo tá vendo que é cinza.
O mais engraçado são os anúncios de inseticidas que matam todos os insetos, menos as moscas do estúdio.
Anuncia-se também muita banha, muito pneu, muito perfume, muito sapato, muito automóvel, muita calça, muita bebida e muita pílula pra dor de cabeça. Parece até que um anúncio depende do outro — é como se fosse uma novela, com a vantagem de a gente sempre saber qual o final de cada anúncio. E não pensem que sou o único a achar os anúncios mais interessantes que os programas: os donos das emissoras também acham — senão não ocupavam a maior parte do tempo com anúncios. Nos intervalos é que colocam alguns programinhas — por absoluta falta de mais anúncios.
Reparem só: os programas de humor mostram o lado negativo das pessoas, os personagens são quase todos fossilizados, gagos, surdos, cegos, velhos borocochôs ou sem sexo definido. As novelas exploram seres anormais dentro de um mundo de misérias e lágrimas. Já os anúncios apresentam um mundo de otimismo, onde tudo é bom e saudável, não quebra, dura toda a vida e qualquer um pode adquirir quase de graça, pagando como puder, no endereço mais próximo da sua casa. O único detalhe que nos deixa um pouco frustrados é que a moça que dá os endereços fala tão preocupada em não errar que a gente não consegue decorar nenhum endereço. Em compensação, sabe de cor a moça todinha.

LEON  ELIACHAR
* CAIRO(Egito), 1922  =  V RIO(RJ), 1987