domingo, 16 de agosto de 2015

CONTO = Artur Azevedo

Ingenuidade


O Vaz desejava a Ernestina Friandes, não porque ela não tivesse todas as aparências de uma senhora honesta; desejava-a, porque o marido, o Friandes, era um pax vobis, que estava mesmo a pedir que o enganassem.
Quando, após quatro meses de. perseguições incessantes, o sedutor conseguiu a promessa de uma entrevista, ficou muito atrapalhado, por não saber aonde levar a moça. Em casa dela era impossível um encontro: havia a tia Chiquinha Friandes, velhinha esperta e desconfiada; em casa dele também não podia ser, porque ele não tinha casa; apesar dos seus trinta anos, vivia ainda sob o teto e às sopas do pai.
* * *
O nosso herói lembrou-se, afinal, de um amigalhaço muito dado a cavalarias altas; foi ter com ele, expôs-lhe a situação e pediu-lhe que lhe arranjasse um ninho.
- Tu compreendes! Não posso nem devo levá-la a uma dessas casas de alugar quartos, que toda a gente conhece! Seria abusar da sua inocência!
- Então a pequena é tão inocente assim?
- Se é! Não fala senão de pálpebras caídas, e qualquer coisa lhe faz subir o rubor às faces! Sou o seu primeiro amante!
- Deixa-te dessas pretensões! A gente nunca é o primeiro amante!
- Falas assim porque não a conheces.
- Vou indicar-te um lugar aonde podes levá-la com toda a segurança, porque é uma casa que ainda não está conhecida. Rua tal, número tantos. Vai até lá e procura de minha parte a D. Efigênia, que te servirá perfeitamente. Olha, leva-lhe o meu cartão.
O Vaz foi à casa indicada e obteve o que desejava: um bom quarto, espaçoso, bem mobiliado, arejado, com todos os requisitos, inclusive o de ficar logo no topo da escada, de modo que ele e a Ernestina poderiam entrar sem ser vistos.
* * *
No dia da entrevista, correu tudo às mil maravilhas. O Vaz esperou a sua presa na esquina; ele entrou primeiro, ela depois, e lá se demoraram perto de hora e meia.
Por que tanto tempo? Por que uma virtude não cai com a mesma facilidade que as paredes do Hospital da Penitência!
Arrependida de haver subido aquela escada infame, a Ernestina resistiu quanto pôde.
- Não! Não! Não!... eu quero conservar-me fiel aos meus deveres!... Que juízo estará o senhor a fazer de mim?...
O Vaz - justiça se lhe faça - não respondeu como Pedro I, que era um bruto.
- E o Friandes?... e o meu pobre Friandes que tem tanta confiança em mim?...
* * *
A Ernestina saiu primeiro. O Vaz ainda ficou, e D. Efigênia veio perguntar-lhe com o mais amável dos seus sorrisos:
- Então?, agradou-lhe o quarto?
- Muito e, se a senhora quisesse, eu ficaria com ele só para mim.
- Ah!, isso não pode ser.
- Por quê?
- Porque há um cavalheiro e uma dama que têm este cômodo tomado para todas as quartas e sábados, às quatro horas. Não sendo nesses dias e a essa hora, o quarto é seu.
- Bom.
O Vaz pagou generosamente a hospedagem e saiu.
* * *
No dia seguinte lembrou-se que era sábado, e, sendo um desocupado, sentiu desejos de conhecer a dama e o cavalheiro das 4 horas. Para isso, postou-se, no momento aprazado, bem defronte da casa hospitaleira, arranjando, por trás de uma árvore um magnífico posto de observação.
O cavalheiro foi o primeiro a chegar. Era um velho com todas as aparências de respeitável.
A dama pouco se demorou: era a própria Ernestina Friandes. Imaginem a surpresa do Vaz, que daquele momento em diante, convencido de que o ingênuo fora ele, nunca mais se fiou na ingenuidade das
mulheres.

ARTUR DE AZEVEDO

SÃO LUÍS-MA  - 1855 / 1908

POESIA = Olegário Mariano


Noite Sonora



Anoiteceu. Pelas montanhas veio
Lentamente o crepúsculo caindo ...
O céu, redondo e claro como um seio,
Ficou, de lindo que era, inda mais lindo.

O vale abriu-se em pirilampos cheio,
Luzindo aqui, e ali tremeluzindo ...
No regaço da treva, úmido e feio,
A natureza adormeceu sorrindo ...

As cigarras, na sombra, se calaram:
As árvores no bosque farfalharam
Na esperança de ouvi-Ias e de vê-las.

Caiu de todo a noite quieta ... Agora,
O céu parece uma árvore sonora
De cigarras cantando nas estrelas ...


OLEGÁRIO MARIANO

RECIFE-PE  =  1889-1958

VÍDEO = Andre Kostelanetz


GRANDES PINTORES


 
 ALEXEY SHALAEV = Rússia, 1966
ALEXEY SHLAEV 
 ALEXEY SHALAEV

 ALEXEY SHALAEV
 ALEXEY SHALAEV
 ALEXEY SHALAEV
 ALEXEY SHALAEV
 ALEXEY SHALAEV
 ALEXEY SHALAEV
 ALEXEY SHALAEV
ALEXEY SHALAEV = Rússia, 1966

domingo, 9 de agosto de 2015

VÍDEO = Nini Rosso


POESIA = Rogaciano leite




Inversão De Racismo
Santos, 16/08/1950

"Amor não é racista..." — Ela dizia,
Quando em beijos ardentes me abrasava.
Ao seu peito, nervosa, me apertava,
Ao meu peito, nervoso, eu lhe prendia.

Era noite na praia. Ninguém via
Aquele par que se beijando estava...
Nos braços do cristão — ela sonhava!
E eu sonhava — nos braços da judia!

No templo azul daquela noite calma
Eu lhe dei uma Pátria, na minh'alma,
E ela deu-me, em su'alma, a Canaã...

Desde então o racismo se inverteu:
— Vivo pensando que fiquei judeu,
E ela jurando que ficou cristã!

ROGACIANO LEITE
ITAPETIM-PE  =  1920-1969

HUMOR









CONTO = Artur Azevedo



Sova Bem Merecida

Numa das ruas de uma das estações dos subúrbios vivia, não há muito tempo, numa casa térrea, edificada no meio de um terreno bem plantado, uma família composta de uma senhora quarentona e três rapazes, seus filhos.
A senhora, que se chamava D. Eulália, e era conhecida no bairro pela sua extrema bondade, passava por viúva, mas a verdade é que tinha marido vivo, o Araújo, o maior desordenado que Deus deitou ao mundo.
Durante os cinco primeiros anos de casado, o Araújo, apesar de jogador, foi um marido como outro qualquer - cumpria satisfatoriamente as obrigações conjugais e não dava à esposa motivo para grandes queixas; mas depois do quinto ano, quando já lhe haviam nascido dois rapazes e estava para nascer o terceiro, enrabichou-se por uma atriz de terceira ordem, desapareceu de casa de família e nunca mais lá voltou.
Por mais estranho que pareça ao leitor habituado à tranqüilidade e boa harmonia do lar, o caso é que se passaram vinte anos sem que esse extraordinário marido tornasse a ver mulher e filhos.
Os rapazes cresceram e se empregaram sem conhecer o pai senão de nome. Felizmente eram bons filhos: moravam todos três com D. Eulália, a quem nada faltava.
Releva dizer que o marido - justiça se lhe faça! - desde que desapareceu de casa mandava à família todos os meses dinheiro pelo correio, estivesse onde estivesse, e lá uma vez por outra,
quando o jogo lhe proporcionava uma boa boIada, lá ia mais uma lambujem.
Jogador de profissão, o Araújo percorria o Brasil inteiro, de norte a sul, bancando ou apontando, perdendo aqui para ganhar acolá, ora, muito por cima, ora muito por baixo, mas sempre ativo, alegre e sadio, como se lhe não doesse nada na consciência.
De vez em quando aparecia com uma nova mulher ao seu lado; a atriz pela qual desprezara a esposa tinha sido cem vezes substituída.
Entretanto, aconteceu-lhe o mesmo que o Aretino: apaixonou-se deveras pela ultima das suas amantes, e teve um sério desgosto quando, entrando em casa uma noite, não a encontrou, mas uma carta em que ela lhe comunicava que, estando farta da companhia de um jogador tresnoitado, tinha encontrado outro amante menos anormal.
O Araújo, que, aliás, tinha ganho alguns contos de réis aquela noite, julgou enlouquecer, e teve um acesso de lágrimas; todavia, passada a crise, serenou, e veio-lhe à lembrança, aguilhando-o pela primeira vez como um remorso, a família que abandonara havia vinte anos.
Não sei que resolução se passou então na alma daquele homem; o que sei é que ele resolveu ir ter, mesmo àquela hora, com a sua infeliz mulher e pedir-lhe perdão de todos os seus erros.
Saiu de casa, tomou um tílburi, que o fez chegar à estação da central a tempo de apanhar o último trem dos subúrbios.
Na estação ficou embaraçado por não saber onde era a casa; encontrou, porém, um polícia que o orientou, depois de interrogá-lo com desconfiança.
- Eu sou o marido de D. Eulália.
- D. Eulália é viúva.
- Todos assim pensam. É casada comigo, mas não nos vemos há vinte anos!
- O senhor chegou de viagem?
- Cheguei; cheguei de uma longa viagem.
- Então desculpe; mas como andam muitos ladrões aqui no bairro... Da própria casa de D. Eulália roubaram uma noite destas não sei quantas galinhas.
E o rondante ensinou ao Araújo onde era a casa de D. Eulália.
O marido entrou com precaução; mas quando ia no meio do terreno, entre o portão e a casa, saltaram-lhe lá de dentro os três rapazes, armados de cacetes, e deram-lhe uma sova tremenda.
- Eu sou o marido de D. Eulália - gritava o desgraçado.
Felizmente D. Eulália, reconhecendo-lhe a voz, gritou aos rapazes:
- Basta, meninos, basta! É vosso pai!.
Cessou a pancadaria, mas o Araújo estava prostrado no chão, descadeirado, sem se poder levantar.
Os rapazes, pedindo-lhe muitas desculpas de o haverem tomado por ladrão, carregaram-no a pulso para dentro de casa, onde o deitaram na cama de um deles.
Ora, aí está como o Araújo voltou à casa depois de uma ausência de vinte anos.
É verdade que desta vez ficou.
ARTUR AZEVEDO
SÃO LUÍS-MA = 1855-1908

POESIA = Henriqueta Lisboa



  Cicatriz
(De Miradouro)


O transeunte traz
no rosto uma cicatriz.
Um sinuoso gilvaz
talvez por motivos vis.

O rosto era de tão belo
talhado para navalha.
E fímbria de lua em duelo
de lâminas o retalha.

Hoje o rosto de ira e anelo
tem arrogâncias viris.
Secretamento mais belo
com esta flor de cicatriz.

LAMBARI-MG = 1901-1985

VÍDEO = Caravelli & Orquestra