sábado, 2 de março de 2013

MILLÔR FERNANDES


MILLÔR FERNANDES
RIO DE JANEIRO-RJ  =  1924-2012


Ser Gagá

 


Ser Gagá não é viver apenas nos idos do passado: é muito mais! É saber que todos os amigos já morreram e os que teimam em viver, são entrevados. É sorrir, interminavelmente, não por necessidade interior, mas porque a boca não fecha ou a dentadura é maior do que a arcada.

Ser Gágá é ficar pensando o dia inteiro em como seria bom ter trinta anos, vá lá, quarenta, ou mesmo, ó Deus, sessenta! É ficar olhando os brotinhos que passeiam, com o olhar esclerosado, numa inútil esperança. É ficar aposentado o dia inteiro, olhando no vazio, pensando em morrer logo, e sair subitamente, andando a meia hora que o separa dos cem metros da esquina, porque é preciso resistir. É dobrar o jornal encabulado, quando chega alguém jovem da família, mas ficar olhando, de soslaio, para os íntimos da coluna funerária. Ser Gagá é saber todos os mortos inscritos no Time, em Milestones. Não é saber o Who is who, mas os WHEN. É só pensar em comer, como na infância. E em certo dia passar fome as vinte e quatro horas, só de melancolia. É, na hora mais ativa do mais veloz Bang-Bang, descobrir, lá no terceiro plano, um ator antigo, do cinema mudo, e sentir no peito a punhalada. É surpreender, subitamente, um olhar irônico que aderir à bossa nova, falar "Sossega Leão" e morrer de vergonha ao perceber o fora. É não querer, não querer, mas cada dia ficar mais necessitado de amparo do que outrora. É ter estado em Paris, em 19. É descobrir, de repente, um buraco na roupa e dar graça a Deus, por ser na roupa.

Ser Gagá é sentir plenamente que tudo que se leu, que se aprendeu, que se viu e se viveu não vale nada diante do que estua. Ser Gagá é estar sempre na iminência de ouvir em plena rua: "Olhe o tarado!" É ficar contente em ver Chaplin e Picasso como os "mais charmosos" de sessenta! É chamar de menina à quarentona. É ter uma esperança senil dos cientistas. É reparar, nos mais jovens, o imperceptível sinal de decadência. É ficar olhando o detalhe, nos amigos a lentigem nas mãos, o cabelo que afina, a pele que vai desidratando. Ser Gagá é o orgulho vão de ainda ter cabelo e poucos brancos! A vaidade tola de não ter barriga; a felicidade de ter dentes próprios. É fazer grandes planos quinquenais que espantam os jovens que acham cinco anos a própria eternidade, mas que o Gagá sabe que voam como voaram tantos, tantos, tantos.

É se apegar, desesperadamente, pelo tremendo impulso da existência, aos filhos, aos netos e aos bisnetos, embora saiba que eles não o querem, que a convivência com eles é apenas parte e total do egoísmo vital que o enterra. É sentir que agora, outra vez, está bem de saúde. É sentir a saúde ocasional. É carregar o corpo o tempo todo. É sentir o caixão no próprio corpo. É saber que já não há quem tenha prazer em lhe acarinhar a pele. É já não ter prazer em passar a mão na própria pele. É esquecer de coisas importantes e lembrar, sem saber por que, um gosto, um calor, uma palavra há tempos esquecidos.

Ser Gagá é procurar com afã a importância do cargo para de novo ser solicitado, embora pelo cargo. É sentir que nada do que faça, espantoso que seja, terá a importância do feito de outro homem, nos inícios da vida. Ser Gagá é quando dormir tarde se torna uma loucura, resgatada em feroz resfriado que dura uma semana. É ter sabido francês, e esquecido. É já não jogar xadrez como outrora! É olhar o retrato amarelado e lembrar que fotógrafo usava magnésio. É dizer, como um feito, que ainda lê sem óculos. É ouvir que alguém diz, quando passa na rua: "Inda está firme!" É ficar galante e baboseiro na terceira taça de champanha. É casar com uma mulher mais jovem e querer dar logo ao mundo a inegável prova de um filhinho.

Ser Gagá é, num esforço mortal, aceitar tudo que inventam, todas as idéias, as modas, a música, o ritmo de vida, mas não deixar de dizer numa ironia profunda e amargurada. "Eu não entendo". É sentir de repente o isolamento. É ficar egoísta, e amedrontado. É não ter vez e nem misericórdia.

Ser Gagá é fogo. Ou melhor, é muito frio.

 

TROVAS HUMORÍSTICAS

 

"O cão que ladra não morde".
Permitam que nesta quadra
eu do provérbio discorde:
sim, não morde... enquanto ladra.

BASTOS  TIGRE

  
Quando a mulher quer, eu acho
que nem Deus a desanima:
— É água de morro abaixo,
e fogo de morro acima!...

BELMIRO BRAGA

  
Rezava Adão: "— Meu Senhor,
a mulher, a minha amiga,
quer tentar-me. Por favor,
fazei com que ela... prossiga!"

ENO THEODORO WANKE

  
O cuco da minha casa
tem algo que desencanta,
pois um relógio que atrasa
para mim não adianta...

COLBERT RANGEL COELHO

 
Do peixe, como eu dizia,
sem pretensão de iludi-los,
somente a fotografia 
pesava mais de oito quilos

JOSÉ MACHADO BORGES

ARTIGO = A Guerra É Um Grande Negócio


A GUERRA É UM GRANDE NEGÓCIO


Dalia González Delgado



A guerra é um negócio sujo. Sempre foi. Possivelmente o mais antigo. Sem dúvida, o mais rentável, porém o mais cruel. É o único com o raio de extensão internacional. É o único em que os benefícios são calculados em dólares e as perdas em vidas". Assim pensa o general Smedley D. Butler do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, o militar mais condecorado na história desse país.

Após o massacre, as empresas substituem os aviões de combate.

Quem ganha com a guerra? Porque é um grande negócio bombardear um país até deixá-lo em ruínas? Após o massacre, as empresas substituem os aviões de combate. Os mesmos países que bombardearam a Líbia, agora recebem contratos bilionários para a sua reconstrução.

"A Líbia é um país rico em reservas de petróleo. Espero que haja oportunidades para as empresas britânicas e de outros países na missão da sua reconstrução", confessou o Ministro da Defesa Britânica, Philip Hammond.

De acordo com o jornal Russia Today, a conta que o Reino Unido deve pagar por sua participação na intervenção da OTAN na Líbia foi estimada em quase US$ 500 milhões. Enquanto isso, de acordo com o Departamento de Comércio e Investimento, o valor dos contratos para a reconstrução da Líbia poderia chegar a mais de 300 bilhões nos próximos 10 anos.

 John Hilary, diretor executivo da War on Want, uma organização que combate a pobreza nos países em desenvolvimento, diz que a situação é semelhante à do Iraque após a guerra, quando as empresas dos países envolvidos na invasão foram contemplados com os melhores contratos . "Nós bombardeamos, destruímos e em seguida, obtemos contratos para a reconstrução", disse à Russia Today.

Como o Reino Unido, a França não iria ficar de fora. Foi a primeira potência ocidental a reconhecer o auto-proclamado Conselho Nacional de Transição (CNT) como o governo legítimo da Líbia e o primeiro a reabrir sua embaixada em Trípoli. Paris espera que a gratidão política se transforme em negócios. Esses passam por contratos lucrativos para a reconstrução do país, concessões nas atividades de petróleo e em novas oportunidades que surgem com a sua provável abertura econômica.

O jornalista australiano John Pilger disse que há evidências de negociações empreendidas antes da invasão da OTAN ao país árabe. "A Líbia é uma fonte com mais reservas de petróleo do que qualquer outro país da África, incluindo a Nigéria", disse ele. "O Conselho Nacional de Transição prometeu conceder 35% das reservas de petróleo da Líbia à companhia petrolífera francesa TOTAL (primeira empresa de gala do setor), caso a França enviasse os seus aviões de combate ao país invadido."

O analista mexicano Alfredo Jalife explicou à TELESUR como a OTAN ganha com a destruição e, em seguida, com a reconstrução da Líbia.

Considerou irrisória a soma de um bilhão e meio de dólares em ativos da Líbia liberados pelos Estados Unidos para os rebeldes do Conselho Nacional de Transição, porque na realidade a Líbia teria em reservas nos bancos internacionais mais de 100 bilhões de dólares.

É impressionante, disse o analista, a maneira como a OTAN e os Estados Unidos estão manipulando os ativos, "que estão sendo hipotecados, com grandes reservas em caixa de mais de 100 bilhões de dólares". Concluiu afirmando que são "migalhas os valores liberados para o Conselho Nacional de Transição.”

Seria ingênuo pensar que na Líbia "se destruiu por destruir", porque não podemos esquecer que também operam nessas intervenções forças transnacionais "para ganhar e obter dividendos suculentos."

O analista fez uma analogia entre o Iraque, Afeganistão e a Líbia, e observou que nenhuma das três nações "tem qualquer tipo de infraestrutura, tudo foi completamente destruído, mas isso faz parte do negócio, porque, então, eles já receberão vantajosos contratos de reconstrução e ignoram o dinheiro da grande riqueza do país devastado."

As guerras são uma bênção para os vencedores. Mas a que preço! Não é o homem um animal racional? Que razão pode haver em um conflito armado, onde também ceifará fortunas que não estão envolvidas na batalha? Basta por um homem para lutar contra outro, como no circo romano.

O general Butler escreveu o seguinte em seu livro War is a racket: "Pelo menos 21.000 novos milionários e bilionários foram criados nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial são os que admitiram os seus ganhos de sangue derramado nas suas declarações de imposto de renda. Ninguém sabe quantos milionários de riquezas amealhadas na guerra falsificaram a sua declaração de imposto de renda. Quantos desses milionários da guerra carregaram um rifle? Quantos deles cavaram uma trincheira? Quantos deles sabiam o que significa passar fome em um buraco infestado de ratos? Quantos deles passaram noites sem dormir, tremendo de medo, evitando granadas, estilhaços e balas de metralhadora? Quantos deles se esquivaram aos lances de baioneta de um inimigo? Quantos foram feridos ou mortos em batalha?"

 

Fonte: www.granma.cubaweb.cu 10.12.2011

 
KNUT EKWALL = Suécia, 1843-1912
KNUT EKWALL = Suécia, 1843-1912
KNUT EKWALL = Suécia, 1843-1912
KNUT EKWALL = Suécia, 1843-1912
KNUT EKWALL = Suécia, 1843-1912
KNUT EKWALL = Suécia, 1843-1912
 

POESIA = Zila Mamede


Z I L A   M A M E D E
NOVA PALMEIRA-PB  =  1928-1985

  

O Cavalo E Menino


Era o cavalo em pêlo
em pêlo era o menino, e os dois
- mais sua solidão, mais seu destino.

Ninguém sabe se o cavalo angustiava
a tarde,
se do menino era a angústia
que o cavalo tocava.

Os dois passavam sempre abstraídos
(na tarde que continham)
da campina de cinzas que os cercava.

Se de um, se de outro, súbito
chegava o grave canto,
já se sabia – era a tarde dos dois:
que a do menino,
contida numa estrela aparecia,
e a do cavalo,
sobre montões de feno se dobrava.





EÇA DE QUEIRÓS = O Crime do Padre Amaro


O Crime Do Padre Amaro



Eça de Queirós



A Igreja sempre foi alvo de críticas na literatura, umas veladas, outras ferrenhas. Num país como Portugal, marcado pela forte religiosidade, atacar a Igreja é mexer num vespeiro que causará as piores reações, foi assim com José Saramago no século passado e também com Eça de Queirós, no século XIX. A acidez e a ironia com que se refere a Igreja Católica, seus personagens, seus hábitos e seu poder surpreende mesmo num texto lido quase um século e meio depois de sua publicação. Claro que a Igreja em O Crime do Padre Amaro é apenas um bode expiatório já que a intenção do autor é desmascarar (também) uma Portugal inteira, denunciando seu atraso político, científico, filosófico, sua mentalidade arcaica e tradicional (parte disso devido à influência do catolicismo), a hipocrisia e a corrupção vigentes. Eça de Queirós fez uma literatura militante (não no sentido panfletário), tenaz no desejo de transformar a sociedade através de sua pena, de esmiuçar seus detalhes mais sórdidos.

Ao contar a história do envolvimento do Padre Amaro com Amélia apontou que os problemas estavam todos ali e ninguém queria ver. Amaro, um sujeito que sabe usar a sua insipidez e submissão para manipular as pessoas e conseguir o que quer, revolta-se com o celibato imposto para o seu cargo na Igreja e não esforça-se em preservá-lo, pois outros sacerdotes também não se preocupam com isto, aventurando-se com outras mulheres. Amélia, filha de uma beata viúva, herda o fervor religioso fanático materno e idealiza o amor que sente pelo padre, por este ser um representante da Igreja e estar “mais próximo de Deus”, deturpando os ensinamentos religiosos que recebera.

O crime cometido pelo padre neste romance marco do Realismo-Naturalismo lusitano condensa toda uma classe (o clero), uma cidade provinciana (Leiria), todo um país ultrapassado por outras nações (Portugal) e ultrapassa o Atlântico e outros oceanos fazendo ecos em qualquer local dominado pelo poder secular quase onipresente da Igreja Católica.

 


 

POESIA = Guerra de Holanda


GUERRA DE HOLANDA
SANTANA DO IPANEMA-AL  =  1918-1967

 
O Baterista Do Cabaré
 
 

Seu Alexandre, pastor protestante,
É pai de família exemplar
De dia, ensina o evangelho
De noite ele vive a tocar

 
E ele, toca de olhos fechados
Absorto nos mundos de Deus
E ele está tão longe da dança
Como as estrelas perdidas nos céus
 

Não fosse a família crescendo,
Seu Alexandre, o bom baterista,
Não ia ser músico daquele lugar

 
Ele tem um milhão de irmãos
Descrentes, transviados, pagãos
Que precisa salvar! E precisa salvar!

 
As mulheres de rostos cansados
Serpentes de lascivos coleios
Mostram os braços, os corpos, os seios...
Mas seu Alexandre de olhos fechados!

 
E ele nem ouve a música que sai
De suas mãos tão grandes, tão puras
 
Nem vê nos homens que bebem no gin,
No vinho, desengano, amarguras.
 

Seu Alexandre, pastor protestante,
É pai de família exemplar
De dia ele ensina o evangelho
De noite, ele vive a tocar.

CHARGES

 
 
 
 
 
 
 
 
 


VÍDEO


PIADAS


 

///
A situação estava brava e o marido virou para a mulher e disse:
- É mulher você vai ter que se virar para ajudar no orçamento de casa.
A mulher pegou a "bolsinha" e saiu para a batalha. Dois dias depois ela retorna e entrega ao marido 501 dólares. O marido satisfeito pergunta:
- Só uma curiosidade, quem pagou 1 dólar??
E ela responde:
- Todos...


///
   Um casal estava em viagem de férias no Rio de Janeiro, hospedado no Sheraton. Estavam no bar tomando um drink, e passa uma mulher exuberante, fantástica, sarada, turbinada. A esposa vira-se para o marido e diz:
- Que mulher linda! Será que é artista?
Ao que o marido responde:
- Que nada! Você não está vendo que é uma prostituta de luxo?
A esposa não se conforma e diz:
- Não é possível que uma mulher desse porte seja prostituta.
Então o marido fala:
- Você quer ver? Eu vou lá falar com ela, você fica de costas lá perto e escuta a conversa.
O marido se aproxima da garota no balcão e pergunta se pode lhe pagar um drink, e ela aceita. Inicia a conversa perguntando o que ela faz, ao que ela responde que é "modelo", mas está lá à disposição, se ele não tivesse nada para fazer ela faria o que ele quisesse. Ele pergunta então quanto seria o programa e ela diz que é 500 dólares. Ele pechincha e pergunta o que ela faria por R$ 100. Ela responde que por R$ 100 não faz nada, que R$ 100 é o que ela paga para o cabelereiro dela diariamente, pela maquiagem. Então o marido se despede e se retira.
No outro dia, o casal está descendo no elevador para o café da manhã, quando o elevador para em um andar mais baixo e a garota exuberante entra. Reconhece o cara, dá uma medida de cima a baixo na esposa dele, vira-se para ele e diz:
- Tá vendo só o que você consegue com R$ 100?!?




CRÔNICA = Clarice Lispector


CLARICE  LISPECTOR
UCRÂNIA, 1925  =  BRASIL, 1977






 

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.

Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou: - Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.

- Não acaba nunca, e pronto.

- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.

- Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.

- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

- Perder a eternidade? Nunca.

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

- Acabou-se o docinho. E agora?

- Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito. Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar. Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

POESIA = Gonçalves Dias


GONÇALVES DIAS
CAXIAS-MA  =  1823-1864
 
 
Minha Terra


Quanto é grato em terra estranha
Sob um céu menos querido,
Entre feições estrangeiras,
Ver um rosto conhecido;

Ouvir a pátria linguagem
Do berço balbuciada,
 Recordar sabidos casos
Saudosos - da terra amada!

E em tristes serões d'inverno,
Tendo a face contra o lar,
Lembrar o sol que já vimos,
E o nosso ameno luar!

Certo é grato; mais sentido
Se nos bate o coração,
Que para a pátria nos voa,
P'ra onde os nossos estão!

Depois de girar no mundo
Como barco em crespo mar,
Amiga praia nos chama
Lá no horizonte a brilhar.

E vendo os vales e os montes
E a pátria que Deus nos deu,
Possamos dizer contentes:
Tudo isto que vejo é meu!

Meu este sol que me aclara,
Minha esta brisa, estes céus:
Estas praias, bosques, fontes,
Eu os conheço - são meus!

Mais os amo quando volte,
Pois do que por fora vi,
A mais querer minha terra,
E minha gente aprendi.
 

Paris - 1864

CIDADES DO NORDESTE

CARUARU-PE
CARUARU-PE
CARUARU-PE
CATOLÉ DO ROCHA-PB
CAMPINA GRANDE-PB
CAMPINA GRANDE-PB
CAMPINA GRANDE-PB
CAMPINA GRANDE-PB
CAMPINA GRANDE-PB
AREIAS-PB
BANANEIRAS-PB
CAJAZEIRAS-PB
CAJAZEIRAS-PB
CAJAZEIRAS-PB
 
 


PIADA


Otimismo

Numa dinâmica de grupo para se trabalhar numa empresa multinacional, foi feita a seguinte pergunta para três candidatos: O que você gostaria que falassem de você no seu velório? O 1º candidato disse:- Que eu fui um grande médico e um ótimo pai de família. O 2º candidato disse:- Que eu fui um homem maravilhoso, excelente pai de família, e um professor de grande influência no futuro das crianças. Aí, o 3º arrasou:- Gostaria que eles dissessem: "Olha, ele está se mexendo..." Isto é Otimismo...Foi contratado !

FRASES


Frases

 
"Temer  o  amor  é  temer  a  vida,  e  aqueles  que
temem a vida já estão praticamente mortos."  
Bertrand Russell

"Não há nada mais belo do que ser tão querido da tua
mulher, que te tornas querido de ti mesmo."
Seneca

"E ninguém é eu, e ninguém é você. Esta é a solidão."
Clarice Lispector

"A mulher é um efeito deslumbrante da natureza."
Arthur Schopenhaeur

"Mulheres e elefantes nunca esquecem."
Honoré de Balzac

"Em última análise, precisamos amar para não adoecer."
Sigmund Freud

"Tudo no mundo é duplo: visível e invisível. O visível,
de resto, interessa sempre muito menos."
Cecília Meireles

"As pessoas são diferentes, agem diferente e pensam
diferente. Prefira tentar compreender à julgar!"
Florestan Fernandes

"A vida fica muito mais fácil se a gente sabe onde
estão os beijos de que precisamos"
Mário Quintana

"O insucesso é apenas uma oportunidade para
recomeçar de novo com mais inteligência."
Henry Ford

"O descontentamento é o primeiro passo na evolução
de um homem ou de uma nação."
Oscar Wilde

CONTO = Artur Azevedo


ARTUR DE AZEVEDO
SÃO LUÍS-MA  =  1855-1908

História De Um Dominó


Perdoem-me os leitores se eu, de ordinário alegre, venho contar-lhes uma história triste, num dia em que todos estão predispostos ao riso; mas. . . que querem? Tenho uma natureza especial: o carnaval entristece-me, e o "Abre alas, que quero passar" soa aos meus ouvidos como um canto de agonia e de morte.
* * *
Dado esse pequeno cavaco, saibam os leitores que conheço um homem, o Abreu, que é o mais triste dos homens: só se compraz na solidão e no silêncio, não tem amigos, vive só, e nunca ninguém o viu rir, nem mesmo sorrir.
Entretanto, esse casmurro, em chegando o carnaval, veste um dominó e sai à rua mascarado. Isto são favas contadas todos os anos.
O ano passado um vizinho teve a curiosidade e a pachorra de mascarar-se também para acompanhá-lo a certa distância, e observar o que ele fazia.
Era domingo gordo; toda a população estava na rua. O Abreu apeou-se do bonde, o mesmo bonde em que vinha o curioso que o acompanhava, um bonde do Catumbi, o bairro onde moravam ambos, e desceu com muita dificuldade a Rua do Ouvidor. Chegando em frente à casa de um alfaiate, em cuja porta estavam sentadas algumas donas e donzelas à espera das sociedades, parou, encostando-se na parede da casa fronteira, e ali se deixou ficar, pegando no grupo das senhoras os olhos, que faiscavam através dos dois buracos da máscara de seda.
O Abreu demorou-se ali seguramente meia hora, e o vizinho, farto de esperar, resolveu abandoná-lo, dizendo consigo: - Ora! é um esquisito!... Deixemo-lo!...
Deixou-o efetivamente, mas uma hora depois voltou, e ainda lá encontrou o Abreu no mesmo ponto e na mesma posição em que o havia deixado. Examinou então com mais cuidado o grupo das senhoras, e reconheceu, surpreso, que uma delas era a mulher do Abreu.
* * *
Sim, que o Abreu tinha sido casado com uma bonita mulher que um dia o abandonou para amancebar-se com um sujeito que ele supunha seu amigo, e ao qual abrira confiadamente as portas de sua casa. O amante lá estava por trás do grupo também à espera das sociedades. Toda a gente os supõe casados.
Desde que lhe sucedeu essa desgraça, o Abreu tornou-se triste, e sua tristeza durou e dura ainda, porque ele amava profundamente aquela ingrata. Amava-a tanto, que neste mundo só uma coisa lhe proporcionava um simulacro de prazer: vê-la de perto.
Entretanto os leitores compreendem que o Abreu não poderia procurar a miúdo tão singular espécie de consolação, e nos raros encontros fortuitos que tinha com ela, não a encarava de modo a satisfazer aquele apetite mórbido.
Mas uma vez, há cinco anos, disseram-lhe que sua mulher tinha assistido ao carnaval sentada à porta do alfaiate e, no ano seguinte, o Abreu, metido num dominó alugado, foi verificar se ela escolhera o mesmo ponto. Encontrou-a, e durante muitas horas conseguiu vê-la de perto e à vontade.
Daí por diante o infeliz marido não perdeu um carnaval, e é muito provável que amanhã lá esteja a postos em frente à casa do alfaiate. Os leitores, com alguma pachorra, poderão certificar-se de que este conto não é inventado.

POESIA = Alexandre O'Neill


ALEXANDRE O’NEILL
PORTUGAL  =  1924-1986


Amigo



Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande
tarefa,
Um
trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!


© ALEXANDRE O′NEILL
In No Reino da Dinamarca

GRANDES PINTORES

CHICO DA SILVA = Cruzeiro do Sul-AC, 1910-1985
CHICO DA SILVA = Cruzeiro do Sul-AC, 1910-1985
CHICO DA SILVA = Cruzeiro do Sul-AC, 1910-1985
CHICO DA SILVA = Cruzeiro do Sul-AC, 1910-1985
CHICO DA SILVA = Cruzeiro do Sul-AC, 1910-1985
CHICO DA SILVA = Cruzeiro do Sul-AC, 1910-1985