sexta-feira, 9 de novembro de 2012

POESIA = Ascenso Ferreira


ASCENSO FERREIRA

PALMARES-PE  =  1895 / 1965

 



“ Adeus! Eu Voltarei...”

 

 

 

 

“Adeus! Eu voltarei ao sol da Primavera!”

E a tua boca em flor à minha boca unindo

Murmuraste baixinho: “O amor que em nós impera

Nos permite encarar esta ausência sorrindo...”

  

“Adeus. Eu voltarei logo que seja findo

O Inverno... Ficará meu coração! Espera...”

E estendendo-me a mão formosa em gesto Lindo:

“Adeus! Eu voltarei ao sol da Primavera!”

  

Três vezes pelo azul as andorinhas voaram!

Três vezes do arvoredo as folha renovaram

Como nos corações se renova a quimera...

  

E, embora não cumprida a jura que fizeste,

Inda escuto no ouvido a frase que disseste:

“Adeus! Eu voltarei ao sol da Primavera!”

 

PIADA = Abusando Da Mulher


 
Um casal estava na cama conversando, quando a mulher diz bocejando para o marido:

- Vou dormir... Boa noite!

- Já vai dormir? Logo agora que eu ia abusar de você! - comenta o marido.
- Então abusa vai, abusa! - sussurra ela entusiasmada.

E ele:

- Vai lá na cozinha e pega uma cervejinha e algumas azeitonas pra mim!

 

VÍDEO = Beethoven


CONTO = Artur Azevedo


ARTUR DE AZEVEDO
SÃO LUÍS-MA  =  1855 – 1908
 

 Dona Eulália

  

Quando cheguei, a casa mortuária estava cheia de gente. 

No centro da sala, forrada de preto, havia uma essa entre quatro enormes tochas acesas, e sobre a essa um caixão, dentro do qual D. Eulália dormia o último sono. 

Já tinha passado a hora do saimento. 

Faltava apenas o padre. 

O padre não aparecia. 

O viúvo, comovido, mas calmo, perfeitamente calmo, perguntou a um parente, que pelos modos tinha se encarregado do enterro: 

- Então?.. . esse padre?.. 

- Já cá devia estar. O Tio Eusébio quer que eu vá buscá-lo? 

- É favor, Casuza. 

E o parente saiu muito apressado. 

Dez minutos depois, o Ensébio aproximou-se de mim e disse-me baixinho: 

- E nada de padre! Estava escrito que este dia não passava para mim sem alguma contrariedade!...

***

Justifiquemos esse grito do coração. 

O Eusébio não foi um marido feliz. D. Eulália, que tinha muito mau gênio, transformara-lhe a vida num verdadeiro inferno. 

O pobre homem não tinha voz ativa dentro de casa; era repreendido como um fâmulo quando entrava mais tarde; devia dar contas de um níquel, de um miserável níquel que lhe desaparecesse do bolso! 

Apesar de casado havia já quinze anos, ele não se pudera habituar a essa existência ridícula, e sentia-se envelhecer prematuramente na alma e no corpo. 

Não tinha filhos, - e era melhor assim, porque com certeza, D. Eulália não lhos perdoaria. Pensava bem: pudesse ela contrariar a natureza, e fecundá-lo-ia, para humilhá-lo ainda mais!

***

 Durante os primeiros tempos de regime conjugal, o Eusébio tentou reagir contra o mau gênio de D. Eulália; num dia, porém, que lhe falou mais alto e lhe bateu o pé, recebeu em troca uma tremenda bofetada, cujo estalo ressoou em todo o quarteirão. Durante quinze dias a vizinhança não se ocupou de outra coisa. 

O marido que apanha da cara metade está perdido; o que apanha e chora, está irremissivelmente perdido. O Eusébio apanhou e chorou... 

Daquele dia em diante foi-se-lhe toda a autoridade marital: tornou-se em casa um manequim, um pax vobis, um joão-ninguém. 

Era, entretanto, um homem simpático, virtuoso, apreciadíssimo por numerosos amigos e muito conceituado na repartição de onde tirava o necessário para que nada faltasse a D. Eulália.

 ***

De todas as maçadas a que estava afeito o nosso Eusébio, nenhuma o ralava tanto como a de procurar cozinheira, o que lhe acontecia a miúdo, porque, graças ao mau gênio da dona da casa, a cozinha estava constantemente abandonada. 

Como as impertinências de D. Eulália já tinham fama no bairro, e nenhuma criada queria servir aquela ama, o Eusébio era obrigado a procurar cozinheira muito longe de casa. 

O que ele queria era alugá-la, mas bem sabia que, na venda, a recém-chegada seria logo posta ao corrente de tais impertinências.

 

*** 

Um dia o pobre marido foi muito cedo arrancado da cama pela mulher. 

- Levante-se, tome banho, vista-se e vá procurar uma cozinheira! 

- Quê!... pois a Maria...? 

- Acabo de pô-la no olho da rua! 

- Por quê? 

- Não é da sua conta! Mexa-se!... 

- Uma cozinheira que não estava em casa há oito dias!... 

- Basta de observações! Quem manda aqui sou eu! Vamos! Vista-se! E nada de agências, hein? Olhe que se me traz cozinheira de agência, não passa da porta da rua! 

*** 

Nesse dia o Eusébio teria purgado todos os seus pecados, se os tivera, e se D. Eulália não fosse já um purgatório bastante. 

O pobre-diabo, que morava no Rio Comprido, foi, levado por informações, procurar uma cozinheira em São Francisco Xavier. Já estava alugada; entretanto, lá lhe disseram que no Morro do Pinto havia outra, muito boa, que lhe devia servir. 

O desgraçado almoçou numa casa de pasto, encheu-se de coragem e subiu o Morro do Pinto. 

A cozinheira não estava em casa; tinha ido passar uns dias com uma parenta, na Rua de Sorocaba, em Botafogo; mas um vizinho aconselhou o Eusébio a que não adiasse a diligência; a mulher trabalhava primorosamente em forno e fogão, era morigerada e estava morta por achar emprego. 

Abalou o Eusébio para Botafogo, e encontrou, efetivamente, a mulher na Rua de Sorocaba, em casa da parenta, pronta já para sair. Por pouco mais, a viagem teria sido baldada. 

Era uma mulata quarentona, muito limpa, de um aspecto simpático e humilde, que à primeira vista inspirava certa confiança. 

Ela, pelo seu lado, simpatizou com o Eusébio, a julgar pela prontidão com que se ajustaram. 

- Bem, amanhã lá estarei, meu patrão. 

- Amanhã, não: há de ser hoje, porque se entro em casa sem cozinheira, minha mulher... 

O Eusébio interrompeu-se - ia deitando tudo a perder, e emendou: - ... minha mulher, que é muito boa senhora, mas nem sempre acredita no que eu digo, há de supor que me remanchei. 

- Nesse caso, meu patrão, é preciso que eu vá primeiramente ao Morro do Pinto. 

- Pois vamos ao Morro do Pinto... - respondeu resignado o resignado Eusébio. 

*** 

Era quase noite fechada, quando o infeliz marido, fatigadíssimo, doente, sem jantar, entrou em casa acompanhado da mulata. 

D. Eulália recebeu-o com duas pedras na mão: 

- Onde esteve o senhor metido até estas horas? Oh! que coisa ruim... que homem insuportável... Só a minha paciência!... 

- A senhora não calcula como me custou encontrar esta mulher, mas, enfim... parece que desta vez ficamos bem servidos. 

- Pois sim - resmungou D. Eulália, - vão ver que é alguma vagabunda! 

E, voltando-se para a mulata, disse-lhe com a sua habitual arrogância: 

- Chegue-se mais! Não gosto de gritar e quero que me ouçam! 

A cozinheira aproximou-se com um sorriso humilde de subalterna. 

- Como se chama? - perguntou D. Eulália.  

- Eulália. 

- Eulália?! 

- Eulália, sim, senhora! 

- Eulália?! Rua! Rua! 

E voltando-se para o marido: 

- Pois o senhor tem a pouca vergonha de trazer para casa uma cozinheira com o mesmo nome que eu? Que desaforo!... 

- Mas, senhora. 

- Cale-se! Não seja burro! 

*** 

Creio que o Eusébio está justificado: como você vê, a morte de D. Eulália não poderia contrariá-lo.

 

("Contos Fora da Moda")

 

 

POESIA = Affonso Romano de Sant'Anna



BELO HORIZONTE-MG  =  1937
 
 
De Que Riem Os Poderosos?


De que riem os poderosos?
tão gordos e melosos?
tão cientes e ociosos?
tão eternos e onerosos?

Por que riem atrozes
como olímpicos algozes,
enfiando em nossos tímpanos
seus alaridos e vozes?

De que ri o sinistro ministro
com sua melosa angústia
e gordurosa fala?
Por que tão eufemístico
exibe um riso político
com seus números e levíticos,
com recursos estatísticos
fingindo gerar o gênesis,
mas criando o apocalipse?

Riem místicos? ou terrenos
riem, com seus mistérios gozosos,
esses que fraudulentos
se assentam flatulentos
em seus misteres gasosos?
Riem sem dó? em dó maior?
ou operísticos gargalham
aos gritos como gralhas
até ter do no peito,

até dar nó nas tripas
em desrespeito?
Ah, como esse riso de ogre
empesteia de enxofre
o desdejum do pobre.

Riem à tripa forra?
riem só com a boca?
riem sobre a magreza dos súditos
famintos de realeza?
riem na entrada
e riem mais
- na sobremesa?

Mas se tanto riem juntos
por que choram a sós,
convertendo o eu dos outros
num cordão de trinta nós?


 

 

CAPITAIS DO NORDESTE

FORTALEZA-CE
FORTALEZA-CE
FORTALEZA-CE
FORTALEZA-CE
FORTALEZA-CE
ARACAJU-SE
ARACAJU-SE
ARACAJU-SE
ARACAJU-SE
ARACAJU-SE
 
 
 


GRANDES PINTORES

ADRIANO BONIFAZI = Itália, 1858-1914
ADRIANO BONIFAZI = Itália, 1858-1914
ADRIANO BONIFAZI = Itália, 1858-1914
ADRIANO BONIFAZI = Itália, 1858-1914
ADRIANO BONIFAZI = Itália, 1858-1914 
 
 
 


POESIA = Manuel Bandeira


MANUEL BANDEIRA
RECIFE-PE  =  1886-1968

 
A Meu Pai Doente 

 

Para onde fores, Pai, para onde fores,

Irei também, trilhando as mesmas ruas.

Tu, para amenizar as dores tuas, Eu, para amenizar as minhas dores!

Que cousa triste! O campo tão sem flores,

E eu tão sem crença e as árvores tão nuas

E tu, gemendo, e o horror de nossas duas

Mágoas crescendo e se fazendo horrores!

Magoaram-te, meu Pai?!

Que mão sombria,

Indiferente aos mil tormentos teus

De assim magoar-te sem pesar havia?!

— Seria a mão de Deus?!

Mas Deus enfim, é bom, é justo, e sendo justo, Deus,

Deus não havia de magoar-te assim!

 

 

CRÔNICA = Mário Prata


MÁRIO  PRATA
UBERABA-MG  =  1946

 
OS CONTADORES DE PIADA

 

Você já percebeu que dá para você sacar uma pessoa só pelo jeito que ela conta uma piada? Pelo jeito e pelo nível da piada? Às vezes, a gente acabou de conhecer uma pessoa e ela conta uma piada. Aquilo pode ser definitivo nas nossas relações futuras. Eu estava começando a gostar dela, mas a piada... Impossível qualquer intimidade.
Sim, minha amiga, contar piada exige profundas técnicas. Poucos têm o dom. Poucos percebem o tom certo. O momento exato, o local adequado para a piada. O bom contador de piadas é um artista. Fico fã, fascinado.
Existem vários tipos de contadores de piadas, além dos políticos em geral e dos governantes em particular.
Tem aquele que esquece a piada. Está já no meio, a gente, ali, interessado, dá um branco no cara, fica todo mundo olhando para ele: esqueci o fim... Pode?
E o desastrado que, ao te perguntar se conhece tal piada, conta o fim? E tem uns que, além disso, não percebem e contam a piada assim mesmo, até o já narrado final.
Chato mesmo é aquele que vai contar a piada e ri antes. Mas ri para valer. Em volta dele a rodinha olhando, esperando. Esse mesmo sujeito, que ri dele mesmo, é bem provável que, depois de conter o riso, venha a rir novamente algumas vezes durante a narrativa.
É mesmo desagradável quando o sujeito começa a contar uma que você conhece e você tem certeza que contada por você seria muito melhor. Nesses casos, quase sempre, quem conta a piada conhecida estica, estica...
E aquele contador compulsivo que, quando um acaba a piada ele não deixa ninguém rir gostoso porque logo manda a sua? É como se ele nem tivesse ouvido a anterior. Ficou ali, naquela agonia, esperando o outro acabar. E você pode ter certeza que a piada do primeiro era muito melhor e a gente teve que engolir o riso.
Eu não sei o porquê, mas tem pessoas que só contam piada velha. Já percebeu? Mas velha mesmo. Coisa do meu tempo de ginásio.
Ah, os especialistas. Tem especialistas só em piadas de judeus. Em sua maioria são judeus mesmo. A turma das piadas de português. Se levam a sério e os personagens, até hoje, se chamam Joaquim, Manuel e Maria. Mau gosto daquela turma que só conta piadas racistas. O pior é que, geralmente, são muito boas.
Me diz: existe coisa pior do que um prolixo contando piada? Meu Deus, aquilo não acaba nunca. Tem gente que faz até rodapé nas piadas. Rodapé é o fim!
E os pudicos que tiram os palavrões quando há senhoras presentes? Até que uma das presentes conte uma piada das mais cabeludas. Um parêntese: por que será que a piada forte se chama cabeluda? Será que tem algo a ver com os pubianos?
Tem aquelas mulheres que pedem para o marido contar aquela que o Freitas contou outro dia lá no jantar da casa da Dolores, lembra benhê? Aliás, nunca descobri por que pedem para o maridão contar, pois, quase sempre, o maridão conta muito mal.
Nada mais pretensioso do que aquele que conta e, ao acabar, pergunta: entendeu? Não dá vontade de dar uma porrada no cidadão? E a piada era simplérrima.
Não resisto e vou contar uma:
O sujeito foi ao médico amigo dele, com o saco inchado. O médico disse que era uma inflamação no testículo esquerdo, que não era nada grave etc., mas que ele procurasse um especialista. E deu o cartão de um colega urologista. Mas, na hora, errou o cartão e deu um de um advogado.
O cara marcou hora e estava lá diante do advogado, achando que era médico:
– Em que posso ajudar?
O nosso amigo abaixou as calças e mostrou.
– Como o senhor está vendo, doutor, estou com uma inflamação no testículo esquerdo.
O advogado ficou olhando a cena sem entender absolutamente nada. Pensou, pensou e disse:
– Meu amigo, a minha especialidade é o Direito.
E o sujeito:
– Vai ser especialista assim lá na puta que o pariu!!!
Mas a piada da semana fica com os 18 deputados federais que votaram a favor do Naya. São contra a cassação e a caçação. O voto, é uma piada, foi secreto.

 

PENSAMENTOS


PENSAMENTOS

 

  

Os homens não sabem dar valor às suas próprias

mulheres. Isso deixam para outros.
(OSCAR WILDE)
 
A ideia que não envolve perigo não chega a ser ideia.
(OSCAR WILDE)

 
Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não
há ninguém que explique e ninguém que não entenda.
(CECÍLIA MEIRELES)

 
Quando nada tens a dizer, não digas nada.
(CHARLES DARWIN)

 
Chega sempre a hora em que não basta apenas protestar: após
a filosofia, a ação é indispensável.
(VICTOR HUGO)

 
Nenhum homem é suficientemente rico para comprar o seu passado.
(OSCAR WILDE)

 
Nada é bom ou mau se não for por comparação.
(THOMAS JEFFERSON)

 

VÍDEOS = Trio Los Panchos

TRIO LOS PANCHOS

PRAIAS DO NORDESTE

Barra de São Miguel-AL
Barra de São Miguel-AL
Barra de São Miguel-AL
Praia de Paripuera-AL
Praia do Gunga-AL
Praia do Gunga-AL


PIADA = O Padre Novo ...

 

O padre, novo na cidade, precisava enviar algumas cartas e estava perdido.
Ele vê duas crianças jogando bolinha de gude e resolve perguntar:
- Crianças, algum de vocês sabe qual é o caminho do correio?
Depois que uma das crianças explica o caminho, o padre fala:
- Muito obrigado! Mas, não fiquem aqui na rua. Vocês devem ir para a igreja, aonde eu vou ensinar pra vocês o caminho de Deus...
Um dos moleques então responde:
- Deixa disso, padre! O senhor não sabe nem o caminho do correio e vai saber o caminho de Deus?

CRÔNICA = Carlos Drummond De Andrade


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
ITABIRA-MG  =  1902-1987


Antigamente

 

 Antigamente, as moças chamavam-se mademoiselles e eram todas mimosas e muito prendadas. Não faziam anos: completavam primaveras, em geral dezoito. Os janotas, mesmo não sendo rapagões, faziam-lhe pé-de-alferes, arrastando a asa, mas ficavam longos meses debaixo do balaio. E se levavam tábua, o remédio era tirar o cavalo da chuva e ir pregar em outra freguesia. As pessoas, quando corriam, antigamente, era para tirar o pai da forca, e sabiam com quantos paus se faz uma canoa. O que não impedia que, nesse entrementes, esse ou aquele embarcasse em canoa furada. Encontravam alguém que lhes passava manta e azulava, dando às de Vila-Diogo. Os mais idosos, depois da janta, faziam o quilo, saindo para tomar a fresca; e também tomavam cautela de não apanhar sereno. Os mais jovens, esses iam ao animatógrafo, e mais tarde ao cinematógrafo, chupando balas de altéia. Ou sonhavam em andar de aeroplano; os quais, de pouco siso, se metiam em camisa de onze varas, e até em calças pardas; não admira que dessem com os burros n'água.

Havia os que tomaram chá em criança, e, ao visitarem família da maior consideração, sabiam cuspir dentro da escarradeira. Se mandavam seus respeitos a alguém, o portador garantia-lhes: "Farei presente." Outros, ao cruzarem com um sacerdote, tiravam o chapéu, exclamando: "Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo"; ao que o Reverendíssimo correspondia: "Para sempre seja louvado." E os eruditos, se alguém espirrava - sinal de defluxo -, eram impelidos a exortar: "Dominus tecum." Embora sem saber da missa a metade, os presunçosos queriam ensinar padre-nosso ao vigário, e com isso punham a mão em cumbuca. Era natural que com eles se perdesse a tramontana. A pessoa cheia de melindres ficava sentida com a desfeita que lhe faziam, quando, por exemplo, insinuavam que seu filho era artioso. Verdade seja que às vezes os meninos eram mesmo encapetados; chegavam a pitar escondido, atrás da igreja. As meninas, não: verdadeiros cromos, umas tetéias.

Antigamente, certos tipos faziam negócios e ficavam a ver navios; outros eram pegados com a boca na botija, contavam tudo tintim por tintim e iam comer o pão que o diabo amassou, lá onde Judas perdeu as botas. Uns raros amarravam cachorro com linguinça. E alguns ouviam cantar o galo, mas não sabiam onde. As familias faziam sortimento na venda, tinham conta no carniceiro e arrematavam qualquer quitanda que passasse à porta, desde que o moleque do tabuleiro, quase sempre um "cabrito", não tivesse catinga. Acolhiam com satisfação a visita do cometa, que, andando por ceca e meca, trazia novidades de baixo, ou seja, da Corte do Rio de Janeiro. Ele vinha dar dois dedos de prosa e deixar de presente ao dono da casa um canivete roscofe. As donzelas punham carmim e chegavam à sacada para vê-lo apear do macho faceiro. Infelizmente, alguns eram mais do que velhacos: eram grandessíssimos tratantes.

Acontecia o individuo apanhar constipação; ficando perrengue, mandava o próprio chamar o doutor e, depois, ir à botica para aviar a receita, de cápsulas ou pílulas fedorentas. Doença nefasta era phtysica, feia era o gálico. Antigamente, os sobrados tinham assombrações, os meninos lombrigas, asthma os gatos, os homens portavam ceroulas, botinas e capa-de-goma, a casimira tinha de ser superior e mesmo X.P.T.O. London, não havia fotógrafos, mas retratistas, e os cristãos não morriam: descansavam.

Mas tudo isso era antigamente, isto é, outrora.

II

Antigamente, os pirralhos dobravam a língua diante dos pais, e se um se esquecia de arear os dentes de cair nos braços de Morfeu, era capaz de entrar no couro. Não devia também se esquecer de lavar os pés, sem tugir nem mugir. Nada de haver na cacunda do padrinho, nem de debicar os mais velhos, pois levava tunda. Ainda cedinho, aguava as plantas, ia ao corte e logo voltava aos penates. Não ficava mangando na rua nem escapulia do mestre, mesmo que não entendesse patavina para comparecer todo liró ao copo d'água, se bem que no convescote apenas lambiscasse, para evitar flatos. Os bilontras é que eram um precipício, jogando com pau de dois bicos, pelo que carecia muita cautela e caldo de galinha. O melhor era pôr as barbas de molho diante de um treteiro de topete; depois de fintar e emgabelar os coiós, e antes que se pusesse tudo em pratos limpos, ele abria o arco. O diacho eram os filhos da Candinha: quem somava a candongas acabava na rua da amargura, lá encontrando, encafifada, muita gente na embira, que não tinha nem para matar o bicho; por exemplo, o mão-de-defunto.

Bom era ter costas quentes, dar as cartas com a faca e o queijo na mão; melhor ainda, ter uma caixinha de pós de perlimpimpim, pois isso evitava de levar a lata, ficar na pindaíba ou espichar a canela antes que Deus fosse servido. Qualquer um acabava enjerizado se lhe chegavam a urtiga ao nariz, ou se faziam de gato-sapato. Mas que regalo, receber de graça, no dia-de-reis, um capado! Ganhar vidro de cheiro marca barbante, isso não: a mocinha dava o cavaco. Às vezes, sem tirte nem guarte, aparecia um doutor pomada, todo cheio de nove horas; ia-se ver, debaixo de tanta farofa era um doutor de mula ruça, um pé-rapado, que espiga! E a moçoila, que começava a nutrir xodó por ele, que estava mesmo de rabicho, caía das nuvens. Quem queria lá fazer papel pança? Daí se perder as estribeiras por uma tutaméia, um alcaide que o caixeiro nos impingia, dando de pinga um cascão de goiabada.

Em compensação, viver não era sangria desatada, e até o Chico vir de baixo vosmecê podia provar uma abrideira que era o suco, ficando na chuva mesmo com bom tempo. Não sendo pexote, e soltando arame, que vida supimpa a do degas! Macacos me mordam se estou pregando peta. E os tipos que havia: o pau-para-toda-obra, o vira-casaca (este cuspia no prato em que comera), o testa-de-ferro, o sabe-com-quem-está-falando, o sangue-de-batata, o Dr. Fiado que morreu ontem, o zé-povinho, o biltre, o peralvilho, o salta-pocinhas, os alferes, a polaca, o passador de nota falsa, o mequetrefe, o safardana, o maria-vai-com-as-outras... Depois de mil peripécias, assim ou assado, todo mundo acabava mesmo batendo com o rabo na cerca, ou simplesmente a bota, sem saber como descalçá-la.

Mas até aí morreu o Neves, e não foi no Dia de São Nunca de tarde: foi vitima de pertinaz enfermidade que zombou de todos os recursos da ciência, e acreditam que a familia nem sequer botou fumo no chapéu?

 

POESIA = Barão de Itararé


BARÃO DE ITARARÉ (*)

 

Desespero

 
 
 

 
   Minha amada — uma pérola sem jaça —
já declarou, perante o mundo inteiro,
que se casará (ai! que desgraça!)
com um homem de juízo e de dinheiro.


   O que será de mim? Por mais que faça
o fado ingrato quer me ver solteiro.
Sinto fugir-me o sonho alviçareiro
de me casar e perpetuar a raça.

   Juízo? — Bem sei não tenho, que estou louco,
pela ingrata, que me enche de feitiço,
com o estranho fulgor dos olhos místicos.


Dinheiro? — Trinta contos ... É bem pouco ...
Não chegam para nada ... e além disso
os meus contos são contos ... humorísticos ...




 
(*) APARICIO TORELLY = Gaúcho de São Leopoldo  =  1895 / 1971