sexta-feira, 12 de outubro de 2012

POESIA = Zila Mamede

ZILA MAMEDE
NOVA PALMEIRA-PB = 1928 – 1985


Rio Capibaribe





Nos mistérios do rio me perdi,
Na amargura do rio me encontrei.
Na sombra que beijava a flor do rio
Senti minha saudade anoitecer.

O rio fez-se ventre onde nasci:
Sua água tem o pranto que chorei!
Quando o vento, pousando o leito, frio,
Quis da espuma meu sangue recolher.

Sou pontes, sou granito, sou letreiros,
Sou mangues, sou barcaças, sou cantiga
Desenhando petróleos na torrente.

Sou rio que compõe os seus barqueiros
Dos soluços da margem que, ora, antiga,
Gera flores e lama, indiferente.

CRÔNICA = Mário Sette

MÁRIO SETTE
RECIFE-PE = 1886-1950

A Ceia



Em menos de meio século os costumes domésticos mudaram até nas horas de refeições.

Almoçava-se, em regra, entre às 8 e as 9 horas; jantava-se das 3 às 5 da tarde e antes de ir dormir ceava-se às 8 ou às 9 da noite. Isto, nas duas primeiras décadas da centúria em curso.

Porque, do que se conhece de anteriormente tem-se um horário menos avançado: o jantar, por exemplo, serviam-no pouco depois de meio dia e a ceia, de garfo, com frigideiras, caranguejos e pirão, talvez até feijoada, era às ave-marias. O almoço seria logo ao sair da cama. Simples questão de trocar os nomes dos repastos.

A ceia, em nosso tempo, constituía-se de chá, pão ou bolachas, e, às vezes, uma macaxeira ou uma tapioca. Preponderava o chá e o pão. Ninguém iria para a cama sem encher o estômago com eles. Teria sonhos maus e pesadelos. O almoço era mais frugal do que o jantar, ao contrário de hoje. Naquele, havia, no fim, também chá com pão. No jantar, tinha-se como prato obrigatório o cozido com verduras ao invés do feijão, atualmente habitual do almoço, à moda carioca. Já íamos perdendo nossas características para adotar as estranhas, mesmo em comidas. A sopa, preferiam-na uns ao almoço e outros ao jantar: sem esquecer os que não a dispensavam em ambos. Não rareavam os que a saboreavam no fim da refeição, já fria.

Mas, a ceia, hoje abolida, revestia-se de um caráter muito solene porque reunisse a família toda antes da benção dos mais velhos para o repouso da noite. Ai dos filhos que faltassem a essa reunião!... O "velho" franzia as sobrancelhas, a mamãe rezava, as manas ficavam assustadas com o que se iria passar... O vadio!, peralta!, perdido! já saíam da boca do chefe da grei, enquanto a esposa amenizava essas expressões com uns "talvez perdesse o trem" ou "Demorou-se em casa de Sinhá"... Afinal, rompia pela porta a dentro, desconfiado e tímido, o retardatário. Desculpava-se... Fora uma negaça do relógio a se atrasar... Ou a maxambomba passando além da hora... O pai não aceitava muito a explicação, mas por esta vez... Se tal se repetisse, ficaria sem ceia e durante um mês "não me bota os pés na rua, à noite!" Um mês sem quebrar as calçadas da Rua da Conceição... Precisava não facilitar mais... Que diria "ela"?

A esses moços de prazo certo para voltar aos lares chamavam de "cabeças-secas" em alusão aos escravos que outrora só ficavam na rua depois das 9 horas com "bilhete do seu senhor". Senão, cadeia e bolos.... Os tempos da ceia eram duros para a mocidade, mas... todos tomavam chá e sabiam os seus efeitos no comportamento externo. E, se havia, uns poucos, avessos ao chá... As crônicas do tempo que contém dos corretivos alheios.

A ceia constituía-se não menos de uma meia hora ou mais de boa palestra íntima. Por vezes, as visitas de parentes participavam da refeição:- Fiquem para a ceia.

Ficavam. Fazia-se uma espécie de balanço do dia. Cada um comentava o que lhe acontecera no trato comum de negócios ou da família. Soubera-se de uma novidade na vizinhança; um noivado rompido; uma doença de comadre; uma companhia para o teatro; uma "partida" em casa de amiga; um projeto de passar a Festa fora... E ia-se assim tesourando ou combinando, enquanto se servia o Lipton preto ou verde, as bolachinhas Polaca, quando não fosse aquele pão de dois tostões que dava para todos os da casa...

Não faltava ninguém. Trancava-se a porta da rua com seus grossos ferrolhos. Iam-se apagando os bicos de gás. O quarto do oratório congregava ainda os que iam rezar. E, por fim: - A bênção, minha mãe!

- Deus te faça feliz.

Terminada a ceia: dormir. O relógio de pêndulo dava vagaroso 10 horas.

Xi! Com a conversa, hoje, vamos dormir quase de madrugada!...





(SETTE, Mauro. Maxambombas e maracatus)

CIDADES DO NORDESTE

BEZERROS-PE
BEZERROS-PE
BEZERROS-PE

STANISLAW PONTE PRETA
SÉRGIO PORTO (RIO DE JANEIRO-RJ = 1923/1968)



Latricério




Tinha um linguajar difícil, o Latricério. Já de nome era ruinzinho, que Latricério não é lá nomenclatura muito desejada. E era aí que começavam os seus erros.

Foi porteiro lá do prédio durante muito tempo. Era prestativo e bom sujeito, mas sempre com o grave defeito de pensar que sabia e entendia de tudo. Aliás, acabou despedido por isso mesmo. Um dia enguiçou a descarga do vaso sanitário de um apartamento e ele achou que sabia endireitar. O síndico do prédio já ia chamar um bombeiro, quando Latricério apareceu dizendo que deixassem por sua conta. Dizem que o dono do banheiro protestou, na lembrança talvez de outros malfadados consertos feitos pelo serviçal porteiro. Mas o síndico acalmou-o com esta desculpa excelente:

- Deixe ele consertar, afinal são quase xarás e lá se entendem.

Dono da permissão, o nosso amigo - até hoje ninguém sabe explicar por quê - fez um rápido exame no aparelho em pane e desceu aos fundos do edifício, avisando antes que o defeito era "nos cano de orige".

Lá embaixo, começou a mexer na caixa do gás e, às tantas, quase provoca uma tremenda explosão. Passado o susto e a certeza de mais esse desserviço, a paciência do síndico atingiu o seu limite máximo e o porteiro foi despedido.

Latricério arrumou sua trouxa e partiu para nunca mais, deixando tristezas para duas pessoas: para a empregada do 801, que era sua namorada, e para mim, que via nele uma grande personagem.

Lembro-me que, mesmo tendo sido, por diversas vezes, vítima de suas habilidades, lamentei o ocorrido, dando todo o meu apoio ao Latricério e afirmando-lhe que fora precipitação do síndico. Na hora da despedida, passei-lhe às mãos uma estampa do American Bank Note no valor de quinhentos cruzeiros, oferecendo ainda, como prêmio de consolação, uma horrenda gravata, cheia de coqueiros dourados, virgem de uso, pois nela não tocara desde o meu aniversário, dia em que o Bill - o americano do 602 - a trouxera como lembrança da data.

Mas, como ficou dito acima, Latricério tinha um linguajar difícil, e é preciso explicar por quê. Falava tudo errado, misturando palavras, trocando-lhes o sentido e empregando os mais estranhos termos para definir as coisas mais elementares. Afora as expressões atribuídas a todos os "malfalantes", como "compromisso de cafiaspirina", "vento encarnado", "libras estrelinhas", etc., tinha erros só seus.

No dia em que estiveram lá no prédio, por exemplo, uns avaliadores da firma a quem o proprietário ia hipotecar o imóvel, o porteiro, depois de acompanhá-los na vistoria, veio contar a novidade: - Magine, doutor! Eles viero avalsá as impoteca!

É claro que, no princípio, não foi fácil compreender as coisas que ele dizia mas com o tempo, acabei me acostumando. Por isso não estranhei quando os ladrões entraram no apartamento de Dona Vera, então sob sua guarda, e ele veio me dizer, intrigado:

- Não compreendo como eles entraro. Pois as portas tava tudo "aritmeticamente" fechadas.

Tentar emendar-lhe os erros era em pura perda. O melhor era deixar como estava. Com sua maneira de falar, afinal, conseguira tornar-se uma das figuras mais populares do quarteirão e eu, longe de corrigir-lhe as besteiras, às vezes falava como ele até, para melhor me fazer entender.

Foi assim no dia em que, com a devida licença do proprietário, mandei derrubar uma parede e inaugurei uma nova janela, com jardineira por fora, onde pretendia plantar uns gerânios. Estava eu a admirar a obra, quando surgiu o Latricério para louvá-la.

- Ainda não está completa - disse eu - falta colocar umas persianas pelo lado de fora.

Ele deu logo o seu palpite: - Não adianta, doutor. Aí bate muito sol e vai morrê tudo.

Percebi que jamais soubera o que vinha a ser persiana e tratei de explicar à sua moda:

- Não diga tolice, persiana é um negócio parecido com venezuela.

- Ah, bem, venezuela - repetiu.

E acrescentou: - Pensei que fosse "arguma pranta".



FRASES DE HUMOR






"Quando as luzes estão apagadas, todas
as mulheres são bonitas."


"Não confundir espingarda de caçar rolinhas
com espinafre de caçarolinha."


"Coração de mulher é igual a circo, sempre
tem lugar pra mais um palhaço."


"Está constatado na Bíblia. O homem mais feliz do mundo
foi Adão, porque foi o único que não possuiu sogra."


"Nunca diga que seu namorado é um gato. Pois
gato lembra leite, leite lembra vaca, vaca
lembra boi e boi lembra chifre."


"Você nasce sem pedir e morre sem
querer. Aproveite o intervalo!"


"Numa coisa homens e mulheres concordam:
ambos não confiam em mulheres."


"O trabalho me fascina tanto, mas tanto, que
chego a ficar parado, olhando para ele,
sem conseguir fazer nada..."


"O mundo só será mundo quando o último pagodeiro
morrer enforcado nas cordas de uma guitarra."


"As nuvens são como chefes...
Quando desaparecem, o dia fica lindo."


"Promoção: Peça Fiado e ganhe um NÃO!!!"


"Mulher gorda é que nem Ferrari: quando sobe na
balança vai de zero a cem em um segundo..."


"Quando você passar na rua e ficarem te olhando, não se sinta o
máximo... O feio e o ridículo também chamam a atenção.."


"Aprenda uma coisa: o mundo não gira em torno
de você. Só quando você bebe demais."

BASTOS TIGRE
RECIFE-PE = 1882 / 1957



Ouvir Estrelas





Ora, direis, ouvir estrelas! Vejo
Que estás beirando a maluquice extrema.
No entanto o certo é que não perco o ensejo
De ouvi-las nos programas de cinema.

Não perco fita; e dir-vos-ei sem pejo
Que mais eu gozo se escabroso é o tema.
Uma boca de estrela dando beijo
É, meu amigo, assunto pra um poema.


Direis agora: — Mas enfim, meu caro,
As estrelas que dizem? que sentido
Têm suas frases de sabor tão raro?

— Amigo, aprende inglês para entendê-las,
Pois só sabendo inglês se tem ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.



GRANDES PINTORES

MARCUS STONE
Inglaterra, 1840-1921
MARCUS STONE
Inglaterra, 1840-1921
MARCUS STONE = Inglaterra, 1840-1921

PIADA =A Loura No Cassino



Em época de baixa temporada, o cassino estava às moscas. Os assistentes já não agüentavam mais de tédio.

Foi quando entrou no salão uma loira espetacularmente gostosa.

Imediatamente, o pessoal do cassino se animou.

Ela se aproximou de uma das mesas e disse aos assistentes que apostaria 20 mil dólares e que acertaria os números em um único arremesso de dados.

Os caras anotaram a aposta.

Foi quando a loira disse:

— Olha, espero que vocês não se importem, mas tenho mais sorte quando estou nua.

Os assistentes aceitaram imediatamente e ficaram olhando aquela loiraça, tirar a roupa.

Completamente nua, deixando todo o seu corpo à mostra, a loira gritou:

— Mãezinha, preciso de novas roupas!

Fez o arremesso e logo em seguida comemorou:

— Viva! Viva! Eu venci! Eu venci!

Saltitante, a loira abraçou e beijou cada um dos ajudantes.

Pegou todo o dinheiro, as roupas e se mandou.

Os ajudantes, ainda boquiabertos, se entreolharam. Até que um deles perguntou:

— Que número deu nos dados?

— Não sei, pensei que você estivesse olhando!

Moral da história: Nem todas as loiras são burras, mas homens são sempre homens...



POESIA = Ascenso Ferreira

ASCENSO FERREIRA
PALMARES-PE = 1895 / 1965



Carnaval No Recife


 

Meteram uma peixeira no bucho de Colombina

que a pobre, coitada, a canela esticou!

Deram um rabo-de-arraia em Arlequim,

um clister-de-sebo-quente em Pierrot!



E somente ficaram os máscaras da terra:

Parafusos, Mateus e Papanguas...

e as Bestas-Feras impertinentes,

os cabeções e as Burras-Calus...

realizando, contentes, o carnaval do Recife,

o carnaval mulato do Recife,

o carnaval melhor do mundo!



- Mulata danada, lá vem Quitandeira,

lá vem Quitandeira que tá de matá!



- Olha o passo do siricongado!

- Olha o passo da siriema!

- Olha o passo do jaburu!

- E a Nação-de-Cambinda-Velha!

- E a Nação-de-Cambinda-Nova!

- E a Nação-de-Leão-Coroado!



- Danou-se, mulata, que o queima é danado!

- Eu quero virá arcanfô!

Que imensa poesia nos blocos cantando:

"Todo mundo emprega

grande catatau,

pra ver se me pega

O teu olho mau!"



- Viva o Bloco das Flores! - Os Batutas! - Apois-Fum!

(Como é brasileira a verve desse nome, Apois-Fum)

E o Clube do Pão Duro!

(É mesmo duro de roer o pão do pobre!)



Lá vem o homem dos três cabaços na vara!

"Quem tirar a polícia prende!"

Êh garajuba!



Carnavá, meu carnavá,

tua alegria me consome...

chegô o tempo das muié largá os home!

chegô o tempo das muié largá os home!



Chegou lá nada...



Chegou foi o tempo d'elas pegarem os homens,

porque chegou o carnaval do Recife,

o carnaval mulato do Recife,

o carnaval melhor do mundo!



- Pega o pirão, esmorrecido!







GRANDES PINTORES

sábado, 6 de outubro de 2012

VÍDEO = Claude Debussy

GRACILIANO RAMOS


Graciliano Ramos nasceu em Quebrângulo, Alagoas, em 27 de outubro de 1892. Fez apenas os estudos secundários em Maceió. Após rápida passagem pelo Rio de Janeiro, fixa-se em Palmeira dos Índios, interior de Alagoas; jornalista e político, chega a exercer o cargo de prefeito da cidade.

Estréia em livro em 1933, com o romance Caetés; nessa época trabalha em Maceió, dirigindo a Imprensa Oficial e a lnstrução Pública, e trava conhecimento com José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e Jorge Amado. Em março de 1936 é preso por atividades consideradas subversivas sem, contudo, ter sido acusado formalmente; após sofrer humilhações de toda sorte e percorrer vários presídios, é libertado em janeiro do ano seguinte. Essas experiências pessoais são retratadas no livro Memórias do cárcere.

Em 1945, com a queda da ditadura de Getúlio Vargas e a volta do país à normalidade democrática, Graciliano filia-se ao Partido Comunista Brasileiro, o qual integra até 1947, quando o partido é novamente considerado ilegal. Em 1952 viaja para os países socialistas do Leste Europeu, experiência descrita em Viagem. Falece no Rio de Janeiro, em 20 de março de 1953.

Graciliano Ramos é hoje considerado por grande parte da crítica nosso melhor romancista moderno. Além disso, é tido como o autor que levou ao limite o clima de tensão presente nas relações homem / meio natural, homem / meio social, tensão essa geradora de um conflito intenso, capaz de moldar personalidades e de transfigurar o que os homens têm de bom.

Nesse contexto violento, a morte é uma constante; é o final trágico e irreversível, decorrente de relacionamentos impraticáveis. Assim, encontramos suicídios em Caetés e São Bernardo, um assassinato em Angústia e as mortes do papagaio e da cadela Baleia em Vidas Secas.

Em seus romances, a lei maior é a da selva. Portanto, a luta pela sobrevivência parece ser o grande ponto de contato entre todos os personagens. Em consequência, uma palavra se repete em toda a obra do escritor: bicho, ou ainda, como no início de Vidas secas, viventes, aqueles que só têm uma coisa a defender - a vida:

"Ainda na véspera eram seis viventes, contando com o papagaio. Coitado, morrera na areia do rio, onde haviam descansado, à beira de uma poça: a fome apertara demais os retirantes e por ali não existia sinal de comida. Baleia jantara os pés, a cabeça, os ossos do amigo, e não guardava lembrança disto."

As condições subumanas nivelam animais e pessoas. Pensemos um pouco nessa curiosa "família": dois humanos adultos, identificados apenas pelos nomes Fabiano e Sinhá Vitória (eles não têm sobrenome), dois humanos infantis sem nome, identificados como "o mais velho" e "o mais novo", e dois bichos - o papagaio e a cachorra Baleia -, um identificado pela espécie, outro pelo nome próprio.

O papagaio é sacrificado, devorado canibalisticamente, em nome da sobrevivência dos demais; a cadela Baleia também é sacrificada em nome da sobrevivência dos demais - doente, ela atrapalhava a caminhada da família.

A tensão permeia toda a obra de Graciliano Ramos: evolui de Caetés até Vidas secas, num crescendo que passa por São Bernardo e Angústia. Acentua-se ainda mais na passagem da ficção à realidade, atingindo o ápice no livro em que relata suas experiências na cadeia, o qual, entretanto, ultrapassa o plano pessoal para retratar o Brasil em importante momento histórico, quando a convivência homem / meio social torna-se impossível. A obra é universal se considerarmos que descreve as humilhações sofridas por todos os prisioneiros políticos na ausência de um estado de direito.





PIADA

Quer Pagar Como?




O sujeito passava em frente a um hospital de luxo, quando teve um troço e precisou ser operado às pressas.
Quando ele acordou, a enfermeira, uma senhora muito religiosa, perguntou:
— O senhor tem seguro saúde?
— Infelizmente não...
— Dinheiro pra pagar a conta?
— Nenhum tostão...
— Algum parente que possa pagar?
— De parente só tenho a minha irmã solteirona, uma pobre freira.
— Freiras não são solteironas! — disse ela. — Elas são casadas com Deus!
— Ah, ótimo! Então nesse caso pode mandar a conta pro meu cunhado!

POESIA = Quadras


QUADRAS POPULARES
(AUTOR DESCONHECIDO)




Você ontem me falou
Que não anda nem passeia
Como é que hoje cedinho
Eu vi seu rastro na areia?

Não dês a ponta do dedo
Que logo te levam a mão
Depois da mão, vai o braço
Vai o peito e o coração

Uma velha muito velha
Mais velha que o meu chapéu
Foi pedida em casamento
Levantou as mãos pro céu

Um surdo disse que ouviu
Um pobre mudo dizer
Que um cego tinha visto
Um aleijado correr

Subi na serra do fogo
Com sapato de algodão
O sapato pegou fogo
E eu voltei de pé no chão

Prima pulga está doente
Taturana está parida
Meu compadre percevejo
Está de espinhela caída



CONTOS = Leon Eliachar

LEON ELIACHAR
CAIRO, 1922 = BRASIL, 1987


Contos Reunidos



O Judeu

Faltavam apenas 6 cruzeiros e 50 centavos para ele descer do taxi. Já eram 800 cruzeiros da noite e ele ainda não havia feito um bom negócio. Entrou num restaurante e comeu 180 cruzeiros; tomou 1 cruzeiro de café e saiu 10 % mais tarde. Na rua encontrou uma belíssima mulher, trajada com 48 mil cruzeiros de jóias. Há mais de 2 milhões de cruzeiros que não via uma mulher tão elegante. Convidou-a para um cinema. Ela regateou um pouco, mas por fim cedeu. Sentaram-se primeiro numa confeitaria e bateram um papo de 250 cruzeiros. Depois assistiram a 72 cruzeiros de CinemaScope: namoraram 36 cruzeiros de entrada e o resto a longo prazo. Um dia, decorridos 185 mil cruzeiros de vida em comum - terminaram tudo, à vista.

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O Encontro

O telefone tocou, ele atendeu, marcaram encontro. Fez a barba, tomou banho, vestiu-se. Há uma semana que não via a noiva e hoje era domingo, dia de ir ao cinema com ela. Apertou o botão, esperou o elevador, desceu, alcançou a rua e foi esperar o bonde. Fez baldeação e chegou lá duas horas depois. Meyer. ainda teve de esperar 40 minutos para que ela acabasse de se arrumar. Sua futura sogra serviu-lhe um cafezinho na varanda, seu futuro sogro conversou com ele sobre a situação internacional, depois leu um jornal, depois ela apareceu. Saíram apressados. O cinema era logo ali na esquina. Foram correndo. Ele entrou na fila e ela ficou esperando perto da portaria. 38 minutos depois ele apareceu com os ingressos na mão. Entraram. No salão escuro o vaga-lume indicou: "um lugar". Ela então correu e sentou.

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Violência

Segurou a moça pelo braço e fê-la deitar-se. Depois deu-lhe vários puxões no pescoço. Ela gritou. Ele não teve a menor reação. Passou a dar-lhe tapas no rosto. Ela tentou retirar-se, mas ele segurou-a violentamente e colocou-a de costas. Puxou-lhe as pernas, os braços, e começou a dar-lhe socos nas costas. Depois de algum tempo, disse apenas: - Agora pode ir.

Era massagista.


Contos extraídos dos Livro "O Homem ao Quadrado"





POESIA = Fernando Pessoa

FERNANDO PESSOA
PORTUGAL = 1888-1935



Ah, Quanta Melancolia!




Ah, quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!
Que angústia desesperada!
Que mágoa que sabe a fim!


Se a nau foi abandonada,
E o cego caiu na estrada –
Deixai-os, que é tudo assim.
Sem sossego, sem sossego,
Nenhum momento de meu
Onde for que a alma emprego –
Na estrada morreu o cego
A nau desapareceu.





CRÔNICA = Mário Sette

MÁRIO SETTE
RECIFE-PE = 1886-1950



As Antigas Boleiras



Quão diferentes desses homens de caixas envidraçadas às cabeças, inexpressivos, carrancudos, ásperos! Talvez sejam bonitas as guloseimas que levam para vender, porém faltam-lhe aquele jeito, aquela doçura, habituais das antigas boleiras do Recife.
Existia entre elas e as crianças, suas melhores freguesas, um entendimento perfeito. Dir-se-ia com maior justeza uma atração.
A boleira e a criança completavam-se.
Uma queria bem à outra. Pouco a pouco ia desaparecendo da parte da vendedora o mero interesse do lucro, substituído pelo repontar do afeto. "Meu freguesinho" ou meu "Ioiôzinho" chamava assim a mulher aos pequenos clientes. E todos os dias já os esperava avistar nas calçadas de casa, de roupas mudadas, sob a vigilância das armas, com uns vinténs nas mãos para a compra de bolos do costume. Se não os via, assustava-se. Indagava por eles. Sabendo-os doentes, entristecia, aconselhava meizinhas, pedia a Nosso Senhor para pô-los logo bons.
Por sua vez a criança criava amizade à "freguesa dos bolos". Festejava-a. Sabia-lhe o nome. E pelas festas, entre os presentes que o pai adquiria nas lojas havia um corte de vestido ou um xale para a humilde vendedora.
Hoje, o homem que apregoa bolos, nas ruas, é um revoltado, é um impaciente, é um revolucionário. Quando não é um tuberculoso ou um sifilítico.
As boleiras de outrora eram mulheres sadias, robustas, sexagenárias, de sangue limpo e de espírito calmo. Sempre sorridentes, bondosas, mansas. De chita de bolinhas ou de bichinhos, com a rodilha alvíssima, o tabuleiro asseado. Traziam ao ombro um banco de abrir.
O tabuleiro fazia gosto. Tirava-lhe a tampa de flandres e o aroma dos bolos se espalhava pela casa inteira. Do fundo do quintal os meninos acudiam.
- Sinhá Generosa está aí!
- Mamãe, me dê um vintém!
E os olhos infantis namoravam os pastéis de nata, os cocorotes, as fatias de pão-de-ló, bons-bocados, os ciúmes, as cocadas, os pés-de-moleques... Tudo separado por espécies. Saborosos, convidativos. A escolha tornava-se difícil para uma criança gulosa.
A família não ignorava de onde provinham esses bolos. Gente sem doenças, mãos sem feridas, vasilhas especiais. Manteiga inglesa da boa. Formas bem lavadas. Ovos de quintal.
Não havia perigo nem repugnância.
Bolos de vintém, de quarenta réis. O tostão ainda valia muito. Raros os meninos que dispunham de um níquel.
E mesmo sem ele comiam à vontade.
A ponto de vovó advertir:
- Vocês comem tanta cousa doce que um dia botam lombrigas pelos olhos..



[1958]
(Sette, Mário. Maxambombas e maracatus, p.96)


PIADA




O sujeito estava no maior ronco, quando toca o telefone, em plena madrugada:
- Aqui é o Aristides, o caseiro da sua fazenda!
- O que houve Aristides, aconteceu alguma coisa grave?
- Nada não, doutor! Eu só queria avisar que o seu papagaio morreu!
- Meu papagaio? Aquele que ganhou o concurso no mês passado?
- Sim, este mesmo!
- Puxa, que pena! Eu havia pago uma pequena fortuna por ele... mas ele morreu de quê?
- Comeu carne estragada!
- Carne estragada? Quem deu carne estragada para ele?
- Ninguém... ele comeu de um dos cavalos que estavam mortos.
- Que cavalos?
- Dos seus cavalos puro-sangue! Eles morreram de cansaço, puxando a carroça d'água.
- Puxando a carroça d'água? Que água?
- Para apagar o fogo!
- Fogo? Onde?
- Na sua casa... uma vela caiu na cortina e ela pegou fogo.
- Vela? Mas quem foi acender vela lá em casa, se tinha eletricidade?
- Foi uma das velas do velório!
- Velório?!
- É... o velório da sua mãe... ela chegou lá de madrugada sem avisar e eu atirei nela, pensando que era um ladrão!

ISAAC NEWTON

I S A A C   N E W T O N
INGLATERRA, 1643-1727




Se eu vi mais longe, foi por estar de pé sobre ombros de gigantes.


Deve-se aprender sempre, até
mesmo com um inimigo.


Se fiz descobertas valiosas, foi mais por ter paciência
do que qualquer outro talento.


A verdadeira filosofia nada mais é
que o estudo da morte.





HUMBERTO DE CAMPOS
MIRITIBA-MA = 1886 / 1934



A "Divorciada"



Desde que tomou, aos quatro anos, conhecimento do mundo e da vida, A Madaleninha indagara de Dona Judith:
— Mamãe, onde é que está o papai?
As primeiras respostas da moça foram uma série de sorrisos, de desculpas ingênuas, para enganar a pequenita. Por essas informações, o pai estava de viagem, andando de cidade em cidade, das quais volveria, um dia, carregado de presentes e brinquedos, para as duas. E quando a menina reclamava, pelo menos, um retrato do viajante misterioso, Dona Judith fechava os olhos, numa evocação, como quem pretende reconstituir, um por um, os traços de uma fisionomia esquecida.
Com dez anos, já, a Madaleninha pedia explicações mais claras, à pobre mãe abandonada. E esta avançou um ponto:
— Minha filha, teu pai não voltará mais!
— Nunca mais, mamãe?
— Nunca mais!
— Ele morreu, então?
— Não; não morreu, não.
E apertando a menina de encontro ao peito:
— Tua mãe, filhinha, é divorciada, isto é, uma senhora separada do marido.
A pequena arregalou muito os olhos, e não falou mais no assunto. Aos quatorze anos, voltou a pedir esclarecimentos:
— Mamãezinha, a senhora é separada do papai... Não é?
— Sou, minha filha.
— Diga-me, então uma coisa: quanto tempo a senhora viveu com ele?
Dona Judith baixou os olhos, para poder esconder duas lágrimas. E foi sem poder escondê-las, que desvendou o seu horrível segredo, rebentando em soluços:
— Pouco tempo, minha filha...
E caindo no ombro da menina boquiaberta:
— Uma noite, num trem...

CAPITAIS DO NORDESTE

SÃO LUÍS-MA
SÃO LUÍS-MA
SÃO LUÍS-MA
SÃO LUÍS-MA

VÍDEO = Franck Pourcel

GRANDES PINTORES

JORGE ELÍAS TRIANA = Colômbia, 1921-1999
JORGE ELÍAS TRIANO = Colômbia, 1921-1999
MIGUEL BRENNER = Peru, 1953
MIGUEL BRENNER = Peru, 1953
MIGUEL BRENNER = Peru, 1953
MIGUEL BRENNER = Peru, 1953
MIGUEL BRENNER = Peru, 1953
MIGUEL BRENNER = Peru, 1953

RECIFE-PE = BRASIL



PIADA = Convenção De Cervejarias

Convenção De Cervejarias




Uma grande convenção, que reunia os presidentes de todas as cervejarias do mundo, acontecia em Amsterdã, na Holanda. Muita gente famosa estava por lá: Presidentes da Budweiser, Carlsberg, Heineken, AMBEV e muitas outras fabricantes de cerveja.
No final do dia, pra descontrair, todos os executivos da cerveja decidiram beber alguma coisa no bar.
O presidente da Budweiser chegou pedindo em voz alta:
— Garçom, me traz uma "Bud" por favor!
E o garçom prontamente trouxe uma Budweiser geladinha.
O presidente da Carlsberg não deixou por menos:
— Amigo, me vê uma Carlsberg bem gelada!
E o garçom atendeu o seu pedido.
O Presidente da AMBEV pediu uma Antártica e uma Brahma, e assim por diante, até que o garçom perguntou a Freddie Heineken o que ele queria beber, já premeditando a resposta.
Para a surpresa de todos o Sr. Heineken, calmamente, disse:
— Por favor, me dá uma Coca-Cola!
Então todos o olharam surpresos, quando um de seus colegas perguntou:
— Por que você não pediu uma Heineken?
E ele, mostrando indiferença, respondeu:
— Ah, se vocês não vão beber cerveja, eu também não vou!



POESIA = João Cabral de Melo Neto

JOÃO CABRAL DE MELO NETO
RECIFE-PE = 1920 / 1999


Cais Do Apolo


I

No Cais do Apolo, no Recife,
fazia-se literatura,
com muito beber de cachaça
e indiferentes prostitutas

De dia, nenhuma ia nele
e assim dele pouco sabia:
dos armazéns escancarados
onde açúcar entrava e saia,

onde barcaças, barcaceiros,
onde escritórios, escrituras:
de dia, todo do comércio,
de noite, de Rimbaud, das putas.

De noites, os lampiões amarelos
fingiam a noite européia
entrevista em filme francês
(usava-se muito “atmosfera”)


II

Agora, nenhum Cais do Apolo,
nem Cais do Brum, há que se veja.
São cais nas placas das paredes
mas a água até eles não chega.

Antes foi cais de mar e rio
(no fundo, era cais de maré),
hoje é cais de terra aterrada
(onde as barcaças, chevrolets)

Muitos arranha-céus cresceram
naquelas praias devolutas
e os computadores que trazem
dão com Rimbauds, se algum perdura.

Hoje, no que foi Cais do Apolo
literatura não há mais:
melhor para a literatura
que sem entreluzes se faz.

CONTO = Luís Fernando Verísimo

LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
PORTO ALEGRE-RS = 1936


Conto Supérfluo




Esta é uma história de amor embora algum leitor possa protestar que instintos menos nobres a dominem. Envolve uma mulher, um homem e um sentimento entre os dois. Se não quiserem chamá-lo de amor, tanto faz. Uma rosa com outro nome teria o mesmo aroma, etc., etc.

Encontraram-se em frente às sopas. Ele examinava uma "soup a l'oignon", ela pegou distraidamente um creme de lagosta, bateu no braço dele e deixou cair a lata.

Desculparam-se mutuamente e em pouco tempo estavam conversando. Sobre sopas, a princípio e - à medida que percorriam as prateleiras - sobre outros interesses comuns, sólidos e líquidos. Quando chegaram aos queijos já tinham descoberto várias afinidades. A principal era um gosto pelo champignon que beirava a paixão.

Devo esclarecer que nem ele nem ela eram jovens. Mas ainda havia nos dois - como uma débil chama sob a caçarola, o bastante para manter o molho morno, mas longe da ebulição - um saudável apetite pela vida.

- Conheço uma receita de champignon... - disse ela, baixando os olhos.

Ele chegou mais perto para sussurrar:

- Como são?

- Recheados.

- Mmmmmm.

- Só me faltam trufas para completar a receita. Nunca encontro trufas...

Ele olhou para os lados antes de dizer no ouvido dela:

- Tenho trufas na minha casa. Da França.

- Não!

- Talvez um dia nós pudéssemos...

- Meus champignons recheados, finalmente, com trufas! É um sonho que eu tenho desde que...

- Desde que?

- Desde que meu marido morreu.

Ele engoliu em seco. Estavam agora na seção de bebidas.

- Seu marido tinha trufas?

- Não é isso. É que... - ela estava alvoroçada. Pegou uma garrafa de Grande Marnier para disfarçar seu embaraço. - É que comecei a cozinhar depois que meu marido faleceu para passar o tempo. O meu grande prato é o champignon recheado. Mas nunca fiz com trufas.

- Há quantos anos você...

- Sim?

- Está sem trufas?

Ela estava rubra como um rótulo de Johnny Walker (Red Label).

- Doze anos.

- Curioso. Nos cinco anos desde que minha esposa faleceu, nunca fiz nada com as minhas trufas. Fora um ou outro molho que a cozinheira invariavelmente estraga.

Alguma coisa nasceu entre os dois naquele instante. Alguma coisa ainda crua, a sugestão da sombra da possibilidade de uma idéia. Não podiam ter certeza de que daria certo. Às vezes está tudo conforme a receita - champignons dos grandes, o recheio de queijo, a manteiga e o creme para o molho, as trufas acrescentadas ao molho antes de gratinar - e não dá certo. Mas como saber, sem provar?

Esta história tem dois finais. Doce e amargo, como na cozinha oriental. Ela pergunta para ele "Você quer?", ele pergunta "Na minha casa ou na sua?" e ela responde "Na minha, porque eu conheço a cozinha". No outro final, os dois se despedem, nunca mais se vêem e o espectro de uma possível "sauce" com trufas perfeitas para o champignon recheado fica pairando entre as prateleiras para sempre, enquanto os preços aumentam em silêncio.



("Novas Comédias da Vida Privada")