sábado, 1 de setembro de 2012
BIOGRAFIA = Barão de Mauá
Barão de Mauá ou Visconde de Mauá foi industrial e político brasileiro. Pioneiro da industrialização no Brasil. Foi um símbolo dos capitalistas empreendedores brasileiros do século XIX. Foi responsável por grandes obras como um Estaleiro, a Companhia Fluminense de Transporte e a primeira estrada de ferro ligando o Rio de Janeiro a Petrópolis. Investiu como sócio nas ferrovias de Recife e de Salvador que chegavam até o Rio São Francisco, entre vários outros empreendimentos.
Barão de Mauá nasceu em Arroio Grande no Rio Grande do Sul em 28 de dezembro de 1813. Filho do fazendeiro João Evangelista de Ávila e Sousa e Maria de Jesus Batista de Carvalho. Ficou órfão de pai aos oito anos de idade, sendo entregue aos cuidados de um tio, capitão da marinha mercante. É levado para São Paulo, onde fica interno num colégio de 1821 a 1823. Aos 11 anos emprega-se como balconista de uma loja de tecidos. Em 1824 vai trabalhar como caixeiro da Companhia Inglesa Carruthers, especializada em importação onde o proprietário Ricardo Carruthers lhe ensinou inglês, contabilidade e a arte de comercializar. Aos 23 anos torna-se sócio-gerente da empresa.
Em 1837 adquire uma chácara no Morro de Santa Teresa. Chamava seus empregados de meus auxiliares. Criou antipatia de senhores de engenho e também da corte, por dar abrigo a escravos foragidos. Em 1840 vai buscar sua mãe, sua irmã, e sua sobrinha adolescente Maria Joaquina. As três se instalaram em sua chácara. Mauá vai para a Inglaterra e traz um anel de ouro. Presenteia a sobrinha era o pedido de casamento. Casaram-se em 1841 e juntos tiveram 12 filhos. Dona Guilhermina, sua irmã e sogra, comandava a casa, agora uma mansão na rua do Catete.
Em 1946 vende sua parte na Carruthers e adquire uma pequena fundição, situada na Ponta da Areia em Niterói. Vai buscar recursos na Inglaterra estava convencido que o Brasil deveria caminhar para a industrialização. Nesse mesmo ano funda um estaleiro. A Fundição e Companhia Estaleiro da Ponta da Areia, logo multiplica por quatro seu patrimônio.
Irineu Evangelista de Sousa, Barão de Mauá foi pioneiro no campo dos serviços públicos, fundou em 1852 a Companhia Fluminense de Transportes. Em 1853 criou a Companhia de Navegação a Vapor do rio Amazonas, obtendo o direito à navegação por 30 anos. A Amazônia teve pela primeira vez, transporte regular entre seus pontos mais longínquos.
Em 1854 fundou a Companhia de Iluminação a gás do Rio de Janeiro e no dia 30 de abril inaugura 15 km da primeira estrada de ferro ligando o Porto Mauá na baía da Guanabara à encosta da Serra da Estrela. Entre os convidados estava Dom Pedro II, que no mesmo dia concede a Irineu o título de "Barão de Mauá". A locomotiva recebe o nome de Baronesa em homenagem à esposa do Barão. Inaugurou nesse mesmo ano o trecho inicial da União e Indústria, primeira rodovia pavimentada do país, entre Petrópolis e Juiz de Fora.
Em sociedade com capitalistas ingleses e cafeicultores paulistas, participou da construção da Recife and São Francisco Railway Company, da ferrovia dom Pedro II, atual Central do Brasil e da São Paulo Railway, hoje Santos-Jundiaí. Iniciou a construção do canal do mangue no Rio de Janeiro e foi o responsável pela instalação dos primeiros cabos telegráficos submarinos, ligando o Brasil à Europa.
Barão de Mauá fundou, no final da década de 1850, o Banco Mauá, MacGregor & Cia, com filiais em várias capitais brasileiras, como também em Londres, Nova Iorque, Buenos Aires e Montevidéu. Ajudou a fundar o segundo Banco do Brasil pois o primeiro havia falido em 1829.
Liberal, abolicionista e contrário à Guerra do Paraguai, forneceu os recursos financeiros necessários à defesa de Montevidéu quando o governo imperial decidiu intervir nas questões do Prata em 1850. e assim, tornou-se persona non grata no Império. Suas fábricas passaram a ser alvo de sabotagens criminosas e seus negócios foram abalados pela legislação que sobretaxava as importações de matéria prima para suas indústrias. Em 1857 seu estaleiro foi criminosamente incendiado.
O Barão de Mauá foi deputado pelo Rio Grande do Sul em diversas legislaturas, mas renunciou ao mandato em 1873 para cuidar de seus negócios, ameaçados desde a crise bancária de 1864. Apesar de todas as realizações o Barão de Mauá terminou falindo. Em 1874 recebe o título de Visconde de Mauá. Em 1875 com o encerramento do Banco Mauá, viu-se obrigado a vender a maioria de suas empresas a capitalistas estrangeiros. Doente, sofrendo com a diabetes, só descansou depois de pagar todas as dívidas, encerrando com nobreza todas as suas atividades, embora sem patrimônio.
Irineu Evangelista de Sousa faleceu em Petrópolis, Rio de Janeiro, no dia 21 de outubro de 1889.
PIADA = "O Avô E O Neto"
O avô observa o neto brincando no quintal e vai perguntar o que é que ele está fazendo.
- Enfiando as minhocas de volta para o toca!
- E como é que você consegue, meu neto, o bicho é todo molengo?... Te dou dez reais para você me ensinar a fazer isso.
- Bem eu passo cola de madeira, espero secar esticando a minhoca...aí é só colocar no buraco.
- Toma os dez reais...
Duas horas mais tarde o avô chega para o neto, tira dez reais do bolso, dá na mão do neto e o neto fala:
- Tá ficando caduco, vô? O senhor já me deu os 10 reais.
- Eu sei. Esses 10 foi a tua vó quem mandou.
POESIA = Olegário Mariano
OLEGÁRIO MARIANO
RECIFE-PE = 1889-1958
As Duas Sombras
Na encruzilhada silenciosa do Destino,
Quando as estrelas se multiplicaram,
Duas Sombras errantes se encontraram.
A primeira falou: — Nasci de um beijo
De luz, sou força, vida, alma, esplendor.
Trago em mim toda a glória do Desejo,
Toda a ânsia do Universo... Eu sou o Amor.
O Mundo sinto exânime a meus pés...
Sou Delírio... Loucura... E tu, quem és?
— Eu nasci de uma lágrima...
Sou flama do teu incêndio que devora...
Vivo, dos olhos tristes de quem ama,
Para os olhos nevoentos de quem chora.
Dizem que ao mundo vim para ser boa,
Para dar do meu sangue a quem me queira.
Sou a Saudade, a tua companheira
Que punge, que consola e que perdoa...
Na encruzilhada silenciosa do Destino,
As duas Sombras comovidas se abraçaram
E de então nunca mais se separaram.
PIADA = Operação Complicada
Os familiares do doente estavam esperando na recepção do hospital o inicio da delicada operação. Depois de minutos eles ficam muito surpresos ao presenciar o jovem parente deles sair correndo da sala de cirurgia com aquela camisola, aquela touquinha e cheio de tubos pelo corpo. Tudo indicava que ele havia fugido da operação. Imediatamente o tio do rapaz foi atrás dele e perguntou:
- Onde é que você vai, rapaz? Você não pode sair assim, você está correndo risco de sofrer algo bem sério.
- Prá lá eu não volto de jeito nenhum! Eu vou é cair fora! Respondeu o rapaz.
- Mas o que foi que aconteceu garoto? É só uma simples operaçãozinha de apendicite. Tenho certeza absoluta que Você vai tira isso de letra. Vai dar tudo certo!
- Era justamente isso que a enfermeira estava dizendo para o médico que ia me operar.
PATATIVA DO ASSARÉ
ANTÔNIO GONÇALVES DA SILVA
ASSARÉ-CE = 1909-2002
Saudade
Saudade dentro do peito
É qual fogo de monturo
Por fora tudo perfeito,
Por dentro fazendo furo.
Há dor que mata a pessoa
Sem dó e sem piedade,
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade.
Saudade é um aperreio
Pra quem na vida gozou,
É um grande saco cheio
Daquilo que já passou.
Saudade é canto magoado
No coração de quem sente
É como a voz do passado
Ecoando no presente.
A saudade é jardineira
Que planta em peito qualquer
Quando ela planta cegueira
No coração da mulher,
Fica tal qual a frieira
Quanto mais coça mais quer.
PIADA
Três irmãs, uma de 86, outra de 84 e a última de 82 anos de idade viviam juntas em uma casa. À noite, a irmã de 86 anos começou a encher a banheira para tomar banho, ela pôs um pé dentro da banheira, fez uma pausa... e depois gritou:
- Hei! Alguém aí sabe se eu estava entrando ou saindo da banheira?
A irmã de 84 anos lhe respondeu:
- Não sei, já subo aí para ver... Ela começou a subir as escadas, fez uma pausa... e depois gritou:
- Ih! Alguém sabe se eu estava subindo ou estava descendo as escadas?
A irmã menor, a de 82 anos, estava na cozinha tomando chá e escutando as outras duas irmãs conversando, ela moveu a cabeça num sinal de negação e pensou:
- Que Horror! Espero nunca chegar numa situação lamentável dessas. Coitadas dessas duas elas estão só o bagaço da laranja. Pensando isso ela bateu três vezes na madeira da mesa e resolveu responder para as outras duas:
- Calmas meninas! Já vou ajudá-las! Deixe-me ver quem está batendo na porta! Quem será uma hora dessas... Que pessoal sem educação!
POESIA = Tobias Barreto
T O B I A S B A R R E T O
Namoro Não É Crime
(A um Juiz da Escada)
Considerando que as flores
Existem para o nariz,
E as mulheres para os homens,
Na opinião do juiz;
Considerando que as moças,
Ariscas como a perdiz,
Devem ter seu perdigueiro,
Na opinião do juiz;
Considerando que a gente
Não pode viver feliz
Sem fazer seu namorico,
Na opinião do juiz;
Amemos todos, amemos,
E Cupido quem o diz;
Pois namoro não é crime,
Na opinião do juiz...
Tobias Barreto de Meneses (n. a 7 Jun 1839 na Vila de Campos,
em Sergipe; m. a 26 Jun 1889 no Recife, Pernambuco).
POESIA = Mauro Mota
M A U R O M O T A
RECIFE-PE = 1911 / 1984
Tempo Da Farmácia
As cores nos boiões, calomelanos,
o jacaré das rolhas, elixires,
os chás, o peixe da "Emulsão Scott",
dietas, línguas de fora, Chernoviz,
o xarope da tosse, a queda, o galo,
o braço na tipóia, a camomila,
a letra do Doutor, frascos e rótulos,
o medo de injeções e bisturis.
O banco das conversas, as pastilhas
de malva e de hortelã, o mel de abelha,
a cobra na garrafa, o almofariz,
o termômetro, a febre dos meninos,
o tempo sem remédio na farmácia,
as doenças da infância, a cicatriz.
PIADAS = De Mineiros
O Mineiro estava cansado de ouvir rumores de que sua esposa o traia. Um dia, saiu de casa no horário de sempre para o trabalho. Após a esposa dar adeus e fechar a porta, ele rapidamente sobe até o alto de uma mangueira frondosa em frente a sua casa e resolve passar o dia ali observando o entra e sai de sua casa.
Logo depois, aparece um cidadão, mulato forte, fica em pé justamente embaixo da mangueira como se esperasse alguém. Pega uma manga no chão, chupa-a, ..., outra..., etc. E o Mineiro lá no alto só sacando. Nisso abre a porta de sua casa e sua esposa grita:
- Vem, meu amor, meu marido já foi embora!
Nisso o moreno joga a última manga no chão e corre pra dentro da casa do Mineiro. O Mineiro desce da mangueira, furioso:
- Hoje pego os dois no flagra! Vou matá-los!
Vai no armário de ferramentas, pega um facão, entra na casa e se depara com o mulato com a boca nos seios de sua esposa a se deliciar. Grita o mineiro com a faca na mão:
- NEGO, OCÊ VAI MORRÊ!
Nisso o Ricardão tira da sua capanga, um trezoitão e aponta para o mineiro:
- Morrer porquê?
E o mineiro:
- Você tava chupando manga e agora ta tomando leite, uai! Faz Mal!!!
Um fiscal do Ibama recebe uma denuncia e vai verificar. Dirige-se para a casa de um caipira. Chegando no local sem se identificar, vai logo travando um diálogo:
Fiscal : Bom dia
Caipira: Bom dia
Fiscal : Como vai a luta?
Caipira: Difícil.
Fiscal : Tem caçado muito?
Caipira: Tenho, a semana passada matei 20 periquitos.
Fiscal : Vinte?
Caipira: Filho alcance as cabeças dos periquitos pro homem ver.
Fiscal : E paca tem caçado muito?
Caipira: Só uma esta semana. Filho traz a cabeça da paca.
Fiscal : E outros animais silvestres, tem caçado muito?
Caipira: Vários deles. Filho traz as cabeças dos outros bichos pro homem ver.
Fiscal : Pensou, pensou e perguntou: Não tem passado por aqui nenhum fiscal do Ibama?
Caipira: Sim. Na semana passada. Filho traz a cabeça do fiscal para o homem ver.
Fiscal : Até outro dia, obrigado pela atenção.
Caipira: Não tem de quê. Volte sempre.
CAR EDWARD SAGAN
No futuro, não muito distante, haverá poucos empregos para pessoas altamente educadas e bem preparadas. Não haverá chances para todo mundo. A qualidade do ensino é precária no mundo inteiro e isso terá graves consequências. Em especial, a educação científica é deplorável. Em quase todo o mundo os professores ainda são mal remunerados e a qualidade do ensino de ciências é muito deficiente. Para mim, este é um dos piores problemas que enfrentamos atualmente, causador de muitas desgraças. No início deste século, o escritor H.G. Wells dizia que "o futuro será uma corrida entre a educação e a catástrofe". No momento, acho que estamos perdendo a corrida.
CARL EDWARD SAGAN
PENSAMENTOS
"Não se pode ensinar tudo a alguém. Pode-se,
apenas, ajudá-lo a encontrar por si mesmo."
GALILEU GALILEI
"Crime é obedecer às ordens injustas."
VOLTAIRE
"Viver das aparências é querer fazer uma
viagem com um carro sem gasolina."
A. HUXLEY
"Do rio que tudo arrasta, se diz que é violento. Mas ninguém
diz violentas as margens que o comprimem."
BERTOLD BRECHT
"Quem perde os seus bens, perde muito; quem
perde um amigo, perde mais, mas quem
perde a coragem, perde tudo."
MIGUEL DE CERVANTES SAAVEDRA
"Não devemos ter medo dos confrontos. Até os planetas
se chocam e do caos nascem as estrelas."
CHARLES CHAPLIN
"Cada fracasso ensina ao homem algo que necessita aprender."
CHARLES DICKENS
"Tolerância mútua é uma necessidade em todos os
tempos e para todas as raças. Mas tolerância
não significa aceitar o que se tolera."
MAHATMA GANDHI
"Eu proporia que se substituíssem todos os capítulos
da Constituição por: Artigo Único - Todo brasileiro
fica obrigado a ter vergonha na cara."
APISTRANO DE ABREU
"Eu tenho um sonho de que um dia meus quatro filhos
vivam em uma nação onde não sejam julgados
pela cor de sua pele, mas pelo seu caráter."
MARTIN LUTHER KING JR.
"O que é facilmente adquirido é facilmente desprezado."
ISAAC NEWTON
"É apenas com o coração que se pode ver direito;
o essencial é invisível aos olhos."
ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY
"Se choras porque não consegues ver o sol, as tuas
lágrimas impedir-te-ão de ver as estrelas."
TAGORE
POESIA = Mário de Sá-Carneiro
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
PORTUGAL = 1890-1916
Fim
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos berros e aos pinotes —
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas.
Que meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro...
(Paris, 1916)
CONTO = Lima Barreto
L I M A B A R R E T O
RIO DE JANEIRO-RJ = 1881 / 1922
Carta De Um Defunto Rico
"MEUS CAROS amigos e parentes. Cá estou no carneiro nº 7 ..., da 3ª quadra, à direita, como vocês devem saber, porque me puseram nele. Este Cemitério de São João Batista da Lagoa não é dos piores. Para os vivos, é grave e solene, com o seu severo fundo de escuro e padrasto granítico. A escassa verdura verde-negra das montanhas de roda não diminuiu em nada a imponência da antiguidade da rocha dominante nelas. Há certa grandeza melancólica nisto tudo; mora neste pequeno vale uma tristeza teimosa que nem o sol glorioso espanca... Tenho, apesar do que se possa supor em contrário, uma grande satisfação; não estou mais preso ao meu corpo. Ele está no aludido buraco, unicamente a fim de que vocês tenham um marco, um sinal palpável para as suas recordações; mas anda em toda a parte.
Consegui afinal, como desejava o poeta, elevar-me bem longe dos miasmas mórbidos, purificar-me no ar superior e bebo, como um puro e divino licor, o fogo claro que enche os límpidos espaços.
Não tenho as dificultosas tarefas que, por aí, pela superfície da terra, atazanam a inteligência de tanta gente.
Não me preocupa, por exemplo, saber se devo ir receber o poderoso imperador do Beluchistã com ou sem colarinho; não consulto autoridades constitucionais para autorizar minha mulher a oferecer ou não lugares do seu automóvel a príncipes herdeiros - coisa, aliás, que é sempre agradável às senhoras de uma democracia; não sou obrigado, para obter um título nobiliárquico, de uma problemática monarquia, a andar pelos adelos, catando suspeitas bugigangas e pedir a literatos das ante-salas palacianas, que as proclamem raridades de beleza, a fim de encherem salões de casas de bailes e emocionarem os ingênuos com recordações de um passado que não devia ser avivado.
Afirmando isto, tenho que dizer as razões. Em primeiro lugar, tais bugigangas não têm, por si, em geral, beleza alguma; e, se a tiveram era emprestada pelas almas dos que se serviram delas. Semelhante beleza só pode ser sentida pelos descendentes dos seus primitivos donos.
Demais, elas perdem todo o interesse, todo o seu valor, tudo o que nelas possa haver de emocional, desde que percam a sua utilidade e desde que sejam retiradas dos seus lugares próprios. Há senhoras belas, no seu interior, com os seus móveis e as costuras; mas que não o são na rua, nas salas de baile e de teatro. O homem e as suas criações precisam, para refulgir, do seu ambiente próprio, penetrado, saturado das dores, dos anseios, das alegrias de sua alma; é com as emanações de sua vitalidade, é com as vibrações misteriosas de sua existência que as coisas se enchem de beleza.
É o sumo de sua vida que empresta beleza às coisas mortais; é a alma do personagem que faz a grandeza do drama, não são os versos, as metáforas, a linguagem em si, etc., etc. Estando ela ausente, por incapacidade do autor, o drama não vale nada.
Por isso, sinto-me bem contente de não ser obrigado a caçar, nos belchiores e cafundós domésticos, bugigangas, para agradar futuros e problemáticos imperantes, porque teria que dar a elas alma, tentativa em projeto que, além de inatingível, é supremamente sacrílego.
De resto, para ser completa essa reconstrução do passado ou essa visão dele, não se podia prescindir de certos utensílios de uso secreto e discreto, nem tampouco esquecer determinados instrumentos de tortura e suplício, empregados pelas autoridades e grão-senhores no castigo dos seus escravos.
Há, no passado, muitas coisas que devem ser desprezadas e inteiramente eliminadas, com o correr do tempo, para a felicidade da espécie, a exemplo do que a digestão faz, para a do indivíduo, com certas substâncias dos alimentos que ingerimos...
Mas... estou na cova e não devo relembrar aos viventes coisas dolorosas.
Os mortos não perseguem ninguém; e só podem gozar da beatitude da superexistência aqueles que se purificam pelo arrependimento e destroem na sua alma todo o ódio, todo o despeito, todo o rancor.
Os que não conseguem isso - ai deles!
Alonguei-me nessas considerações intempestivas, quando a minha tenção era outra.
O meu propósito era dizer a vocês que o enterro esteve lindo. Eu posso dizer isto sem vaidade, porque o prazer dele, da sua magnificência, do seu luxo, não é propriamente meu, mas de vocês; e não há mal algum que um vivente tenha um naco de vaidade, mesmo quando é presidente de alguma coisa ou imortal da Academia de Letras.
Enterro e demais cerimônias fúnebres não interessam ao defunto; elas são feitas por vivos para vivos.
É uma tolice de certos senhores disporem nos seus testamentos como devem ser enterrados. Cada um enterra seu pai como pode - é uma sentença popular, cujo ensinamento deve ser tomado no sentido mais amplo possível, dando aos sobreviventes a responsabilidade total do enterro dos seus parentes e amigos. Tanto na forma como no fundo.
O meu, feito por vocês, foi de truz. O carro estava soberbamente agaloado; os cavalos bem paramentados e empenachados; as riquíssimas coroas, além de ricas, eram lindas. Do Haddock Lobo, daquele casarão que ganhei com auxílio das ordens terceiras, das leis, do câmbio e outras fatalidades econômicas e sociais que fazem pobres a maior parte dos sujeitos e a mim me fizeram rico; da porta dele até o portão de São João Batista, o meu enterro foi um deslumbramento. Não havia, na rua, quem não parasse para contemplá-lo, descobrindo-se ritualmente; não havia quem não perguntasse quem ia ali.
Triste destino o meu, esse de, nos instantes do meu enterramento, toda uma população de uma vasta cidade querer saber o meu nome e dali a minutos, com a última pá de terra deitada na minha sepultura, vir a ser esquecido, até pelos meus próprios parentes.
Faço esta reflexão somente por fazer, porque, desde muito, havia encontrado, no fundo das coisas humanas, um vazio absoluto.
Essa convicção me veio com as meditações seguidas que me foram provocadas pelo fato de meu filho Carlos, com quem gastei uma fortuna em mestres, a quem formei, a quem coloquei altamente, não saber nada desta vida, até menos do que eu.
Adivinhei isto e fiquei a matutar como é que ele gozava de tanta consideração fácil e eu apenas merecia uma contrariedade? Eu, que...
Carlos, meu filho, se leres isto, dá o teu ordenado àquele pobre rapaz que te fez as sabatinas por "tuta-e-meia". e contenta-te, com o que herdaste do teu pai e com o que tem tua mulher! Se não fizeres... ai de ti!
Nem o Carlos nem vocês outros, espero, encontrarão nesta última observação matéria para ter queixa de mim. Eu não tenho mais amizade, nem inimizade.
Os vivos me merecem unicamente piedade; e o que me deu esta situação deliciosa em que estou, foi ter sido, às vezes, profundamente bom. Atualmente, sou sempre...
Não seria, portanto, agora que, perto da terra, estou, entretanto, longe dela, que havia de fazer recriminações a meu filho ou tentar desmoralizá-lo. Minha missão, quando me consentem, é fazer bem e aconselhar o arrependimento.
Agradeço a vocês o cuidado que tiveram com o meu enterro; mas, seja-me permitido, caros parentes e amigos, dizer a vocês uma coisa. Tudo estava lindo e rico; mas um cuidado vocês não tiveram. Porque vocês não forneceram librés novas aos cocheiros das caleças, sobretudo, ao do coche, que estava vestido de tal maneira andrajosa que causava dó?
Se vocês tiverem que fazer outro enterro, não se esqueçam de vestir bem os pobres cocheiros, com o que o defunto, caso seja como eu, ficará muito satisfeito. O brilho do cortejo será maior e vocês terão prestado uma obra de caridade.
Era o que eu tinha a dizer a vocês. Não me despeço, pelo simples motivo de que estou sempre junto de vocês. É tudo isto do
José Boaventura da Silva.
N. B. - Residência, segundo a Santa Casa: Cemitério de São João Batista da Lagoa; e, segundo a sabedoria universal, em toda a parte. - J. B. S." - Posso garantir que trasladei esta carta para aqui, sem omissão de uma vírgula.
A.B C, Rio, 22-1-1921.
VARGAS VILA
VARGAS VILA
COLÔMBIA = 1860-1933
As palavras de Vargas Vila é um convite à reflexão. Este autor maldito, banido da sua terra natal, foi “novelista, militante panfletário, jornalista, niilista, ateu, anticlerical e obsessivamente indignado com a palhaçada fastidiosa reinante na América Latina, principalmente com o carneirismo vergonhoso de sua política e de suas assembléias”.
Seus livros foram censurados, queimados em praça pública e a Igreja ameaçou de excomunhão quem se atrevesse a lê-los.
Escritas há muito tempo, são palavras atuais pertinentes. Por exemplo, o que ele escreve sobre a sinceridade. Seja sincero e correrá o sério risco de ver decretada a sua morte social. Muitos lhe considerarão inconveniente e grosseiro; outros dirão que você padece da ingenuidade dos loucos e das crianças – os únicos que, em geral, não temem a espontaneidade – e o aconselharão a “pensar antes de falar”; dirão que seu tom de voz é ofensivo. O ser humano necessita gosta das aparências. A verdade pode ser insuportável.
“A sinceridade é uma virtude que devemos somente a nós
mesmos. Praticá-la com os outros é um suicídio”
A mentira é o fundamento da sociedade: “O único método reflexivo de triunfar é a mentira; a verdade é espontânea e irreflexiva; por isso leva sempre à derrota; ninguém se salvou
por dizer uma verdade; todos os vencedores o
foram pelo poder de uma mentira…”
“A mentira é o estado natural do homem. Na mentira vivemos, pela mentira gozamos e é do seio generoso da mentira que extraímos as únicas gotas de mel que adoçam a vida. A mentira é a esmola dos céus, nela vibra a bondade suprema, é ela que dá força ao espírito
para não desfalecer, não morrer, não fechar as asas e cair
dos céus exóticos do sonho sobre a terra miserável.”
“A verdade é de tal maneira odiosa aos homens, que quando mencionam uma, a colocam na boca de um louco como Hamlet.
E é para provar sua loucura que este diz uma verdade.”
PIADA
Numa madrugada, um ladrão entra em uma casa e começa, em silêncio, a arrombar a porta.
Logo no início, escuta uma voz sussurrando:
Jesus tá te olhando!
O ladrão se assusta, olha para os lados, na penumbra e nada vê...
Segue tentando arrombar a porta e escuta novamente a voz:
Jesus tá te olhando!
Incrédulo, mas com a certeza de ter escutado a frase, olha novamente ao seu redor e nada...
Quando reinicia sua "tarefa", ouve novamente a voz:
Jesus tá te olhando e indo em sua direção!
Dessa vez, ele percebe de onde vem a voz, iluminando a área de serviço, e vendo um papagaio, pergunta:
Ah... é você o Jesus?
E o papagaio responde:
Não, eu sou o Judas.
Judas?
E quem é o louco que põe o nome de Judas em um papagaio?
O mesmo que pôs o nome de Jesus no Piti bul...
POESIA = Olegário Mariano
OLEGÁRIO MARIANO
RECIFE-PE = 1889 / 1958
O Meu Retrato
Sou magro, sou comprido, sou bizarro,
Tendo muito de orgulho e de altivez.
Trago a pender dos lábios um cigarro,
Misto de fumo turco e fumo inglês.
Tenho a cara raspada e cor de barro.
Sou talvez meio excêntrico, talvez.
De quando em quando da memória varro
A saudade de alguém que assim me fez.
Amo os cães, amo os pássaros e as flores.
Cultivo a tradição da minha raça
Golpeada de aventuras e de amores.
E assim vivo, desatinado e a esmo.
As poucas sensações da vida escassa
São sensações que nascem de mim mesmo.
CONTO = Humberto de Campos
HUMBERTO DE CAMPOS
MIRITIBA-MA = 1866 / 1934
A Intenção
A pequenina igreja de Santa Engrácia estava quase despovoada de fieis, que se iam retirando, um a um, molhando os dedos na água benta, quando o Onofre penetrou no templo, desconfiado, chapéu na mão, camisa para fora da calça, à maneira da terra, procurando falar a padre Lourenço, que se achava, no momento, arrumando a paramenta eclesiástica na pequena cômoda da sacristia. Ao ver o caboclo, afamado em toda a vila pela sua desenvoltura, o sacristão, o Zézinho, correu ao seu encontro, levando na mão, pingando cera, o apagador de velas com que abafava, naquele instante, as últimas luzes do altar-mor.
- Que é que você quer, Onofre? - indagou o sacrista. - Quer falar com "seu" vigário?
- Chame ele! - respondeu o caboclo, soturno.
Cinco minutos depois, após as explicações preliminares, estava o desordeiro ajoelhado diante do confessionário, torcendo o chapéu nos dedos, com o cabelo a cair, em cachos revoltos, sobre a testa e sobre os olhos.
- Qual é o pecado de que se acusa, meu filho? - indagou o sacerdote, bondoso, procurando conduzir com jeito aquela ovelha bravia.
O caboclo baixou a cabeça, e confessou:
- Eu não matei, nem roubei ninguém, não, "seu vigaro". Meu pecado é um pecadinho de
nada. É uma porcariazinha de pecado que nem presta p'ra dizê.
- Conte, filho; conte sempre! - animou o padre.
Onofre tomou fôlego, e principiou a narrar:
- O'ie, "seu" vigaro, foi assim. Eu tinha brigado com o Chico Julião, da Lagoa Funda, e jurei
tomá um desforço, dando as tripa. dele p'r'os urubu cumê. Ontem, de tardinha, me armei, e fui fazê o serviço. Ele tava na porta da casa com a muié e os fio dando cumê p'r'os bicho meúdo.
Eu me apiei e avancei p'ra ele disposto a matá; mas fiquei tão penalizado, "seu" vigaro, com a vista da famia, daquela fiarada que ia ficá sem pai, que, em vez de matá o infiliz, só meti a pontinha da faca no couro dele, um pedacinho de nada. O cabra deu um pulo p'ra riba, e lá ficou vivo, só com um arranhãozinho na costela, feito p'ra amedrontá. "Seu" vigaro acha que isso é pecado?
Padre Lourenço tomou uma pitada, assoou-se, com estrondo, no lenço de Alcobaça, que lhe tirava todas as dúvidas, e obtemperou, convicto:
- É pecado, sim, meu filho; é pecado. tão grande como o de morte!
- Mas eu não matei, "seu" vigaro! protestou o caboclo.
- Não importa. Houve o pensamento, a idéia de matar. É o que vale, meu filho, é a intenção!
Onofre baixou a cabeça, humilde, e o padre continuou:
- Eu vou dar-lhe uma penitenciazinha. você não torne a cair noutra.
Assoou-se, de novo, e explicou:
- Você vai rezar quarenta e oito padre-nossos, setenta ave-marias, e setenta salve-rainhas.
Antes de sair, porém você vai pôr, ali, no cofre das almas. uma prata de dez tostões.
E levantando-se:
- Vá! O caboclo ergueu-se, pôs o chapéu debaixo do braço, exumou do bolso da calça uma prata de dez tostões que lá dormia, encaminhou-se para o cofre, que ficava perto da porta, e, jeitoso, começou a fricionar, com a moeda, a entrada da caixa, sem deixar, entretanto, que ela escapulisse para dentro. Feito isso, ia meter de novo a prata na algibeira, quando padre Lourenço, que o observava, gritou-lhe, de longe:
- Psiu! Que é isso? Vai levando o dinheiro?
O caboclo voltou-se, da porta, e protestou, com um risinho canalha:
- Uê! A "tenção" não vale?
E ganhou a rua.
FRASES DE CAMINHONEIROS
Beijo é cultura! Por isto que conheço várias línguas.
Beijo é igual a cigarro:vicia, mas não sustenta.
Beijo não mata a fome, mas abre o apetite.
Caminhoneiro que tem mulher feia, viaja sempre tranquilo.
Casamento não é bom e isto é fato verdadeiro, pois o
diabo não se casou e Jesus morreu solteiro.
Comprar caminhão e usar sutiã só quem tem peito!
Costurar é para modista! Permaneça na sua faixa!
Cuide bem do seu filho, antes que um traficante o adote.
Dê férias para a língua, trabalhe com a cabeça!
Destruidor de distâncias, devorador da saudade!
Deus abençoe as mulheres bonitas, e as feias se sobrar tempo.
Deus criou o carro para o rico andar e o Diabo criou
o caminhão para o pobre trabalhar.
Deus pôde fazer o mundo em 6 dias porque não tinha
ninguém perguntando quando ia ficar pronto.
Dnheiro de pobre parece sabão; quando pega, escorrega da mão.
Dinheiro e mulher bonita só vejo nas mãos dos outros.
Discurso deve ser igual a vestido de mulher,
quanto mais curto melhor.
Dizem que dinheiro é coisa do diabo; mas se quiser
ver o diabo, ande sem dinheiro.
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