sábado, 4 de agosto de 2012

CIDADES DO NORDESTE

BOM JARDIM-PE
BOM JARDIM-PE
CAMPOS SALES-CE
CAMPOS SALES = Igreja Matriz
CAMPOS SALES-CE
CRATO-CE
CRATO-CE
CRATO-CE
CRATO-CE

FRASES DE GRANDES PENSADORES




"O rio atinge seus objetivos, porque aprendeu a contornar obstáculos."
LAO-TSÉ

"O homem que não pode acreditar em si mesmo não
pode acreditar em mais nada."
ROY L. SMITH

"Já que você tem que pensar de qualquer
forma, pense grande."
DONALD TRUMP

"O prêmio por uma coisa bem feita é tê-la feito."
RALPH WALDOO EMERSON

"As boas idéias não tem idade, apenas têm futuro."
ROBERT MALLET

"Toda crueldade resulta da fraqueza."
SÊNECA

"O mais importante neste mundo não é tanto onde
estamos, mas em que direção nos movendo."
O. W. HOLMES

"Só podemos alcançar um grande êxito quando nos
mantemos fiéis a nós mesmos."
FRIEDRICH NIETZSCHE

"Quem nunca um erro cometeu, também nunca algo descobriu."
REGINA SHULTZ

"O preço pela perfeição é a prática constante."
ANDREW CARNEGIE

CRÔNICA = Eustórgio Wanderley


EUSTÓRGIO WANDERLEY
RECIFE-PE  =  1882-1962


Padre Machado


Não há muitos anos havia no Recife uma figura inconfundível de sacerdote que se tornou popularíssima: era a do padre Machado. Aliás, padre Manuel Machado. Poucas pessoas, entretanto, lhe sabiam o nome de batismo. Era conhecido apenas pelo nome de família. E ele costumava dizer, com o largo sorriso que lhe entreabria sempre os lábios grossos da boca franca das pessoas generosas e joviais:
- Eu sou um machado que não corta lenha. Salvo se for para botar no fogão dos pobres que não tenham com que ferver a água para o seu ralo cafezinho...
E assim era. Nesses momentos ele seria até capaz de se transformar de machado em lenha contanto que socorresse a um pobre.
JAMAIS TEVE DINHEIRO SEU
Sem ser franciscano, parece haver feito o voto de absoluta pobreza, nada tendo de seu, ou antes: o que tinha - o que lhe davam - pertencia aos necessitados. Por mais de uma vez, recebendo em envelope fechado a espórtula da missa que havia celebrado, a entregava toda, sem mesmo averiguar quanto continha - ao primeiro pobre que lhe pedisse uma esmola!
Os motoristas dos automóveis, que o conheciam e o estimavam, não lhe cobravam as viagens e, ao contrário, quando o encontravam a pé pelas ruas - sobraçando pesados embrulhos de mantimentos, de roupas usadas que ele pedia para distribuir aos pobres - o convidavam para tomar lugar nos seus carros. Igualmente os condutores dos bondes não lhe cobravam a passagem. Quando algum, não o conhecendo ainda, fazia a cobrança, o padre Machado depois de procurar em vão, nos bolsos da velha batina, dizia, sinceramente surpreso:
- E, não é que me esqueci do dinheiro?!... Vou descer do bonde...
E o condutor não consentia que ele descesse. Mesmo algum passageiro - e, às vezes, até mais de um - fazia questão de pagar a passagem do querido padre Machado, sempre despreocupado de si mesmo, tão grande era sua preocupação com a sorte dos infelizes.
Prevendo esses esquecimentos do filho, sua veneranda genitora lhe punha sempre no bolso alguns níqueis. Acontece, porém, que ele, chegando à rua e ouvindo o tilintar das moedas, as entregava aos primeiros pedintes que lhe estendessem a mão...
LEVANDO A EXTREMA-UNÇÃO
Certa vez, alta noite, um grupo de rapazes boêmios o viu entrar em um sobrado... suspeito, na rua da Moeda. Esperaram que ele saísse para o pilheriarem.
E assim o fizeram. Padre Machado os ouviu em silêncio.
Chegando mais adiante, encontrou um guarda-noturno e pediu:
- Senhor guarda: Faça-me o obséquio de me acompanhar e mais alguns moços a um sobrado ali adiante...
O guarda o acompanhou. O grupo dos boêmios ainda ali estava, comentando, desprimorosa e maliciosamente, a entrada do reverendo naquele sobrado de má fama...
Aproximando-se do grupo lhe diz o padre:
- Quero pedir aos meus jovens amigos o favor de me acompanharem até lá em cima.
Os rapazes o acompanharam. Lá em cima depararam com uma pobre mulher morta, enquanto suas companheiras, ajoelhadas em volta do leito mortuário, rezavam, chorando... Apontando aquela cena pungente explicou o virtuoso padre:
- Vêem os nobres amigos? Vim aqui trazer Jesus Cristo, na extrema-unção, àquela pobre pecadora que acaba de falecer.
Os jovens boêmios não riram mais do padre Machado e, arrependidos do mau juízo que haviam feito, lhe pediram, humildemente, perdão.


(Wanderley, Eustórgio. Tipos populares do Recife antigo. 1ª e 2ª série, 2ª ed. Recife, Colégio Moderno, 1953-1954)

CAPITAIS DO NORDESTE

MACEIÓ-AL
MACEIÓ-AL
MACEIÓ-AL
MACEIÓ-AL
MACEIÓ-AL

POESIA = Manuel Bandeira


MANUEL BANDEIRA
RECIFE-PE  =  1886  1968




Momento Num Café





Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente,
Saudavam o morto distraídos,
Estavam todos voltados para a vida,
Aberto na vida,
Confiantes na vida.


Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado,
Olhando o esquife longamente,
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade


Que a vida é traição,
E saudara a matéria que passava,
Liberta para sempre da alma extinta.


POESIA = Lucas Tenório


LUCAS TENÓRIO
RECIFE-PE  =1969





Recife



Cidade dos meus sonhos de menino

Estás a meio tempo das estrelas 

De teus montes é mais fácil percebê-las 

Da tua terra verte o sol do meu destino.


Os rios que te cortam suavemente,
No reflexo que esbanja a tua alma,
Pintam as pontes com leveza e calma,
Onde passam com beleza tuas gentes.


És cidade dos que morrem de amores
Dos poetas, dos artistas, enfim do povo
Ó planície onde cantam tuas dores!


Sob a lua incandescente de tuas matas
Imortal como és, pousas de novo
Escudela dos Dragões Iconoclastas.

CRÔNICA = Carlos Drummond de Andrade


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
ITABIRA-MG  =  1902-1987


Areia Branca


O lotação ia de Copacabana para o centro, com lugares vazios, cada passageiro pensando em sua vida; é o gênero de transporte onde menos viceja a flor da comunicação humana. Quando, em Botafogo, ouviu-se a voz de um senhor lá atrás:
- Olhe aqui, vou atender a você, mas não faça mais isso, ouviu? É muito feio pedir dinheiro aos outros. Na sua idade, eu já dava duro e ajudava em casa.
E passou a nota ao rapazinho de quinze anos, se tanto, que a recolheu com humildade. O homem continuava, agora dirigindo-se a outro passageiro:
- Está vendo? Fica essa garotada aí vivendo de expediente, encontra uns sujeitos como eu, que vão na conversa, e depois...
- Isso é um país sem solução, comentou o vizinho. Não há escola profissional para os meninos, andam jogados ao deus-dará, enquanto o governo só faz besteira. Não vê o porta-aviões?
O rapazinho não parecia interessado na crítica ao Governo, e mudou de lugar. Foi para junto de outro senhor e expôs-lhe o problema, baixinho.
- Como é?
- Areia Branca. Lá é minha terra. Tou querendo voltar, falta só 27 cruzeiros...
O homem puxou lentamente a carteira, lentamente extraiu uma nota, passou-a ao rapazinho.
- Está vendo? - comentou o senhor do fundo. - Aquele ali caiu também, quem é que não cai? Aposto que esse menino não vai pedir àquela senhora da esquerda. Mulher não vai na onda, só tem pena de aleijado e de velhinho.
De fato, o postulante deixou de lado a senhora e a moça que havia no carro, e foi contar a história mais adiante (com êxito) a outro representante do sexo frágil, isto é, masculino.
- Oba! Já tenho 20, daqui a pouco posso ir para Areia Branca.
E foi sentar-se ao lado de outro jovem que, pelos cadernos de capa grossa na mão, se revelava colegial.
- Quer me ajudar? Então inteire minha passagem para Areia Branca.
Não era pedido; era recomendação, em tom natural, tão natural que o estudante não discutiu. Sacou do bolso o macinho de notas miúdas - dinheiro do sorvete e da volta, - contou-as uma por uma, e estendeu cinco.
- Se você quer ajudar, inteira logo. Mais dois.
O outro passou-lhe os dois, que esperara inutilmente salvar da requisição, e, à guisa de agradecimento, o beneficiado esticou o dedo:
- Espia só o mar: que estouro! Areia Branca é do outro lado.
E levantou-se mais uma vez, foi ao motorista, curvou-se, passou-lhe o braço nas costas, numa conversa particular e macia. O senhor de trás, moralista e observador implacável, ia-lhe acompanhando as evoluções:
-  Olha só o garoto. Aposto que cantou o motorista para uma carona.
O motorista - de queixo comprido, lembrando agradavelmente o velho atacante Ademir - sem volver o rosto, foi dizendo:
- Cai fora, coisinha.
- Eu não disse? - comentou o de trás, satisfeito com a própria agudeza.
O lotação parou, o meninote desceu. Ai, intervém a senhora, até então muda e queda como penedo:
- Garanto que agora ele vai tomar outro lotação para Copacabana, e repetir o golpe.
- Não duvido nada - secundou o moralista, meio desapontado porque não lhe havia ocorrido esse desenvolvimento.
O rapazinho atravessou a rua - era no contorno do Morro da Viúva - e parou à espera, na calçada.
- Vejam só - continuava exclamando o homem. - Vem com essa conversa de Areia Branca, Areia Branca, um nome tão poético, lembra o Caymmi, a gente não resiste mesmo. Se ele dissesse que queria voltar para Areia Preta, essa não, eu pensava naquela praia do Espírito Santo, em reumatismo, não soltava um níquel. Mas Areia Branca, esse moleque é impossível!

(Elenco de Cronistas - “A Bolsa & A Vida”)

VÍDEO = Ernesto Cortazar


VÍDEO = Ernesto Cortazar


A CIDADE DO RECIFE

RECIFE = Praça do Derby
RECIFE-PE
RECIFE-PE
RECIFE-PE
RECIFE-PE
RECIFE-PE
RECIFE-PE

FRASES ENGRAÇADAS





Marido é igual a menstruação: Quando chega, incomoda;
Quando atrasa, preocupa"

"Chifre é igual a consórcio: quando você menos espera, é contemplado."

Mulher feia é igual a ventania, só quebra galho.

"Casamento que começa em motel , termina em "pensão"!

"Homem é igual a caixa de isopor: é só encher de
cerveja que você leva pra qualquer lugar."

"A diferença entre a mulher e o homem?? A mulher está
sempre pronta para o que der e vier e o homem
está sempre pronto para quem vier e der."

"Malandro é o pato, que já nasce com os
dedos colados para não pôr aliança."

"Devo tanto que se eu chamar minha mulher
de "Meu Bem" o banco toma!!"

Tudo é relativo. O tempo que dura um minuto depende
de que lado da porta do banheiro você está.

Na vida tudo é relativo. Um fio de cabelo na
cabeça é pouco; na sopa, é muito!

Eu cavo, tu cavas, ele cava, nós cavamos, vós cavais,
eles cavam... Não é bonito, mas é profundo.

"Não adianta ser rico e usar roupas caras e de marca
se o melhor da vida a gente faz pelado"

PIADA


O Amendoim

O rapaz vai com um amigo no estádio assistir um jogo de futebol.
Como a casa da avó velhinha fica no caminho ele resolve dar uma passadinha para cumprimentá-la. Aproveitando a presença do neto, a velhinha pede para ele consertar um vazamento na pia da cozinha.
Enquanto isso ela leva o amigo do neto para a sala e oferece-lhe uma bebida.
Junto com o copo está um pratinho de amendoins, já descascados, que o rapaz come sem parar, um por um. Tarde demais ele percebe que comeu tudo que havia no prato.
Na hora de ir embora ele agradece calorosamente a avó do amigo:
 - ...e obrigado pelo amendoim! Espero não ter abusado, não lhe deixei nenhum, desculpe!
A vovó, amável, responde:
- Não tem problema, meu filho. De qualquer jeito não posso comê-los... Depois que perdi meus dentes eu só lambo o chocolate que vem em volta.

CIDADES DO NORDESTE

ASSARÉ-CE
ASSARÉ-CE
ASSARÉ-CE = Memorial Patativa do Assaré
ASSARÉ-CE

POESIA = Fernando Pessoa


FERNANDO PESSOA
PORTUGAL  =  1888-1935



 Momento Imperceptível

  

Momento imperceptível,
Que coisa foste, que há
Já em mim qualquer coisa
Que nunca passará?

 Sei que, passados anos,
O que isto é lembrarei,
Sem saber já o que era,
Que até já o não sei.

 Mas, nada só que fosse,
Fica dele um ficar
Que será suave ainda
Quando eu o não lembrar.



PRAIAS DO NORDESTE


PORTO DE GALINHAS-PE
MARAGOGI-AL
TIBAU DO SUL-RN
ITAPUAMA-PE
MALEMBA-RN
PIPA-RN
PIRANGI DO SUL-RN

POESIA


BASTOS TIGRE
RECIFE-PE  =  1882 / 1957


A Concetta


Na minha longe, alegre juventude
Quando tu eras um brotinho e eu era
Estouvado e sem juízo – era uma “fera”
(Só não fiz as tolices que não pude...)
Tu foste o sol de minha primavera.


Veio após a estação
Dos arroubos da rubra mocidade
E eu entrando no lar com a claridade
Solar – 40 graus à sombra, insolação!...
Via, suando... frio que, em verdade,
Eras o sol do meu verão.


Mas do teu coração senhor e dono,
Continuei, entretanto, teu vassalo.
E, rainha, pregavas do teu trono,
E o teu sermão eu tinha de escutá-lo.
Mas foste o sol do meu outono.


Hoje, velhinhos, há quarenta e quatro
Anos na mesma jaula recolhidos
Eu, sem cafés, sem caixas de teatro,
Sem da boêmia, o delicioso inferno,
Em verso, aqui murmuro aos teus ouvidos:
- Tu és o sol do meu inverno.

PIADAS


Piadas De Bêbados

O bêbado está levando a maior dura do delegado:
- Quer dizer que o senhor estava envolvido na briga desses pilantras?
- Quem? Eu? De... hic... jeito nenhum, dotô delegado. Eu sou da...
hic... paz!
- Então porque os policiais trouxeram o senhor pra cá?
- Eles trouxeram... hic... não... fui eu que quis vir...
- Não entendi!
- Tava a maior... hic... briga no bar! Aí encostou o camburão... hic...
e um polícia gritou... hic... "É cana pra todo mundo!". Aí eu falei: "Tô dentro!".
 <><><><><>

O cara saiu da boate do jeito que o diabo gosta: num pileque de juntar criança.
Mal pisou na calçada, deu um violento encontrão num sujeito grandão, vestindo um uniforme cheio de galões.
Não se dando por achado, foi logo gritando:
- Olha aí, ô meu, me chama um táxi.
O outro ficou indignado:
- Que táxi, coisa nenhuma! Eu sou almirante!
- Então me chama um navio, pô!
 <><><><><>
O bêbado entra num velório e ouve a viúva, entre lágrimas e soluços, comentando:
- Meu marido era tão bom... Morreu como um passarinho!
Logo em seguida, outro bêbado entra também e encosta ali perto.
- Como foi que ele morreu, hein?
E o primeiro responde de bate-pronto:
- Parece que foi com um estilingada...
<><><><><> 

Três bêbados bebem literalmente até cair. Quando dois deles acordam, descobrem 
que o terceiro morreu durante a noite.
Depois, no funeral, eles olham para o amigo no caixão.
- Puxa, o Zeca tá com uma aparência tão boa... - diz um deles.
- Claro - diz o outro. - O que você queria? Faz dois dias que ele não bebe...
 <><><><><>

Um sujeito completamente bêbado começa a fazer o maior escândalo numa festa.
Um dos convidados tenta ajudar:
- O senhor não quer tomar um táxi e ir embora?
- Pra mim, chega! Não quero tomar mais nada por hoje!

FRASES DE GRANDES PENSADORES




"Cultive o hábito da preferência pelas pessoas que são
gratas pelo fato dos espinhos conterem rosas, mais
do que pelas pessoas que vivem se queixando
de que as rosas têm espinhos."
THELMA GUTTYERRE

"Além da terra, além do infinito, eu procurava em
vão o céu e o inferno. Mas uma voz interior me
disse: O céu e o inferno estão em ti mesmo."
OMAR KHÁYYÁM

"O êxito de um bom dito depende mais do ouvido
que o escuta do que da boca que o diz."
SHAKESPEARE

"Não foi o fato de teres mentido, mas o de não poder
crer em ti, que me abalou profundamente."
NIETZCHE

"Um hábito não pode ser jogado pela janela; tem de ser
obrigado a descer a escada, um degrau de cada vez."
MARK TWAIN

"Deixem a trilha conhecida de vez em quando e entrem pela floresta,
certamente encontrarão alguma coisa que nunca viram."
ALEXANDRE G. BELL

"A arte da aposentadoria não é aposentar-se de alguma
coisa, e sim aposentar-se para alguma coisa."
HARRY EMERSON FORDICK

"O primeiro passo para o conhecimento é
sabermos que somos ignorantes."
CÍCERO

"É a doença de não escutar, o mal de não
observar que me aflige."
SHAKESPEARE

"Considerando-se tudo, o homem nunca fala de si
sem perder alguma coisa; suas acusações a
si mesmo são sempre acreditáveis,
seus elogios nunca."
MONTAIGNE

"A boa educação consiste em esconder o bom
conceito que temos de nós e o mau
conceito que temos dos outros."
MARK TWAIN

GRANDES PINTORES

FRANCISCO GOYA = Espanha, 1746-1828

FRACISCO GOYA = Espanha, 1746-1828

GINO SEVERINI = Itália, 1883-1966

GINO SEVERINI = Itália, 1883-1966

GINO SEVERINO = Itália, 1883-1966



CONTO


IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO
ARARAQUARA-SP  =  1935


O Homem Cuja Orelha Cresceu



Estava escrevendo, sentiu a orelha pesada. Pensou que fosse cansaço, eram 11 da noite, estava fazendo hora-extra. Escriturário de uma firma de tecidos, solteiro, 35 anos, ganhava pouco, reforçava com extras. Mas o peso foi aumentando e ele percebeu que as orelhas cresciam. Apavorado, passou a mão. Deviam ter uns dez centímetros. Eram moles, como de cachorro. Correu ao banheiro. As orelhas estavam na altura do ombro e continuavam crescendo. Ficou só olhando. Elas cresciam, chegavam a cintura. Finas, compridas, como fitas de carne, enrugadas. Procurou uma tesoura, ia cortar a orelha, não importava que doesse. Mas não encontrou, as gavetas das moças estavam fechadas. O armário de material também. O melhor era correr para a pensão, se fechar, antes que não pudesse mais andar na rua. Se tivesse um amigo, ou namorada, iria mostrar o que estava acontecendo. Mas o escriturário não conhecia ninguém a não ser os colegas de escritório. Colegas, não amigos. Ele abriu a camisa, enfiou as orelhas para dentro. Enrolou uma toalha na cabeça, como se estivesse machucado.
Quando chegou na pensão, a orelha saia pela perna da calça. O escriturário tirou a roupa. Deitou-se, louco para dormir e esquecer. E se fosse ao médico? Um otorrinolaringologista. A esta hora da noite? Olhava o forro branco. Incapaz de pensar, dormiu de desespero.
Ao acordar, viu aos pés da cama o monte de uns trinta centímetros de altura. A orelha crescera e se enrolara como cobra. Tentou se levantar. Difícil. Precisava segurar as orelhas enroladas. Pesavam. Ficou na cama. E sentia a orelha crescendo, com uma cosquinha. O sangue correndo para lá, os nervos, músculos, a pele se formando, rápido. Às quatro da tarde, toda a cama tinha sido tomada pela orelha. O escriturário sentia fome, sede. Às dez da noite, sua barriga roncava. A orelha tinha caído para fora da cama. Dormiu.
Acordou no meio da noite com o barulhinho da orelha crescendo. Dormiu de novo e quando acordou na manhã seguinte, o quarto se enchera com a orelha. Ela estava em cima do guarda-roupa, embaixo da cama, na pia. E forçava a porta. Ao meio-dia, a orelha derrubou a porta, saiu pelo corredor. Duas horas mais tarde, encheu o corredor. Inundou a casa. Os hospedes fugiram para a rua. Chamaram a polícia, o corpo de bombeiros. A orelha saiu para o quintal. Para a rua.
Vieram os açougueiros com facas, machados, serrotes. Os açougueiros trabalharam o dia inteiro cortando e amontoando. O prefeito mandou dar a carne aos pobres. Vieram os favelados, as organizações de assistência social, irmandades religiosas, donos de restaurantes, vendedores de churrasquinho na porta do estádio, donas-de-casa. Vinham com cestas, carrinhos, carroças, camionetas. Toda a população apanhou carne de orelha. Apareceu um administrador, trouxe sacos de plástico, higiênicos, organizou filas, fez uma distribuição racional.
E quando todos tinham levado carne para aquele dia e para os outros, começaram a estocar. Encheram silos, frigoríficos, geladeiras. Quando não havia mais onde estocar a carne de orelha, chamaram outras cidades. Vieram novos açougueiros. E a orelha crescia, era cortada e crescia, e os açougueiros trabalhavam. E vinham outros açougueiros. E os outros se cansavam. E a cidade não suportava mais carne de orelha. O povo pediu uma providência ao prefeito. E o prefeito ao governador. E o governador ao presidente.
E quando não havia solução, um menino, diante da rua cheia de carne de orelha, disse a um policial: "Por que o senhor não mata o dono da orelha?"




O texto acima foi extraído do livro "Os melhores contos de Ignácio de Loyola Brandão",
seleção de Deonísio da Silva, Global Editora — São Paulo, 1993, pág. 135.