sábado, 16 de junho de 2012
GOUVEIA MARINHO
LUIZ TAVARES DE GOUVEIA MARINHO
GOIANA-PE = 1901 / 1983
O Sacristão
Era um homem escuro e atarracado. Nariz chato, beiços de lombo. Sacristão, não tinha, contudo, voz de falsete, como o que vi em Água Preta, ajudando a missa de um frade holandês de barbas intensas. Félix falava grosso.
Era incurável apreciador do jogo do bicho. Ao padre Silvino Guedes, vigário da paróquia, costumava dizer que o “bicho” era o pão dos pobres. Mas fosse ele, com a mulher e o rancho de meninos que provia, nutrir-se desse pão!
Raro acertava, apesar da fezinha diária que fazia.
A juventude local estava literalmente empolgada com a pregação de Plínio Salgado. O entusiasmo pelo integralismo a todos contagiava. Não somente aos moços, senão também à gente provecta. Até o sereno e austero juiz de direito da comarca dera-se ao desfrute de cerrar fileiras, vestindo camisa verde, numa passeata levada a efeito no Recife.
Anauê! Esclamava-se, erguendo o braço direito e espalmando a mão. E não era outra a saudação usual entre os amigos.
A Rapaziada perdia a cabeça. Se isso não aconteceu, se o Brasil não se tornou de vez um vasto hospital... de doidos – um vasto manicômio, foi graças àquele golpe fulminante da capoeiragem política de Vargas.
Só Félix não se entusiasmava, ao contrário... sempre frio, logo entrou a embirrar com os camisas verdes.
Intrigado, o vigário da freguesia, o qual já não era o Padre Silvino, porém o juvenil Padre José Távora, simpatizante com o credo verde-oliva, perguntou-lhe, um dia, a razão de uma tal ojeriza. E dele ouviu:
- Vosmecê não tá vendo, seu vigário? Querem acabar com o jogo do bicho.
- Como assim, homem de Deus?!, admirou-se o sacerdote.
- O nome tá dizendo: intrega a lista.
PENSAMENTOS
Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode,
Que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino
e acredite em você. Gaste mais horas realizando
que sonhando, fazendo que planejando,
vivendo que esperando, porque, embora
quem quase morre esteja vivo,
quem quase vive já morreu.
LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
PIADA
Modelo, Manequim & Cia
Três garotas se conhecem na sala de embarque de um aeroporto.
— Eu sou modelo e manequim — diz a primeira, num certo momento da conversa.
— Eu também sou modelo e manequim — diz a segunda, cheia de orgulho.
— Eu sou prostituta! — diz a terceira.
Fez-se um breve silêncio. Para acabar com o constrangimento, a primeira arrisca:
— E você ganha muito dinheiro como prostituta?
— No começo eu ganhava bastante, mas agora com esta concorrência enorme das
modelos e manequins...
Três garotas se conhecem na sala de embarque de um aeroporto.
— Eu sou modelo e manequim — diz a primeira, num certo momento da conversa.
— Eu também sou modelo e manequim — diz a segunda, cheia de orgulho.
— Eu sou prostituta! — diz a terceira.
Fez-se um breve silêncio. Para acabar com o constrangimento, a primeira arrisca:
— E você ganha muito dinheiro como prostituta?
— No começo eu ganhava bastante, mas agora com esta concorrência enorme das
modelos e manequins...
POESIA
B A S T O S T I G R E
RECIFE-PE = 1882 / 1957
A Sorte Do Zeca
No mesmo colégio andamos
Eu e o Zeca - um bom rapaz.
Os mesmos jogos brincamos,
Sempre amigos, sempre em paz;
Zeca tinha muita sorte,
De azar sempre andava eu...
Mas nossa amizade forte
Com isso jamais perdeu.
Mas com o demo! mas com a breca!
Que bruta sorte, a do Zeca!
Juntos, os dois nos formamos
Com a mesma amizade antiga
E ambos apaixonamos
Pela mesma rapariga.
Zeca tinha muita sorte...
Eu sempre fui de um azar!
Foi ela a sua consorte
E eu cá fiquei a chuchar.
Mas com o demo! Mas com a breca!
Que bruta sorte, a do Zeca!
Passam-se anos. Meu amigo
Um belo dia morreu;
Ao seu derradeiro abrigo
Em prantos levei-o eu.
Mas... a morte é sempre a morte;
Com a viúva me fui casar...
Zeca teve muita sorte...
Eu sempre tive um azar!
Mas com o demo! Mas com a breca!
Que bruta sorte, a do Zeca!...
BIOGRAFIA
ARIANO SUASSUNA = A Vida E A Obra
Ariano Suassuna, advogado, professor, teatrólogo e romancista, nasceu em Nossa Senhora das Neves, hoje João Pessoa, PB, em 16 de junho de 1927. Filho de João Urbano Pessoa de Vasconcelos Suassuna e de Rita de Cássia Dantas Vilar Suassuna, tinha pouco mais de três anos de idade quando seu pai, que governava Paraíba no período de 1924 a 1928, foi assassinado no Rio de Janeiro em conseqüência de disputas políticas que se desencadearam às vésperas da Revolução de 1930. Nesse mesmo ano, D. Rita Vilar Suassuna mudou com os nove filhos do casal para o sertão paraibano, indo instalar-se na Fazenda Acahuan, de propriedade da família, e depois na vila de Taperoá, onde Ariano Suassuna fez os estudos primários.
A infância passada no sertão familiarizou o futuro escritor e dramaturgo com os temas e as formas de expressão artística que viriam mais tarde constituir seu universo ficcional ou, como ele próprio o denomina, seu "mundo mítico". Não só as estórias e casos narrados e cantados em prosa e verso foram aproveitados como inspiração para peças, poemas e romances. Também as próprias formas da narrativa oral e da poesia sertaneja foram assimiladas e reelaboradas por Suassuna. Suas primeiras produções - publicadas nos suplementos literários dos jornais do Recife, quando o autor fazia os estudos pré-universitários no Colégio Osvaldo Cruz – destacavam-se pelo domínio dos ritmos e métricas na poética nordestina.
Em 1946, ao ingressar na Faculdade de Direito do Recife, Ariano Suassuna ligou-se ao grupo de jovens escritores e artistas que, tendo à frente Hermilo Borba Filho, Joel Pontes, Gastão de Holanda e Aloísio Magalhães, acabavam de fundar o Teatro do Estudante Pernambucano. Em 1947, escreveu sua primeira peça, Uma mulher vestida de sol, que obteve o primeiro lugar em concurso de âmbito nacional promovido pelo TEP (Prêmio Nicolau Carlos Magno). No ano seguinte, especialmente para a inauguração da Barraca, o palco itinerante do TEP, escreveu Cantam as harpas de Sião, peça adaptada anos depois com o título de O desertor de Princesa. A esses dois ensaios iniciais seguiu-se a peça Os homens de barro (1949), em que as inquietações espirituais exacerbaram os processos expressionistas empregados na primeira versão de Cantam as harpas de Sião. As mesmas inquietações estiveram presentes em duas outras peças, Auto de João da Cruz, que recebeu o Prêmio Martins Pena em 1950, e Arco desolado (menção honrosa no concurso do IV Centenário da Cidade de São Paulo, 1954).
Após formar-se na Faculdade de Direito, em 1950, passou a dedicar-se também à advocacia. Mudou-se de novo para Taperoá, onde escreveu e montou a peça Torturas de um coração, em 1951. No ano seguinte, voltou a residir em Recife. São dessa época O castigo da soberba (1953), O rico avarento (1954) e o Auto da Compadecida (1955), peça que o projetou em todo o país e que seria considerada, em 1962, por Sábato Magaldi "o texto mais popular do moderno teatro brasileiro". Encenado, em 1957, pelo Teatro Adolescente do Recife no Festival de Teatros Amadores do Brasil realizado no Rio, o auto conquistou a medalha de ouro da Associação Brasileira de Críticos Teatrais. Sucesso permanente de público e de crítica, o Auto da Compadecida está hoje incorporado ao repertório internacional, traduzido e representado em espanhol, francês, inglês, alemão, polonês, tcheco, holandês, finlandês e hebraico.
Em 1956, Ariano Suassuna abandonou a advocacia para tornar-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco. No ano seguinte, foi encenada a sua peça O casamento suspeitoso, em São Paulo, pela Cia. Sérgio Cardoso, e O santo e a porca; em 1958, foi encenada a sua peça O homem da vaca e o poder da fortuna; em 1959, A pena e a lei, premiada dez anos depois no Festival Latino-Americano de Teatro.
Em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste, que montou em seguida a Farsa da boa preguiça (1960) e A caseira e a Catarina (1962). No início dos anos 60, interrompeu a bem-sucedida carreira de dramaturgo para dedicar-se às aulas de Estética na UFPe.
Foi membro fundador do Conselho Federal de Cultura (1967) e nomeado, pelo Reitor Murilo Guimarães, diretor do Departamento de Extensão Cultural da UFPe (1969). Ligado diretamente à cultura, iniciou em 1970, em Recife, o "Movimento Armorial", interessado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais. Convocou nomes expressivos da música para procurarem uma música erudita nordestina que viesse juntar-se ao movimento, lançado em Recife, em 18 de outubro de 1970, com o concerto Três Séculos de Música Nordestina do Barroco ao Armorial e com uma exposição de gravura, pintura e escultura.
Entre 1958-79, dedicou-se também à prosa de ficção, publicando o Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta (1971), laureado com o Prêmio Nacional de Ficção conferido em 1972 pelo Instituto Nacional do Livro; e história d’O rei degolado nas caatingas do sertão/Ao sol da onça caetana (1976), classificados por ele de "romance armorial-popular brasileiro".
Em 1989, foi eleito para a cadeira número 32 da Academia Brasileira de Letras, onde tomou posse em maio de 1990.
Com a exposição permanente de objetos da nossa cultura popular, o ambiente do segundo andar do Rio Scenarium homenageia um dos mais importantes e completos artistas brasileiros.
quarta-feira, 13 de junho de 2012
POESIA
BIO DE CRISANTO
SÃO JOSÉ DO EGITO-PE = 1929/2000
Sextilhas
Da visão desta janela
Eu vi os sonhos perdidos
A vida passou por mim
Causando dor e gemidos
E a esperança morreu
No vale dos esquecidos.
O mundo esqueceu de mim
Neste cubículo imundo
Onde mergulhei nos livros
Hora minuto e segundo
E fiz diversas viagens
Pela vastidão do mundo.
Não esqueço um só segundo
Dos dias da mocidade
Mais o tempo me roubou
Da vida mais da metade
Restando só amargura
Tristeza, dor e saudade.
PENSAMENTOS
P E N S A M E N T O S
A vida esconde nos lugares mais simples sua
Grande beleza que revela qual o significado
de porque persistimos em continuar vivendo.
(PABLO NERUDA)
Há vários motivos para não se amar uma
pessoa e um só para amá-la.
(CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)
Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas
jamais conseguirão deter a primavera inteira.
(CHE GUEVARA)
Os avarentos amealham como se fossem viver para sempre,
os pródigos dissipam, como se fossem morrer.
(ARISTÓTELES)
Sempre considerei as ações dos homens como as
melhores intérpretes dos seus pensamentos.
(JOHN LENNON)
Existem apenas duas maneiras de ver a vida. Uma
é pensar que não existem milagres e a outra é
pensar que tudo é um milagre.
(EINSTEIN)
É difícil ser religioso quando certas pessoas
nunca são incineradas por relâmpagos.
BILL GATES)
Creio no riso e nas lágrimas como antídotos contra o ódio e o terror.
(CHARLES CHAPLIN)
A criança é boa por natureza a sociedade é que a corrompe.
(ROUSSEAU)
As ilusões sustentam a alma como as asas sustentam o pássaro.
(VICTOR HUGO)
segunda-feira, 11 de junho de 2012
domingo, 10 de junho de 2012
sábado, 9 de junho de 2012
GRANDES PENSADORES
"Sábio é o homem que chega a ter consciência de sua ignorância."
BARÃO DE ITARARÉ
"O sábio não é o homem que fornece as verdadeiras
respostas; é o que formula as verdadeiras perguntas."
CLAUDE LÉVI-STRAUSS
"Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende."
JOÃO GUIMARÃES ROSA
"Um irmão pode não ser um amigo, mas um amigo será sempre um irmão."
BENJAMIN FRANKLIN
"O fracasso é a oportunidade de se começar de novo inteligentemente."
HENRY FORD
"O êxito é fácil de se obter, o difícil é merecê-lo."
ALBERT CAMUS
"A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas
só pode ser vivida olhando-se para a frente."
SOREN KIERKEGAARD
"O presente é a sombra que se move separando o ontem
do amanhã. Nela repousa a esperança."
FRANK LLOYD WRIGHT
"Há quem passe pelo bosque e só veja lenha para a fogueira."
LÉON TOLSTOI
"Árvores são poemas que a terra escreve para o céu. Nós
as derrubamos e as transformamos em papel
para registrar todo nosso vazio."
KHALIL GIBRAN
"Uma parte dos homens age sem pensar, e a outra pensa sem agir."
ROUSSEAU
"O sábio teme o céu sereno; em compensação, quando vem a
tempestade ele caminha sobre as ondas e desafia o vento."
CONFÚCIO
PIADA
Confissões De Um Moribundo
O caminhoneiro estava no seu leito de morte e pergunta à mulher, com voz moribunda:
— Mulher, sei que estou morrendo e nada disso mais me importa agora, mas só por curiosidade, você já me traiu alguma vez?
Ela pensou um instante, mas acabou confessando:
— Sim, eu te traí sim, mas apenas duas vezes e somente para te ajudar.
— Como foi a primeira?
— Você se lembra daquela vez que pediu um empréstimo ao banco para trocar o caminhão e eles não liberavam nunca o dinheiro e você já estava ficando desesperado?
— E de repente o dinheiro foi liberado de uma hora para outra?
— Sim, sim... Me lembro!
— Tem razão, foi por uma boa causa, naquela época eu estava até pensando até em me suicidar. E a outra vez?
— Você se lembra quando se candidatou a Presidente do Sindicato e faltavam apenas 165 votos para vencer?
CONTO
ARTUR AZEVEDO
SÃO LUIS-MA = 1855 / 1908
As Asneiras Do Guedes
Não é precisamente um conto o que hoje vou escrever.
Voltou do seu passeio a São Paulo o Guedes - o Guedes sabem? - o maior asneirão que o sol cobre, aquele mesmo que respondeu aqui há tempos quando numa roda lhe perguntaram se tinha filhos: - Tenho uma filha já adúltera.
- Adúltera?!
- Sim, senhor, adúltera; vai fazer 17 anos.
- Adulta quer o senhor dizer...
- Ou isso. E uma boa menina; só tem um defeito: é muito luxuriosa.
- Luxuriosa?!
- Sim, senhor, luxuriosa: gosta muito de luxar.
- Ah!
- Mas lá está minha mulher para lhe dar bons conselhos... sim, porque minha mulher é muito sensual.
- Sensual?!
- Sim, senhor, sensual: tem muito bom senso.
Pois é como lhes digo: tive o prazer de encontrar ontem esse precioso Guedes, cujas asneiras, colecionadas, dariam um volume de trezentas páginas, ou mais.
Eu estava num armarinho da rua do Ouvidor, onde entrava para cumprimentar a minha espirituosa amiga D. Henriqueta, que andava, como sempre, fazendo compras, enchendo-se de caixinhas e pequeninos embrulhos, adquiridos aqui e ali:
O Guedes, mal que me viu, correu a dar-me um abraço, dizendo: - Li no "O País" a notícia do seu aniversario...
E recuando dois passos, tomou uma atitude solene, deixou cair as pálpebras, e acrescentou: - Faço votos para que você tenha um futuro tão brilhante como o que passou.
Agradeci comovido essa manifestação de apreço envolvida num disparate, e apresentei o Guedes à minha espirituosa amiga D. Henriqueta, que mordia os lábios para não rir.
- Apresento-lhe, minha senhora, o mais extraordinário reformador da língua portuguesa: o Guedes, o grande Guedes, que acaba de chegar de São Paulo, onde esteve a passeio.
- Era tempo de fazer uma viagem! - explicou ele. - Foi a primeira vez que saí do Rio de Janeiro.
- Eu também não saí ainda desta cidade senão para ir uma vez a Petrópolis e duas a Niterói - disse D. Henriqueta.
- Vejo então que a senhora é cortesã... - acudiu o Guedes curvando os lábios no mais amável dos seus sorrisos.
- Cortesã?!
- Cortesã, sim... filha da Corte...
- Oh! Guedes! - observei baixinho. - Pois você não vê que está dizendo uma inconveniência?
- Tem razão... Atualmente não se deve falar em Corte...
E emendou: - Vejo então que a senhora é capitalista federalista.
D. Henriqueta desta vez riu-se a perder. É provável que ao leitor não aconteça o mesmo. Paciência.
- Ó Guedes! Vamos lá! Diga-me! Que impressões trouxe de São Paulo?
- Muito boas! Aquilo é uma grande terra!
- Dizem que há lá muita sociabilidade.
- Como?
- Muita convivência...
- Isso há... As famílias visitam-se... Ou moços coabitam com as moças.
- Ora essa!
- Que entende você por "coabitar"?
- E... é...
- É uma indecência... uma inconveniência... uma coisa que não se diz!...
O Guedes inflamou-se: - Está você muito enganado... "Coabitar" é...
E voltando-se para um dos caixeiros do armarinho:
- O senhor tem aí um dicionário que me empreste?
- Pois não?
E daí a dois minutos o Guedes tinha nas mãos os dois volumes do Aulete.
- Muito bem! - disse eu. - Procure "coabitar".
Depois de folhear em vão o dicionário durante um ror de tempo, o teimoso exclamou:
- Não dá! Não dá! Vejam...
- Perdão: você está procurando com u: deve ser com o!
- Tem razão, tem razão... Onde estava eu com a cabeça?
E o Guedes pôs-se de novo a folhear o Aulete.
- Não dá! Também não dá com o! Veja: de coa para coação! Não dá com u nem com o!
Valha-o Deus, Guedes, valha-o Deus! Você está procurando sem h? Dê cá o dicionário!
E com um sorriso de triunfo mostrei ao Guedes a significação da palavra.
- Olhe, leia: "Coabitar, habitar, viver conjuntamente".
- Mas isso...
- Agora veja o que o Aulete acrescenta entre parênteses:
"Diz-se particularmente de duas pessoas de diferente sexo".
- Perdão! - bradou o Guedes furioso. - Perdão! Eu não disse particularmente, mas alto e bom som, e só não me ouviu quem não me quis ouvir!
E batendo com a mão espalmada sobre o balcão:
- Eu não sou homem que diga as coisas particularmente!
CONTO
ALCÂNTARA MACHADO
SÃO PAULO-SP = 1901 / 1935
A Sociedade
— Filha minha não casa com filho de carcamano!
A esposa do Conselheiro José Bonifácio de Matos e Arruda disse isso e foi brigar com o italiano das batatas.
Teresa Rita misturou lágrimas com gemidos e entrou no seu quarto batendo a porta. O Conselheiro José Bonifácio limpou as unhas com o palito, suspirou e saiu de casa abotoando o fraque.
O esperado grito do cláxon fechou o livro de Henri Ardel e trouxe Teresa Rita do escritório para o terraço.
O Lancia passou como quem não quer. Quase parando.
A mão enluvada cumprimentou com o chapéu Borsalino.
Uiiiiia-uiiiiia! Adriano Meli calcou o acelerador. Na primeira esquina fez a curva. Veio voltando. Passou de novo. Continuou. Mais duzentos metros. Outra curva. Sempre na mesma rua. Gostava dela. Era a Rua da Liberdade. Pouco antes do número 259-C sabe: uiiiiia-uiiiiia!
— O que você está fazendo aí no terraço, menina?
— Então nem tomar um pouco de ar eu posso mais?
Lancia Lambda, vermelhinho, resplendente, pompeando na rua. Vestido de Camilo, verde, grudado à pele, serpejando no terraço.
— Entre já para dentro ou eu falo com seu pai quando ele chegar!
— Ah meu Deus, meu Deus, que vida, meu Deus!
Adriano Melli passou outras vezes ainda. Estranhou. Desapontou. Tocou para a Avenida Paulista.
Na orquestra o negro de casaco vermelho afastava o saxofone da beiçorra para gritar:
Dizem que Cristo nasceu em Belém...
Porque os pais não a haviam acompanhado (abençoado furúnculo inflamou o pescoço do Conselheiro José Bonifácio) ela estava achando um suco aquele vesperal do Paulistano. O namorado ainda mais.
Os pares dançarinos maxixavam colados. No meio do salão eram um bolo tremelicante. Dentro do círculo palerma de mamãs, moças feitas e moços enjoados. A orquestra preta tonitroava. Alegria de vozes e sons. Palmas contentes prolongaram o maxixe. O banjo é que ritmava os passos.
— Sua mãe me fez ontem uma desfeita na cidade.
— Não!
— Como não? Sim senhora. Virou a cara quando me viu.
... mas a história se enganou!
As meninas de ancas salientes riam porque os rapazes contavam episódios de farra muito engraçados. O professor da Faculdade de Direito citava Rui Barbosa para um sujeitinho de óculos. Sob a vaia do saxofone: turururu-turururum!
— Meu pai quer fazer um negócio com o seu.
— Ah sim?
Cristo nasceu na Bahia, meu bem...
O sujeitinho de óculos começou a recitar Gustave Le Bon mas a destra espalmada do catedrático o engasgou. Alegria de vozes e sons.
... e o baiano criou!
— Olhe aqui, Bonifácio: se esse carcamano vem pedir a mão da Teresa para o filho, você aponte o olho da rua para ele compreendeu?
— Já sei, mulher, já sei.
BERTOLT BRECHT
ALEMANHA = 1898 / 1956
O Analfabeto Político
"O pior analfabeto
É o analfabeto político,
Ele não ouve, não fala,
Nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo da vida,
O preço do feijão, do peixe, da farinha,
Do aluguel, do sapato e do remédio
Dependem das decisões políticas.
O analfabeto político
É tão burro que se orgulha
E estufa o peito dizendo
Que odeia a política.
Não sabe o imbecil que,
Da sua ignorância política
Nasce a prostituta, o menor abandonado,
E o pior de todos os bandidos,
Que é o político vigarista,
Pilantra, o corrupto e lacaio
Das empresas nacionais e multinacionais.
PENSAMENTOS
"Sábio é o homem que chega a ter consciência de sua ignorância."
BARÃO DE ITARARÉ
"O sábio não é o homem que fornece as verdadeiras
respostas; é o que formula as verdadeiras perguntas."
CLAUDE LÉVI-STRAUSS
"Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende."
JOÃO GUIMARÃES ROSA
"Um irmão pode não ser um amigo, mas um amigo será sempre um irmão."
BENJAMIN FRANKLIN
"O fracasso é a oportunidade de se começar de novo inteligentemente."
HENRY FORD
"O êxito é fácil de se obter, o difícil é merecê-lo."
ALBERT CAMUS
"A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas
só pode ser vivida olhando-se para a frente."
SOREN KIERKEGAARD
"O presente é a sombra que se move separando o ontem
do amanhã. Nela repousa a esperança."
FRANK LLOYD WRIGHT
"Há quem passe pelo bosque e só veja lenha para a fogueira."
LÉON TOLSTOI
"Árvores são poemas que a terra escreve para o céu. Nós
as derrubamos e as transformamos em papel
para registrar todo nosso vazio."
KHALIL GIBRAN
"Uma parte dos homens age sem pensar, e a outra pensa sem agir."
ROUSSEAU
"O sábio teme o céu sereno; em compensação, quando vem a
tempestade ele caminha sobre as ondas e desafia o vento."
CONFÚCIO
POESIA
ARTUR AZEVEDO(*)
SÃO LUÍS-MA = 1855 / 1908
Velha Anedota
Tertuliano, frívolo peralta,
Que foi um paspalhão desde fedelho,
Tipo incapaz de ouvir um bom conselho,
Tipo que, morto, não faria falta;
Lá um dia deixou de andar à malta,
E, indo à casa do pai, honrado velho,
A sós na sala, diante de um espelho,
À própria imagem disse em voz bem alta:
- Tertuliano, és um rapaz formoso!
És simpático, és rico, és talentoso!
Que mais no mundo se te faz preciso? –
Penetrando na sala, o pai sisudo,
Que por trás da cortina ouvira tudo,
Severamente respondeu: - Juízo. -
(*) = ARTUR NABANTINO GONÇALVES DE AZEVEDO
CRÔNICA
ANTÔNIO MARIA
RECIFE-PE = 1921-1964
Café Com Leite
É preciso amar, sabe? Ter-se uma mulher a quem se chegue, como o barco fatigado à sua enseada de retorno. O corpo lasso e confortável, de noite, pede um cais. A mulher a quem se chega, exausto e, com a força do cansaço, dá-se o espiritualismo amor do corpo.
Como deve ser triste a vida dos homens que tem mulheres de tarde, em apartamentos de chaves emprestadas, nos lençóis dos outros! Quem assim procede (o tom é bíblico e verdadeiro) divide a mulher com o que empresta as chaves.
Para os chamados "grandes homens" a mulher é sempre uma aventura. De tarde, sempre. Aquela mulher que chega se desculpando; e se despe, desculpando-se; e se crispa, ao ser tocada e cerra os olhos, com toda força, com todo desgosto, enquanto dura o compromisso. É melhor ser-se um "pequeno homem".
Amor não tem nada a ver com essas coisas. Amor não é de tarde, a não ser em alguns dias santos. Só é legítimo quando, depois, se pega no sono. E a um complemento venturoso, do qual alguns se descuidam. O café com leite, de manhã. O lento café com leite dos amantes, com a satisfação do prazer cumprido.
No mar, tudo é menor. O socialismo, a astrofísica, a especulação imobiliária, a ioga, todo asceticismo da ioga... tudo é menor... O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira.
PIADA
Confissões De Um Moribundo
O caminhoneiro estava no seu leito de morte e pergunta à mulher,
com voz moribunda:
— Mulher, sei que estou morrendo e nada disso mais me importa agora, mas só por curiosidade, você já me traiu alguma vez?
Ela pensou um instante, mas acabou confessando:
— Sim, eu te traí sim, mas apenas duas vezes e somente para te ajudar.
— Como foi a primeira?
— Você se lembra daquela vez que pediu um empréstimo ao banco para trocar o caminhão e eles não liberavam nunca o dinheiro e você já estava ficando desesperado?
— E de repente o dinheiro foi liberado de uma hora para outra?
— Sim, sim... Me lembro!
— Tem razão, foi por uma boa causa, naquela época eu estava até pensando até em me suicidar. E a outra vez?
— Você se lembra quando se candidatou a Presidente do Sindicato e faltavam apenas 165 votos para vencer?
POESIA
A U S T R O C O S T A
LIMOEIRO-PE. = 1899 /1953
Capibaribe, Meu Rio...
Capibaribe, meu rio,
espelho do meu sonhar
quero fazer-te o elogio,
mas penso: Se te elogio,
é a mim que estou a elogiar...
Capibaribe, meu rio,
espelho do meu sonhar...
Meu velho Capibaribe
meu irmão de sonho e amor...
Capibaribe, meu rio,
Que vida levamos nós!
tu corres: eu rodopio...
E há quarenta anos a fio:
sempre juntos - e tão sós!
Capibaribe, meu rio,
que vida levamos nós!
Mas sabe Deus a constância
com que sofreste e eu sofri,
para, vencida a distância,
vermos quão cega foi a ânsia
com que sofreste e eu sofri...
Capibaribe, meu rio,
vinhas de longe a correr.
- Aonde vais, poeta vadio?
E ouvindo o meu desafio,
paraste para me ver...
Capibaribe, meu rio,
vinhas de longe correr...
Paraste... e, logo, nascia
em mim a doida ambição
de seguir-te... Até que um dia,
fiz a enorme tropelia
de abandonar meu rincão!
Paraste... e, logo, nascia
em mim a doida ambição...
Capibaribe, meu rio,
tal chegaras, tal cheguei...
Mercê do Fado sombrio,
tudo sofri, mas com brio:
sem dizer "Aqui-del-Rei!..."
Capibaribe, meu rio,
tal chegara, tal cheguei!
Por te ouvir, que triste engano,
Capibaribe!... Que horror!
Que destino inglório e insano!
Tu corrias para o Oceano,
eu corria para o Amor...
Por te ouvir, que triste engano!
Triste, mas encantador...
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