POESIAS



ANTERO DE QUENTAL
PORTUGAL, 1842-1891
 

No Circo
(A João de Deus) 

 

Muito longe daqui, nem eu sei quando,
Nem onde era esse mundo, em que eu vivia...
Mas tão longe... que até dizer podia
Que enquanto lá andei, andei sonhando...

Porque era tudo ali aéreo e brando,
E lúcida a existência amanhecia...
E eu... leve como a luz... até que um dia
Um vento me tomou, e vim rolando...

Caí e achei-me, de repente, envolto
Em luta bestial, na arena fera,
Onde um bruto furor bramia solto.


Senti um monstro em mim nascer n'essa hora,
E achei-me de improviso feito fera...
— É assim que rujo entre leões agora!




ALFRED DE MUSSET
FRANÇA, 1810-1857 
Tristeza *
 
Eu perdi minha vida e o alento,
E os amigos, e a intrepidez,
E até mesmo aquela altivez
Que me fez crer no meu talento.
Vi na Verdade, certa vez,
A amiga do meu pensamento;
Mas, ao senti-la, num momento
O seu encanto se desfez.
Entretanto, ela é eterna, e aqueles
Que a desprezaram – pobres deles!
Ignoraram tudo de talvez.
Por ela Deus se manifesta.
O único bem que ainda me resta
É ter chorado uma ou outra vez.

*
  Tradução de Guilherme de Almeida 



AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA
BELO HORIZONTE-MG  =  1937 

Definição 
O corpo é onde
é carne:
o corpo é onde
há carne
e o sangue
é alarme.
O corpo é onde
é chama:
o corpo é onde
há chama
e a brasa
inflama.
O corpo é onde
é luta:
o corpo é onde
há luta
e o sangue
exulta.
O corpo é onde
é cal:
o corpo é onde
há cal
e a dor
é sal.
O corpo
é onde
e a vida
é quando.


MANUEL BANDEIRA
RECIFE-PE  = 1886-1968

 Improviso


Cecília, és libérrima e exata
Como a concha.
Mas a concha é excessiva matéria,
E a matéria mata.

 
Cecília, és tão forte e tão frágil
Como a onda ao termo da luta.
Mas a onda é água que afoga:
Tu, não, és enxuta.


Cecília, és, como o ar,
Diáfana, diáfana.
Mas o ar tem limites:
Tu, quem te pode limitar?

 Definição:
Concha, mas de orelha:
Água, mas de lágrima;
Ar com sentimento.
- Brisa, viração
Da asa de uma abelha


 

JOÃO CABRAL DE MELO NETO
RECIFE-PE  =  1920 - 1999

Meus BlogsA webHomem Falando No Escuro

Dentro da noite ao meu lado
grandes contemplações silenciosas;
dentro da noite, dentro do sonho
onde os espaços e o silêncio se confundem.

Um gesto corria do princípio
batendo asas que feriam de morte.
Eu me sentia simultaneamente adormecer
e despertar para as paisagens mais cotidianas.

Não era inconfessável que eu fizesse versos
mas juntos nos libertávamos a cada novo poema.
Apenas transcritos eles nunca foram meus,
e de ti nada restava para as cidades estrepitosas.


Só os sonhos nos ocupam esta noite,
nós dois juntos despertamos o silêncio.
Dizia-se que era preciso uma inundação,
mas nem mesmo assim uma estrela subiu.
 




PORTUGAL  =  1888-1935


Sonhe

 
"Sonhe com as
estrelas, apenas sonhe,
elas só podem brilhar no céu.


Não tente deter o vento,
ele precisa correr por toda parte,
ele tem pressa de chegar, sabe-se lá aonde.

As lágrimas?
Não as seque,
elas precisam correr na minha,
na sua, em todas as faces.

O sorriso!
Esse, você deve segurar,
não o deixe ir embora, agarre-o!

Persiga um sonho,
mas, não o deixe viver sozinho.

Alimente a sua alma com amor,
cure as suas feridas com carinho.

Descubra-se todos os dias,
deixe-se levar pelas vontades,
mas, não enlouqueça por elas.

Abasteça seu coração de fé,
não a perca nunca.


Alague seu coração de esperanças,
mas, não deixe que ele se afogue nelas.


Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-as.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!

Circunda-se de rosas, ama, bebe e cala.
O mais é nada".

 


AUGUSTO DOS ANJOS
CRUZ DO ESPÍRITO SANTO-PB = 1884-1914

 
 
Hora da minha morte. Hirta, ao meu lado,
A idéia estertorava-se… No fundo
Do meu entendimento moribundo
jazia o último número cansado.
 

Era de vê-lo, imóvel, resignado,
Tragicamente de si mesmo oriundo,
Fora da sucessão, estranho ao mundo,
Com o reflexo fúnebre do Increado:
 

Bradei: — Que fazes ainda no meu crânio?
E o último número, atro e subterrâneo,
Parecia dizer-me: “É tarde, amigo!

 Pois que a minha ontogênica Grandeza
Nunca vibrou em tua língua presa,
Não te abandono mais! Morro contigo!”

 

 
ASCENSO FERREIRA
PALMARES-PE  =  1895-1965

Felicidade

Quanto mais busco este teu peito amigo
aonde eu possa repousar as dores,
dos ódios, das paixões, dos dissabores,
deste viver cruento que maldigo,

mais eu compreendo que jamais consigo
gozar dos teus sublimes esplendores,
- ó estrela ideal dos sofredores,
- seguro porto, desta vida abrigo.

Na dura senda deste meu viver
vejo às vezes surgires de repente
extiguindo um momento meu sofrer.

Mas quando em meio estou dos teus gozares
de desventura e nuvem, bruscamente
te furtas, ó felicidade, aos meus olhares.

 


ALBERTO DE OLIVEIRA
PALMITAL DE SAQUAREMA-SP  =  1857-1937

 
Aparição 



Horas já mortas, como andasse — em falta
De um coração qualquer para entendê-las,
A contar minhas mágoas em voz alta
Às arvores das ruas e às estrelas,

Ligeiros passos ouço de repente
Por trás de mim. Ólho e não vejo nada.
Ah! murmurei, é o vento, certamente,
Que varre as folhas secas da calçada.

Nascia a lua. O baço globo enorme
Sobe dentre os morros, pelo céu flutua.
Brilha a ardosia dos tetos, a água dorme,
Abrem-se as dálias, palpitando à lua.

E às estrelas, e às arvores, em pranto,
Eu, como um ébrio, a minha dor contava;
Quando ouvi novos passos e, entre espanto,
Vi uma sombra que me acompanhava.




ALBERTO DA CUNHA MELO
JABOATÃO DOS GUARARAPES-PE  =  1942 - 2007

 

  
O céu parece revestido
de uma camada de cimento:
deixo as marquises porque sei
que esta chuva não passará.
Se esperasse um tempo de paz,
nem meu túmulo construiria.
Começo e recomeço a casa
de papelão em pleno inverno.
Um plano, um programa de ação
debaixo de uma árvore em prantos,
e voltar à primeira página
branca e ferida pela pressa.
A poesia já não seduz
a quem mais forte ultrapassou-a,
libertando um pouco de vida
e luz, da corrente de estrelas.
Toda renúncia nos convida
a recomeçar outra busca,
porque algo a inocência perdeu
no chão, para arrastar-se assim.

 


GONÇALVES DIAS
CAXIAS-MA  =  1823-1864

 
Amanhã

 

Amanhã! — é o sol que desponta,
É a aurora de róseo fulgor,
É a pomba que passa e que estampa
Leve sombra de um lago na flor.

Amanhã! — é a folha orvalhada,
É a rola a carpir-se de dor,
É da brisa o suspiro, — é das aves
Ledo canto, — é da fonte — o frescor.

Amanhã! — são acasos da sorte;
O queixume, o prazer, o amor,
O triunfo que a vida nos doura,
Ou a morte de baço palor.

Amanhã! — é o vento que ruge,
A procela d'horrendo fragor,
É a vida no peito mirrada,
Mal soltando um alento de dor.

Amanhã! — é a folha pendida.
É a fonte sem meigo frescor,
São as aves sem canto, são bosques
Já sem folhas, e o sol sem calor.

Amanhã! — são acasos da sorte!
É a vida no seu amargor,
Amanhã! — o triunfo, ou a morte;
Amanhã! — o prazer, ou a dor!

Amanhã! — o que val', se hoje existes!
Folga e ri de prazer e de amor;
Hoje o dia nos cabe e nos toca,
De amanhã Deus somente é Senhor!





FERNANDO PESSOA
PORTUGAL  =  1888-1935


 
Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

 Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.





AUGUSTO DOS ANJOS
CRUZ DO ESPÍRITO SANTO-PB  =  1884-1914

 

No mundo vago das idealidades
Afundei minha louca fantasia;
Cedo atraiu-me a auréola fulgidia
Da refulgência antiga das idades.

Mas ao esplendor das velhas majestades
Vacila a mente e o seu ardor esfria;
Busquei então na nebulosa fria
Das ilusões, sonhar novas idades.

Que desespero insano me apavora!
Aqui, chora um ocaso sepultado;
Ali, pompeia a luz da branca aurora.

E eu tremo entre um mistério escuro:
- Quero partir em busca do Passado,
- Quero correr em busca do Futuro.


 
BASTOS TIGRE
RECIFE-PE  =  1882-1957

Poesia

 
Embora a turba iconoclasta, em fúria,
Pretenda depredar os teus altares,
Resistirás! Sobrepairando à injúria,
Farás honra aos teus numes tutelares. 

Dos teus próprios fiéis fere-te a incúria;
Abandonam-te às chufas, aos esgares
Dos novos corifeus de língua espúria,
De idéias parvas e expressões alvares.
 
Mas viverás, Poesia soberana,
Pelo esplendor solar que te ilumina,
Dando-te a excelsa forma parnasiana.

 Não tombará teu nobre culto em ruína,
Pois és, Poesia, o anseio da alma humana
De conseguir a perfeição divina.

 



AMADEU AMARAL
CAPIVARI-SP = 1875-1929




Eis a Vida: seguir umas quimeras vagas,
lançando a mão em sangue aos cardos e aos espinhos
rolar no pó; gemer; deixar pelos caminhos
mil farrapos de carne e o sangue de mil chagas;

sorver o horrendo fel que anda em todos os vinhos,
o veneno que jaz em todas as teriagas;
persistir, todavia, entre as chufas e as pragas
dos que vão, a ulular, por trilhos convizinhos;

chegar, enfim, exausto, ao fastígio da idade,
ver desfeito o jardim de encanto que sonhamos,
cair desfalecido e - supremo revés -

olhando para trás, ver que a felicidade
ficou além, no vale, onde, espectros, passamos,
ficou além, na flor que calcamos aos pés...



ALBERTO DE OLIVEIRA
PALMITAL DE SAQUAREMA-SP  =  1857-1937

 
A Um Poeta
 

Não têm teus versos, agora
Que se foi teu claro dia,
O ímpeto, o fogo, a harmonia
De outrora.

A ideia, porém, mais pura,
A ideia aos poucos nascida
De observar a Dora e a vida,
Fulgura.

Assim, posto o sol, os rios
Não são mais como eram dantes;
Tornam-se, em vez de brilhantes,
Sombrios.

Mas da noite o céu, com os mundos
Acesos, na água a feri-los,
Torna-os mais, sobre tranqüilos,
Profundos...


SOLANO TRINDADE
RECIFE-PE  =  1908-1974

 
Desci à praia
Para ver o homem do mar,
E vi que o homem
É maior que o mar

Subi ao monte
Pra ver o homem da terra,
E vi que o homem
É maior que a terra

Olhei para cima
Para ver o homem do céu,
E vi que o homem
É maior que o céu.



ORLANDO TEJO
CAMPINA GRANDE-PB  =  1935


Impasse


Se ficar onde estou não faço nada,
Se sair por aí corro perigo,
Se me calo minh'alma é sufocada,
Se disser o que sei faço inimigo...

Se pensar vou trair a madrugada
E se sonho demais vem o castigo,
Se quiser subo até o fim de escada,
Mas precisa brigar, e eu não brigo!

Se cantar atropelo o contracanto,
Se não canto maltrato o coração,
Se me faço sofrer me desencanto,

Se reprimo o ideal perco a razão,
Se perder a razão, resta-me o prato
E meu pranto não faz uma canção.





OLEGARIO MARIANO
RECIFE-PE  =  1889-1958 


Ao Calor Da Lareira 


 
Mesmo só, quando ao pé do fogo da lareira,
Ponho-me a recordar o que fui e o que sou
A minha sombra, a eterna companheira
Que em dias bons e maus sempre me acompanhou,
Fica perto de mim de tal maneira
Que não parece sombra. É alguém que ali ficou.
Somos dois; cada qual mais triste e mais calado.
Anda lá fora a lua garoando no jardim.
Tenho pena da sombra imóvel ao meu lado
Possuida da expressão de um silêncio sem fim.
Eu recordo em voz alta o meu tempo passado
E a minha sombra chega mais perto de mim.
Ah! Quem me dera ter um bem que se pareça
Que lembre vagamente outro que longe vai
As mãos de minha mãe sobre minha cabeça
O consolo de amigo e a fala do meu pai.
E antes que a noite passe e a alma se enterneça
Abro a janela e espio a lua que se esvai.
Qual, é inútil. Por mais que essa lembrança esqueça
Uma lágrima cresce em meus olhos e cai.
Deus há-de permitir que eu adormeça
Com as mãos de minha mãe sobre minha cabeça,
Ouvindo a fala comovida de meu pai.






JOÃO CABRAL DE MELO NETO

RECIFE-PE  =  1920-1999


 

O Sol Em Pernambuco



 


(O sol em pernambuco leva dois sóis,


sol de dois canos, de tiro repetido;


o primeiro dos dois. o fuzil de fogo.


incendeia a terra: tiro de inimigo).


O sol ao aterissar em Pernambuco,


acaba de voar dormindo o mar deserto; mas ao dormir


se refaz, e pode decolar mais aceso;


assim, mais do que acender incendeia,


para rasar mais desertos no caminho;


ou rasá-los mais, até um vazio de mar

por onde ele continue a voar dormindo.
 




GILBERTO AMADO
ESTÂNCIA-SE  =  1887-1969

 
Predestinação...

 
Se ovelha fosses e num rebanho de ovelhas
Rolo branco a rolar ao longe num marulho
Na unidade do teto uma telha entre as telhas
E no algodoal em flor indistinto capulho.
 

Grão de areia da praia... abelha entre as abelhas
Chama do mesmo incêndio... Este é o meu grande orgulho:
Rosa, eu iria buscar-te entre as rosas vermelhas
Névoa, eu te apreenderia entre as brumas de julho.
 

Mendiga de farrapo, ou princesa de túnica
Na feira, no salão, na estrada, na taverna
Eu sempre teria o dom de distinguir-te, ó Única!
 

Querendo ou sem querer, como a criança que dorme
Dormindo individua a presença materna,
Por predestinação, por uma força enorme!

  

 
FERREIRA GULLAR
SÃO LUÍS-MA  =  1930

 
Nós, Latino-americanos
À Revolução Sandinista

 

Somos todos irmãos
mas não porque tenhamos
a mesma mãe e o mesmo pai:
temos é o mesmo parceiro
que nos trai.Somos todos irmãos
não porque dividamos
o mesmo teto e a mesma mesa:
divisamos a mesma espada
sobre nossa cabeça.

Somos todos irmãos
não porque tenhamos
o mesmo braço, o mesmo sobrenome:
temos um mesmo trajeto
de sanha e fome.Somos todos irmãos
não porque seja o mesmo sangue
que no corpo levamos:
o que é o mesmo é o modo
como o derramamos.

 



GERALDINO BRASIL
ATALAIA-AL  =  1926-1996

O Louco

 

Inventou que era deus e fez das suas:
Óleos n'água pingou, criou aquarelas
Partiu uma maça em duas luas
e cortou carambolas fez estrelas.

Quis ser o diabo e riu dos desatinos:
e riu caretas diante de dois cegos
Falou na história antiga a dois meninos
E da vida moderna a poetas gregos.

Chorou e o diabo o fez cortar cebolas
e lhe enxugou as lágrimas com lãs
de vidro e gritou puuum! com as suas artes.

Deus bondoso o acalmou com carambolas
que comeu e então fez duas manhãs
partindo uma laranja em duas partes.





FERNANDO PESSOA
PORTUGAL, 1888-1935



A Miséria Do Meu Ser

 

A miséria do meu ser,
Do ser que tenho a viver,
Tornou-se uma coisa vista.
Sou nesta vida um qualquer
Que roda fora da pista.


Ninguém conhece quem sou
Nem eu mesmo me conheço
E, se me conheço, esqueço,
Porque não vivo onde estou.
Rodo, e o meu rodar apresso.

É uma carreira invisível,
Salvo onde caio e sou visto,
Porque cair é sensível
Pelo ruído imprevisto...
Sou assim. Mas isto é crível?




CARLOS PENA FILHO
RECIFE-PE  =  1929-1960
 

Retrato Na Praia

 

Ei-la ao sol, como um claro desafio
ao tenuíssimo azul predominante.
Debruçada na areia e assim, diante
do mar, é um animal rude e bravio.

 Bem perto, há um comentário sobre estio,
mormaço e sonolência. Lá, distante,
muito vagos indícios de um navio
que ela talvez contemple nesse instante. 

Mas o importante mesmo é o sol, que esse desliza
por seu corpo salgado, enxuto e belo,
como se nuvem fosse, ou quase brisa. 

E desce pelos seus braços, e rodeia
seu brevíssimo e branco tornozelo,
onde se aquece e cresce, e se incendeia.
 




ANTÓNIO NOBRE
PORTUGAL, 1867-1900

 
Ai De Mim!

 
 
Venho, torna-me velho esta lembrança!
D'um enterro d'anjinho, nobre e puro:
Infancia, era este o nome da criança
Que, hoje, dorme entre os bichos, lá no escuro...

Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança
Acompanharam-n'o ao jazigo obscuro,
E recebeu, segundo a velha usança,
A chave do caixão o meu Futuro.

Hoje, ambulante e abandonada Ermida,
Leva-me o fado, á bruta, aos empurrões,
Vá para a frente! Marcha! Á Vida! Á Vida!

Que hei-de fazer, Senhor! o qu'é que espera
Um bacharel formado em illuzões
Pela Universidade da Chymera?



ANTERO  DE  QUENTAL
PORTUGAL = 1842-1891


Hino à Razão



Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece.
É a voz dum coração que te apetece,
Duma alma livre só a ti submissa.

Por ti é que a poeira movediça
De astros, sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.

Por ti, na arena trágica, as nações
buscam a liberdade entre clarões;
e os que olham o futuro e cismam, mudos,

Por ti podem sofrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos que combatem
Tendo o teu nome escrito em  seus escudos!

 




ÂNGELO MONTEIRO
PENEDO-AL  =  1942

O Recife Oculto

 
Há o Recife que viveu em mim
E não o que eu vivi.
Há o Recife que acendeu minhas perplexidades
Quando ao passar abstraído em suas pontes
Atrás de mim deixei correndo as águas
Ao seu destino numero e só.
Há o Recife enflorado de presenças
Sem história. E há outro anfíbio e oculto
Plasmado pelas ânsias de uma fé intensa
À redondez das coisas óbvias.
Uma cidade é mais que uma cidade
Para todo o que foge às superfícies
E, atrás de encontros mais irmãos
Que a silhueta fria dos seus edifícios,
Busca descer às paragens mais secretas
Onde lateja o sangue das correntezas
E a alma viscosa dos seus pobres mangues
Ao seu cruzamento de ontens e amanhãs.
Por isso, para mim,
Que celebrei a falácia das auroras
E desprezei a dor velada dos crepúsculos
Fala mais alto o recife que eu não vi.
Aquele que está sempre de passagem
Como a rua passeada há muitos anos
Ou o reflexo distante da paisagem
Dos meus enganos e meus desenganos.
O Recife suspenso sobre as águas
Em memória dos sonhos desfolhados
Na lápide dos dias.




A D É L I A  P R A D O


 
Um corpo quer outro corpo
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse que você é estúpido
ele diria sou mesmo
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre nossa fragilidade
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade
O Caminho do Céu.


 Adélia Luzia Prado Freitas (nasceu em Divinópolis, Minas Gerais em 13 de dezembro de 1935)





ITABIRA-MG  =  1902-1987

 
Mãos Dadas

 

"Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.


Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente."

 



ASCENSO FERREIRA
PALMARES-PE  =  1895-1965

 
A Chama

 
 

na minha vida cruel e avara

és irrequieta chama clara

iluminando a solidão.

Porém, repara bem, repara

e vê se a nada se compara

o imenso horror desta aflição:

Se acaricio a chama clara

a chama queima minha mão.






ALBERTO DA CUNHA MELO
JABOATÃO DOS GUARARAPES-PE  =  1942-2007


Aos Mestres, Com Desrespeito

 
 
Dizem que meu povo
é alegre e pacífico.


Eu digo que meu povo
é uma grande força insultada.

Dizem que meu povo
aprendeu com as argilas
e os bons senhores de engenho
a conhecer seu lugar.

Eu digo que meu povo
deve ser respeitado
como qualquer ânsia desconhecida
da natureza.

Dizem que meu povo
não sabe escovar-se
nem escolher seu destino.

Eu digo que meu povo
é uma pedra inflamada
rolando e crescendo
do interior para o mar.






GUERRA JUNQUEIRO
PORTUGAL  =  1850-1923

 
Canção De Batalha


 
Que durmam, muito embora, os pálidos amantes,
Que andaram contemplando a Lua branca e fria...
Levantai-vos, heróis, e despertai, gigantes!
Já canta pelo azul sereno a cotovia
E já rasga o arado as terras fumegantes...

Entra-nos pelo peito em borbotões joviais
Este sangue de luz que a madrugada entorna!
Poetas, que somos nós? Ferreiros d'arsenais;
E bater, é bater com alma na bigorna
As estrofes de bronze, as lanças e os punhais.

Acendei a fornalha enorme — a Inspiração.
Dai-lhe lenha — A Verdade, a Justiça, o Direito —
E harmonia e pureza, e febre, e indignação;
E p'ra que a labareda irrompa, abri o peito
E atirai ao braseiro, ardendo, o coração!

Há-de-nos devorar, talvez, o incêndio; embora!
O poeta é como o Sol: o fogo que ele encerra
É quem espalha a luz nessa amplidão sonora...
Queimemo-nos a nós, iluminando a Terra!
Somos lava, e a lava é quem produz a aurora!



 
ASCENSO FERREIRA
PALMARES-PE  =  1895-1965

 
História Pátria

 
Plantando mandioca, plantando feijão,
colhendo café, borracha, cacau,
comendo pamonha, canjica, mingau,
rezando de tarde nossa ave-maria,
Negramente...
Caboclamente...
Portuguesamente...
A gente vivia.

 De festas no ano só quatro é que havia :
Entrudo e Natal, Quaresma e Sanjoão !
Mas tudo emendava num só carrilhão !
E a gente vadiava, dançava, comia...
Negramente...
Caboclamente...
Portuguesamente...
Todo santo dia !

O Rei, entretanto, não era da terra !
E gente pra Europa mandou-se estudar...
Gentinha idiota que trouxe a mania
de nos transformar
da noite pro dia...

A gente que tão
Negramente...
Caboclamente...
Portuguesamente...
Vivia !

(E foi um dia a nossa civilização
tão fácil de criar!)

 Passou-se a pensar,
passou-se a cantar,
passou-se a dançar,
passou-se a comer,
passou-se a vestir,
passou-se a viver,
passou-se a sentir,
tal como Paris
pensava,
cantava,
comia,
sentia...
A gente que tão
Negramente...
Caboclamente...
Portuguesamente...
Vivia !





ANTERO DE QUENTAL
PORTUGAL  =  1842-1891


A Um Poeta

 
Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno.



Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares
Um mundo novo espera só um aceno...


Escuta! É a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! São canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!


Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!
 


FLORBELA ESPANCA
PORTUGAL  =  1894-1930

 À Guerra!

 

Fala o canhão. Estala o riso da metralha
Os clarins muito ao longe tocam a reunir.
O Deus da guerra ri nos campos de batalha
E tu, ó Pátria, ergues-te a sorrir!

Vestes alva cota bordada e rosicleres
Desfraldas a bandeira rubra dos combates,
Levas no heroico seio a alma das mulheres
E ergue-se contigo a alma de teus vates!

Levanta-se do túmulo a voz dos teus heróis,
Cintila em tua fronte o brilho desses sóis,
Até o próprio mar t’incita a combater!

Nun’Alvares arranca a espada de glória
E diz-te em voz serena: “Em busca da vitória
Meu belo Portugal, combate até morrer!”




B O C A G E
PORTUGAL, 1765-1805

Tu, Vã Filosofia 

 

Tu, vã Filosofia, embora aviltes
Os crentes nas visões do pensamento,
Turvo clarão de raciocínios tristes
Por entre sombras nos conduz, e a mente,
Rastejando a verdade, a desencanta;
Nem doloroso espírito se ilude,
Se o que, dormindo, creu, crê, despertando.
Até no afortunado a vida é sonho
(Sonho, que lá no fim se verifica),
E ansioso pesadelo em mim, que a choro,
Em mim, que provo o fel da desventura,
Desde que levantei, que abri, carpindo,
Os olhos infantis à luz primeira;
Em mim, que fui, que sou de Amor o escravo,
E a vítima serei, e o desengano
Da suprema paixão, por ti cantada
Em versos imortais, como o princípio
Etéreo, criador, de que emanaram.

  
 
ASCENSO FERREIRA
PALMARES-PE  =  1895-1965

Fazendeiro

 

Ô Maria! Maria! 

Compadre Cazuza vem almoçar 

amanhã aqui em casa… 

Que é que tu preparaste pra ele?!

Eu matei uma galinha, 

matei um pato, 

matei um peru, 

mandei matar um cevado… 

Oxente, mulher! 

Tu estás pensando que compadre 

Cazuza é pinto?! 

Manda matar um boi!!!

 

ALPHONSUS DE GUIMARAENS FILHO
MARIANA-MG  =  1918-2008

Neste Prato


Neste prato tão sujo nada resta
a não ser a memória de uma festa
de ontem, ou de anteontem, ou deste dia.
Eu me lembro da boca: ela comia,

os dentes ágeis, fresca e sensual.
Eu bem me lembro dela, por sinal
mais do que devorante, devorada
por beijos, rubra e amante, rubra e amada.

Neste prato tão sujo resta vida,
e não só morte. E não só perdida
lembrança, ou desalento, ou coisa assim.

Não é princípio, nem será o fim,
intato, sem fissuras tão mortais.
Podem quebra-lo: não se acaba mais.



OLEGÁRIO MARIANO
RECIFE-PE  =  1889-1958

O Elogio Da Esperança

 

Forasteira de Alem!.. . Tu que as azas espalmas
Pelo céo tropical como o Arco-da-Alliança,
Guardas todo o consolo e o carinho das Almas,
E és sempre a mesma, sempre! Esperança! Esperança! 

Triste embora, no olhar tens expressões tão calmas,
Tão cheias de languôr e és tão boa e tão mansa,
Que mal vens a cantar, piedosamente acalmas
A Dor do Mundo, a Dor sem bemaventurança.

 Alta noite te espero e ouço um rumor em torno;
E's tu; na procissão das nevoas que te enlutam
Chegas; brilha na sombra o teu leve contorno.

 Cantas; ouço-te a voz diabólica e bizarra,
Com a mesma adoração com que as folhas escutam
Nas arvores títans a Canção da Cigarra.

 


MEDEIROS E ALBUQUERQUE
RECIFE-PE  =  1867-1934

Anêmicas

 

Eu abomino as pálidas donzelas,
sem sangue, sem calor, sem movimento
que aos abraços do amor perdem o alento,
nas longas noites sensuais e belas.

Quero sentir meu peito contra o peito
de alguém cheio de vida e mocidade
palpitar na gostosa ansiedade
dos loucos beijos, no perfúmeo leito.

Quero apertá-la doida... doidamente...
no momento do espasmo deleitoso
e sentir seu sangue vigoroso
palpitar sob mim, convulsamente...

Sirvam as doces virgens delicadas
românticas beldades vaporosas
para enfeitar as páginas mimosas
das crônicas antigas, ilustradas...




 

DEOLINDO TAVARES
RECIFE-PE  =  1918-1942


 

Via - Láctea


 

 Abre tua janela que por ela entrará a Via - Láctea.

E se não tiveres uma janela para te debruçares,

Adormece que verás como ela se transformará

Em flores e em pássaros no teu sonho.

Para mim ela é um número incontável de olhos

Que me despem.

Para mim ela é como punhal envenenado

Ou espada de fogo que me trespassa.

Eu não vê-la-ei jamais,

Pois meus olhos já estão cegos para a visão,

Porque meus olhos são duas tristes paisagens

Na moldura ridícula de meu rosto.


 
  
MARTINS JÚNIOR
RECIFE-PE  -  1860 / 1904


Atonia

 

Eu já vivo cansado em meio às grandes lutas
Que abalam, brutalmente, o meu viver rasteiro.
Nem vejo mais as leis que vêm nas Institutas,
Nem penso em Baudelaire, nem abro o meu Junqueiro!

Ando cínico e mau; inconscientemente,
Arrasto atrás de mim um tédio formidável,
E sinto se me abrir a boca, enormemente,
Quando olho para o livro histórico de Clável.

Vêm-me até tentações diabólicas, fatais.
Que me fazem lembrar o morto romantismo!
Mas, ai! Eu antes quero o tédio e seus punhais,
Do que a face sem cor do Lamartianismo!




JOSÉ PAULO PAES
TAQUARITINGA-SP = 1926-1998

 Sísifo


hoje agora me decido
depois amanhã hesito
o dia detém meu passo
a noite cala meu grito
 

deuses onde? céu existe?
céu existe? deuses onde?
um eco que faz perguntas
um espelho que responde
 

e eu sísifo tardotriste
a tilintar as correntes
de dilemas renitentes
 

lá me vou sem vez nem voz
rolar a pedra dos mudos
pela montanha dos sós

 

 

DEOLINDO TAVARES
RECIFE-PE  =  1918 1942

 
Procissão

 
 
O Cristo de lábios roxos e face lívida
vai ser crucificado novamente
para gozo dos eróticos místicos;
o Cristo de cabelos longos e mofados
vai mais uma vez ser exposto
à degradação dos eróticos místicos.
Vinde ver as chagas sangrentas,
vinde ver o Cristo amarrado
passar sob as vistas das sensuais mulheres
entre vitrines e reclames de gás neon
para gozo dos eróticos místicos;
vinde, o espetáculo nunca deixou de ser inédito.
Vinde ouvir velhas megeras predizerem a destruição do mundo

que elas próprias destruíram,
vinde ver anjos e arcanjos, pintados e cansados
conduzirem o Cristo.
O Cristo lívido e de lábios roxos
segue no ombro de homens de sobrepeliz
para que todos vejam bem e saboreiem a tragédia.
Vinde ver como somente as prostitutas, os pederastas e os ébrios

estão mudos e não querem a destruição do mundo
porque nele esperam a redenção
carregando cruzes mais pesadas, talvez,
do que a deste pobre Cristo exangue e insone
através de todos os caminhos do mundo, até à morte.

 

 






JAYME DE ALTAVILA
MACEIÓ-AL  =  1895-1970

  
Fim De Romance


Tanto projeto de ventura,
Tanta promessa de alegria,
Tanto prenúncio de doçura
Para algum dia...

Tanta esperança enverdecida,
Tanta volúpia crepitante,
Tanta ilusão para uma vida
Muito distante...

Tanta miragem de oiro e rosa,
Tanto desvelo prematuro,
Tanta beleza esplendorosa
Para o futuro...

Tantos anseios de carícia,
Tantos desejos a florir,
Tanta emoção, tanta primícia
Para o porvir...

Tanta loucura imaginada,
Tantos castelos e, ao depois...
Depois, descrença... Depois, nada...
(Que será feito de nós dois?)

 

 
 
GERALDINO BRASIL
ATALAIA-AL  =  1926-1996

O Louco



Inventou que era deus e fez das suas:
Óleos n'água pingou, criou aquarelas
Partiu uma maça em duas luas
e cortou carambolas fez estrelas.

Quis ser o diabo e riu dos desatinos:
e riu caretas diante de dois cegos
Falou na história antiga a dois meninos
E da vida moderna a poetas gregos.

Chorou e o diabo o fez cortar cebolas
e lhe enxugou as lágrimas com lãs
de vidro e gritou puuum! com as suas artes.

Deus bondoso o acalmou com carambolas
que comeu e então fez duas manhãs
partindo uma laranja em duas partes.





DAVID MOURÃO-FERREIRA
PORTUGAL  =  1927 / 1996

E Por Vezes...

 
 E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes


encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes


ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos


E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

 






C R U Z   E   S O U Z A
FLORIANÓPOLIS-SC  =  1861-1898

 
Música Da Morte

 

A música da Morte, a nebulosa,
estranha, imensa música sombria,
passa a tremer pela minh'alma e fria
gela, fica a tremer, maravilhosa...

Onda nervosa e atroz, onda nervosa,
letes sinistro e torvo da agonia,
recresce a lancinante sinfonia
sobe, numa volúpia dolorosa...

Sobe, recresce, tumultuando e amarga,
tremenda, absurda, imponderada e larga,
de pavores e trevas alucina...

E alucinando e em trevas delirando,
como um ópio letal, vertiginando,
os meus nervos, letárgica, fascina...
 





 
ASCENSO FERREIRA
PALMARES-PE  = 1895-1965

 
A Copa Do Mundo

 

No meio daquela confusão toda,
De rádios berrando,
Fogos pipocando,
Bêbados cantando! 

Maria embocou pela porta de Chico Tenório adentro,
Do qual se encontrava há muito tempo "off-side",
E exclamou alucinada: 

- Chiquinho,meu bem,
O Brasil ganhou a copa do mundo,
Vamos também fazer nosso goal, meu amor!

 
 
 
DEOLINDO TAVARES
RECIFE-PE  =  1918 1942

 O Condenado

 
Na praça pública do meu país natal,
ergueram a máquina que vai me torturar ao alvorecer,
a máquina que partirá meus ossos,
esmagará meu cérebro, minhas idéias
e comprimirá minh’alma imortal.
Amanhã os arautos anunciarão
Que há um condenado para o delírio de todas as classes;
virão mulheres com mantilhas vermelhas
trazendo no braço cestas com maçãs e frutos da terra;
virão homens com ares de anjo
olhar a minha degradação.
Os espiões já estão no meu encalço,
mas não me encontrarão nunca
porque estou protegido pelas sombras das noites eternas:
os cães já foram postos no meu encalço,
mas, quando me encontrarem, lamber-me-ão as mãos.
Estarei sempre protegido
Sob o manto das estrelas de Deus
Que glorificarei sempre em poesia.






CARLOS PENA FILHO
RECIFE-PE  =  1929-1960

 
Poema



Senhora de muito espanto,
vestindo coisas longínquas
e alguns farrapos de sono,

eu vim para te dizer
que inutilmente contemplo
na planície de teus olhos
o incêndio do meu orgulho.


Senhora de muito espanto,
sentada além do crepúsculo
e perfeitamente alheia
a realejos e manhãs.


Eu vim para te mostrar
que se inaugurou um abismo
vertical e indefinido
que vai do meu lábio arguto
ao chumbo do teu vestido.

Senhora de muito espanto
e alguns farrapos de sono,
onde o céu é coisa gasta
que ao meu gesto se confunde.


Um dia perdi teu corpo
nas cores do mapa-múndi.



CARLOS PENA FILHO
RECIFE-PE  =  1929-1960

 
Chopp

 

Na avenida Guararapes,
o Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antonio,
tanto se foi transformando
que, agora, às cinco da tarde,
mais se assemelha a um festim,
nas mesas do Bar Savoy,
o refrão tem sido assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.
Ah, mas se a gente pudesse
fazer o que tem vontade:
espiar o banho de uma,
a outra amar pela metade
e daquela que é mais linda
quebrar a rija vaidade.
Mas como a gente não pode
fazer o que tem vontade,
o jeito é mudar a vida
num diabólico festim.
Por isso no Bar Savoy,
o refrão é sempre assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados
 


BASTOS TIGRE
RECIFE-PE  =  1882-1957


Paixões
 

 Por que se chama da Paixão de Cristo
A lutuosa Sexta-Feira Santa?
Onde a paixão que nos surpreende e espanta
Nesse drama, há cem séculos, previsto?
 

O sacrifício do Calvário é um misto
De exaltação que chora e dor que canta;
Treva que morre e Sol que se levanta,
Num tumulto de mundos nunca visto.
 

A luz os velhos ídolos fulmina;
Mas não destrói as ambições insanas,
A fúria do ódio pérfida e assassina.
 

E, homem cristão que a tua fé profanas,
Pensas "um dia" na Paixão divina
E a vida vives nas paixões humanas.

 




ALBERTO DA CUNHA MELO
JABOATÃO DOS GUARARAPES-PE  =  1942-2007


Colunismo Policial



O ancião José Bezerra da Silva
jogava sinuca e dominó
com seus velhos amigos
do bairro de Afogados:
era só o que fazia
depois de aposentado
pelo IPSEP (invalidez);
e quando deixou de jogar
sinuca e dominó
decidiu passar o tempo
meditando, deitado,
numa velha rede;
mas um dia resolveu
deitar-se nos trilhos
que ligam o Recife
à cidade de Jaboatão,
e hoje foi notícia
do Diário da Noite,
na coluna: "Mundo Cão".




Brasil


 
Brasil
onde vivi,
Brasil onde penei,
Brasil dos meus assombros de menino:
Há quanto tempo já que te deixei,
Cais do lado de lá do meu destino!

Que milhas de angústia no mar da saudade!
Que salgado pranto no convés da ausência!
Chegar.
Perder-te mais.
Outra orfandade,
Agora sem o amparo da inocência.

Dois pólos de atracção no pensamento!
Duas ânsias opostas nos sentidos!
Um purgatório em que o sofrimento
Nunca avista um dos céus apetecidos.

Ah, desterro do rosto em cada face,
Tristeza dum regaço repartido!
Antes o desespero naufragasse
Entre o chão encontrado e o chão perdido.


MIGUEL TORGA
PORTUGAL  =  1907-1995







FARIAS NEVES SOBRINHO
RECIFE-PE  =  1872 / 1927

Ruínas


 

Ruínas de um templo: pórticos fendidos,
Muros por terra, pedras amontoadas
Sobre outras pedras, mármores partidos,
Altares nus, colunas derrocadas.


Sobre os velhos escombros denegridos
— Polvos — as heras verdes e esgalhadas,
Entrelaçam tentáculos, torcidos,
Braços recurvos, caudas enroscadas.


Minh’alma é um templo em ruínas: desabaram,
Foram por terra as ilusões e os sonhos...
E, hoje, sobre os destroços que ficaram:


Na agonia dos males sem remédio,
A enlaçá-los, contorcem-se os medonhos
Formidáveis tentáculos do tédio.




 

MENOTTI DEL PICCHIA
SÃO PAULO-SP  =  1892-1988


 

A Paz


 


A alva pomba da paz voou aos céus serenos.



Embaixo homens se agitavam
entre gritos e tiros.



Paquidermes mecânicos
sulcavam fossos
rasgando trincheiras.



Cansada de librar-se nas alturas
a pomba da paz
buscou na terra um pouso
e flechou
num vôo reto
rumo a uma coisa imóvel
hirta e muda no raso campo verde.



E pousou
calma e triste
sobre as mãos cruzadas de um cadáver.


 



 


ARIANO SUASSUNA
JOÃO PESSOA-PB  =  1927

 

O Mundo Do Sertão



Diante de mim, as malhas amarelas
do mundo, Onça castanha e destemida.
No campo rubro, a Asma azul da vida
à cruz do Azul, o Mal se desmantela.


Mas a Prata sem sol destas moedas
perturba a Cruz e as Rosas mal perdidas;
e a Marca negra esquerda inesquecida
corta a Prata das folhas e fivelas.


E enquanto o Fogo clama a Pedra rija,
que até o fim, serei desnorteado,
que até no Pardo o cego desespera,

o Cavalo castanho, na cornija,
tenha alçar-se, nas asas, ao Sagrado,
ladrando entre as Esfinges e a Pantera.

 





ALBERTO DA CUNHA MELO
JABOATÃO DOS GUARARAPES-PE  =  1942-2007




Alta Residência

 

Pequenino e trêmulo ser,
que medrosamente apertaste
a campainha desta casa
de pedra: hoje eu te atenderia.
Ontem ainda era possível
recusar a tua presença,
simular um grande silêncio
até que, em prantos, te afastasses.
As quatro torrentes do Éden
puseram abaixo estas muralhas;
hoje, eu quero receber-te
em festa, e as torrentes não deixam.
Grito no terraço que estou
aqui, e ninguém acredita
que esta casa seja habitada;
ninguém quer voltar ao deserto.
Como estou humilde depois
que estou sozinho e a ninguém
posso dar a minha humildade,
como estou sozinho depois.





ANTERO DE QUENTAL
PORTUGAL  =  1842-1891



Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece.
É a voz dum coração que te apetece,
Duma alma livre só a ti submissa.

Por ti é que a poeira movediça
De astros, sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.


Por ti, na arena trágica, as nações
buscam a liberdade entre clarões;
e os que olham o futuro e cismam, mudos,


Por ti podem sofrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!


 

 



BENEDITO CUNHA MELO
GOIANA-PE = 1911-1981

O Morto


O quadro ficou gravado


Na minha imaginação:

A vela, o morto deitado,

As mãos em cruz, no caixão. 


Sobre u’a mesa pequena,

À chama de uma arandela,

Um Cristo, que dava pena,

Morria fitando a vela. 


Fora, a noite quase morta...

Ninguém na deserta rua

Um homem, em pé, à porta,

Fumava fitando a lua. 


Soluços, de quando em quando,

Na casa triste... Um rumor

De passos... Alguém entrando

Num comprido corredor...


 Noite remota, que trago,

Para sempre, hoje... amanhã...

Como uma sombra de lago...

Noite eterna, sem manhã...


 E não esqueço a arandela,

O morto... A deserta rua...

O Cristo fitando a vela

E o homem fitando a lua!


 

ADELMAR TAVARES
RECIFE-PE  =  1888-1963


 
A Rede De Dormir

 

Para dormir numa rede,
cumpre logo prevenir,
não é chegar e deitar,
nem é deitar e dormir.

A rede é como o cavalo,
que para a gente montar,
tem que primeiro amansá-lo
para depois governar...

Tem de procurar o jeito
de deitar enviesado
pois não dando esse jeitinho
não está, em regra, deitado...

E em deitando, deixe sempre,
um certo espaço, porque
vem o seu anjo da guarda
deitar, dormir com você.




 
 MIGUEL TORGA
PORTUGAL  =  1907-1995





"Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças..."



 

CECÍLIA MEIRELES
RIO DE JANEIRO-RJ  =  1901-1964

Soneto Antigo


Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.


Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.






ADELMAR TAVARES
RECIFE-PE  =  1888-1963


As Ingênuas, Deliciosas Mentiras


Que bem fazem à gente certas mentiras
Essas pequenas, ingênuas deliciosas mentiras...
Essas mentirinhas bebês,
redondinhas, rosadas e frescas...
A dos médicos para seus enfermos desenganados:
— "Mas está excelente! Vai sarar!"
A dos amigos para os nossos poemas:
— "Cortei na revista... Guardei-o comigo".
E sobre todas, as da criatura amada
que justifica, no reclamo da saudade:
— "Sonhei contigo a noite inteira... e estou intranqüila... Vem!..."
Meu Deus do Céu, que imenso bem!...
A gente tem vontade de pegar essas mentirinhas como aos bebês,
redondinhas, rosadas e frescas,
e atirá-las para o alto, pelos braços,
às momices e aos beijos...
— "De quem é essa mentirinha mais bonita do mundo?
— "De quem é essa mentirinha tão querida, gente?"
E depois, num abraço bem apertado, numa efusão,
enterrá-las, como um tesouro de felicidade,
no coração.




JOSÉ MÁRIO RODRIGUES
FLORES-PE  =  1947

Oferenda


Essas flores não se enterrarão
com os mortos
nem secarão sob o sol
dos cemitérios vazios.

Essas flores vão além dos jarros
em que elas se amontoam
e exalam o perfume
que flutua na constelação
de tua convivência
de tua morada.

Essas flores são tua eternidade
momentânea;
a lembrança mais discreta.

São o teu alívio
das feridas dos desfiladeiros do mundo.

Mansamente recolhe-as
para um jardim imaginário
em que, todos os dias,
recomeças as andanças dos mistérios.


 
J O R G E  D E  L I M A
UNIÃO DOS PALMARES-AL  =  1893-1953



O Relógio





Relógio, meu amigo, és a Vida em Segundos...
Consulto-te: um segundo! E quem sabe se agora,
Como eu próprio, a pensar, pensará doutros mundos
Alma que filosofa e investiga e labora?

Há a morte de ceifar somas de moribundos.
O relógio trabalha...E um sorri e outro chora,
Nas cavernas, no mar ou nos antros profundos
Ou no abismo que assombra e que assusta e apavora...

Relógio, meu amigo, és o meu companheiro,
Que aos vencidos, aos réus, aos párias e ao morfético
Tem posturas de algoz e gestos de coveiro...

Relógio, meu amigo, as blasfêmias e a prece,
Tudo encerra o segundo, insólito - sintético.
A volúpia do beijo e a mágoa que enlouquece.







CECÍLIA MEIRELES
RIO DE JANEIRO-RJ  =  1901-1964


Oração Da Noite



Trabalhei, sem revoltas nem cansaços,
No infecundo amargor da solitude:
As dores, - embalei-as nos meus braços,
Como alguém que embalasse a juventude...

Acendi luzes, desdobrando espaços,
Aos olhos sem bondade ou sem virtude;
Consolei mágoas, tédios e fracassos
E fiz, a todos, todo o bem que pude!

Que o sonho deite bênçãos de ramagens
E névoas soltas de distância e ausência
Na minha alma, que nunca foi feliz.

Escondendo-me as tácitas voragens
De males que me deram, sem consciência.
Pelos míseros bens que sempre fiz!...








GOUVEIA MARINHO
LUIZ TAVARES DE GOUVEIA MARINHO
GOIANA-PE  =  1901-1983

 Jornada Vencida


PASSEI pela vida
sem nunca viver.
Jornada vencida,
hora é de morrer.

Que monótona a ida
à paz do Não-Ser !
Concluí a subida,
começo a descer.

E não me intimida
a feral descida,
ao anoitecer.

- O rio da vida,
ah! nada o convida
a retroceder.





CASTRO ALVES
CURRALINHO-BA = 1847-1871


Quando Eu Morrer



Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.

Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil de messalina,
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro o boca libertina.

Ei-la a nau do sepulcro — o cemitério...
Que povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as pragas sem fim do outro mundo.

Tem os fogos — errantes — por santelmo.
Tem por velame — os panos do sudário...
Por mastro — o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas — o mocho funerário ...

Ali ninguém se firma a um braço amigo
Do inverno pelas lúgubres noitadas...
No tombadilho indiferentes chocam-se
E nas trevas esbarram-se as ossadas ...

Como deve custar ao pobre morto
Ver as plagas da vida além perdidas,
Sem ver o branco fumo de seus lares
Levantar-se por entre as avenidas! ...

Oh! perguntai aos frios esqueletos
Por que não têm o coração no peito...
E um deles vos dirá "Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito."

Outro: "Dei-o a meu pai". Outro: "Esqueci-o
Nas inocentes mãos de meu filhinho"...
... Meus amigos! Notai... bem como um pássaro
O coração do morto volta ao ninho!...





BASTOS TIGRE
RECIFE-PE = 1882-1957



Solução




Enguiça o automóvel. Berta
Que vai sozinha ao volante
Vira e mexe e não acerta
Com o defeito do "possante".

No carro que vinha atrás,
Bloqueado, assim, de repente,
Nervosíssimo, um rapaz
Buzina incessantemente.

E toca e toca a busina.
Ao ver que o motor não pega,
Toda óleo e graxa, a grãfina
Fala, de longe ao colega:

- Tenho uma idéia a propor:
Troquemos nós de lugar:
Você vem ver meu motor
E eu vou pra aí businar!







SEBASTIÃO UCHOA LEITE

TIMBAÚBA-PE  =  1935-2003


A Ficção Morte


Penso em meu pequeno fim
Ouvirei zumbidos?
Sugado pela zona de vácuo?
Ou zero-corpo
Polidimensional
Subindo ao teto
Espiando-me de cima
Os outros em torno
Vozes mentalmente exaladas
Dizem ouvir-se um trinado
Muito alto
Sem zumbidos
Mas aí adeus
Morro de susto outra vez

Dentro da morte




L E D O   I V O
MACEIÓ-AL  =  1924-2012

Duração



Toda vida é breve
por mais que ela dure
entre a areia e o vento.

Todo amor é leve
mais leve que a neve
que cai sobre a relva.

Toda vida é treva
por mais que a ilumine
a luz de cem velas.

Todo fruto é amargo:
morde-o a morte com
seu único dente.

Toda eternidade
não dura um minuto
na manhã serena.





FLORBELA ESPANCA
PORTUGAL  =  1894-1930


Renúncia



A minha mocidade outrora eu pus
No tranquilo convento da Tristeza;
Lá passa dias, noites, sempre presa,
Olhos fechados, magras mãos em cruz...

Lá fora, a Lua, Satanás, seduz!
Desdobra-se em requintes de Beleza...
É como um beijo ardente a Natureza...
A minha cela é como um rio sem luz...

Fecha os teus olhos bem! Não vejas nada!
Empalidece mais! E, resignada,
Prende os teus braços a uma cruz maior!

Gela ainda a mortalha que te encerra!
Enche a boca de cinzas e de terra,
Ó minha mocidade toda em flor




FERREIRA GULLAR
SÃO LUÍS-MA  =  1930

Despedida



Eu deixarei o mundo com fúria.
Não importa o que aparentemente aconteça,
se docemente me retiro.

De fato
nesse momento
estarão de mim se arrebentando
raízes tão fundas
quanto estes céus brasileiros.

Num alarido de gente e ventania
olhos que amei
rostos amigos tardes e verões vividos
estarão gritando a meus ouvidos
para que eu fique
para que eu fique.


Não chorarei.
Não há soluço maior que despedir-se da vida.





MÁRIO QUINTANA
ALEGRETE-RS  =  1906-1994


Recordo Ainda...

Recordo ainda... E nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... Mas ai,
Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai:

Eu quero meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai!...
Que envelheceu, um dia, de repente!...




L Ê D O  I V O
MACEIÓ-AL = 1924-2012


Primeira Lição


Na escola primária
Ivo viu a uva
e aprendeu a ler.
Ao ficar rapaz
Ivo viu a Eva
e aprendeu a amar.
E sendo homem feito
Ivo viu o mundo
seus comes e bebes.
Um dia num muro
Ivo soletrou
a lição da plebe.
E aprendeu a ver.
Ivo viu a ave?
Ivo viu o ovo?
Na nova cartilha
Ivo viu a greve
Ivo viu o povo.





MEDEIROS E ALBUQUERQUE
RECIFE-PE  =  1867-1934

Silêncio

Cala. Qualquer que seja esse tormento
que te lacera o coração transido,
guarda-o dentro de ti, sem um gemido,
sem um gemido, sem um só lamento!

Por mais que doa e sangre o ferimento,
não mostres a ninguém, compadecido,
a tua dor, o teu amor traído:
não prostituas o teu sofrimento!

Pranto ou Palavra - em nada disso cabe
todo o amargor de um coração enfermo
profundamente vilipendiado.

Nada é tão nobre como ver quem sabe,
trancado dentro de uma dor sem termo,
mágoas terríveis suportar calado!




(Últimos versos, in Poesias, 1904.)





B A S T O S   T I G R E
RECIFE-PE  =  1882-1957


O Marimbondo



A perna de dona Helena
Um marimbondo mordeu
E com a ferroada, a pequena,
Trincando os lábios gemeu.

Com a dor a moça se inferna
E diz: - Que coisa medonha!
Mordeu-me logo na perna,
Marimbondo sem-vergonha!

Do inseto as asas se somem;
Fugiu, deixando o ferrão;
Com certeza ele foi homem
Numa outra encarnação...

De quem sofre eu tenho pena
Mas sou da justiça amigo;
E por isso, à dona Helena
Com toda franqueza eu digo:

- A verdade eu não escondo,
A sem-vergonha é a senhora
Que, à vista de um marimbondo,
Anda com as pernas de fora!







J Ú L I O   D A N T A S
PORTUGAL  =  1876-1962

 O Incêndio


  
- "Ao convento! ao convento!" - Uiva de longe o vento.
É noite. E a multidão, descalça, esfomeada,
à luz de archotes, sobe a ladeira empedrada,
praguejando e gritando: - "Ao convento! ao convento!"

A onda do povo cresce e galga num momento.
Chispam ferros no ar. A porta, chapeada
de bronze, range, oscila e cai à machadada.
Nem um frade. Deserta a casa de S. Bento.

A multidão convulsa invade a portaria:
- "Fogo ao convento! fogo à igreja, à sacristia!"
O incêndio lavra, estoira o vigamento a arder.

Em baixo, o povo dança. E uma mulher grosseira
grita, rouca, atirando um Missal à fogueira:
- "Tanto livro, e ninguém nos ensinou a ler!"





A R T U R   A Z E V E D O
SÃO LUÍS-MA  =  1855-1908

Desengano



A pensionista pálida que gosta
(Fundada pretensão!) que a digam bela,
E do colégio, à tarde, na janela,
Para dar-me um sorriso se recosta;

Que me escreve nas férias, de Bemposta,
Aonde vai visitar a parentela,
Pedindo-me que não me esqueça dela
E dando-me uns beijinhos..., pela posta;

Essa ninfa gentil dos olhos pretos,
Essa beleza de anjo... oh, sorte vária;
Vergonha eterna para os meus bisnetos!

Com um pançudo burguês, uma alimária
Que não a sabe amar, nem faz sonetos,
Vai casar-se amanhã na Candelária.





ALBERTO DA CUNHA MELO
JABOATÃO DOS GUARARAPES-PE  =  1942-2007


O Homem De Borracha



Eu batia na minha infância
doze portas atrás de mim,
e o homem de borracha passava
pela brecha da fechadura.

Por todo lado aparecia
o detetive sem chapéu,
e utilizava uma goteira
como a chuva, para alcançar-me.

Caso eu morresse e ele quisesse
um menino já sepultado,
chegaria ao pequeno corpo
por um buraco de formiga.

Ocultava-me e, no verão,
ressurgiam os companheiros
de farda azul, que me chamavam
o tempo inteiro do jardim.

Quando um dia fugi de casa,
como a esperança, ele esticou
o braço fino para mim
e segurou-me no horizonte.




ADELMAR TAVARES
RECIFE-PE  =  1888-1963


Vela Branca



Vela branca, vela branca,
que vais lá longe... no mar...
quem me dera, vela branca,
que me quisesses levar
para tão longe... tão longe,
que eu não pudesse voltar...


Mas uma vez, vela branca,
que não me queres levar,
para tão longe... tão longe...
que eu não pudesse voltar,
leva-me a saudade dela
para o mais fundo do mar.






HELDEMARCIO FERREIRA
ITAPETIM-PE  =  1962


Soneto Americano
  

Eis os ianques com seus tanques na praça
A impor na mídia a sua doutrina servil
Deus salve a América da homérica farsa
Contaminando a mente da sociedade civil.

A propaganda tão própria gana do domínio
Que se alastra e usurpa a frágil identidade
Dos que consomem e somem sob o fascínio
Oh! Pátria amada e idolatrada: Liberdade!

Latino-america livre é o calibre dessa fé
Deitado eternamente em berço excêntrico
Desperta desse sono aos goles do café!

O sonho americano visceral e autêntico

Na ancestral soberania do gigante alafé
Resgate o orgulho ao se saber idêntico.





MANUEL BANDEIRA
RECIFE-PE  =  1886-1968



Na sombra cúmplice do quarto,
Ao contacto das minhas mãos lentas,
A substância da tua carne
Era a mesma que a do silêncio.

Do silêncio musical, cheio
De sentido místico e grave,
Ferindo a alma de um enleio
Mortalmente agudo e suave.

Ah,  tão suave e tão agudo!
Parecia que a morte vinha...
Era o silêncio que diz tudo
O que a intuição mal adivinha.

É o silêncio da tua carne.
Da tua carne de âmbar, nua,
Quase a espiritualizar-se
Na aspiração de mais ternura.


In O Ritmo Dissoluto




JOAQUIM CARDOSO
RECIFE-PE  =  1897-1978

O Relógio


Quem é que sobe as escadas
Batendo o liso degrau?
Marcando o surdo compasso
Com sua perna de pau?

Quem é que tosse baixinho
Na penumbra da ante-sala?
Por que resmunga sozinho?
Por que não cospe e não fala?

Por que dois vermes sombrios
Passando na face morta.
E o mesmo sopro contínuo
Na frincha daquela porta?

Da velha parede triste
No musgo roçar macio:

São horas leves e tenras

Nascendo do solo frio.

Um punhal feria o espaço...
E o alvo sangue a golejar,
Deste sangue os meus cabelos
Pela vida hão de sangrar.

Todos os grilos calaram
Só o silêncio assobia;
Parece que o tempo passa
Com a sua capa vazia.

O tempo enfim cristaliza
Em dimensão natural;
Mas há demônios que arpejam
Na aresta do meu cristal.

No tempo pulverizado
Há cinzas também da morte:
Estão serrando no escuro
As tábuas da minha sorte.



G O U V E I A   M A R I N H O
LUIZ TAVARES DE GOUVEIA MARINHO
GOIANA-PE  =  1901-1983

Suprema Lei


Se de maldades tens a alma repleta,
nada esperes além do sofrimento:
Cedo ou tarde o remorso a aguda seta
te cravará no seio, lento e lento.

A paz te seguirá se a tua meta,
o teu alvo constante, o teu intento
único for – a senda plana e reta
da piedade trilhando – o pão e o alento

Dar ao teu semelhante, se fraqueja.
Ditoso o que a ferida alheia pensa;
desgraçado o que a dor de outro moteja.

- Que esta é a suprema lei (guarda-a contigo):
A todo bem o prêmio e a recompensa,
a todo mal, indócil, o castigo.




BASTOS TIGRE
RECIFE-PE  =  1882-1957


Que Importa?


Por que há de sempre perguntar, quem ama
Por quanto tempo vai viver o amor?
Prever, curioso, o epílogo do drama,
Da comédia o desfecho pressupor?

Se o céu, do ouro da aurora se recama,
Por que antever as sombras do sol-pôr?
Amai-vos! Sem roteiro e sem programa,
Siga o barco, dos beijos ao sabor...

Amai-vos! Raive a multidão lá fora!
Neste divino isolamento a dois,
A vida em vossa vida se incorpora.

Deuses eternos neste instante sois:
Gozai a vossa "eternidade" agora!
Que vos importa o que virá depois?






A U G U S T O   D O S   A N J O S
CRUZ DO ESPÍRITO SANTO-PB  = 1884-1914

Tempos Idos


Não enterres, coveiro, o meu Passado,
Tem pena dessas cinzas que ficaram;
Eu vivo dessas crenças que passaram,
e quero sempre tê-las ao meu lado!

Não, não quero o meu sonho sepultado
No cemitério da Desilusão,
Que não se enterra assim sem compaixão
Os escombros benditos de um Passado!

Ai! Não me arranques d’alma este conforto!
- Quero abraçar o meu passado morto,
- Dizer adeus aos sonhos meus perdidos!

Deixa ao menos que eu suba à Eternidade
Velado pelo círio da Saudade,
Ao dobre funeral dos tempos idos!






A U G U S T O   D O S   A N J O S
CRUZ DO ESPÍRITO SANTO-PB  = 1884-1914

Tempos Idos


Não enterres, coveiro, o meu Passado,
Tem pena dessas cinzas que ficaram;
Eu vivo dessas crenças que passaram,
e quero sempre tê-las ao meu lado!

Não, não quero o meu sonho sepultado
No cemitério da Desilusão,
Que não se enterra assim sem compaixão
Os escombros benditos de um Passado!

Ai! Não me arranques d’alma este conforto!
- Quero abraçar o meu passado morto,
- Dizer adeus aos sonhos meus perdidos!

Deixa ao menos que eu suba à Eternidade
Velado pelo círio da Saudade,
Ao dobre funeral dos tempos idos!












OLAVO BILAC
RIO DE JANEIRO-RJ  =  1865-1918


A Velhice



Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...

O homem, a fera e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres da fome e de fadigas:
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo. Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,

Na glória de alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!






HERMES FONTES
BUQUIM-SE = 1888-1930 

 Boêmio

  
Delícia e engano bom que é, para tantos,
a Vida — para mim, é, nada menos
— a conjura de todos os quebrantos,
— a ruim mescla de todos os venenos...

Ou, pela dor dos meus contínuos trenos,
praz ao céu eleger-me um dos seus santos,
ou é, talvez, de humildes e pequenos
não ter glórias, prazeres, nem encantos.

A vida é um bem, e é um mal, que se biparte:
se uma lágrima flui nos olhos, uma
alegria dos lábios ri, destarte!

Mas para mim a vida é só e em suma
— cumprir deveres mil em toda a parte
e direitos não ter em parte alguma...






GONÇALVES DIAS
CAXIAS-MA  =  1823-1864

Minha Terra
Paris, 1864


Quanto é grato em terra estranha
Sob um céu menos querido,
Entre feições estrangeiras,
Ver um rosto conhecido;
Ouvir a pátria linguagem
Do berço balbuciada,
 Recordar sabidos casos
Saudosos - da terra amada!
E em tristes serões d'inverno,
Tendo a face contra o lar,
Lembrar o sol que já vimos,
E o nosso ameno luar!
Certo é grato; mais sentido
Se nos bate o coração,
Que para a pátria nos voa,
P'ra onde os nossos estão!
Depois de girar no mundo
Como barco em crespo mar,
Amiga praia nos chama
Lá no horizonte a brilhar.
E vendo os vales e os montes
E a pátria que Deus nos deu,
Possamos dizer contentes:
Tudo isto que vejo é meu!
Meu este sol que me aclara,
Minha esta brisa, estes céus:
Estas praias, bosques, fontes,
Eu os conheço - são meus!
Mais os amo quando volte,
Pois do que por fora vi,
A mais querer minha terra,
E minha gente aprendi.
 






DIRCEU RABELO
TUPARETAMA-PE  =  1939

Recife: Em Boa Viagem


 De noite eu encho meu copo
Com raios de lua cheia
De manhã faço meu prato
De sal, de sol e de areia.

De tarde me sobressalto
Com a voz de alguma sereia
Que se perdeu no mar alto
E sobre as ondas vagueia.

Com um buquê de espumas feito
No topo de esquivas ondas
Solenemente eu enfeito
A minha mesa redonda.

É assim que tenho arrumado
Almoço, jantar e ceia:

Almoço que sempre faço
De sal, de sol e de areia;
Jantar que sempre preparo
Com cantigas de sereia:
Ceia com que eu encho o copo

De raios de lua cheia.




ASCENSO FERREIRA
PALMARES-PE  =  1895-1965


A Força Da Lua



Não te chegues assim, para mim...
Ó Maria!
Ai! Não te chegues não...

A lua cheia tem muita força,
Maria!
- E o luar sempre foi a nossa perdição...

O vento que assopra,
assopra com força...
Há forças nas águas,
- Repara a maré!

E há forças também ocultas na gente,
talvez que as das águas maiores até...

Não te chegues assim, para mim...
Ó Maria!
Ai! Não te chegues não...

Há força nas águas, há força nos ventos
e forças que em nós ocultas estão...

A lua cheia tem força muita, Maria!
- E o luar sempre foi a nossa perdição!







AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA
BELO HORIZONTE-MG = 1937


A Primeira Vez Que Entendi



A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou mexendo.

De lá pra cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.

A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.

De lá pra cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.







ABGAR RENAULT
BARBACENA-MG  =  1901-1995





E sou o mesmo que saí.
Volto e me vejo como me vi.
Nada de novo me aconteceu.
Eu sou irremediavelmente um só: eu,
eu da cabeça aos pés.

Mas não trouxe o que fora comigo:
alguma coisa me ficou perdida
nas ruas, nos passeios, nos cafés,
e estou ausente, molhado, amigo e inimigo,
entre mulheres, vagabundos, crianças, o frio, a chuva desta vida.










VINICIUS DE MORAES
RIO DE JANEIRO-RJ  =  1913-1980

Natureza Humana


Cheguei. Sinto de novo a natureza
Longe do pandemônio da cidade
Aqui tudo tem mais felicidade
Tudo é cheio de santa singeleza

Vagueio pela múrmura leveza
Que deslumbra de verde e claridade
Mas nada. Resta vívida a saudade
Da cidade em bulício e febre acesa

Ante a perspectiva da partida
Sinto que me arranca algo da vida
Mas quero ir. E ponho-me a pensar

Que a vida é esta incerteza que em mim mora
A vontade tremenda de ir-me embora
E a tremenda vontade de ficar.






FERNANDO PESSOA
PORTUGAL  =  1888-1935


 O Que Eu Fui



O que eu fui o que é?
Relembro vagamente
O vago não sei quê
Que passei e se sente.

Se o tempo é longe ou perto
Em que isso se passou,
Não sei dizer ao certo,
Que nem sei o que sou.

Sei só que me hoje agrada
Rever essa visão
Sei que não vejo nada
Senão o coração.





AUGUSTO DE LIMA
OURO PRETO-MG  =  1893-1978


A Um Otimista




Pensas que são inteiramente nossos
nossos corpos de argila? Não no creias.
Para reter a vida, em vão anseias:
dela não guardarás sequer destroços.

Não tens, fingido herdeiro de colossos,
destinado a guardar coisas alheias,
nem o sangue que corre em tuas veias,
nem a sutil medula de teus ossos.

Uma voz noutra voz reproduzida,
reproduzindo antiga voz perdida,
o eco responde à voz — eco também...

Ris-te da sombra que refletes? Ri-se
também de ti a sombra: — quem te disse
que não és — olha atrás! — sombra de alguém?





ANTÓNIO RAMOS ROSA
PORTUGAL  =  1924-2013


A Verdade


A verdade é semelhante a uma adolescente
vibrante, flexível, em radiosa sombra.
Quando fala é a noite translúcida no mar
e a esfera germinal e os anéis da água.
Um apelo suave obstinado se adivinha.

Ela dorme tão perfeitamente despertada
que em si a verdade é o vazio. Ela aspira
à cegueira, ao eclipse, à travessia
dos espelhos até ao último astro. Ela sabe
que o muro está em si. Ela é a sede

e o sopro, a falha e a sombra fascinante.
Ela funda uma arquitetura volante
em suspensas superfícies ondulantes.
Ela é a que solicita e separa, delimita
e dissemina as sílabas solidárias.





ADELMAR TAVARES

RECIFE-PE  =  1888-1963



A Gente Nunca Está Só



A gente nunca esta só.
Ou se está com uma saudade
De um sonho desfeito em pó;
Ou se está com uma esperança
De nova felicidade
No coração que não cansa...

Sempre uma sombra com a gente,
Constantemente,
Uma sombra... Boa... ou má...

Só é que nunca se está.






MARIO QUINTANA
ALEGRETE-RS  =  1906-1994
  


Enquanto me davam a extrema-unção,
Eu estava distraído…
Ah, essa mania incorrigível de estar
Pensando sempre n’outra coisa!
Aliás, tudo é sempre outra coisa
- segredo da poesia –
E, enquanto a voz do padre zumbia como um besouro,
Eu pensava era nos meus primeiros sapatos
Que continuavam andando, que continuavam andando,
Até hoje
Pelos caminhos deste mundo.







MANUEL BANDEIRA
RECIFE-PE  =  1886-1968

Bacanal


Quero beber! cantar asneiras 
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé Baco!

Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada.
A gargalhar em doudo assomo...
Evoé Momo!

Lacem-na toda, multicores
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos...
Evoé Vênus!

Se perguntarem: Que mais queres,
Além de versos e mulheres?...
- Vinhos!... o vinho que é meu fraco!...
Evoé Baco!

O alfanje rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que eu não domo!...
Evoé Momo!

A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos.
Evoé Vênus!






JOSÉ SARAMAGO
PORTUGAL  =  1922-2010


De Boca Fechada



Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais boiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.






ITABIRA-MG  =  1902-1987


A Palavra Mágica


Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.
Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.






 AUGUSTO   DOS   ANJOS
CRUZ DO ESPÍRITO SANTO-PB  =  1884-1914

Insânia


No mundo vago das idealidades
Afundei minha louca fantasia;
Cedo atraiu-me a auréola fulgidia
Da refulgência antiga das idades.

Mas ao esplendor das velhas majestades
Vacila a mente e o seu ardor esfria;
Busquei então na nebulosa fria
Das ilusões, sonhar novas idades.

Que desespero insano me apavora!
Aqui, chora um ocaso sepultado;
Ali, pompeia a luz da branca aurora.

E eu tremo entre um mistério escuro:
- Quero partir em busca do Passado,
- Quero correr em busca do Futuro.





BARÃO DE ITARARÉ(*)

Meu Leito


Naquele canto escuro está meu leito
Cama de vento, com colchão pegado...
É nessa pobre cama que me deito
Quando venho da rua fatigado.

É nessa mesma cama que hei sonhado
Muito sonho d'amor, que está desfeito...
D'uma feita sonhei que fui eleito
Senador, mas não sei por qual Estado.

Muito embora não tenha travesseiro,
O sangue não me sobe... nem me desce,
Circulando em seus rítmicos harpejos.

Passaria deitado o dia inteiro,
Se essa cama de vento não tivesse
Tantas pulgas e tantos percevejos...



(*) APARÍCIO TORELLY  =  Gaúcho de São Leopoldo  =  1895 / 1971
NOTA: Poema publicado sob o pseudônimo de Apporelly










ARTUR AZEVEDO
SÃO LUÍS-MA  =  1855-1908


Eterna Dor


Já te esqueceram todos neste mundo...
Só eu, meu doce amor, só eu me lembro,
Daquela escura noite de setembro
Em que da cova te deixei no fundo.

Desde esse dia um látego iracundo
Açoitando-me está, membro por membro.
Por isso que de ti não me deslembro,
Nem com outra te meço ou te confundo.

Quando, entre os brancos mausoléus, perdido,
Vou chorar minha acerba desventura,
Eu tenho a sensação de haver morrido!

E até, meu doce amor, se me afigura,
Ao beijar o teu túmulo esquecido,
Que beijo a minha própria sepultura!








AFONSO CELSO
OURO PRETO-MG  =  1860-1938
  
Morto Vivo


Mais pavoroso fado
Não sonha a fantasia;
Por morto ser tomado
Alguém que inda vivia;

Sentindo-se gelado
Do susto na agonia,
No féretro pregado
Baixar à terra fria!

Mas oh! inda é mais triste
(Porém eu sou altivo,
Não peço compaixão!)

Sentir que o corpo existe
Mas é sepulcro vivo
De um morto coração.






BANDEIRA TRIBUZI
SÃO LUÍS-MA  =  1927-1977

  
Soneto Do Vietnã


  

A bomba de napalm está fritando

a carne espedaçada no sudoeste.

Relincham os canhões e aves uivando

sobrevoam os pântanos da peste.

A morte cultivada, amontoando

vai cadáveres bons para a manchete:

é a vida, a leste e a oeste prosperando

no negócio da morte que floresce.

E quantos mais prodígios desabrocham,

quando o século atinge o último quarto

na véspera intranqüila desse parto

do futuro obscuro, a que se imolam

a puta de Saigon, amarga e nua,

e o astronauta pisando o chão da lua!











JORGE DE LIMA
UNIÃO DOS PALMARES-AL  =  1895-1953

Zumbi


Em meu torrão natal — Imperatriz —,
nas serras da Barriga e da Juçara,
um homem negro, muito negro, quis
mostrar ao mundo que tinha alma clara.

E tem o sonho que Platão sonhara: —
que um sonho nobre não possui matiz.
(O sol d'Egina é o mesmo sol do Saara,
da Senegâmbia, de qualquer país).

Em mil seiscentos e noventa e sete,
galgam o topo da montanha a pique,
os homens brancos de Caetano e Castro.

E o negro herói que não se curva e inflete,
faz-se em pedaços para que não fique
com os homens brancos, o seu negro rastro...






ODILON NESTOR

* TEIXEIRA-PB, 1874 = RECIFE-PE, 1968

A Seca

  
Todo esse campo agora abandonado
queimou do sol a pólvora candente!
Já de verde não tinge a grama olente,
secaram fontes, e morreu o gado!

O céu não chora o orvalho suspirado;
nem sombra existe na planície ardente!
Ninhos sem ave, habitações sem gente...
quanta gente sem pão, por todo o lado!...

E enquanto o vento cálido rugita,
e na fúria cruel, ríspido, agita
o esqueleto das árvores crestadas,

Faminto e nu, em retirada informe,
vê-se ir além descendo um povo enorme,
a pedir e a morrer pelas estradas!...







MANUEL BANDEIRA
RECIFE-PE   =  1886 - 1968


Marinheiro Triste




Marinheiro triste
Que voltas para bordo
Que pensamentos são
Esses que te ocupam?
Alguma mulher
Amante de passagem
Que deixaste longe
Num porto de escala?
Ou tua amargura
Tem outras raízes
Largas fraternais
Mais nobres mais fundas?
Marinheiro triste
De um país distante
Passaste por mim
Tão alheio a tudo
Que nem pressentiste
Marinheiro triste
A onda viril
De fraterno afeto
Em que te envolvi.
Ias triste e lúcido
Antes melhor fora
Que voltasses bêbedo
Marinheiro triste!
E eu que para casa
Vou como tu vais
Para o teu navio,
Feroz casco sujo
Amarrado ao cais,
Também como tu
Marinheiro triste
Vou lúcido e triste.


Amanhã terás
Depois que partires
O vento do largo
O horizonte imenso
O sal do mar alto!
Mas eu, marinheiro?

- Antes melhor fora
Que voltasse bêbedo.







ROGACIANO LEITE FILHO
ITAPETIM-PE  =  1920-1969
Trevas Do Dia
  

Na noite do mundo

a nuvem gélida do sonho

percorre meus ossos vazados

trazendo dos corações atômicos

das palavras não ditas

dos circuitos elétricos

das memórias esquecidas

dos braços partidos

das mortes insensíveis

dos olhos vendados

das idéias falidas

dos sentimentos perdidos

das bombas mortais

dos Deuses escondidos

O nascer da morte

no começo do dia.






ADELMAR TAVARES
RECIFE-PE  =  1888-1963


Maio


  
Que sensações estranhas, esquisitas,
como um desejo de também ter asas,
para ser como os pombos sobre as casas,
toda vez, Maio em flor, que me visitas !

Tu, minh'alma, na dor em que te abrasas,
dentro da escuridão em que te agitas,
és um solar de aparições malditas,
uma lareira onde morreram brasas.. .

Maio, carregas mágoas e venturas,
flores aos laranjais e às sepulturas,
fecundas cravos e fecundas goivos...

Atêas tanto das paixões as chamas,
quanto de fria solidão derramas,
dentro dos corações que foram noivos...





ADALGISA NERY
RIO DE JANEIRO-RJ  =  1905-1980

Poema Natural



Abro os olhos, não vi nada
Fecho os olhos, já vi tudo.
O meu mundo é muito grande
E tudo que penso acontece.
Aquela nuvem lá em cima?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Ontem com aquele calor
Eu subi, me condensei
E, se o calor aumentar, choverá e cairei.
Abro os olhos, vejo um mar,
Fecho os olhos e já sei.
Aquela alga boiando, à procura de uma pedra?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Cansei do fundo do mar, subi, me desamparei.
Quando a maré baixar, na areia secarei,
Mais tarde em pó tomarei.
Abro os olhos novamente
E vejo a grande montanha,
Fecho os olhos e comento:
Aquela pedra dormindo, parada dentro do
                                            [ tempo,
Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao
                                            [ vento?
Eu estou lá,
Ela sou eu.


                          De Poemas (1937)








AUDÁLIO ALVES
PESQUEIRA-PE  =  1930-1999


Cântico Dual


  
De Deus a mim,
nenhum segredo cabe:

Vivemos sempre a sós,
os dois, perenemente;
o pouco que aprendi
(da morte)
Deus o sabe.

O que meus dedos tocam,
agora,
Deus o sente:
Silêncio algum separa
meu canto de seu canto
que o sol nos une e abre
visão de outra visão.

A cor de minhas vestes
mudamos,
Deus o sabe:
A vida se consente
em Nós, presentemente,
e sendo a morte o fim
em minhas mãos não cabe.







VINÍCIUS DE MORAES
RIO DE JANEIRO-RJ  =  1913-1980



Poder dormir
Poder morar
Poder sair
Poder chegar
Poder viver
Bem devagar
E depois de partir
poder voltar
E dizer: este aqui é o meu lugar
E poder
assistir ao entardecer
E saber que vai ver o sol raiar
E ter amor e dar amor
E receber amor até não poder mais
E sem querer nenhum poder
Poder viver feliz pra
se morrer em paz







FERNANDO PESSOA
PORTUGAL  =  1888-1935


De Um Imortal:



Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.






MANUEL BANDEIRA
RECIFE-PE  =  1886-1968

Poemeto Erótico


Teu corpo claro e perfeito,
- Teu corpo de maravilha
Quero possuí-lo no leito
Estreito da redondilha...

Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa... flor de laranjeira...
Teu corpo branco e macio
É como um véu de noivado...

Teu corpo é pomo doirado...
Rosal queimado do estio,
Desfalecido em perfume...
Teu corpo é a brasa do lume...

Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes...
É puro

É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,
Que em cantigas se derrama...
Volúpia de água e da chama...

A todo momento o vejo...
Teu corpo... a única ilha
No oceano do meu desejo...

Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...







JOAQUIM CARDOSO
RECIFE-PE  =  1897-1978

Aquarela




Macaíbeiras chovendo
Cheiro de flor amarela;
Cheiro de chão que amanhece.
Estavas sob a latada
Quando te abri a janela.

Cheiro de jasmim laranja
Pelos jardins anoitece;
Junto a papoulas dobradas,
Num canteiro florescendo,
A tua saia singela.

Macaíbeiras chovendo
Cheiro de flor amarela...

Não sei se és tu, se eras outra,
Não sei se és esta ou aquela,
A que não quis nem me quer,
Fugindo sob a latada
Nessa tarde de aquarela.

Macaíbeiras chovendo
Cheiro de flor amarela...




GUILHERME DE ALMEIDA
CAMPINAS-SP  =  1890-1969

  
Flor De Asfalto


Trazes nos olhos a melancolia
das longas perspectivas paralelas,
das avenidas outonais, daquelas
ruas cheias de folhas amarelas
sob um silêncio de tapeçaria...

Em tua voz nervosa tumultua
essa voz de folhagens desbotadas,
quando choram ao longo das calçadas,
simétricas, iguais e abandonadas,
as árvores tristíssimas da rua!

Flor da cidade, em teu perfume existe
Qualquer coisa que lembra folhas mortas,
sombras de pôr de sol, árvores tortas,
pela rua calada em que recortas
tua silhueta extravagante e triste...

Flor de volúpia, flor de mocidade,
teu vulto, penetrante como um cume,
passa e, passando, como que resume
no olhar, na voz, no gesto e no perfume,
a vida singular desta cidade.







CRUZ  E  SOUSA
FLORIANÓPOLIS-SC  =  1891-1968


Vida Obscura



Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
Ó ser humilde entre os humildes seres,
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste no silêncio escuro
A vida presa a trágicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
Tornando-te mais simples e mais puro.

Ninguém te viu o sentimento inquieto,
Magoado, oculto e aterrador, secreto,
Que o coração te apunhalou no mundo.

Mas eu que sempre te segui os passos
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo!













ROGACIANO LEITE FILHO
ITAPETIM-PE  =  1920-1969

Trevas Do Dia

 

Na noite do mundo

a nuvem gélida do sonho

percorre meus ossos vazados

trazendo dos corações atômicos

das palavras não ditas

dos circuitos elétricos

das memórias esquecidas

dos braços partidos

das mortes insensíveis

dos olhos vendados

das idéias falidas

dos sentimentos perdidos

das bombas mortais

dos Deuses escondidos

O nascer da morte

no começo do dia.







VINICIUS DE MORAIS
RIO DE JANEIRO-RJ  =  1913-1980






Ao ver uma rosa branca
O poeta disse: Que linda!
Cantarei sua beleza
Como ninguém nunca ainda!

Qual não é sua surpresa
Ao ver, à sua oração
A rosa branca ir ficando
Rubra de indignação.

É que a rosa, além de branca(
Diga-se isso a bem da rosa...)
Era da espécie mais franca
E da seiva mais raivosa.

- Que foi? - balbucia o poeta
E a rosa; - Calhorda que és!
Pára de olhar para cima!
Mira o que tens a teus pés!

E o poeta vê uma criança
Suja, esquálida, andrajosa
Comendo um torrão da terra
Que dera existência à rosa.

- São milhões! - a rosa berra
Milhões a morrer de fome
E tu, na tua vaidade
Querendo usar do meu nome!...

E num acesso de ira
Arranca as pétalas, lança-as
Fora, como a dar comida
A todas essas crianças.

O poeta baixa a cabeça.
- É aqui que a rosa respira...
Geme o vento. Morre a rosa.
E um passarinho que ouvira

Quietinho toda a disputa
Tira do galho uma reta
E ainda faz um cocozinho
Na cabeça do poeta.







P A U L O   S E T Ú B A L

TATUI-SP  =  1893-1937



Escândalo



Era costume, à tarde, em frente à Escola,
Por entre os homens graves da terreola,
Bisbilhotar-se sobre a vida alheia.
Nas rodas que tratavam tais assuntos,
Aquela história de passearmos juntos
Era o supremo escândalo da aldeia!


E o chefe, e o juiz de paz, e o boticário,
Teciam o mais negro comentário
Ao nosso ingênuo amor, todo feitiço!
O próprio padre, um santo e velho cura,
Dizia ao ver-nos: "Eis a má leitura!"
"São os livros de Zola que fazem isso..."

Mas nós, como pastores de Virgílio,
Vivendo então num descuidoso idílio,
Sorríamos dos toscos provincianos:
E em plena aldeia, desdenhando apodos,
Passávamos de braço, entre eles todos,
Na glória dos que se amam aos vinte anos!



P E D R O   N A V A
JUIZ DE FORA-MG  =  1903-1984 



Ventania





O vento veio maluco lá do alto do Bonfim
e veio chorando da tristura do cemitério.


Zuniu na praça do mercado
assuviou as mulatas avenida do comércio
e mexeu na saia delas.
Arrancou folha das árvores
poeira sungou do chão
depois virou
                 soprou
                           correu
                                      danou
e entrou feito uma carga na avenida Afonso Pena,


O obelisco cortou ele pelo meio
mas ele foi avuando
e os fios da C.E.V.U. como cordas de viola
vibraram dum som longo
que cobriu Belo Horizonte feito um lamento.

O vento passou desmandado no Cruzeiro
saiu pro campo dobrou a mata
mas de repente
sua disparada pára na parede Serra do Curral
e o bicho stopa mas sapeca no morro um sopapo
que estrala que nem ginipapo
que mão raivosa
chispasse num muro curo..

Co-nhe-ceu papudo?






MÁRIO DE ANDRADE
SÃO PAULO-SP  =  1893-1945

Toada Sem Álcool


Certeza de ser nesta vida
Fingimento de alguém nas artes,
Antes fraco inerme covarde,
Covarde diante desta vida.


Chuçadas e lapos berrantes,
Klaxon, terror! sem automóvel...
Antes triste traste covarde
Diante dos morros desta vida.

Ninguém sabe da solitude
Que enche o meu peito sem emprego,
O qual comunga todo dia
Na missa-baixa do abandono.

Mas, rapazes, não tenho a culpa
De ter faltado em minha vida
O amigo que me defendesse,
Aquele que eu defenderia.













MILLÔR FERNANDES
RIO DE JANEIRO-RJ  = 1923-2012

  
Reflexão Sobre A Reflexão


Terrível é o pensar.

Eu penso tanto

E me canso tanto com meu pensamento

Que às vezes penso em não pensar jamais.

Mas isto requer ser bem pensado

Pois se penso demais

Acabo despensando tudo que pensava antes

E se não penso

Fico pensando nisso o tempo todo.






CLÓVIS CAMPELO
RECIFE-PE  =  1951

Em Vão


Pela cidade em vão vagueio,
procuro rostos conhecidos
outrora e que me são perdidos
entre outros vultos alheios.

 Encantaram-se os amigos,
mergulho em outra multidão,
embora seja o mesmo chão
pisado em tempos antigos.

 Oh, cidade estranha e cruel,
nem mesmo o azul do teu céu
me faz sossegar as entranhas;

 nem mesmo o brilho das tuas águas
a mim tranqüiliza as mágoas,
a ansiedade tamanha.





OSWALD DE ANDRADE
SÃO PAULO-SP  =  1890-1954

Civilização Pernambucana

“ As mulheres andam tão louçãs

E tão custosas

Que não se contentam com os tafetás

São tantas as jóias com que se adornam

Que parecem chovidas em suas cabeças e gargantas

As pérolas e rubis e diamantes

Tudo são delícias

Não parece esta terra senão um retrato

Do terreal paraíso. ”







OLEGÁRIO MARIANO
RECIFE-PE  =  1889-1958

 
Chove do luar o orvalho. A noite luminosa
Como um dia de sol paira no salto cantando...
Junho! Vejo em redor a expressão voluptuosa
Das camélias e dos jasmins desabrochando.

A paisagem que tem casinholas desertas
Perde-se ao longe entre as herdades e as estâncias.
Anda pelo ar um odor de corolas abertas,
Um cheiro bom que voa através das distâncias.

Ouço uma voz cantar e a melodia é tanta,
Tão comovente e tão sutil na solidão,
Que se tem a impressão de que é a lua que canta
E depois de cantar se desfolha no chão...

Minha vizinha doente abre a janela e espia
E banhando no luar o vulto taciturno,
Desperta do teclado, entre o amor e a agonia,
Saudade de Chopin nalgum velho Noturno.

Passa um boêmio. O seu vulto é uma mancha comprida
Na calçada que tem o alvor dos alabastros.
Fuma e a idéia talvez numa mulher querida,
Vai com os olhos seguindo a poeira azul dos astros.




GUIMARÃES PASSOS
MACEIÓ-AL  =  1867-1909


Morte


És negra, és negra, dizem-me os felizes,
Dizem que ao ver-te o vulto atro e sombrio,
Gelam-se os corações, tamanho frio,
Serena, espalhas onde quer que pises.

É que tu levas para um céu vazio,
Onde somente as dores tem raízes,
As esperança todas, e não dizes
Nada a quem fica, nem a quem partiu,

Anjo negro, terror da humanidade,
Morte, estilete que nos toca o fundo
D'alma, enchendo de mágoa e de saudade!

Morte, há no mundo tanta dor contida!
Que, tu, que findas todo o bem do mundo,
És a coisa melhor que há nesta vida.





MARIO BENEDETTI
URUGUAI  =  1920-2009



Defesa Da Alegria


Defender a alegria como uma trincheira
defendê-la do escândalo e da rotina
da miséria e dos miseráveis
das ausências transitórias
e das definitivas

defender a alegria como um princípio
defendê-la do pasmo e dos pesadelos
dos neutros e dos nêutrons
das doces infâmias
e dos graves diagnósticos

defender a alegria com uma bandeira
defendê-la do raio e da melancolia
dos ingênuos e dos canalhas
da retórica e da parada cardíaca
das endemias e das academias

defender a alegria como um destino
defendê-la do fogo e dos bombeiros
dos suicidas e dos homicidas
do descanso e do cansaço
da obrigação da alegria

 defender a alegria como uma certeza
defendê-la da ferrugem e da sarna
da célebre pátina do tempo
do relento e do oportunismo
dos rufiões do riso

defender a alegria como um direito
defendê-la de deus e do inverno
das maiúsculas e da morte
dos sobrenomes e das lástimas
do acaso
e também da alegria





JOAQUIM CARDOZO
RECIFE-PE  =  1897-1978

Recife De Outubro

Ó cidade noturna!
Velha, triste, fantástica cidade!
Desta humilde trapeira sem flores, sem poesia,
Alongo a vista sobre as águas,
Sobre os telhados.
Luzes das pontes e dos cais
Refletindo em colunas sobre o rio
Dão a impressão de uma catedral imersa,
Imensa, deslumbrante, encantada,
Onde, ao esplendor das noites velhas,
Quando a noite está dormindo,
Quando as ruas estão desertas,
Quando, lento, um luar transviado envolve o casario,
As almas dos heróis antigos vão rezar.


 Sinto no meu sangue a carícia da noite. . .

No silêncio as horas morreram;
E ao saimento
Das horas mortas
Um sino toca.

 Caminho a passo lento.
Creio que alguém me espia do alto, das cornijas.
Vai passando na sombra a ronda dos meus sonhos.

Toda a cidade, eu vejo, está transfigurada:
É um campo desolado, negro, enorme,
Onde rasteja ainda
O último rumor de uma batalha
E a massa negra dos edifícios,
As torres agudas recortando o azul sombrio,
Cadáveres revoltos, remexidos,
Com os braços mutilados
Erguidos para o céu.
Ó minha triste e materna e noturna cidade
Reflete na minha alma rude e amargurada
O teu fervor católico, o teu destino, o teu heroísmo.






FERNANDO PESSOA
PORTUGAL  =  1888-1935

Chove?


Chove ? Nenhuma chuva cai...
Então onde é que eu sinto um dia
Em que ruído da chuva atrai
A minha inútil agonia ?
Onde é que chove, que eu o ouço ?
Onde é que é triste, ó claro céu ?
Eu quero sorrir-te, e não posso,
Ó céu azul, chamar-te meu...
E o escuro ruído da chuva
É constante em meu pensamento.
Meu ser é a invisível curva
Traçada pelo som do vento...
E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro... E a luz e a sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce.
Ah, na minha alma sempre chove.
Há sempre escuro dentro de mim.
Se escuro, alguém dentro de mim ouve
A chuva, como a voz de um fim...
Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas...
No claustro seqüestrando a lucidez
Um espasmo apagado em ódio à ânsia
Põe dias de ilhas vistas do convés
No meu cansaço perdido entre os gelos,
E a cor do outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha dissonância...





JOÃO CABRAL DE MELO NETO
RECIFE-PE  =  1920-1999

Sujam O Suicídio



O pior que existe no suicídio,
por limpo que seja, ou de tiro;

ou o suicídio por barbitúricos,
em que a dormir se cruza o muro;

pior que o incômodo resíduo
que se há de tratar como um vivo,

que há de lavar, barbear, pentear,
para a viagem que empreenderá;

o pior que há nele é o palavrório
que enreda o caixão e o velório

na oral, tropical, floração
que saliva a nossa nação.

Na verdade, onde mais o medo
é falador é nos enterros.

No enterro, falam mesmo os mudos,
e, se de suicida, falam duplo.

Ninguém deixa a mínima brecha
para a morte-Rilke, a da Igreja

e de outros que fazem da Porta
uma celebração deleitosa.

O Padre sabe: não há frestra
onde a transcendência ele meta

no falatório, mato fechado
que nem pode abrir-se a machado

(Enquanto isso, pensa? o cadáver:
maçada! não pude evaporar-me;

enfim: não se vende em balcão,
ainda, o suicidar-se de avião).


B  O  C  A  G  E
MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE
 Poeta Português =1765-1805

Liberdade Querida


Liberdade querida e suspirada,
Que o Despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena,
Que o sereno clarão da madrugada! 

Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te, por gozar-te a face amena;
Liberdade gentil, desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada; 

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, oh consolação da humanidade,
Cujo semblante mais que os astros brilha; 

Vem, solta-me o grilhão da adversidade;
Dos céus descende, pois dos Céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce Liberdade!







BASTOS TIGRE
RECIFE-PE = 1882-1957

  
Saudade

Infeliz de quem vive sem saudade,
Do agridoce pungir alheio às penas,
Sem lembranças de amor e de amizade,
Hoje vivendo o dia de hoje, apenas. 

Triste de ti, ancião, que te condenas
A mole insipidez da ancianidade
E não revives na memória as cenas
De prazer e de dor da mocidade!

 Ter saudade é viver passadas vidas,
Percorrendo paragens preferidas,
Ouvindo vozes que se têm de cor.

 Sonha-se... E em sonho, como por encanto,
A dor que nos doeu já não dói tanto,
Gozo que foi é gozo inda maior.




ASCENSO FERREIRA

PALMARES-PE. = 1895-1965



Inflação




Caetano Rebouças & Cia.
ganhou bem mil contos na tal de inflação!
Na sua despensa sobre a laje fria
há vinhos custosos: Lagosta... Gatão... 

Peitou o açougueiro, comprou um filé!
Comprou, no Tapuia, favas... salpicão...
O preço não importa, o gosto é que é...
Feliz de quem Deus deu a proteção. 

A imagem de Cristo cada vez mais magra!
- Caetano Rebouças bebe Alvarelhão.
A vida lá fora cada vez mais agra!
Nada de manteiga, pouca carne e pão... 

Caetano Rebouças
feliz adormece...
O mundo é uma bola
rolando aos seus pés!
O seu coração
murmura uma prece: 

Pede que um filé dê um conto de réis!





ANTÔNIO ALBINO PINHEIRO MARINHO
BELO JARDIM-PE  1932-2007


Amargo Desterro


Vou-me embora.
Não sei para onde,
não conheço os novos
caminhos.

- Passárgada rejeitou-me.

Vou partir.
Sem destino, sem rumo
sem pátria nem fé.

- Passárgada exilou-me.

Estrangeiro em lugar estranho,
sem parentes nem companhia,
sem rei amigo,
nem mulher amada,
sem cama para escolher.

- Amargo desterro!






PATATIVA DO ASSARÉ

Saudade


Saudade dentro do peito
É qual fogo de monturo
Por fora tudo perfeito,
Por dentro fazendo furo.

Há dor que mata a pessoa
Sem dó e sem piedade,
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade.

Saudade é um aperreio
Pra quem na vida gozou,
É um grande saco cheio
Daquilo que já passou.

Saudade é canto magoado
No coração de quem sente
É como a voz do passado
Ecoando no presente.

A saudade é jardineira
Que planta em peito qualquer
Quando ela planta cegueira
No coração da mulher,
Fica tal qual a frieira
Quanto mais coça mais quer.
 



Antônio Gonçalves da Silva, conhecido como Patativa do Assaré,  nasceu  numa pequena  propriedade  rural  de seus
pais em Serra de Santana, município de Assaré, no sul do Ceará, em 05-03-1909 e faleceu no dia 08-07-2002, aos 93 anos.







VINÍCIUS DE MORAES
RIO DE JANEIRO-RJ  =  1913-1980

Acontecimento


Haverá na face de todos um profundo assombro
na face de alguns risos sutis cheios de reserva
Muitos se reunirão em lugares desertos
E falarão em voz baixa em novos possíveis milagres
Como se o milagre tivesse realmente se realizado
Muitos sentirão alegria
Porque deles é o primeiro milagre
E darão o óbolo do fariseu com ares humildes
Muitos não compreenderão
Porque suas inteligências vão somente até os processos
E já existem nos processos tantas dificuldades...
Alguns verão e julgarão com a alma
Outros verão e julgarão com a alma que eles não têm
Ouvirão apenas dizer...
Será belo e será ridículo
Haverá quem mude como os ventos
E haverá quem permaneça na pureza dos rochedos
No meio de todos eu ouvirei calado e atento, comovido e risonho
Escutando verdades e mentiras
Mas não dizendo nada
Só a alegria de alguns compreenderem bastará
Porque tudo aconteceu para que eles compreendessem
Que as águas mais turvas contêm ás vezes as pérolas mais belas











WALDEMAR LOPES
QUIPAPÁ-PE  =  1911-2006



Soneto Do Exílio

Mais além, leve e alada, a imaginária
arquitetura irreal, sombra a crescer
sobre a terra dos mortos, solitária.
Na falsa noite não deixou de ser

ouvida a melodia perdulária.
Se acaso o húmus da vida fez nascer
luz esquiva na angústia milenária,
é chegado o momento de esquecer

as obscuras heranças desvividas
por desamor e amor: frágil reinado
em manhãs de magia, pressentidas

além de tempo e espaço. (E, roto o manto,
na torre enoitecida um exilado
rei de si mesmo. Que lhe resta? O canto.)




PABLO NERUDA
CHILE  = 1904-1973

 Saudade


Saudade é solidão acompanhada, é
quando o amor ainda não foi
embora, mas o amado já.

Saudade é amar um passado que
ainda não passou, é recusar um
presente que nos machuca, é não
ver o futuro que nos convida.

Saudade é sentir que existe o que
não existe mais.

Saudade é o inferno dos que
perderam, é a dor dos que ficaram
para trás, é o gosto de morte na
boca dos que continuam.

Só uma pessoa no mundo deseja
sentir saudade: aquela que nunca
amou.


E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca
ter sofrido.





MARIO QUINTANA
ALRGRETE-RS  =  1906-1994

Canção Do Dia De Sempre

Tão bom viver dia a dia...
A vida, assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como essas nuvens do céu...


E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...


E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.


Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.


Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!



E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...










TIAGO DE MELLO
BOM SOCORRO-AM  =  1926

Mão Do lixo

A mão que eu cato o lixo
Não e a mão com que eu devia ter.
Não tenho para ganhar
Na mesa da minha casa
O pão bom de cada dia.
Como não tenho, aqui estou.
Catando lixo dos outros,
O resto que vira lixo.
Não faz mal se ficou sujo,
Se os urubus beliscaram,
Se ratos roeram pedaços,
Mesmo estragado me serve,
Porque fome não tem luxo.
A mão com que cato o lixo
Não e a que eu devia ter.
Mas a mão que a gente tem
E feita pela nação.
Quando como coisa podre
Depois me torço de dor
Fico pensando: tomara
Que esta dor um dia doa
Nos que tem tanto, mas tanto,
Que transformam pão
em lixo
Com
meus dedos no monturo
Sinto-me lixo também.
Não pareço, mas sou criança.
Por isso enquanto procuro
Restos de vida no chão,
Uma fome diferente,
Quem sabe é o pão da esperança
Esquenta meu coração:
Que um dia criança nenhuma
Seja mão serva do lixo





Z É    D A    L U Z
SEVERINO ANDRADE DA SILVA
ITABAIANA-PB  =  1904- 1965
A Cacimba

Tá vendo aquela cacimba
lá na bêra do riacho,
im riba da ribanceira,
qui fica, assim, pru dibáxo
de um pé de tamarinêra.

Pois, um magóte de môça
quage toda manhanzinha,
foima, assim, aquela tuia,
na bêra da cacimbinha
prá tumar banho de cuia.

Eu não sei pru quê razão,
as águas dessa nacente,
as águas que ali se vê,
tem um gosto diferente
das cacimbas de bêbê...

As águas da cacimbinha
tem um gôsto mais mió.
Nem sargada, nem insôça...
Tem um gostim do suó
do suvaco déssas môça...

Quando eu vejo éssa cacimba,
qui inspio a minha cara
e a cara torno a inspiá,
naquelas águas quiláras,
Pego logo a desejá...

... Desejo, prá quê negá?
Desejo ser um caçote,
cum dois óio dêsse tamanho
Prá ver aquele magóte
de môça tumando banho!



OTACÍLIO BATISTA PATRIOTA
ITAPETIM-PE  =  1923-2003

Ignorância



Uma rosa pequena sem perfume
É maior que a minha consciência,
O tamanho da minha inteligência
É menor do que a da luz de um vagalume.
O tamanho que eu tenho de ciúme
É maior do que Judas, o perverso.

Aprendi a cantar e fazer verso
Mas não posso atingir a culminância,
O tamanho de minha ignorância
Ultrapassa a grandeza do Universo.

A guilhotina da guerra
Navalha dos desumanos,
Vem cortando a muitos anos
A cabeleira da terra
A mãe selvagem de tantos,
Filhos que se dizem santos
Destroem a beleza dela.
Agredida envenenada
Pela mão civilizada
Mais selvagem do que ela.



PEDRO TIERRA

 O Sangue Do Rio


Vesti a água de escura de meu povo.
Comi a lama negra dos esgotos.
Fui leito de suicidas
assassinados.
Fui Rio da Guarda: cemitério de mendigos.

Recebi no corpo o vômito das indústrias,
os andrajos da vida,
bagaço de esperanças acorrentadas
Ao ritmo seco das máquinas.

Tornado lama, abri meu caminho
nos olhos de uma cidade amarga.
Transitei pelo avesso dos jardins,
o avesso da paisagem publicada.


Leito de assassinados,
levo meus passos agora
ao dia de me encontrar,
como o rio que conduz
muitos outros no meu corpo
pra hora certa com o mar.







Pseudônimo de Hamilton Pereira, que nasceu em Porto Nacional (TO), em 1948. Viveu em seminários e prisões. Por sua militância na Ação Libertadora Nacional (ALN), cumpriu cinco anos de prisão (1972/77) em Goiânia Brasília e São Paulo, sofrendo tortura. Libertado, contribuiu para fundar e organizar Sindicatos de Trabalhadores Rurais.





ITABIRA-MG  =  1902-1987

Mãos Dadas 


Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.


Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.





MARCUS  ACCIOLY

ALIANÇA-PE  = 1943



O  Sertanejo 


"O sertanejo é o tipo
Comum da região,
Nativo como as plantas
E os bichos do sertão.

 Possui aquele traço
Tão característico
Do cansaço da terra,
Dos homens e dos bichos. 

Se pára, olhando o tempo,
Por muito não se arreda
Pois sofre uma preguiça
Imóvel como as pedras. 

Mas frente ao imprevisto
Rapidamente troca
O aspecto de quem
Só sabe estar de cócoras;

 E a compleição das formas
Que veste o conteúdo
Do homem para Euclydes,
Um forte, antes de tudo."










MÁRIO DE ANDRADE

SÃO PAULO-SP  =  1893 / 1945

Ode Ao Burguês


Eu insulto o burgês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
"_ Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
_ Um colar... _ Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!...







RECIFE-PE  =  1886-1968


Estrada




Esta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho,
Interessa mais que uma avenida urbana.
Nas cidades todas as pessoas se parecem.
Todo o mundo é igual. todo o mundo é toda a gente.
Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma.
Cada criatura é única.
Até os cães.
Estes cães da roça parecem homens de negócios:
Andam sempre preocupados.
E quanta gente vem e vai!
E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar:
Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um bodezinho
manhoso.
Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos,
Que a vida passa! que a vida passa!
E que a mocidade vai acabar.





JOÃO DE DEUS
PORTUGAL  =  1830-1896


A Vida


A vida
A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;

A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave


Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida - pena caída
Da asa da ave ferida
De vale em vale impelida
A vida o vento levou!





JOÃO CABRAL DE MELO NETO
RECIFE-PE  =  1920 - 1999






Minha pobreza tal é
que não trago presente grande.
Trago para a mãe caranguejos
pescados por esses mangues.

Minha pobreza tal é
que não tenho presente melhor.
Trago papel de jornal
para lhe servir de cobertor.
Cobrindo-se assim de letras vai um dia ser doutor.

Minha pobreza tal é
que não tenho presente caro.
Trago aqui água de Olinda,
água da bica do Amparo.

Minha pobreza tal é
que grande coisa não trago.
Trago este canário da terra
que canta corrido e de estalo.






RECIFE-PE  =  1938-1999

Esses Chopes Dourados



Verdes bandejas de ágata, meus olhos amarelos
caminham para mim pela milésima vez
enquanto estou cercado por brancos azulejos
e amparado por uma toalha de quadros.
No útero deste bar vou me elevando
e saio da noite cheia de ruídos
para a manhã do mar
onde tudo é sal, impossível alquimia
disfarçada num domingo.

Amável,
esta manhã me aturde, manhã de equívocos
onde um sábado moribundo se entrega sem rancor.
Meu sábado, belíssima ave negra de olho aceso,
cai nas muralhas do sol como um herói melancólico
enquanto o mar abre o sorriso de dentes brancos
lavados na areia alvura.
Caminho para o sol que me atrai mecanicamente:


- Vou te decifrar, domingo;
diante de mim tua esfinge se enche de pudor.


quando a geração de meu pai
batia na minha
a minha achava que era normal
que a geração de cima
só podia educar a de baixo
batendo

quando a minha geração batia na de vocês
ainda não sabia que estava errado
mas a geração de vocês já sabia
e cresceu odiando a geração de cima


aí chegou esta hora
em que todas as gerações já sabem de tudo
e é péssimo
ter pertencido à geração do meio


tendo errado quando apanhou da de cima
e errado quando bateu na de baixo


e sabendo que apesar de amaldiçoados
éramos todos inocentes





 
JORGE DE LIMA
UNIÃO DOS PALMARES-AL = 1893-1953
 Inverno

Zefa, chegou o inverno!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Lama e mais lama
chuva e mais chuva, Zefa!
Vai nascer tudo, Zefa,
Vai haver verde,
verde do bom,
verde nos galhos,
verde na terra,
verde em ti, Zefa,
que eu quero bem!
Formigas de asas e tanajuras!
O rio cheio,
barrigas cheias,
mulheres cheias, Zefa!
Águas nas locas,
pitus gostosos,
carás, cabojés,
e chuva e mais chuva!
Vai nascer tudo
milho, feijão,
até de novo
teu coração, Zefa!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Chuva e mais chuva!
Vai casar, tudo,
moça e viúva!
Chegou o inverno
Covas bem fundas
pra enterrar cana:
cana caiana e flor de Cuba!
Terra tão mole
que as enxadas
nelas se afundam
com olho e tudo!
Leite e mais leite

 pra requeijões!
Cargas de imbu!
Em junho o milho,
milho e canjica
pra São João!
E tudo isto, Zefa...
E mais gostoso
que tudo isso:
noites de frio,
lá fora o escuro,
lá fora a chuva,
trovão, corisco,
terras caídas,
córgos gemendo,
os caborés gemendo,
os caborés piando, Zefa!
Os cururus cantando, Zefa!
Dentro da nossa
casa de palha:
carne de sol
chia nas brasas,
farinha d'água,
café, cigarro,
cachaça, Zefa...
...rede gemendo...
Tempo gostoso!
Vai nascer tudo!
Lá fora a chuva,
chuva e mais chuva,
trovão, corisco,
terras caídas
e vento e chuva,
chuva e mais chuva!
Mas tudo isso, Zefa,
vamos dizer,
só com os poderes
de Jesus Cristo!




FERNANDO PESSOA
PORTUGAL  =  1888-1935

O Sono Que Desce Sobre Mim


O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim -
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.

Mas e mais, mais de dentro, mais de cima:
O sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.

O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.



Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.
Meu Deus, tanto sono!...


ÁLVARO DE CAMPOS




GILBERTO FREYRE
RECIFE-PE  =  1900-1987

Boêmio

Boêmio e até byroniano:
sair liricamente ruas afora,
ir pela beira do cais do Capibaribe
ora recitando baixinho versos à Vovó Lua
ou à Dona Lua, ora assobiando
altos trechos da Viúva Alegre ouvida cantar
por italiana opulentamente gorda no Santa Isabel
e sempre gozando o silêncio da meia-noite recifense, o ar
bom da madrugada que
dá ao Recife o seu melhor encanto.

Quem sabe se não encontrará alguma mulher bonita?
Alguma pálida iaiá de cabelos e desejos soltos?
Ou mesmo alguma moura -
encantada
na figura de uma encantadora
mulata
de rosa ou flor cheirosa no cabelo



FERNANDO PESSOA
PORTUGAL  =  1888-1935



Chove ? Nenhuma chuva cai...
Então onde é que eu sinto um dia
Em que ruído da chuva atrai
A minha inútil agonia ?
Onde é que chove, que eu o ouço ?
Onde é que é triste, ó claro céu ?
Eu quero sorrir-te, e não posso,
Ó céu azul, chamar-te meu...
E o escuro ruído da chuva
É constante em meu pensamento.
Meu ser é a invisível curva
Traçada pelo som do vento...
E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro... E a luz e a sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce.
Ah, na minha alma sempre chove.
Há sempre escuro dentro de mim.
Se escuro, alguém dentro de mim ouve
A chuva, como a voz de um fim...
Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas...
No claustro seqüestrando a lucidez
Um espasmo apagado em ódio à ânsia
Põe dias de ilhas vistas do convés
No meu cansaço perdido entre os gelos,
E a cor do outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha dissonância...




GUERRA JUNQUEIRO
PORTUGAL  =  1850-1923

A Água De Lourdes

Se ergueis uma capela à água milagrosa,
Esse elixir divino,
Então erguei também um templo à caparrosa
E outro templo ao quinino.
Se a água faz milagres, o que eu vos não discuto,
E por isso a adorais,
Ajoelhemos então em face do bismuto

e doutras drogas mais.

Façamos da magnésia e clorofórmio e arnica

As hóstias do sacrário;

Transformemos o templo enfim numa botica,

E Deus num boticário

Que a vossa água opere imensas maravilhas

Eu não duvido nada:

É o Espírito Santo engarrafado em bilhas,

É o milagre à canada.

Desde que se espalhou pelo universo o eco

Do milagre feliz,

Tartufo nunca mais encheu o seu caneco

Em outro chafariz.


B A S T O S   T I G R E
RECIFE-PE  =  1882-1957

Envelhecer =  1
Entra pela velhice com cuidado,
Pé ante pé, sem provocar rumores
Que despertem lembranças do passado,
Sonhos de glórias, ilusões de amores.

Do que tiveres no pomar plantado,
Apanha os frutos e recolhe as flores;
Mas lavra, ainda, e planta o teu eirado,
Que outros virão colher quando te fores.

Não te seja a velhice enfermidade.
Alimenta no espírito a saúde,
Luta contra as tibiezas da vontade.

Que a neve caia, o teu ardor não mude.
Mantém-te jovem, pouco importa a idade;
Tem cada idade a sua juventude!...



Envelhecer = 2

Boa noite, velhice, vens tão cedo!
Não esperava, agora, a tua vinda.
Eu tão despreocupado estava, ainda,
Levando a vida como num brinquedo...

Tens tão meigo sorriso e um ar tão ledo;
Nos teus cabelos como a prata é linda!
Ao meu teto, velhice, sê bem-vinda!
Fica à vontade. Não me fazes medo.

E ela assim me falou, em tom amigo:
— Estranha me supões, mas, em verdade,
Há muito tempo que, ao teu lado, eu sigo.

Mas, da vida na estúrdia alacridade,
Não me viste viver, seguir contigo...

Eu sou, amigo, a tua mocidade.



MÁRIO QUINTANA
ALEGRETE-RS  =  1906-1994

Se Eu Fosse Um Padre 

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
... a um belo poema - ainda que de Deus se aparte -
um belo poema sempre leva a Deus!

MARIO QUINTANA
ALEGRETE-RS  =  1906-1994

O Auto-Retrato


No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco
MANUEL BANDEIRA
RECIFE-PE  =  1886-1968
  
Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!
Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus sapatinhos atrás da porta





R U B E M   B R A G A
CACHOEIRO DO ITAPEMIRIM-ES  =  1913-1990


Os calhordas são casados com damas gordas           
Que às vezes se entregam à benemerência:
As damas dos calhordas chamam-se calhôrdas
E cumprem seu dever com muita eficiência
Os filhos dos calhordas vivem muito bem
E fazem tolices que são perdoadas.
Quanto aos calhordas pessoalmente porém
Não fazem tolices — nunca fazem nada.
Quando um calhorda se dirige a mim
Sinto no seu olho certa complacência.
Ele acha que o pobre e o remediado
Devem procurar viver com decência.
Os calhordas às vezes ficam resfriados
E essa notícia logo vem nos jornais:
“O Sr. Calhorda acha-se acamado
E as lamentações da Pátria são gerais.”
Os calhordas não morrem — não morrem jamais
Reservam o bronze para futuros bustos
Que outros calhordas da nova geração
Hão de inaugurar em meio de arbustos.
O calhorda diz: “Eu pessoalmente
Acho que as coisas não vão indo bem
Pois há muita gente má e despeitada
Que não está contente com aquilo que tem.”
Os calhordas recebem muitos telegramas
E manifestações de alegres escolares
Que por este meio vão se acalhordando
E amanhã serão calhordas exemplares.
Os calhordas sorriem ao Banco e ao Poder
E são recebidos pelas Embaixadas.
Gostam muito de missas de ação de graças
E às sextas-feiras comem peixadas.





MIGUEL TORGA
PORTUGAL  =  1907-1996



Fado


Não dou paz, nem a tenho.
Os outros vão, e eu venho
Das ilusões...
No meu adeus mais puro transparece
O logro e o tédio do caminho andado...
E o sol dos corações
Arrefece
A cada encontro
Desencontrado.


in Penas do Purgatório (1954)




OLIVEIRA DE PANELAS

PANELAS-PE

A Mulher



  
Na mulher toda têmpera se envolve
Seu ciúme é cuidado impertinente

Seu desejo é fornalha incandescente

Quando pode, é perigo, o que devolve,

Quando está duvidosa só resolve

Pelo fio da ânsia propulsora,

Quando assume o papel de genitora

Aurifica seu corpo fecundante,

Prá tornar-se a maior representante

Dessa lei biológica criadora

 No namoro é centelha de ilusão

No noivado é a fonte de esperança

Sendo esposa é profunda a aliança

E faz unir coração com coração,

Como mãe é suprema adoração!

Sendo sogra é as vezes tempestade

Quando amiga, é amiga de verdade,

Sendo amante é volúpia no segredo,

Porém sendo inimiga causa medo

Ao mais forte machão da humanidade.

 


 

PATATIVA DO ASSARÉ
 ASSARÉ-CE  =  1909-2002

 Amanhã  


Amanhã, ilusão doce e fagueira,
Linda rosa molhada pelo orvalho:

Amanhã, findarei o meu trabalho,

Amanhã, muito cedo, irei à feira.


Desta forma, na vida passageira,

Como aquele que vive do baralho,

Um espera a melhora no agasalho

E outro, a cura feliz de uma cegueira.

 Com o belo amanhã que ilude a gente,

Cada qual anda alegre e sorridente,

Como quem vai atrás de um talismã. 

Com o peito repleto de esperança,

Porém, nunca nós temos a lembrança

De que a morte também chega amanhã.





MANUEL BOTELHO DE OLIVEIRA
SALVADOR-BA  =  1636-1711


A Uma Caveira


Esta, que vês Caveira pavorosa!

este, que vês assombro denegrido!

este que vês retrato carcomido!

esta que vês pintura dolorosa!


 Esta que vês batalha temerosa!

este que vês triunfo repetido!


este que vês Castelo destruído!

esta que vês Tragédia lastimosa!

Esta enfim te apregoa a desventura

com o mudo pregão de teus enganos

pera buscar a vida mais segura:
 

Se olhos não tem, nem língua em breves anos,

nesta cegueira vês tanta loucura,

ouves neste silêncio os desenganos.





CARLOS PENA FILHO
RECIFE-PE  =  1929-1960


Soneto Da Busca


Eu quase te busquei entre os bambus
para o encontro campestre de janeiro
porém, arisca que és, logo supus
que há muito já compunhas fevereiro.

 Dispersei-me na curva como a luz
do sol que agora estanca-se no outeiro
e assim também, meu sonho se reduz
de encontro ao obstáculo primeiro.

 Avançada no tempo, te perdeste
sobre o verde capim, atrás do arbusto
que nasceu para esconder de mim teu busto.

 Avançada no tempo, te esqueceste
como esqueço o caminho onde não vou
e a face que na rua não passou.




 
CONSTANTINO CARTAXO
CAJAZEIRAS-PB  =  1933

Acalento



Quero arrancar da funerária lousa
estes dizeres que foram gravados:
“Aqui jazem os restos sepultados
de Cristiano Cartaxo, que repousa”.
 Que ele morreu, dizer, ninguém mais ousa,
nem que estamos bem longe, separados.
Vivemos sempre, assim, entrelaçados.
Uma família: filhos, pai e esposa.


Que ele partiu, é certo. Sim,  é certo.
Mas vive junto a nós,  aqui,  bem perto
da sua musa magistral e mansa.
Amigo, o poeta é igual ao rio que corre.
Sempre cantando…  e, por cantar, não morre.
Por não morrer, ao se deitar,  descansa.





CRUZ E SOUZA
FLORIANÓPOLIS-SC  =  1861-1898 
 


Único Remédio 



Como a chama que sobe e que se apaga,

sobem as vidas a espiral do Inferno.

O desespero é como o fogo eterno

que o campo quieto em convulsões alaga...


Tudo é veneno, tudo cardo e praga!

E as almas que têm sede de falerno

bebem apenas o licor moderno

do tédio pessimista que as esmaga.

 

Mas a Caveira vem se aproximando,

vem exótica e nua, vem dançando,

no estrambotismo lúgubre vem vindo.

 

E tudo acaba então no horror insano —

— desespero do Inferno e tédio humano —

quando, d'esguelha, a Morte surge rindo...




L Ê D O   I V O

MACEIÓ-AL  =  1924-2012




 Soneto Da Conciliação




 Que o amor não me iluda, como a bruma
que esconde uma imprevista segurança.
Antes, sustente o chão em que descansa
o que se irá, perdido como a espuma.


Veja que eu me elegi, mas sem nenhuma
razão de assim fazer, e sem lembrança
de aproveitar apenas a esquivança
de que o amor não prescinde em parte alguma.


Que também não se alheie ao que esclarece
o motivo real, de uma oferta,
reunir o acessório e o imprescindível.


Antes, atente a tudo o que se tece
distante do seu dia inconsumível
que dá certeza à noite mais incerta.






SILVA RAMOS
RECIFE-PE  =  1853-1931 


A Partida 



Tenho-a presente, como agora, aquela
Dura noite da triste despedida;
Da aragem levemente arrefecida
Da lancha enfuna a desfraldada vela.

Distante, como em fundo de aquarela,
Some-se a mansa vila adormecida,
E a branda luz dos astros refletida
No rio as águas límpidas estrela.

Cena viva que a mente me descreve,
Dos amigos em grupos pelo cais
Vozes perpassam num sussurro leve;

Trocam-se as doces expressões finais...
E, enquanto os lábios dizem — até breve!
Os corações murmuram — nunca mais!




PEDRO TIERRA


O Sangue Do Rio



Vesti a água de escura de meu povo.
Comi a lama negra dos esgotos.
Fui leito de suicidas
assassinados.
Fui Rio da Guarda: cemitério de mendigos.


Recebi no corpo o vômito das indústrias,
os andrajos da vida,
bagaço de esperanças acorrentadas
Ao ritmo seco das máquinas.


Tornado lama, abri meu caminho
nos olhos de uma cidade amarga.
Transitei pelo avesso dos jardins,
o avesso da paisagem publicada.


Leito de assassinados,
levo meus passos agora
ao dia de me encontrar,
como o rio que conduz
muitos outros no meu corpo
pra hora certa com o mar.


Pseudônimo de Hamilton Pereira, que nasceu em Porto Nacional (TO), em 1948. Viveu em seminários e prisões. Por sua militância na Ação Libertadora Nacional (ALN), cumpriu
 cinco anos de prisão (1972/77) em Goiânia Brasília e São Paulo, sofrendo tortura. Libertado, contribuiu para fundar e organizar Sindicatos de Trabalhadores Rurais.




 

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